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Com o mesmo sorriso no rosto, Stephan Steverink fala das seis medalhas que conquistou nos Jogos Sul-Americanos de Santa Fe 2026 e também do dia que passou quatro horas e meia treinando na piscina, nadando um total 14 quilômetros.
Consagrado com quatro medalhas de ouro, uma de prata e uma de bronze, o brasileiro de 22 anos foi o maior medalhista do principal evento multidesportivo da América do Sul, realizado nas últimas duas semanas na Argentina.
“Eu tinha expectativa de conseguir medalhas em todas as provas que eu nadei, mas consegui ganhar quatro provas era mais difícil. Eu consegui fazer tudo certo!”, disse o destaque da natação brasileira em entrevista exclusiva para a ESPN .
Ele foi campeão nos 200m e nos 400m nado livre, nos 400m medley e também compôs o revezamento 4x200m livre masculino. Stephan também subiu ao pódio como vice-campeão dos 800m livre e no conquistou a medalha de bronze nos 1500m.
O segredo para subir sempre ao pódio estava justamente nas horas depois de ouvir o hino nacional.
“Não podia perder tempo nem descanso. Foquei bastante na recuperação. Como eu nado as provas muito longas, provas tipo 1500 metros, 800 metros e 400 metros, são provas que duram bastante. Eu tinha que ter a minha recuperação em dia a todo momento. Então, eu nadava uma prova e já tinha que recuperar."
"Em uma das sessões, eu ganhei duas medalhas de ouro. Nadei os 400m medley e, dez minutos depois, os 200m livre. Foi uma das provas mais difíceis, mas também uma das mais legais de nadar. Eu tive que colocar a cabeça no lugar e fazer essa troca: saí de uma prova de 400m medley que eu tinha acabado de ganhar e estava muito feliz para outra, os 200m livre, que eu precisava ganhar de novo."
O bom desempenho em Santa Fe também passa pela relação de Stephan com a própria natação.
"Eu gosto muito de competir e eu gosto muito de treinar também. Então tem gente que só gosta geralmente de um. Eu gosto dos dois. Eu sou muito feliz fazendo o que eu faço."
Sorrindo durante toda a entrevista, Stephan deixou bem claro que gosta de treinar, contando que inclusive nadava até 14km por treino quando tinha 16 para 17 anos. Desde a base, era considerado uma das grandes promessas da natação brasileira e fez com que ele se sentisse uma ponte entre a nova geração convocada em Santa Fe com os mais experientes.
"Eu estava ali no meio porque eu já entrei na seleção com 18 anos, então eu entrei relativamente muito cedo. Eu conheci o pessoal que tem 30 anos ou até 40 anos, o João Luiz Gomes. Então isso é muito legal, porque a gente conseguiu ter essa troca de experiências."
Segundo ele, a convivência entre atletas mais experientes e jovens ajudou a deixar o ambiente da equipe brasileira mais leve.
"Eu via muitas vezes as pessoas mais velhas falando com as pessoas mais novas, acalmando ou dando alguma dica. Eu mesmo falando com algumas pessoas mais novas e ainda recebendo dica."
Em Santa Fé, Stephan também dividiu a piscina com Guilherme Costa, o Cachorrão, que terminou em 5º lugar nos 400m livre nas Olimpíadas de Paris 2024.
A relação entre os dois começou anos atrás, quando Stephan ainda era muito jovem e via Guilherme como uma referência.
"Eu conheço o Guilherme Costa há bastante tempo. A primeira vez que eu nadei com ele, se eu não me engano, foi em 2019. Eu era muito pequenininho."
A lembrança daquela prova ainda está viva. Guilherme estava na raia quatro e Stephan, na oito. A diferença entre os dois era enorme.
"Ele me deu 200 metros. Então é muito legal ver onde eu cheguei também. Eu cheguei do lado do cara que eu olhava como inspiração."
Hoje, a relação é diferente. Fora das provas, os dois são amigos. Dentro da piscina, existe rivalidade sadia, com um puxando o outro. Cachorrão, de 27 anos, superou Stephan nos 800m e 1500m livre,vencendo duas medalhas de ouro, mas ficou atrás do nadador de 22 anos nos 400m livre.
"É claro que fora das provas a gente é bastante amigo, mas dentro das provas tem aquela rivalidade, mas é sempre com muito respeito e a gente gosta bastante um do outro."
Depois de ser campeão mundial júnior em 2022 nos 400m livre em Lima com 3:48.27 e reafirmar o status de grande promessa da natação brasileira, Stephan não conseguiu a vaga para os Jogos Olímpicos de Paris.
"Foi um choque muito grande, fiz um tempo muito forte pra minha idade e claro que isso elevou um patamar e as expectativas. Então, eu fui com muita vontade e comendo água até a seletiva olímpica de 2024. E foi por muito pouquinho que eu não fui. Claro que eu fiquei triste pra caramba porque eu achava que eu iria, mas eu aprendi muita coisa também."
Stephan venceu o Troféu Brasil no 400m medley, mas com 4:16.29, quase quatro segundos acima do índice olímpico, necessário para disputar os Jogos na França.
"Quando você passa de uma seletiva olímpica, você tem quatro anos até a próxima e é bastante tempo. E a gente fica pensando: caraca, quatro anos até lá. Como é que eu vou conseguir? O que é que eu vou fazer?"
As dúvidas, no entanto, não apagaram a chama e o sonho do nadador filho de mãe holandesa e pai brasileiro.
"Eu sempre tive esse sonho de Olimpíada, desde criança, então não era algo fácil de eu tirar da minha cabeça. Isso foi muito importante para minha carreira de atleta, para a minha mentalidade. Eu acho que todo atleta de alto rendimento sempre tem uma queda. Foi muito importante essa parte para mim, para conseguir chegar nesse próximo ciclo olímpico mais maduro, mais forte e mais competitivo."
"Não perdi essa vontade e esse fogo de ir para as Olimpíadas, de brigar com todo mundo, de ser o melhor do mundo."
Desde agosto, Stephan trocou o Rio de Janeiro, onde treinava no Flamengo, para enfrentar uma nova etapa da carreira na University of Kentucky, nos Estados Unidos, onde treina com Jordan Lieberman e também precisa conciliar o esporte com os estudos.
"As coisas são muito sérias aqui, tanto na natação quanto nos estudos. Isso é bastante legal."
O brasileiro, que chegou a competir em competições nacionais no Países Baixos, mas sempre preferiu defender o Brasil, segue com o vínculo com o clube brasileiro para as competições nacionais e destaca a cultura de equipe que encontrou no circuito universitário americano.
"Na minha universidade, onde eu nado, a gente tem gente de quase todos os países. A gente consegue captar toda essa experiência, essas habilidades que eles têm e aprender junto. Foi para isso que eu vim também, para poder aprender muito mais, para poder voltar com muito mais bagagem."
"Eles têm um foco em algumas técnicas de crawl que eu estou tentando aprender pra sempre pra melhorar. A gente tem muitos tipos de técnica, muitos tipos de treinamento e a gente consegue aprender todo mundo junto."
Falando em aprender, Stephan Steverink também está de olho no novo recordista mundial nos 200m peito, o japonês Shin Ohashi, de apenas 17 anos, que nadou para 2:04.83 nos Jogos Asiáticos nessa semana.
"Ele passou a 59, que é um tempo que nas últimas duas Olimpíadas ele estaria ali no pódio, ou seja, ele ganharia passando. Então, é muito interessante o jeito que ele nada, com mais frequência. É diferente, eu até vou estudar um pouco esse nado dele. Pelo que eu sei, ele tem uma estatura um pouco mais baixa, um pouco mais parecida com a minha estatura, então talvez é assim que a gente aprende."
"A gente vai vendo como os outros nadam, o que a gente pode colocar e como a gente se sente na água."
A paixão de Stephan pela natação pode ser vista pelo seu sorriso, que esteve presente do início ao fim da entrevista, seja na hora de falar das medalhas nos Jogos Sul-Americanos, da queda na seletiva olímpica de 2024 e nos planos para o futuro.
"Estou começando um novo ciclo aqui na natação. Eu estou aprendendo bastante com o pessoal, então eu tenho alguns campeonatos aqui da faculdade que vão acontecer a partir de novembro. Eu vou ter alguns campeonatos o plano é um ciclo inteiro até o meio do ano que vem.
O calendário, além do circuito universitário, tem o Mundial de Piscina Curta em Pequim daqui dois meses, em dezembro, o Troféu Maria Lenk no primeiro semestre de 2027, os Jogos Pan-Americanos de Lima 2027, que já tinha garantido vaga por ser campeão no Pan Júnior no início do ano, e no Mundial de Esportes Aquáticos em Budapeste, marcado para junho.
"Foi em Budapeste, eu tive o meu primeiro Mundial da minha carreira. Eu espero estar lá de novo, podendo representar o Brasil, e quem sabe uma finalzinho ali ou estar entre os cinco ali. A gente está treinando para isso."