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Análise dos Times

Mirassol

Principal

Motivo: O jogador demonstra grande apreço pelo projeto e pelo trabalho desenvolvido no clube, destacando sua paixão pelo dia a dia.

Viés da Menção (Score: 0.7)

Motivo: A relação com Tite e o contexto da negociação para um possível retorno ao clube demonstram um viés positivo em relação ao passado.

Viés da Menção (Score: 0.5)

Motivo: O clube paraguaio é mencionado apenas como o emissor de uma proposta recusada, sem detalhes que indiquem viés.

Viés da Menção (Score: 0.0)

Palavras-Chave

Entidades Principais

Corinthians Paulinho Cerro Porteño Mirassol Rafael Guanaes Tite Matheus Bachi

Conteúdo Original

Paulinho se emociona ao comentar relação com Tite A segunda lesão grave no joelho em menos de dois anos fez Paulinho mudar a maneira de olhar o futebol. O até então vitorioso jogador começou a observar a rotina do centro de treinamento de um clube da perspectiva de atleta em recuperação. Os problemas diários, muito além da dúvida de um técnico sobre a escalação ideal ou de um jogador na briga pela titularidade, deram a Paulinho a certeza de que sua vida no futebol não terminaria pelas dores ou por não conseguir atuar mais em alto nível. Ela continuaria em uma nova função, mas fora das quatro linhas, como executivo de futebol. – Eu me senti preparado naquele momento. Chego como coordenador técnico após receber o convite do Mirassol e conversar com a diretoria para entender a função. Eu tinha acabado de encerrar minha carreira e achei importante ainda estar no campo, enxergando o trabalho da comissão técnica. – Como coordenador, em alguns momentos você vira até um auxiliar técnico, e foi o que eu fiz aqui no Mirassol. Passei a entender a dinâmica do clube, com poucas pessoas e todo mundo se ajudando. – Depois de seis meses, devido aos meus estudos e aos convites que recebi para ser executivo de futebol e CEO de um clube, sentei com a diretoria e vi que esse era o caminho. Foi uma decisão bem tomada e convicta, embora tudo tenha acontecido muito rápido. O dia a dia mostra e ensina muitas coisas. Sou apaixonado pelo dia a dia do clube, porque vejo as dores de todo mundo e o que posso ajudar. Isso não está relacionado só com a comissão técnica, mas com toda a instituição. – Não vi dificuldade, mas o dia a dia é desafiador. Todos os dias você tem mais de 30 ou 40 coisas para resolver e precisa manter uma comunicação saudável entre os departamentos para que as informações cheguem ao (técnico) Rafael Guanaes. Os erros podem acontecer, mas é preciso minimizá-los, porque um centro de treinamento é muita responsabilidade – explicou Paulinho. 1 de 11 Paulinho em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Emilio Botta Paulinho em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Emilio Botta Com a nova profissão, porém, além de descobertas, Paulinho também conheceu um novo lado do futebol que o desiludiu e tirou as primeiras lágrimas da entrevista de quase duas horas concedida ao Abre Aspas , do ge , no Centro de Treinamento do Mirassol. – Talvez essa seja a fala mais forte do Paulinho como executivo de futebol. E eu sempre coloquei que um dia eu vou ser o melhor executivo do Brasil, do mundo, mas, por duas vezes, o futebol me desanimou a ser isso. Por quê? A falta de respeito, a incoerência, e não comigo, mas por pessoas do futebol. – E você pensa assim: será que eu, sendo o melhor executivo do Brasil, do mundo, vou mudar alguma coisa no futebol? Talvez vou ter que repensar de novo para saber se quero ser o melhor executivo do mundo, porque, se a gente não consegue mudar o que nós acreditamos como futebol, por que ser o melhor executivo do mundo? Por que ser o melhor do Brasil? – O futebol me desanimou duas vezes, mas não a ponto de parar de trabalhar. Desanimou de pensar se vale a pena ser o melhor do mundo. E as pessoas que estão fora não sabem, não entendem o que é isso aqui. Porque o futebol, se você não respirar ele 24 horas, você vai ser só mais um dentro do processo, não tem como. Se você não amar o que você faz, não estiver realmente inserido no processo, tudo que foi falado, de planejamento, você não consegue estar no futebol. O futebol te consome. E muito. E as pessoas acham que é fácil, é tranquilo – disse. Paulinho detalha oferta para ser o executivo mais bem pago do mundo Ficha Técnica Nome: José Paulo Bezerra Maciel Júnior Apelido: Paulinho Idade: 25/07/1988 (37 anos) Profissão: ex-jogador profissional | executivo de futebol Carreira: 700 jogos | 174 gols | 47 assistências Clubes: Pão de Açúcar, Portuguesa, Vilnius (Lituânia), Lodzki (Polônia), Bragantino, Corinthians, Tottenham (Inglaterra), Guangzhou (China), Barcelona (Espanha) e Al-Ahli (Arábia Saudita). Seleção brasileira: 56 jogos | 13 gols | 6 assistências | Copas 2014 e 2018 Títulos: Brasileirão (2011); Libertadores (2012), Mundial de Clubes (2012), Campeonato Paulista (2013), Campeonato Chinês (2015, 2016, 2017 e 2019), Copa da China (2016), Supertaça Chinesa (2016 e 2017), Campeonato Espanhol (2017/18) e Taça da Espanha (2017/18). A emoção ao comentar um lado pouco conhecido do futebol só não mexeu mais com Paulinho do que explicar a relação com Tite. Foi ao lado dele que o ex-volante foi campeão da Libertadores e do mundo pelo Corinthians e disputou uma das suas duas Copas do Mundo com a camisa da seleção brasileira. Paulinho, como amigo, esteve diretamente ligado na tentativa do Corinthians de ter Tite em 2025. Um problema de saúde mental impediu o acerto do treinador, mas a maneira como tudo isso repercutiu ainda mexe com quem participou de perto daquele momento. Sem conseguir conter o choro, o ex-volante relembrou o episódio: – O amor que eu tenho por ele e a família dele realmente é muito forte. Quando aconteceu o caso dele ir para o Corinthians, e quase foi, eu soube de tudo e participei de tudo, porque, de um tempo para cá, a gente ficou bem próximo: eu, o Matheus (Bachi, filho do treinador), o professor Tite, as nossas esposas. Quando eu estava no Corinthians, o Matheus ainda não estava com o professor Tite, mas depois foi para a Seleção e ficamos bons anos juntos, criando um vínculo muito forte. – Todo o movimento da possível ida dele para o Corinthians eu sabia. Inclusive participei ativamente, conversando com eles e com o representante, que é muito meu amigo. Ali você vê a frustração e percebe que as pessoas não entendem. Antes de todo mundo saber, já estavam julgando. Para todo mundo é uma crise, mas quantas dessas pessoas sabem o que é uma crise? Eu sabia o que estava acontecendo. Por isso eu falo que as pessoas têm que tomar muito cuidado com o que falam. – Se você quer cravar uma situação, crava 100%, porque essa margem que você der pode prejudicar. Eu falei com o Matheus, com a Fernanda, esposa do Matheus, que falou com a minha esposa. Eu sabia todo o cenário. Eles estavam com malas prontas para viajar, todo mundo feliz. Esse é o ponto do futebol que me deixa triste: as pessoas julgam sem saber. Depois que passa e é esclarecido, já foi – disse Paulinho, entre lágrimas e momentos de pausa. 2 de 11 Paulinho e Tite no Corinthians — Foto: Daniel Augusto Jr/Agência Corinthians Paulinho e Tite no Corinthians — Foto: Daniel Augusto Jr/Agência Corinthians Um dos principais nomes da histórica campanha que levou o Mirassol à inédita disputa da Conmebol Libertadores em 2026, Paulinho recusou uma oferta que, segundo ele, o tornaria o executivo de futebol mais bem pago do mundo. A proposta na mesa era do Cerro Porteño, do Paraguai, que queria o ex-jogador brasileiro para chefiar o departamento de futebol do clube. Paulinho admite que a oferta o fez balançar, mas que a decisão final foi tomada em nome do projeto que comanda no Mirassol. Nesse período, ele também recebeu (e recusou) uma proposta da liga polonesa de futebol. – Depois de apenas quatro, cinco meses que eu estava no Mirassol, apareceram propostas que já coloquei algumas vezes. A mais recente, da semana passada, foi a que eu coloquei, fui pesquisar e realmente era para ser o executivo mais bem pago do mundo, mas é a tomada de decisão. Você senta com a família, pensa, analisa, pergunta para as pessoas que são próximas dessa instituição que queria me levar e você vai colocando, encaixando as pecinhas e vê o que você quer da vida. – Realmente foi uma semana bem desafiadora para tomar uma decisão. Mas tinha que ser tomada. Então, a procura existe. De tudo que apareceu para mim, de todas as propostas, eu achei a mais... que me deixou um pouquinho balançado foi essa (do Cerro Porteño). E de uma outra que teve ano passado, que realmente era para ser CEO de um clube de fora – contou o ex-volante. Paulinho comentou também o trabalho desenvolvido no Mirassol, os desafios da nova função, detalhou últimos momentos no Corinthians antes de decidir pela aposentadoria e explicou como pretende alcançar o objetivo de ser o melhor executivo do futebol mundial. Paulinho revela desafios na nova função Abre Aspas: Paulinho ge: O que fez você buscar esse caminho de gestão? Teve alguém que te aconselhou e abriu essa possibilidade na sua cabeça? Paulinho: – Bom, na verdade, desde 2021, quando eu tive a minha primeira lesão, eu passei a estudar. Fiz alguns cursos ainda como atleta, na Federação Paulista. Na segunda lesão, eu comecei a ir um pouquinho mais firme nos estudos, nos cursos. Sempre deixei muito clara aqui a questão do Thiago Scuro, que foi um cara que sempre vai ser um exemplo pra mim na gestão – Eu escutei uma vez do Edu Gaspar: "Não espera você parar pra depois estudar, porque isso pode demorar um tempo a mais". Por exemplo, eu parei de jogar dois anos atrás. Talvez, se eu começasse a estudar ali, hoje eu poderia não estar aqui no Mirassol. Então ele falou assim: "Começa a estudar, porque você vai vendo que realmente é diferente". – Aqui no Mirassol eu fui auxiliar durante dois jogos, então isso me gerou alguma dúvida, porque você está na adrenalina do campo, você acabou de encerrar a carreira, mas sempre com foco na gestão. Então, nesse momento em que eu tive dúvida entre campo e ser um gestor, eu pedi ajuda às pessoas. Será que realmente o caminho é ser um gestor ou é dentro do campo, que é um lugar em que eu fiquei durante 30 anos da minha vida? Pode ser que aconteça de ser um treinador diferente? Pode ser, mas sempre pesava um pouquinho a gestão, e eu sempre tive um lado de cuidar das pessoas. 3 de 11 Paulinho em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Emilio Botta Paulinho em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Emilio Botta Não pensou em tirar um período sabático depois de aposentar? – Eu parei de jogar em junho e aí passei um período até dezembro em viagem. Mas estudando, né? Viajei, conhecendo centros de treinamentos, fiz o curso lá na Espanha da La Liga, fui para Mônaco ficar dez dias com o Thiago (Scuro), fui para a Holanda. Então, deixei claro para a minha esposa: nós vamos viajar, mas tem a minha parte. É uma coisa que eu já estava estudando. Fui para a Suíça, conheci muitos lugares viajando, mas também, nesses seis meses, eu posso pegar aí pelo menos uns quatro meses que foram estudando. Foi muito mais focado na gestão mesmo do que aproveitar. – Óbvio, aproveitei a minha família, como nunca aproveitei na vida, porque profissionalmente joguei 20 anos e, de futebol, foram 30. Então, foi a minha vida inteira nesse negócio de viagem, concentração. Mas é uma coisa também que está no sangue. Eu não posso ir contra a paixão que eu tenho pelo futebol. Comecei a entender o meu caminho e nunca parei de estudar. Qual é a parte que você mais gosta na tua função? Tem uma parte que não é legal? – Não tem nenhuma situação, uma parte que eu não acho legal pela função. E eu gosto da minha função porque nunca vou tomar uma decisão sozinho, seja aqui, seja em outro lugar. Eu sempre vou tomar as decisões com as pessoas com quem devem ser tomadas, porque existe uma hierarquia e tem pessoas acima de mim. Isso aí, para mim, não é o ponto especial de tomar decisão. O que realmente eu sou apaixonado é de cuidar das pessoas. Então, o cuidar faz, em alguns momentos, você tomar uma decisão específica para aquela pessoa ou para aquele departamento. 4 de 11 Paulinho em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Emilio Botta Paulinho em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Emilio Botta Você continua aprendendo coisas novas? – Sempre. Sempre. E por isso eu escutei, eu vim falando no telefone há uns quatro dias com uma pessoa importante do futebol, e ele falou assim pra mim: "Não tem nada, nada que vai substituir o executivo de futebol estar no campo todos os dias." Eu sei que existe a parte de contratação, de contratos, etc. Mas não existe nada melhor do que ele estar dentro do campo todos os dias. Porque as pessoas se sentem respaldadas. – Por mais que eu esteja ali no campo trabalhando, no telefone, e, às vezes tem três trabalhos. O Guanaes está fazendo três tipos de trabalho e talvez eu não consiga focar naquele momento, naquele trabalho, mas eu estou escutando. Eu estou sabendo o que todo mundo está falando. Então, se aconteceu alguma coisa ali, por mais que eu não estivesse ali olhando, eu escutei, então a gente consegue logo resolver, vamos dizer assim. Cobrança respeitosa: Paulinho detalha trabalho no Mirassol Chegando numa função nova, foi tranquila para você a primeira situação de repreender alguém, de dar uma dura? – O começo é sempre difícil, né? Mas é difícil pelo respeito que eu tenho com as pessoas e o respeito que tenho com todos os atletas, tanto aqui do Mirassol como de todas as outras instituições. A minha forma de abordar é desse jeito. Então acho que isso também é outra coisa relativa. Não sou um executivo de falar antes de jogo e depois de jogo. No dia seguinte nós conversamos. Porque aí todo mundo talvez esteja com a cabeça melhor. – Eu faço pouquíssimas reuniões com os atletas, porque eu gosto de fazer individualmente, este ano eu fiz uma com nove, 10 atletas de uma situação particular, a minha forma de conversar é essa com os atletas. Eles sabem que existe a cobrança, mas ela é muito respeitosa. Da mesma forma que, quando a gente fala que tem que dar o carinho, a gente vai dar o carinho. Mas, na hora que tem que dar a porrada, a gente vai dar a porrada também. O que é mais desafiador na sua função: lidar com empresário, pai de jogador ou atleta? – É, são muitas coisas. Hoje participando de uma forma bem ativa também nas categorias de base, e eu falo isso porque eu tenho um projeto, como vocês sabem, em São Paulo, vejo que não são todos, não posso generalizar aqui, mas tem muitos pais que são difíceis. Para eles entenderem o processo é bem complicado. Você tem que explicar, você tem que mostrar. E eu sou verdadeiro. – Eu tenho 520 crianças lá no meu projeto. E aqui eu tenho mais 500 também. Só que eu não posso deixar de falar que tudo talvez possa acontecer. Eu não posso cravar para uma criança de 11 anos que ele vai ser um jogador profissional. Se eu não consigo cravar nem um de 15, de 17, de 20, eu não posso cravar o de 11. Em alguns processos, os pais são difíceis de entender. 5 de 11 Paulinho em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Emilio Botta Paulinho em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Emilio Botta Você falou que recebeu proposta para ser o executivo mais bem pago do mundo. Se nem isso mexe com você, o que seria necessário para te tirar daqui? – Não é a hora ainda. E aí a gente tem que tomar muito cuidado quando toma uma decisão. Eu poderia aumentar o meu patrimônio financeiramente [...] Mas, como você colocou, não quis ir para ser o melhor, o mais bem pago do mundo. Porque ainda não é a coisa que eu acredito 100%. Não é ainda aquilo que encantou meus olhos. Então, enquanto não é, eu vou seguir convicto. Você fala em ser o melhor executivo do Brasil ou até do mundo. Isso passa por deixar um legado? – Se eu deixar 1%, 2% do que eu penso como futebol, como gestor, minha missão está feita no futebol. Até porque eu sei que... E nem quero também. Eu não quero mudar o futebol. Eu não vou mudar o futebol. Mas alguma coisa eu vou deixar de diferente. Isso aí vocês podem ter certeza. Paulinho fala sobre convite de Messi para jogar no Barcelona Você disse que o Mirassol é diferente. Por quê? – É porque são muito claras as coisas. Se as coisas forem muito claras, no final ninguém sai chorando. Ninguém sai resmungando. Ninguém sai falando mal. Agora, se as coisas, desde o início, não forem diretas, não forem claras, sempre vai gerar dúvida. – No Mirassol, quando você chega, trabalha, trabalha, não tem folga, não. Aqui você vai trabalhar, você vai ter folga quando a gente achar que vai ter folga. Todo mundo sabe já, não tem, nós temos que trabalhar mais, o Mirassol tem que trabalhar mais, tem que treinar mais. É isso. Tem que passar mais tempo no clube recuperando. Todo mundo sabe o cenário do Mirassol. E vai ser assim. Porque chegou até aqui, como? – Não está falando o Paulinho, que chegou agora. Está falando de 30 anos que essa diretoria está na gestão. Foi assim. E eu não vou mudar. Você vai aprendendo que onde tem o diálogo, onde tem a conversa, ninguém é dono da razão, mas cada um colocando um pouquinho da sua experiência, dá para construir algo junto. Agora, as pessoas têm que estar abertas também para escutar. Há uma cobrança da sua parte para alcançar esse objetivo de ser o melhor executivo do mundo? – Eu sempre fui um cara muito consciente e convicto do que eu posso fazer. Não tem essa cobrança do tipo "preciso ser o melhor do Brasil, preciso ser o melhor." Não, não tenho nada disso. Um dia eu posso ser, se continuar fazendo o que estou fazendo, evoluindo, aprendendo, estudando, tendo algumas experiências no dia a dia do clube, tomando decisões corretas, fazendo as pessoas entenderem também que eu vou errar. Tudo faz parte do processo, o erro faz parte do processo. – A minha maior diferença talvez seja que os meus erros, quando acontecem ou vão acontecer, nunca vão ser para prejudicar um ser humano, um profissional. Até porque não preciso prejudicar ninguém. Então, isso faz com que me deixe em paz. Se eu errar um dia, vai acontecer, tudo normal. Não tenho essa cobrança e nem essa loucura de "preciso alcançar isso aqui de qualquer maneira", não. Se for para acontecer, vai ser um processo natural. Até porque eu tenho um ano e quatro meses de função. Vou entrar no sexto ano estudando gestão, então não tem por que você ter uma cobrança, já que tem muito tempo ainda, tem muitas coisas para acontecer. 6 de 11 Paulinho em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Emilio Botta Paulinho em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Emilio Botta Ao sair do clube você consegue desligar do trabalho? – Difícil. Não consegui ainda. Por exemplo: agora, no último jogo, três da manhã você vai dormir. Mas isso aí, me conhecendo bem, enquanto eu estiver no futebol, não vai mudar. Algum dia eu vou parar também. Eu não vou trabalhar o resto da vida também. Porque eu sempre brinco com eles: não é possível que eu vou ter que aturar vocês por mais 20 anos. Não vou cuidar de vocês por mais 20 anos. Mas enquanto você está no futebol, não tem como. Você joga 9h30 da noite, não tem como você ir dormir meia-noite e meia. Acho que isso... realmente esse ponto é só quando eu parar. Dois temas muito atuais e que recorrentemente aparecem no Abre Aspas são as relações dos jogadores com redes sociais e com bets. O que você pensa sobre isso e como orienta os atletas? – A rede social hoje já nem sei se é bom, se é ruim, se é mais ou menos, porque, com todo o respeito que eu tenho às pessoas, tem muita gente que na rede social é super feliz. Mensagens bonitas, fotos bonitas, mas tira aquilo ali e é uma tristeza em pessoa, né? Não sei até onde ajuda isso. Então, dentro do clube, sou um cara muito direto também. A questão de bet, eles estão cansados já de ouvir, por todo mundo. Todo mundo sabe como é hoje em dia, então isso aí é um assunto que é antes de temporada, meio de temporada, durante temporada, sempre alertas. 7 de 11 Paulinho em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Emilio Botta Paulinho em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Emilio Botta Você acha que hoje a saúde mental se tornou algo mais debatido no futebol? – Eu acho que está sendo mais falado, sim. Cara, todo ser humano precisa descansar. Todo ser humano precisa de um descanso, porque fica uma coisa surreal o futebol, né? O futebol te consome. De um jeito que você fala: cara, eu não consigo deitar. Não consigo ficar uma hora deitado no sofá. Então, as pessoas vêm enxergando que isso é mental. Você pegar um atleta de futebol hoje, você falar para ele assim: ó, você vai jogar hoje, amanhã e depois de amanhã. Óbvio que nunca vai acontecer isso. Mas você virar para ele, ele vai falar assim: eu jogo. Por que ele vai falar isso? A cabeça tem que estar muito boa para ele falar isso, porque, senão, ele vai falar assim: esquece, meu filho, eu não vou jogar porque eu não tenho nem cabeça para isso. – São coisas básicas e simples da vida, você tem que ter o descanso, você tem que estar mentalmente com a cabeça mais tranquila, eu não posso exigir de um atleta... Por exemplo, ele chegou aqui cansado, destruído de uma partida, e aí você coloca ele para uma sessão de treino que vai exigir de novo. A cabeça dele já não está aqui. Você tem que entender o ser humano. Existe o cansaço mental. E por isso que, quando chega aos 90 do segundo tempo, o cara consegue fazer uma assistência que ninguém imagina que ele consegue fazer. Paulinho conta se voltaria ao Corinthians E como foi no momento em que você teve duas graves lesões no Corinthians? – Eu falo isso tranquilo, mas, quando eu jogava, não. Eu tive só essas duas lesões. O tempo que fica (em recuperação) é muito longo. Então você fica nove meses (parado) e dá a entender que o Paulinho teve várias lesões. Eu tive duas. Eu nunca fiquei uma semana fora por lesão. Eu já joguei na China, em 2020, com uma lesão de grau 3 aqui e joguei o campeonato. Ah, como vai fazer? O treinador perguntou: "Não faz exame?" Eu não vou fazer exame porque eu nunca tive lesão e eu sei que eu tenho. Eu vou jogar, sim. E joguei 13 jogos. Joguei lá e fui vice-campeão. – Então, assim, o tempo que eu fiquei no Corinthians foram nove meses. Cara, é muito tempo. Na primeira lesão, como foi a minha primeira, sentei com a minha esposa e falei: não tem outro caminho, é recuperar. Fazer a cirurgia e ponto. Fiquei uma semana, mais ou menos, até desinchar e fiz todo o processo. Voltei a jogar. A segunda foi a que eu pensei mais. A gente volta da Argentina para o Brasil e ali mesmo, na Argentina, eu falo com a minha esposa: eu acho que deu. E ela: "não, não tem outro caminho, é cirurgia e tratar de novo." Falei: cara, são mais nove meses, mais um ano. Sofrer tudo de novo, dor de novo, cirurgia de novo. "Não, não tem outro caminho. Você falou que queria parar dentro do campo." E foi isso que eu falei: eu vou parar um dia, mas dentro do campo. – Volto para o Brasil, cheguei no Corinthians com a diretoria, com toda a equipe médica, fisioterapeuta, e falei: eu preciso de 15 dias. E aí eu vou decidir se eu vou voltar a jogar futebol ou não. A diretoria falou: vai, viaja, pensa, aqui é unânime que você tem que voltar a jogar. Falei: vou pensar. Faço a viagem com a minha esposa durante 15 dias para a Suíça. Então, a viagem passa a ser estudo também. De uma forma geral, consegui refletir bem e, na viagem, eu decido, junto com a minha esposa, que vou voltar a jogar e vou fazer a cirurgia. 8 de 11 Paulinho é homenageado em despedida do Corinthians — Foto: Marcos Ribolli Paulinho é homenageado em despedida do Corinthians — Foto: Marcos Ribolli A crise no Corinthians ajudou você a pensar em aposentar antes? Tem receio de voltar ao clube como executivo? – Quando eu saio do Corinthians, entendo que são ciclos. Enxerguei que o meu ciclo tinha se encerrado no clube. Teve proposta para estender o vínculo até dezembro, mas era fim de ciclo e eu tenho que respeitar. Quando tive a segunda lesão, precisava renovar o contrato porque eu estava lesionado. Surgiram assuntos de que eu não queria abrir mão do dinheiro. Ainda tive que escutar isso. Mas eu me machuquei jogando dentro do clube. E, na internet, falam uma mentira e, se você não se pronunciar, vira verdade. Teve conversa com empresário e diretoria sobre o salário. Eu falei que não tinha problema. Eu estava preocupado em me recuperar. – Naquela época, eu abro mão de 40% do meu salário. Mas ninguém fala disso. Eu saio do Corinthians ajudando 40 pessoas todo mês. Passei quase um ano ajudando 40 famílias. O ponto era focar na minha recuperação, mas focaram no dinheiro. Eu voltei para o Corinthians porque eu quis voltar. Quando todo mundo achou que eu não ia voltar, eu voltei. Agora eu não sou atleta mais. É Paulinho, executivo de futebol. É com o trabalho, com o dia a dia, com o que vem acontecendo no Mirassol. Medo e receio eu não tenho. Se vou acertar ou errar, é outra história. Trabalharia em um rival do Corinthians? – Pela história que tem, cria-se uma rivalidade. Existe a rivalidade ainda, como até hoje entre os clubes. Mas acho que a gente precisa diferenciar. Obviamente que não é um movimento normal. Por tudo que foi construído, por tudo que foi feito, não é normal. Eu aqui, eu nunca tive problema com instituição alguma. Agora, trabalhar em um rival, acho que realmente é uma situação de muita complexidade. Porque são sete anos que estive dentro do Corinthians, existe uma história muito linda, onde ninguém vai apagar. Por mais que, em alguns momentos, tentaram, mas não conseguiram. Então, hoje, se falar em trabalhar em um rival, acho bem difícil. 9 de 11 Paulinho em jogo pela Seleção — Foto: Sergei Karpukhin / Reuters Paulinho em jogo pela Seleção — Foto: Sergei Karpukhin / Reuters Foi um momento de troca de gestão muito turbulento no clube que você pegou bem na reta final da sua carreira... – Foi um momento bem conturbado. Você tem uma gestão de 15 anos e entra uma gestão nova, com pensamentos diferentes, novos desafios e novos objetivos. Então tudo mudou radicalmente. Foi um impacto grande para todo mundo, em um ano turbulento. Os resultados não apareceram e todo mundo ficou pressionado: jogadores, colaboradores, presidente, executivo, gerente de futebol. O Corinthians é pressão a todo momento. Você ganha ou ganha ou ganha. O torcedor quer que você esqueça os problemas, dê 50 carrinhos e ganhe o jogo. Mas a gente precisava deles também. Eu falei nas reuniões: a gente precisa da ajuda de vocês, porque o jogo não flui, o jogo não sai. A parte política não cabia a nós. Quem tem que resolver é a diretoria. – Eu já vivi muita pressão no Corinthians, mas, nessa mudança, foi demais. Quando eu saio, acho que fui o último dos mais experientes. Porrada não tem problema. É mais fácil dar porrada em mim do que dar num garoto. Eu fui líder, fui capitão, fui um gestor nos meus últimos seis meses de Corinthians. Performance não teve, mas eu consegui fazer o torcedor entender o momento que nós estávamos passando. Se for para dar porrada, que dê em mim. Não dê no garoto. Porque é do garoto que vai sair alguma coisa para o clube. O Corinthians é diferente. Quem não entender, não joga. Quem não entender, não trabalha. Quando está bom, é maravilhoso. Quando está ruim, quem não tiver a costa larga não fica. Essa é a cultura corintiana. Paulinho fala sobre como viveu a última grande crise no Corinthians Qual Copa do Mundo te deixou mais chateado? – Acho que foi a última que eu joguei (2018). Pelo momento que nós estávamos vivendo na Seleção, de sequência de jogos, vitórias e performando bem, foi um balde de água fria. Nós enxergávamos que poderíamos chegar na final. A eliminação para Bélgica foi um gosto amargo. Em 14 eu sempre falei: a responsabilidade é nossa. Como achar um culpado no 7 a 1? Num 2 a 1 ou 3 a 2 você pode achar uma falha individual. Agora, 7 a 1, não. O culpado somos nós que tomamos 7. Assume a responsabilidade, ponto final. Até hoje eu não consigo identificar o que houve. Todo mundo fala que deu um apagão. Não saía nada. Nada funcionou. Nós não conseguimos produzir. Nós não conseguimos jogar. Eu não conseguia fazer nada. Então é assumir, pedir desculpa para o país por uma atuação que nunca pode acontecer. E seguir a vida. Neymar deve ir para a Copa? – Falo com ele poucas vezes. Falei com ele, inclusive, na semana passada. Fui muito claro: o nosso país precisa de você, e a Seleção precisa de você. Mas depende de você. Depende do teu trabalho, do teu esforço, da tua cabeça e do que você quer. Eu, Renato Augusto, sempre falamos a verdade para o Neymar. Se você quer jogar outra Copa do Mundo, vai ter que se esforçar. Não tem outro caminho: se cuidar, treinar e jogar. Ele tem que performar no Santos para ter chance na Seleção. Estamos a poucos meses de uma Copa do Mundo. Eu senti que ele quer. Mas depende dele. Se estiver disposto a pagar o preço nesses meses, vale a pena. Pode ser a última. Pode ser a última e campeão do mundo. Eu acredito no meu país. 10 de 11 Messi, Suárez e Paulinho celebram gol pelo Barcelona — Foto: REUTERS/Albert Gea Messi, Suárez e Paulinho celebram gol pelo Barcelona — Foto: REUTERS/Albert Gea Como foi o convite do Messi para você jogar com ele no Barcelona? – Eu estava na China, no Guangzhou Evergrande, e teve um amistoso na Austrália. Teve uma falta, encostamos na bola eu e o Willian, e o Messi veio atrás. Eu só escutei ele falando: Barcelona. Ele perguntou: vamos para o Barcelona? Eu falei: se você me levar, eu vou. Depois do jogo trocamos as camisas. Voltei para a China e o Neymar falou que eles queriam que eu fosse para o Barcelona. Eu falei que também queria, mas não dependia de mim. Eu ainda tinha três anos de contrato com o Guangzhou Evergrande. Estava feliz, campeão e com a família adaptada. As negociações começaram em junho e foram até agosto. Eu falei para o meu empresário decidir. O clube chinês só aceitou quando pagaram a multa. E foi onde tudo aconteceu. Por que vemos tão poucos negros ocupando cargos de técnico ou de executivos no futebol? – Eu não sei se algum dia eu vou entender. Se a gente for avaliar um profissional pela cor, está errado. Eu já passei por isso e já cansei de falar sobre isso. A gente fala, se pronuncia, faz campanha e continua acontecendo. Por exemplo, a questão de racismo. O que leva um ser humano a sair da tua casa para ofender uma pessoa? Você toma café com a tua família, vai ao estádio e ofende uma pessoa. O que você tem na cabeça? Não dá para entender. E eu vou falar isso hoje, vou falar isso daqui a seis meses e vou falar daqui a um ano e meio. Alguma posição vai ser tomada? As autoridades têm que tomar posição. Porque a gente bate na mesma tecla e nada muda. Continua acontecendo. 11 de 11 Paulinho em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Emilio Botta Paulinho em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Emilio Botta