🔎 ou veja todas as análises já realizadas

Análise dos Times

Motivo: A matéria foca na dívida, má gestão e falta de pagamentos, evidenciando um tom crítico em relação às finanças e governança do clube.

Viés da Menção (Score: -0.7)

Palavras-Chave

Entidades Principais

Campeonato Gaúcho Monsoon Futebol Clube Lucas Pires Sumant Sharma Jurandir da Silva Alex Gonçalves Andrei Kampff Josué Parodia Emerson Cardoso Vitor Hugo Manique de Jesus VX Capital Participações

Conteúdo Original

DNA Arquibancada: a história de Cauã, torcedor do Monsoon Time de ascensão meteórica no futebol gaúcho, embalado pelos resultados de campo e pelo marketing do clube-empresa que recebia investimentos de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, o Monsoon Futebol Clube acumula dívida estimada de R$ 6,9 milhões. As fatias mais volumosas são de origem tributária e trabalhista: diversos atletas, membros de comissões técnicas e empregados que atuaram nos últimos três anos ficaram sem receber salários e premiações, de forma parcial ou integral, e não tiveram depositadas parcelas do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). A partir de 10 de janeiro de 2026, o Monsoon disputará pela segunda vez na sua história a Série A do Campeonato Gaúcho. Uma certidão eletrônica do Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (TRT-4), atualizada até 17 de dezembro, revela a existência de 25 processos contra o Monsoon, dos quais 16 são de 2025, ano em que o clube jogou o Gauchão pela primeira vez. Foi neste período que a crise se agravou. No decorrer de 2024, por motivos incertos, a torneira foi fechada: o indiano Sumant Sharma, empresário do ramo de tecnologia residente em Dubai, mecenas do Monsoon, parou de enviar dinheiro para o clube-empresa. Um dos donos era o então presidente Lucas Pires, gaúcho ligado ao MMA (artes marciais mistas) e que vivia em Miami, e o outro, o então vice-presidente Jurandir da Silva, ex-jogador de futebol que tocava o dia-a-dia da equipe. 1 de 6 Novo escudo do Monsoon — Foto: William Ramos/RBS TV Novo escudo do Monsoon — Foto: William Ramos/RBS TV Às vésperas do principal torneio do seu calendário e sob nova direção, o Monsoon está inscrito no Banco Nacional de Devedores Trabalhistas (BNDT) por conta de seis processos com sentença transitada em julgado ou acordos judiciais pendentes de pagamento. Considerando passivos ajuizados e não ajuizados, há desde dívidas baixas, entre R$ 5 mil e R$ 10 mil, até algumas mais elevadas, em torno de R$ 80 mil. O Monsoon não está pagando sequer valores módicos. A reportagem apurou que uma dívida trabalhista de R$ 18 mil, parcelada na Justiça em 10 vezes de R$ 1,8 mil, não foi honrada até o momento. – Depois que acabou a Copinha (setembro de 2023), não lembro de ter recebido salário. Quem via de fora achava que era o Monsoon de Dubai, um clube investidor, mas era tudo mentira. Eles venderam a ideia e o nome do clube muito bem. A realidade foi diferente. Muitos funcionários se complicaram (financeiramente) – diz o atacante Alex Gonçalves, que atuou no clube entre 2022 e 2023. 2 de 6 Treino do Monsoon em Capão da Canoa — Foto: William Ramos/RBS TV Treino do Monsoon em Capão da Canoa — Foto: William Ramos/RBS TV Ele ingressou na Justiça e ganhou a causa. Agora, espera o acerto por parte do clube. Dívidas trabalhistas são comuns no futebol brasileiro, mas o caso do empreendimento que nasceu com a conexão Dubai tem suas particularidades. — O que diferencia o caso do Monsoon é o tempo e o modelo: clube-empresa muito jovem e que já apresenta um passivo elevado, sem patrimônio, torcida consolidada ou fontes próprias de receita. Isso foge do padrão histórico de clubes tradicionais, cujas dívidas se acumulam ao longo de décadas e estão ligadas a estruturas associativas antigas — avalia Andrei Kampff, jornalista e advogado que trabalha com direito no esporte. Ele destaca que a dependência de um mecenas não é sustentável no médio e longo prazo. – Quando um clube-empresa entra rapidamente em colapso financeiro, o problema deixa de ser dívida do futebol e passa a ser falha de governança – acrescenta Kampff. 3 de 6 Camisa do Monsoon com logo de Dubai — Foto: Reprodução/RBS TV Camisa do Monsoon com logo de Dubai — Foto: Reprodução/RBS TV A reportagem conversou com 10 profissionais que trabalham no Monsoon entre 2022 e 2025. Os relatos são de salários, premiações e direitos trabalhistas em aberto, como rescisões contratuais. Três dos ouvidos concordam em se manifestar publicamente, enquanto os demais optaram pelo anonimato, temendo "se queimar" no mundo da bola. Josué Parodia, o zagueiro Jô, atuou entre 2022 e 2025 na equipe. Disputou o Gauchão de 2025, quando o clube conseguiu se manter na elite regional, apesar das adversidades financeiras. Depois de deixar o clube, fez um acordo para receber os atrasados, mas apenas metade pingou na conta. – O Monsoon me abriu portas no futebol, sou grato por isso, mas, como qualquer trabalhador, quero receber. Desde o início, os atrasos eram recorrentes. Quando eu cheguei, era dia 10 de cada mês. Passou pro dia 15. Às vezes, virava o mês. E, se a gente cobrava, eles ficavam brabos – lamenta Jô. China Balbino é demitido do Monsoon antes de terminar o Gauchão Entre 2022 e 2023, o Monsoon usava, sob arrendamento em troca de benfeitorias, a estrutura do Estádio João da Silva Moreira, o Parque Lami, propriedade da família Assis Moreira. Quem vivenciou o clube à época recorda que empregados de origem humilde também ficaram sem receber. – Tinha cozinheiras no Lami, pessoas humildes. Elas iam até a frente do CT perguntar (dos pagamentos) e a direção só dizia que procurassem os seus direitos. Tivemos de fazer vaquinha para elas terem como comprar comida – afirma Emerson Cardoso, que trabalhou como roupeiro. Ele também ficou com vencimentos pendentes e ingressou na Justiça. Dificuldades com nova direção As dívidas com atletas e demais empregados do Monsoon se avolumaram na gestão de Lucas Pires e Jurandir da Silva, que eram os proprietários desde a fundação, em outubro de 2021. Quatro anos depois, em outubro de 2025, eles venderam o clube para o ex-jogador e empresário Vitor Hugo Manique de Jesus, único sócio da VX Capital Participações, nome fantasia da V.H. Manique de Jesus Intermediações Ltda. A reportagem teve acesso à cláusula contratual que versou sobre os valores da negociação: para adquirir o Monsoon, Vitor Hugo pagou R$ 198 mil para Lucas, que era o sócio majoritário, e R$ 2 mil para Da Silva, minoritário. Ainda pelo contrato, Vitor Hugo ficou responsável por reestruturar e quitar, em dois anos, as dívidas ajuizadas e não ajuizadas. Elas foram estimadas em R$ 6,9 milhões. – Temos prazo de 24 meses para organizar. A gente não tem obrigação de quitar as dívidas (neste prazo), mas vamos pagar da melhor forma possível. As duas coisas precisam andar em paralelo. Fazer o futebol, reorganizar as dívidas e começar os pagamentos. Trazer a confiança do investidor de volta, dos patrocinadores e dos apoiadores. Se não tiver o futebol, eu perco o meu investimento, o clube fecha e o que vai acontecer? A gente assumiu há dois meses. O que se faz em dois meses? Com uma dívida que, na verdade, já passou de R$ 7 milhões. Isso faz parte do processo da má gestão que foi feita antes – justificou Vitor Hugo. 4 de 6 Vitor Hugo, novo CEO e dono do Monsoon — Foto: William Ramos/RBS TV Vitor Hugo, novo CEO e dono do Monsoon — Foto: William Ramos/RBS TV Após a troca de comando no Monsoon, profissionais com valores a receber procuraram Vitor Hugo. Os relatos são de que, na primeira conversa, existe receptividade. Depois, o novo presidente estaria deixando de atender ligações e de responder mensagens. Foi assim com o zagueiro Jô. Isso fez ele desistir de esperar por um acordo amigável e partir para a judicialização. – (Vitor Hugo) Começou a não responder, recusar minhas ligações. Fiquei chateado de colocar na Justiça, procurei ao máximo não fazer isso, mas não tive opção – diz Jô. Sem agasalho e comida fria A camisa do Monsoon ostentava, até o segundo semestre de 2025, uma sedutora alusão aos petrodólares dos Emirados Árabes: a inscrição "Poa Dubai" ornava o distintivo. O mascote era um camelo, símbolo cultural do Golfo Pérsico. Nas cores preto e dourado, o uniforme reforçava a ideia do clube-empresa inovador que chegou ao Gauchão com apenas três anos de existência. Quem sentiu a rotina garante que não houve luxo. Pelo contrário. Há relatos de campeonato inteiro disputado com um jogo de fardamento titular e outro reserva, ausência de moletom para treinos no frio e até de refeições mornas ou frias porque a antiga direção levou semanas para repor uma resistência queimada do buffet. – Foi uma ilusão. O marketing do Monsoon "Poa Dubai" foi fantástico, mas trabalhamos como se fosse um clube amador – diz Cardoso. 5 de 6 Lucas Pires (E) era o antigo proprietário do Monsoon — Foto: Divulgação Lucas Pires (E) era o antigo proprietário do Monsoon — Foto: Divulgação A rotina de dificuldade, principalmente dos atletas mais jovens, também foi destacada. – Eu vinha de fora do país, tinha uma condição melhor, e lembro que ajudei muitos jogadores que não tinham como comprar uma pasta de dente. Os mais novos, que moravam no alojamento e estavam no profissional com a gente, ligavam desesperados – recorda o atacante Alex Gonçalves. Por outro lado, há o reconhecimento de que a estrutura de futebol era boa no Parque Lami. Depois, a partir de 2024, o Monsoon se transferiu para o Sesc Protásio Alves, também em Porto Alegre. Os atletas moravam no hotel da unidade, em quartos com ar condicionado, TV e banheiro. Treinavam no campo do Sesc e lá tinham café da manhã, almoço e janta. – O que salvou o trabalho em 2025 (durante o Gauchão) foi a estrutura do Sesc. A alimentação era top – diz Jô. Conforme a atual direção, os antigos proprietários do Monsoon deixaram dívida de aproximadamente R$ 400 mil com o Sesc. A reportagem procurou a instituição, que optou por não se manifestar. Mecenas indiano esteve no RS Sumant Sharma, o indiano radicado em Dubai que financiou o clube, esteve no Rio Grande do Sul em três oportunidades. Uma delas, em janeiro de 2022, foi para acompanhar a estruturação da área administrativa do Monsoon, que estava nos primeiros meses de vida. 6 de 6 Camisa do Monsoon tinha inscrição "Dubai" no escudo — Foto: Manuela Ramos/RBS TV Camisa do Monsoon tinha inscrição "Dubai" no escudo — Foto: Manuela Ramos/RBS TV Outra, em 2023, quando a equipe mandava seus jogos da Divisão de Acesso no Estádio Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves. Naquele ano, o clube chegou próximo de garantir acesso para a elite do futebol gaúcho, mas perdeu a semifinal para o Guarany de Bagé. Após uma vitória em fase anterior do torneio, o mecenas apareceu diante dos atletas. O fato alimentou boatos. – Estava no vestiário e apareceu um indiano, num jogo em que ganhamos do Pelotas. Ele começou a dizer um monte de coisa em inglês. Tinha traços de indiano, mas, depois, se falou muita coisa sobre ser um ator. Isso foi rodando no meio do futebol. Foi uma situação engraçada. Havia muito mistério no clube – recorda Alex Gonçalves. Meses após essa visita, já em 2024, Sharma cortou o envio de recursos, cujo montante mensal era desconhecido. Segundo o atual dono, o valor total chegou a US$ 5 milhões. Histórico do Monsoon Fundado em outubro de 2021 no formato empresa (empresa de pequeno porte - EPP). Tinha como sócios Lucas Pires (99% das cotas) e Jurandir da Silva (1% das cotas). O clube nasceu em Porto Alegre, tendo um camelo como mascote e a inscrição "Poa Dubai" no distintivo, por conta do investimento do indiano. Lucas narrou, no passado, ter conhecido o indiano Sumant Sharma no exterior. Eles teriam se aproximado e decidido investir em um clube de futebol. Sharma ficou conhecido pela sua atuação no ramo da tecnologia. Na primeira temporada, em 2022, o clube foi campeão da terceira divisão do campeonato gaúcho, a Terceirona. O título garantiu o acesso para a Divisão de Acesso (Série B). O Monsoon bateu na trave em 2023. Perdeu as semifinais da Segundona para o Guarany de Bagé. O acesso para a elite do Gauchão veio em 2024, com o título da Divisão de Acesso. Em 2025, mesmo com atrasos de salários e atletas cogitando fazer greve, o Monsoon conseguiu se manter no Gauchão. O clube terminou a competição em 8º lugar na classificação geral, com sete pontos em oito jogos. Foram duas vitórias, um empate e cinco derrotas. Entre a preparação e o final do Gauchão, o Monsoon teve três treinadores diferentes. Contrapontos O que diz Jurandir da Silva, ex-vice-presidente do Monsoon "Eu cuidava da parte do futebol e das contratações. Atuei no clube por quatro anos. Conheci o Lucas pessoalmente e falávamos com frequência. Também conheci o investidor, que esteve no Brasil e no clube por três vezes. Não tenho conhecimento sobre o valor que era enviado pelo investidor. Meu trabalho era somente voltado para o futebol. No final de 2024, o investidor deixou de fazer parte do clube. Como eu não tinha acesso direto ao Sumant Sharma, não soube o motivo. O clube ficou endividado devido à saída do investidor. Foi um sentimento de frustração. Por um período, foram buscados novos parceiros, mas sem sucesso. Diante disso, ao invés de abrir falência, justamente pensando nos funcionários, o clube foi passado para o Vitor Hugo, com o objetivo de regularizar as questões financeiras e manter o time, visto que havíamos feito um trabalho com resultados positivos em pouco tempo. Quando fui convidado a fazer parte do clube, iniciando o projeto, o Monsoon tinha um potencial financeiro superior aos clubes do RS da divisão em que estávamos competindo. Com o passar do tempo, os recursos começaram a ser limitados, até o ponto em que o investidor saiu. Foi uma grande tristeza ver o clube ficar sem recursos para pagar os funcionários. Eu também trabalhei e não recebi. Meu sentimento foi de impotência, visto que tínhamos uma grande equipe de trabalhadores e sonhamos juntos com esse projeto, que deu resultado no futebol. Mas, infelizmente, não se faz futebol sem dinheiro." O que diz Lucas Pires, ex-presidente do Monsoon Contatado pela reportagem, não se manifestou. O espaço está aberto. O que diz Vitor Hugo Manique de Jesus, atual CEO e proprietário do Monsoon Recebeu a reportagem em Capão da Canoa, no dia 22 de dezembro, e afirmou ter assumido o compromisso de quitar todo o passivo. — Todas as pessoas que a gestão anterior ficou devendo, eu tenho a responsabilidade de pagar. Assumi a responsabilidade de zerar as dívidas do clube — assegurou. Novos rumos Após a aquisição por Vitor Hugo Manique de Jesus, o Monsoon transferiu a sua sede de Porto Alegre para Capão da Canoa, no Litoral Norte. O clube não tem estádio. Está treinando no campo do Caponense Futebol Clube, em Capão da Canoa, e irá mandar seus jogos no Gauchão de 2026 no Estádio Passo D'Areia, em Porto Alegre. A inscrição "Poa Dubai" do escudo foi trocada por "Capão da Canoa". Também houve mudança no mascote: saiu o camelo, entrou o tubarão. Depois da mudança para Capão da Canoa, a direção do Monsoon procurou autoridades municipais para apresentar o novo projeto do clube e pedir apoio. Vitor Hugo chegou a cogitar, em entrevista, uma parceria com a prefeitura. O secretário de Gestão, Inovação e Planejamento de Capão da Canoa, Marcos Jones Feijó Cardoso, afirmou que não existe nenhum contrato ou investimento de dinheiro público da prefeitura no clube. Também declarou que, até o momento, inexiste qualquer permissão de uso de espaços públicos na cidade litorânea.