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Trabalhar por um futebol brasileiro melhor vai além de criticar o antijogo, as simulações e o desrespeito à arbitragem, condutas enraizadas e que precisam ser combatidas. É preciso também exaltar jogos que trazem tudo o que boas partidas deveriam ter: times dispostos a jogar, qualidade técnica, bola rolando por muito tempo, respeito ao público. E tudo isso foi visto no Flamengo x Bahia do Maracanã, no domingo. É possível, e até esperado, que o Campeonato Brasileiro venha a produzir partidas ainda melhores - o Bahia, por exemplo, jogou menos do que é capaz. Não é essa a questão. O fato é que o ambiente do jogo, a forma como a partida fluiu, é algo raro no futebol nacional. E precisa servir de modelo. A começar pelos 64 minutos e 27 segundos de bola rolando, segundo dados da Opta. Apenas como comparação, a vitória rubro-negra sobre o time baiano registrou a melhor marca do Campeonato Brasileiro, justamente no mesmo dia em que a Premier League assistia ao jogo mais esperado da temporada, entre Manchester City e Arsenal. E claro, por mais que se leve em conta o grau de tensão envolvido num jogo decisivo a cinco rodadas do fim, é notável que o clássico inglês tenha tido 56 minutos e 45 segundos de bola rolando. Flamengo 2 x 0 Bahia | Melhores momentos | 12ª rodada | Brasileirão 2026 Mas não foi apenas isso. As 12 faltas cometidas pelo Flamengo e as oito do Bahia permitiram ao jogo fluir, com um número de paralisações equilibrado com as principais ligas do mundo e abaixo da média do Brasileirão, que é de 25,6. Mas havia algo na partida que não podia ser medido por números: o ambiente no gramado. A sensação era de dois times condicionados a jogar, fruto também dos trabalhos de Leonardo Jardim e Rogério Ceni. Não se percebeu a intimidação da arbitragem como método, o permanente cerco ao juiz a cada decisão, tampouco a disposição dos bancos de reservas a se mobilizar para o confronto, como um exército treinado para intervir a qualquer princípio de desavença no campo. Quem foi ao Maracanã ou assistiu ao jogo pela TV, viu futebol. E com muitos jogadores de qualidade técnica. Foram 95 minutos, aí incluído o acréscimo, prazerosos para quem gosta do jogo. E, diga-se, o número baixo de minutos acrescidos ao jogo indica que a partida fluiu. No campo, há algo interessante para tirar da vitória do Flamengo: um time que funcionou em duas versões, como numa primeira assinatura clara de Leonardo Jardim. O primeiro tempo foi de um Flamengo agressivo em sua pressão ofensiva, tentando fazer o jogo acontecer no campo do Bahia. Nada que fugisse tanto a características que o time se habituou a ter nas últimas temporadas. O domínio foi grande, e o placar ao intervalo até poderia ter sido maior. O jogo reforçou a sensação de um time que cresce fisicamente e faz talentos como Arrascaeta, Pedro e Paquetá renderem no nível esperado. Na segunda etapa, quando o Bahia melhorou e teve momentos perigosos na partida, o que se viu foi um time rubro-negro disposto a defender mais atrás e explorar contragolpes. Esta sim, uma transformação importante, que gradativamente vinha surgindo nas últimas partidas. A questão eram as interrogações que tal opção provocava. Primeiro, uma espécie de desconforto do time para defender perto de sua área: a estratégia exige um trabalho defensivo grande de alguns homens mais ofensivos. E depois, encontrar jogadores capazes de ter força e velocidade para as transições rápidas. Nestes dois aspectos, o brutal esforço de Plata e Samuel Lino foi vital para equilibrar as coisas, tanto para marcar, quanto para atacar. O equatoriano, aliás, teve uma atuação que combinou imensa aplicação com uma sequência de acabamentos imperfeitos. A sensação é de que, a cada jogo, Jardim precisará ter pontas com grande capacidade física, e reservas aptos a completar o trabalho. No domingo, três jogadores entraram nas pontas para aliviar o esforço dos titulares: primeiro, Bruno Henrique substituiu Samuel Lino; mais adiante, Luiz Araújo entrou na vaga de Plata, enquanto Cebolinha deu descanso a Pedro, passando Bruno Henrique para o centro do ataque. Desde a derrota dura em Bragança Paulista, o Flamengo chegou à quinta vitória seguida. Mais importante que isso, o fez com atuações cada vez melhores. E num jogo do qual o futebol brasileiro deve se orgulhar.