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O casamento entre a plasticidade do esporte e o caos da vida torna o futebol um negócio irresistível. Enquanto assistia a Bayern de Munique 4 x 3 Real Madrid, nesta quarta-feira, pelas quartas de final da Liga dos Campeões, eu só pensava na Copa do Mundo – naquele roteiro que nos hipnotiza, a cada quatro anos, justamente por misturar tanta beleza e tanta insanidade. Por mim, ela começaria amanhã, embora muito dela já esteja exposta na Liga dos Campeões, em jogos como esse, que servem como microcosmo para aquilo que o futebol pode oferecer de melhor. Nas surpreendentes falhas de Neuer, nos dois golaços de Arda Güller, na excelência da finalização de Harry Kane, no encontro entre a assistência de Vini Jr e o disparo de Mbappé, no talento excepcional de Olise, o duelo entre Bayern e Real teve vislumbres daquilo que a Copa poderá nos entregar. Em especial no primeiro tempo, que concentrou cinco dos sete gols, a partida em Munique foi uma dança de possibilidades, um vaivém frenético de momentos geniais e erros decisivos. Com menos de um minuto, Neuer, um dos maiores goleiros da história, uma entidade clamada por muitos alemães para um retorno triunfal na próxima Copa, entregou a bola nos pés do turco Arda Güller, que a devolveu direto para a rede. O meia também faria o segundo do Real, em cobrança de falta, novamente contando com falha de Neuer. 1 de 1
Bayern de Munique x Real Madrid pela Liga dos Campeões — Foto: Reuters Bayern de Munique x Real Madrid pela Liga dos Campeões — Foto: Reuters O Bayern errou mais do que costuma errar, um pecado mortal quando do outro lado está o Real Madrid. Mesmo assim, apresentou parte das credenciais de um dos melhores (talvez o melhor) times do mundo. Teve calma para buscar o empate duas vezes, coragem para se manter no ataque mesmo quando o placar agregado estava a seu favor e qualidade para buscar a virada no fim. O Real foi aquele inferno habitual na Liga dos Campeões. Depois da derrota contundente em casa na ida, sentiu cheiro de sangue, farejou o titubear do adversário e deu um jeito de renascer. Passou a maior parte do jogo à frente do placar e atrás da linha da bola, à espera das falhas do Bayern. Aos 41 do segundo tempo, quando a prorrogação se encaminhava, a expulsão de Camavinga mudou o destino do jogo. O Bayern viu ali uma oportunidade final. Dois minutos depois, com chute de Luis Díaz, chegou ao terceiro gol; aos 49, com Olise, assegurou a vitória e a classificação para as semifinais. Estará lá ao lado de PSG, Atlético de Madrid e Arsenal. Foi um jogo que será lembrado por muito tempo. E que serviu para atiçar nossa expectativa a dois meses da Copa do Mundo – quando Olise e Mbappé estarão lado a lado, quando Harry Kane tentará liderar a Inglaterra ao segundo título, quando Arda Güller comandará a Turquia, quando Vini Jr, quem sabe, fará jogadas como aquela do terceiro gol do Real Madrid.