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Só para assinantes Assine UOL Opinião No areião Juca Kfouri Colunista do UOL 27/10/2025 16h43 Deixe seu comentário Carregando player de áudio POR LUIZ GUILHERME PIVA Os amigos foram morrendo em curto período - é o costume ali. Alguns mais novos, outros menos. Todos colegas de pelada. Mas ele seguia vendo-os em todos os lugares. Um na esquina. Outro na ladeira. Às vezes dois juntos conversando na birosca. Só ele os via. E o cumprimentavam: um aceno com a mão, com o queixo, com a sobrancelha, um tinindo. Ele respondia, mas os vivos em torno estranhavam. Achou que aquilo pararia, mas continuou. Ele gostava. Tanto que programou a pelada de sempre no areião. Fez gestos para cada um que encontrava imitando bola e chute e todos já sabiam onde era, a que horas, como seria. E foram. Ele com a bola, todos chegando, se posicionando, rindo. Deu a saída. Era uma baixada, um platô na encosta do morro, no meio das casas e ruelas que ficavam no alto. Lá de cima alguém viu e começou a chamar todo mundo. Juntou gente. No areião, só viam ele, descalço, suado, correndo para todos os lados, ditando lances, pedindo bola, comemorando, reclamando. O pessoal se olhava e olhava para ele. Magro, exausto, suado, a noite quente pousando sobre tudo. Até que ele caiu. De costas no chão, os braços abertos, em cruz, os olhos no céu. Ninguém foi lá ver. Anoiteceu de vez. Cada um foi para o seu canto. Cedinho alguns voltaram para olhar. Ele estava lá embaixo, no mesmo lugar, os olhos abertos, os abraços esticados, a bola lambendo-lhe os pés. Até que o viram levitar. E parar à altura de ombros imaginários. E depois o viram flutuar, como se sustentado pelos ombros imaginários. E seguir até a beirada do barranco. E parar. O silêncio e o espanto pendurados lá no alto. E então ele voou. Planou no espaço. Na mesma posição: de costas, braços abertos, olhos abertos, as costelas pontudas. E sumiu. No areião, só a bola. Que, de repente, começou a se mover para todos os lados, como se tocada num jogo. Por muitos pés, muitas pessoas. Eis que, num chute forte, ela também ganhou o espaço. Na mesma direção em que o corpo dele seguira. E também sumiu. Todos se olharam. Ninguém falou nada. Afastaram-se devagar. Dispersaram-se. Voltaram para suas vidas. E suas mortes. É o costume ali. ____________________________________ Luiz Guilherme Piva publicou "Eram todos camisa dez" e "A vida pela bola" - ambos pela Editora Iluminuras Josias de Souza Diálogo de Lula com Trump conduz ao mal necessário Vinicius Torres Freire Milei renova o poder para virar Argentina do avesso Felipe Salto Amadorismo é vencido em encontro de Lula e Trump Raquel Landim Vitorioso, Milei ganha fôlego para tentar reformas Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. UOL Flash Acesse o UOL Flash Receba novos posts de Juca Kfouri por email Informe seu email Quero receber As mais lidas agora Encontro entre Lula e Trump é vitória da 'Realpolitik' sobre o amadorismo Corinthians: Novo estatuto prevê voto de sócio-torcedor e fim da reeleição Lento e poderoso: por que furacão Melissa pode ser catastrófico na Jamaica 'Não fui consultado', diz Flávio Bolsonaro sobre apoio do PL a Paes no Rio Levi, filho da prima de Ana Castela, morre dias após a mãe