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A última cena de Tiago Splitter nesta temporada de estreia como técnico da NBA foi no centro do vestiário do Portland Trail Blazers, pedindo que seus atletas mantivessem a cabeça erguida e tivessem orgulho da trajetória, apesar da eliminação na primeira rodada dos Playoffs . Aquelas palavras poderiam ter sido ditas para o próprio Splitter, símbolo de um ciclo de amadurecimento coletivo que se encerrava ali. O mesmo Splitter que, agora, sente-se pronto para um salto maior na carreira, seja no próprio Blazers seja em outra franquia que admira e já foi procurado, o Chicago Bulls . - Obviamente existe a possibilidade e, como eu falei, eu quero ser "head coach" - afirma Splitter, treinador que foi interino em 2025/2026. + Leia mais sobre NBA + Saiba mais sobre Olimpíadas Tiago Splitter diz Manu Ginóbili é o maior jogador de basquete latino da história Com o fim de seu período como interino, o foco de Splitter se volta inteiramente para a consolidação de sua carreira como treinador principal, agora na NBA, no futuro, na seleção brasileira, em meio a especulações que o ligam a franquias tradicionais como o Chicago Bulls. - Chicago Bulls, obviamente, é um time que a gente acompanhou desde pequeno, não só no Brasil, acho que internacionalmente. Até lembro que, quando eu era moleque, cortei o cabelo, queria ter o cabelo igual ao do Scottie Pippen - recorda o técnico de 41 anos, referindo-se ao time e ao companheiro de Michael Jordan na conquista dos seis títulos dos Bulls na NBA. Splitter lembra rivalidade com a Argentina no basquete: "Não sei se raiva é a palavra" Além das quadras norte-americanas, Splitter reflete também sobre a trajetória na seleção brasileira e a histórica rivalidade com a "Geração Dourada" da Argentina. Ao eleger Manu Ginóbili como o maior jogador latino da história, ele reconhece que, embora o Brasil estivesse no mesmo patamar dos gigantes mundiais, os argentinos foram superiores em momentos decisivos. - Existia também um pouco de... não sei se raiva é a palavra, né? Você não conseguia passar dos argentinos em toda competição. E eu não tenho dúvida de que Manu é o maior jogador latino ou sul-americano da história - afirma Splitter ao ge . Splitter explica por que quer ser "head coach" da NBA antes de assumir o Brasil Essa vivência na NBA, onde foi campeã pelo San Antonio Spurs, a rivalidade com os vizinhos e amigos argentinos, e os anos de seleção brasileira são a base para os planos futuros de Splitter, que incluem, no momento certo, o desejo de liderar o Brasil como técnico principal. - Talvez daqui a alguns anos a seleção brasileira seja o meu próximo objetivo em termos de ser head coach - diz Splitter. Confira, abaixo, a entrevista exclusiva ao ge . 1 de 6
Manu Ginobili e Tiago Splitter San Antonio Spurs — Foto: Getty Images Manu Ginobili e Tiago Splitter San Antonio Spurs — Foto: Getty Images ge - Você cresceu com a NBA explodindo aqui no Brasil. Os times chegando tanto na TV quanto na moda, na influência. Você tinha um time do coração? E nesse momento, aquele Tiago lá da década de 90, 2000, ele pode pesar isso nessa decisão da escolha do time, da franquia? Tiago Splitter - Essa é uma pergunta muito capciosa que você está fazendo para mim. Tudo bem. Ah, vamos lá. Obviamente quando eu cresci, quem estava explodindo na TV brasileira era o Michael Jordan e os Bulls, com certeza. A gente cresceu assistindo os Bulls, o Scottie Pippen e companhia. Até lembro que, quando eu era moleque, cortei o cabelo, queria ter o cabelo igual ao do Scottie Pippen. Só não raspei no zero porque não dava, ia ficar muito feio, mas enfim. Chicago Bulls obviamente é um time que a gente acompanhou desde pequeno, né? Não só no Brasil, acho que internacionalmente. Desde que o Jordan foi para as Olimpíadas em Barcelona 92, acho que ele levou o basquete para os quatro cantos do mundo, né? E obviamente existe, né... o que o Michael Jordan fez para o basquete mundial foi muito interessante e obviamente chegou lá em Blumenau, na cidadezinha onde eu nasci e cresci. - E eu acho que o campeão da NBA vai sair do Oeste - diz Splitter. Sem perguntas capciosas agora. Como que você está vendo essa reta final da NBA, as finais de conferência? Você consegue imaginar ou projetar sua final? Olha, difícil dar assim: "Ah, eu acho que esse time vai ser campeão". São muitas coisas que podem acontecer, lesões e tal. Então, realmente, OKC foi o melhor time da temporada regular, mas eu acho que o Spurs veio num momento muito bom, depois de ganhar da gente do Minnesota. O OKC acabou ganhando de 4 a 0, mas eu acho que o crescimento dos jogadores jovens dos Spurs realmente vem sendo espetacular. Então, cara, realmente vai ser o time que tiver menos lesões, tiver mais inteiro, acho que vai levar a série. E eu acho que o campeão da NBA vai sair do Oeste. Essa é a minha leitura, né? De novo, salvando as lesões. E acho que Knicks e Cavaliers vai ser uma série equilibrada. Acho que as duas, Oeste e Leste, vão ser séries equilibradas. Mas eu acho que o favorito ainda vem da Conferência Oeste. - Eu não tenho dúvida de que ele (Ginóbili) é o maior jogador latino e sul-americano da história - afirma Splitter. 2 de 6
Aleksandar Petrovic segue técnico da seleção masculina de basquete do Brasil no ciclo até Los Angeles 2028; até Paris 2024, Tiago Splitter era auxiliar — Foto: CBB Aleksandar Petrovic segue técnico da seleção masculina de basquete do Brasil no ciclo até Los Angeles 2028; até Paris 2024, Tiago Splitter era auxiliar — Foto: CBB Dos tempos de Spurs, me parece que nasceu uma amizade boa com o Manu Ginóbili. Eu queria que você falasse um pouco dele até para eu entender o quanto o Brasil podia ter ido mais longe vendo uma geração como a da Argentina sendo campeã olímpica em Atenas 2004. Eu não tenho dúvida de que ele é o maior jogador latino e sul-americano da história. Jogando com ele, eu já percebi isso. Ele é um cara muito diferenciado em questão de competitividade, é um cara muito competitivo em tudo o que ele faz: treino, qualquer conversa, qualquer debate, tudo o que você for falar com ele, ele é muito competitivo. É um cara que não vai dar o braço a torcer para nada, vai brigar pelos princípios dele, vai brigar pelo jogo dele, vai brigar pelo treino dele. Então é um cara que me ensinou muito como encarar o jogo, os treinos, qualquer exercício que os técnicos davam, ele queria ganhar, ele queria ser o melhor. Realmente machucava muito ele se ele não conseguisse isso. Então eu acho que o Manu foi, com certeza, o melhor jogador, assim... NBA, até internacionalmente foi campeão olímpico, liderou o time da Argentina no ouro olímpico. - (...) Não sei se raiva é a palavra, né? Você não conseguia passar dos argentinos em toda competição. A gente acabava enfrentando eles e não conseguia. E a Argentina do Ginóbili? É um time espetacular. Eu acho que a gente não... talvez não... você perguntou o que que a gente aprendeu com esse time? Existe essa rivalidade Brasil e Argentina. Sempre foi uma pedra no nosso sapato, aquele time, sempre esbarramos neles. Então, existia também um pouco de... não sei se raiva é a palavra, né? Você não conseguia passar dos argentinos em toda competição. A gente acabava enfrentando eles e não conseguia. Realmente eles tinham um time melhor que a gente. A gente tem que ser sincero e dizer que eles tinham um time melhor que a gente. Isso não está errado. Isso não é minimizar quem que era o nosso time, a nossa seleção brasileira. Essa é realmente a realidade. E claro que existe a rivalidade Brasil e Argentina na América do Sul, mas cara, eu tenho um respeito enorme pelo Manu, por todos aqueles atletas, Luis Scola... E muitos deles eu joguei na Espanha ou na NBA, então conheço a mentalidade deles muito. Existe um respeito mútuo e eles têm um respeito muito grande pela gente. Eu acho que isso é algo que não se sabe. Mas toda hora que eu conversava com o Manu, ele respeitava muito os jogadores brasileiros: Huertas, Varejão, Alex, Nenê... ele sempre falava muito sobre o nosso time, mas eles foram melhores. E essa é a verdade. 3 de 6
Splitter foi o técnico da Seleção sub-23 no Global Jam de 2023, e Yago estava no time — Foto: Reprodução Splitter foi o técnico da Seleção sub-23 no Global Jam de 2023, e Yago estava no time — Foto: Reprodução Vocês trouxeram o basquete do Brasil de volta, internacionalmente, mas a Argentina conseguiu chegar mais longe. O Brasil talvez pudesse ter chegado mais longe também? Vocês ficaram com essa sensação do poder algo mais? Com certeza. Assim, toda vez que a gente jogava um Mundial, uma Olimpíada, a gente sabia que o nosso time estava no mesmo nível que esses times. Mas basquete é um jogo de detalhes e você acaba perdendo jogos por dois pontos, por uma cesta, por uma bola roubada. E esse é o basquete. Infelizmente a gente está no mesmo nível, mas naquele dia, ou a Argentina, ou foi a Sérvia, ou foi a Rússia, ou foi sei lá quem agora... a Turquia... fizeram uma cesta a mais que a gente e você acaba perdendo uma medalha por causa de uma jogada. E é assim: quando você está nesse patamar de top-8, dos melhores oito do mundo, uma jogada faz a diferença. E realmente a gente bateu na trave aí por vários anos, infelizmente. Mas essa é a verdade nua e crua. (nota da redação: o Brasil perdeu para a Argentina nas Olimpíadas de Londres 2012 e Rio 2016, além dos Mundiais de Indianápolis 2002 e Turquia 2010) - Eu pedi paciência na CBB. Eu perguntei se você tinha o sonho de dirigir seu time do coração de infância, e o sonho de dirigir, ser head coach da seleção brasileira? Como que está? Eu sempre falei isso: amo representar a seleção brasileira. Eu pude representar como assistente na Olimpíada de Paris 2024. Mas claro que meu objetivo a curto prazo agora é ser head coach na NBA. E isso um pouco interfere com a seleção brasileira, até pelo calendário que é hoje na FIBA, você tendo janelas no meio do ano. E uma coisa que talvez as pessoas não sabem, mas o trabalho de um head coach na NBA não acaba quando a temporada termina. É um trabalho de 12 meses. Eu estou aqui em Portland desde que acabou a temporada e, enfim, aí já vem Draft, vem Free Agency, aí vem Summer League. Aí depois tem uma ou duas semanas de folga, e a partir daí já começa a preparar a pré-temporada. Então, o basquete não para. E essa é um pouco a dificuldade que a gente tem de poder fazer... ser técnico, head coach de um time da NBA com uma seleção brasileira, por exemplo. Então, eu pedi paciência na CBB (Confederação Brasileira de Basquetebol): "Por enquanto, esse é o meu objetivo, é isso que eu estou indo atrás". E talvez daqui a alguns anos a seleção brasileira seja o meu próximo objetivo em termos de ser head coach e liderar a seleção brasileira aí por anos em competições internacionais. 4 de 6
Tiago Splitter no comando do Portland Trail Blazers — Foto: Getty Images Tiago Splitter no comando do Portland Trail Blazers — Foto: Getty Images Você pensaria numa seleção brasileira para daqui a um, dois, três ciclos olímpicos para frente ainda ou, de repente, se pintar um convite pós 2028 você aceita? Cara, é difícil te dar uma resposta. Gostaria de dar uma resposta. A CBB me pediu uma resposta. De novo, eu vou avaliar cada ano o que que está acontecendo na minha vida, minha família. Realmente a temporada da NBA é muito puxada. Também são coisas que têm que ser avaliadas e pensadas de uma forma usando muito a razão mais do que a paixão, porque a paixão quer me levar para a seleção brasileira todo ano. - O Yago é um cara que lidera o time muito bem. O Gui é um cara que era muito novo, está chegando na seleção, está crescendo como líder, mas o líder mesmo assim, vocal e de levar a bola, de comandar a quadra dentro da quadra, sempre foi o Yago nessa geração. Falando na seleção brasileira, que você pegou como auxiliar em 2024, como você imagina esse time rumo a Los Angeles 28? Acho que existem três pilares do time muito claros para mim, que são o Yago, o Bruno Caboclo e o Gui. São três jogadores que já pegaram bastante experiência em basquete internacional FIBA. O Yago e o Bruno estão jogando a Euroliga já faz alguns anos. O Gui Santos está crescendo dentro da NBA. Esse ano teve um papel muito bom com Golden State e teve um papel bom com a gente já na Olimpíada de Paris. Existem outros jogadores, crescendo... Tem o Mãozinha, que está crescendo, que já teve um pouco de experiência com a gente. Outros jogadores que estão no Brasil com muita responsabilidade dentro dos times deles, jogadores jovens vindo, no caso do Mathias, que infelizmente se machucou, mas tem uma geração muito boa de 16, 17, 18, 19 anos vindo. Então, é colocar todo mundo unido e na mesma página e depois, quando vai jogar Pré-olímpico, Mundial, janela, Olimpíada, aí já é botar a faca no meio dos dentes e vai pro pau. Não tem jeito, é briga. Quem joga essas competições sabe disso. Existe uma tensão, uma garra que você precisa para jogar esses jogos diferenciada de uma temporada regular que é no seu clube. 5 de 6
Tiago Splitter e Luis Scola Brasil X Argentina mundial de basquete — Foto: Agência AP Tiago Splitter e Luis Scola Brasil X Argentina mundial de basquete — Foto: Agência AP O Gui Santos é o destaque dessa geração? Seria uma liderança em quadra ou ao menos liderança técnica? É difícil saber, né? Porque o basquete NBA e FIBA são diferentes. Eu diria que líder... como líder, o Yago é um cara que lidera o time muito bem. O Gui é um cara que era muito novo, está chegando na seleção, está crescendo como líder, mas o líder mesmo assim, vocal e de levar a bola, de comandar a quadra dentro da quadra, sempre foi o Yago nessa geração. Não acredito que vai mudar muito. Estou sendo muito sincero. O Gui fez uma temporada espetacular na NBA, mas basquete FIBA é diferente e todo mundo sabe disso. Mas o Gui realmente cresceu muito dentro da NBA. A gente espera que ele seja um cara que carregue a seleção um dia. Eu acho que este ano, ele como coadjuvante no Warriors, foi um jogador muito bom. Ele ainda não é referência do Warriors, né? Ele não é a referência do time dele. Então a gente tem que saber que quando isso se transfere, esse talento para uma seleção brasileira, é um pouco diferente. Você tem que liderar uma seleção brasileira e fazer coisas diferentes para ser efetivo. Para fechar, você está nos Estados Unidos, você mora aí há um bom tempo. Queria saber sua expectativa para a Copa do Mundo de futebol. Vai assistir aos jogos, vai atrás da seleção brasileira? E o que você está planejando para as suas Olimpíadas de Los Angeles 28? A Olimpíada ainda está longe, não estou pensando nisso. Mas a Copa do Mundo, pô, cara, eu assim... fui atrás de ingresso, caríssimo, não peguei nada, falei: "vou esperar, vou esperar, vou deixar em cima da hora". Mas, sim, com bastante expectativa, principalmente com os brasileiros aqui nos Estados Unidos para fazer muita festa e acompanhar a seleção brasileira, mas eu vou deixar para ver os ingressos em cima da hora. Acho que está muito caro. Se está ruim para o Tiago Splitter, imagina para o restante da torcida brasileira... 5.000 no ingresso. Está maluco. 6 de 6
Tiago Splitter comanda o Portland Trail Blazers na NBA — Foto: Christian Petersen/Getty Images Tiago Splitter comanda o Portland Trail Blazers na NBA — Foto: Christian Petersen/Getty Images