🔎 ou veja todas as análises já realizadas

Análise dos Times

Botafogo

Principal

Motivo: O artigo foca na trajetória de Jair Ventura como técnico, com grande parte de sua carreira e momentos marcantes associados ao Botafogo, o que gera um viés positivo ao clube.

Viés da Menção (Score: 0.4)

Motivo: O Palmeiras é mencionado como um rival em termos de investimento e em um jogo específico. A análise é mais factual e menos tendenciosa.

Viés da Menção (Score: 0.1)

Motivo: O Vitória é o time atual de Jair Ventura, mas a matéria foca mais na sua reflexão sobre a carreira do que no desempenho recente do clube.

Viés da Menção (Score: 0.0)

Motivo: O Flamengo é citado em confrontos históricos e como um rival, mas a narrativa se mantém neutra em relação ao clube.

Viés da Menção (Score: 0.0)

Palavras-Chave

Entidades Principais

Vasco Grêmio Flamengo Botafogo Corinthians Libertadores Sport Santos Palmeiras Juventude Copa do Brasil Vitória Atlético-GO Vinícius Júnior Jair Ventura Andrés Sanchez Avaí Chapecoense Goiás Jairzinho Renê Simões Anderson Barros Victor Luis Joel Santana Ricardo Gomes Berrío Carlos Eduardo Pereira Estevam Soares Loco Abreu

Conteúdo Original

Jair Ventura comenta a vida de treinador, injustiças do futebol e a distância da família Jair Ventura dança conforme a música. Parece clichê, mas é a realidade desse ainda jovem treinador que completa 10 anos de carreira numa metamorfose sem fim. Com rótulos, sim, mas com resultados e adaptações de times de acordo com a necessidade. Técnico do Vitória desde o fim do ano passado, Jair já considerava um feito empatar com o Palmeiras no ano passado, dadas as diferenças de investimento entre paulistas e baianos. Quis o destino que a entrevista realizada no dia 22 de dezembro fosse publicada dois dias depois do seu time sofrer goleada impiedosa de 5 a 1 para o Palmeiras. Como brincou no Abre Aspas, convidou a reportagem a buscar na internet um treinador que tenha salvado clubes da degola. De fato, o filho do Furacão Jairzinho livrou cinco times do rebaixamento nos últimos anos. Em 2025, foi o Vitória - antes, Sport (2020), Juventude (2021), Goiás (2022) e Juventude (2024). Jair Ventura relembra início na carreira, os rótulos e a dancinha contra o Colo-Colo De cabeça inchada depois da derrota em São Paulo, Jair é mais um treinador que não sabe o dia de amanhã - e não reclama da vida que escolheu. Lamenta mesmo é a distância da filha tão aguardada e da família. Na entrevista, reflete sobre a profissão, os métodos e o ambiente do futebol. 1 de 9 — Foto: Infoesporte — Foto: Infoesporte Ficha técnica: Nome completo: Jair Zaksauskas Ribeiro Ventura. Profissão: treinador de futebol. Nascimento: 19 de março de 1976, no Rio de Janeiro. Carreira: Botafogo , Santos , Corinthians , Sport, Chapecoense , Juventude, Goiás, Atlético-GO , Avaí e Vitória. Título: Campeão Goiano de 2024 Acesso: Atlético-GO (2023) Abre Aspas: Jair Ventura Você completa 10 anos da sua estreia, de maneira efetivada, neste 2026. O quanto o Jair mudou nesse tempo todo? — Nossa, mudou 1.000%. Não sou só um profissional, mas uma pessoa totalmente diferente. Não vou nem falar de 2016, quando fui efetivado, mas vou falar do meu último trabalho, antes do Vitória. Uma mudança muito drástica de treino, de comportamentos, de ideia, de modelo de jogo. Hoje, eu faço coisas que eu nunca pensei em fazer alguns anos atrás, alguns meses atrás, algumas semanas atrás. Os treinos para os jogadores têm que ser prazerosos, mas ao mesmo tempo você precisa trabalhar aqueles comportamentos que você acha necessário e nessa nossa vida que você pega e tem que mudar o pneu do carro com o carro andando, você tem que fazer com que eles assimilem essas ideias muito rápidas. Então, de repente, você não tem muito tempo. E nesses 10 anos eu venho aprendendo bastante com isso. Quando eu fiz minha estreia no Corinthians, o Corinthians perde numa quarta, numa quinta o Andrés (Sanchez, dirigente do Corinthians) me liga, eu vou jantar com ele na quinta à noite, na sexta de manhã tem regenerativo, sábado de manhã tem bola parada e domingo minha estreia no Allianz contra o Palmeiras. Aí segunda você descansa, terça viaja, quarta, semifinal de Copa Brasil contra o Flamengo no Maracanã. Ou seja, praticamente não teve sessão de treino, encarando dois arquirrivais. A gente consegue a classificação para a final eliminando o Flamengo. Então, essa é a vida do treinador e a gente está em eterna evolução . Como foi a efetivação lá no Botafogo em 2016? — Na época, me perguntaram se eu estava pronto e eu falei que não. Foi aquele baque na coletiva. “Pô, você não tá pronto, o que você está fazendo aí?” Porque eu acredito que a gente está numa eterna evolução, eu sou um eterno aprendiz . Então hoje eu sou muito melhor do que ontem, o que dirá de 2016. Não estava pronto lá e não estou pronto hoje. Eu vou estar sempre procurando me aprimorar e melhorar. — Eu fui efetivado em 2016, mas meu primeiro jogo como treinador foi em 2010. A gente perde 6 a 0 para o Vasco, eu era o auxiliar da casa no Botafogo e o Estevam Soares acaba sendo demitido. O Anderson Barros era o executivo. Ele me chama na sala e fala: “contratei o Joel, mas está muito em cima, ele não vai fazer o jogo. Você que faz o jogo”. Contra o Tigres, em São Januário, meu primeiro jogo como treinador. A gente vence, Joel assume. Ele já assistiu tudo, viu a minha preleção, ficou ali do lado, mas quem fez o jogo fui eu. Depois damos aquela arrancada e a gente é campeão na cavada do Loco Abreu. Momento difícil, com vices já para o Flamengo no estadual e a gente consegue ser campeão. Eu tenho um amigo que fala: “pô, você ficou invicto por muito tempo”. Lógico, eu só tinha um jogo (risos). Ganhei e depois fui fazer meu outro jogo só em 2015, na Série B. Saio do Botafogo em 2013 para 2014, fico fora no ano do rebaixamento, volto em 2015 com o Renê Simões para aquela montagem do time e aí o Renê acaba saindo em meados do campeonato e vem o Ricardo (Gomes). Aí nessa transição também faço mais três jogos como interino e a gente bate campeão da Série B. Então, fui conquistando o meu caminho. Em 2012, eu fui treinador do sub-20, fiquei três anos de auxiliar da seleção brasileira, sendo campeão sul-americano, disputei mundial... Foi uma experiência muito bacana representar o nosso país também. Você substitui o Ricardo Gomes? — Isso. Antes de eu ser efetivado, o Ricardo tem uma proposta para ir para o Cruzeiro, só que o Carlos Eduardo Pereira, o nosso presidente no Botafogo, faz uma proposta para ele ficar e ele acaba não indo. Se ele fosse, iria me levar. Aí teve a do São Paulo, ele tinha mais um auxiliar, o Luiz, e falou: “não vou conseguir te levar agora, fica firme aí que no final do ano eu venho e te busco”. Só que nesse dia que ele sai, o presidente me liga e faz o convite para ser o treinador do Botafogo. Ele me disse: “eu preciso de um treinador”. Eu falei: “vamos, conheço muita gente, vou te ajudar”. Ele: “não, você não está entendendo, eu estou falando com o meu treinador”. 2 de 9 Jair Ventura conversa com Carlos Eduardo Pereira no Botafogo — Foto: Divulgação / Botafogo Jair Ventura conversa com Carlos Eduardo Pereira no Botafogo — Foto: Divulgação / Botafogo — A minha esposa estava do lado, olhou assim, eu fiquei meio pálido. “Você quer pensar?” Aí eu olhei assim, estava com o computador na frente, falei: caraca, time na zona de rebaixamento, a gente vindo de uma Série B, um momento delicado financeiramente. Primeiro jogo do returno era o São Paulo, no Morumbi. Falei: “presidente, estou pronto”. “Posso te anunciar?” “Não sou interino, não?”. Ele falou: “não, você está efetivado, você é o novo treinador do Botafogo”. — Aí você imagina, né? Um garoto, cara começando, sem histórico, filho do Jairzinho... Já temos o primeiro rebaixado. Os memes já estavam prontos (risos). A gente vai lá no Morumbi e ganha o jogo, 1 a 0, gol do Sassá. Vamos arrancando, arrancando, arrancando, tivemos aproveitamento de quase 60%. Saímos da zona de rebaixamento, saindo de uma Série B, para a Libertadores. Foi um ano maravilhoso e antes de 2017, que eu acho que é o ano que eu me firmo ali no mercado. O seu Botafogo faz grande campanha na Libertadores daquele 2017. — A gente vai até as quartas de final da Libertadores. Eliminamos cinco campeões em uma única edição, a primeira vez na história – olha a coisa que só acontece com o Botafogo. A gente vai até a semifinal da Copa do Brasil, com o Flamengo, tem aquele drible do Berrío, vocês lembram? O Vinicius Jr já estava do meu lado aquecendo, ia entrar no lugar do Berrío, ele dá um drible, passa por fora do campo no Victor Luis, que é um dos meus melhores marcadores, e a gente perde ali a classificação em dois jogos muito disputados na semifinal. E por um ponto a gente não classifica o Botafogo de maneira consecutiva para uma Libertadores. — Na Libertadores, fizemos uma campanha muito digna, a gente sai para o Grêmio jogando melhor. “Ah, beleza, jogou melhor, mas perdeu”. Mas jogamos melhor, o que mostra o potencial do nosso time. E o Grêmio foi campeão daquela Libertadores. Você falou recentemente que já teve um rótulo e agora tem outro. O anterior era qual? Retranqueiro? — É engraçado, né? A gente era retranqueiro, agora a gente é o quê? Bombeiro. E assim vamos embora. Nessa a gente está há 10 anos aí trabalhando, são nove anos e só em um ano eu não joguei Série A, que foi em 2023. Quando a gente chega no Atlético-GO em décimo primeiro colocado na Série B, semelhante à situação do Botafogo. Tinha um turno todo para fazer. E a gente em décimo primeiro consegue levar o time para a Série A. Foi uma arrancada também fantástica. 3 de 9 Jair Ventura quando era técnico do Atlético-GO — Foto: Ingryd Oliveira / ACG Jair Ventura quando era técnico do Atlético-GO — Foto: Ingryd Oliveira / ACG — Quando eu cheguei no Vitória agora, a gente teve uma passagem de novo pela Série B, no Avaí, e muita gente falou, “não pode vir para o Vitória, estava na Série B”. Acho que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Os nossos melhores trabalhos foram quando tivemos sequência. Em 2017, foi o meu melhor trabalho porque a gente vinha de 2016 de uma situação que a gente foi, entre aspas, bombeiro, mas na verdade quem decide são os jogadores. A gente é um pequeno suporte ali para que as coisas possam acontecer, como foi nesse ano. — Mas já são cinco vezes né. E em 2017 foi o meu melhor ano. O Atlético-GO, em 2023, a gente chega no meio do processo e no outro ano que eu tenho continuidade. A gente é tricampeão goiano, com 15 vitórias consecutivas. Com melhor ataque, melhor defesa do campeonato, enfim... — Mas, então, a gente é o que? É só o cara que ajuda a salvar, a gente é o retranqueiro, enfim... São rótulos que vão dando, mas a gente sabe como é que funciona. O retranqueiro já ficou para trás, agora o bombeiro e daqui a pouco tem um rótulo novo. A gente espera, enquanto tiver rótulo, o telefone está tocando e a gente está empregado, graças a Deus (risos). Esses rótulos te incomodam? — Zero. O que as pessoas pensam de mim não me define . Zero, zero, zero. Eu sei do meu tamanho, eu sei do meu potencial. Não é fácil ser o treinador mais jovem a dirigir um Corinthians no século. Não é fácil você ter 20 jogos com pouca idade de Libertadores como eu tive com 60% de aproveitamento. Então, o que falam, o que pensam, não adianta, não adianta. Não vai me abalar, não vai mexer e eu sigo trabalhando. E sigo dando resultado em todos esses anos. Mas podem acabar atrapalhando o teu posicionamento de mercado? — Ah, com certeza. Só que eu não posso fazer nada sobre isso. Eu também não posso deixar que isso interfira o que eu sei que eu sou. Eu posso ter oportunidade, como eu tive a oportunidade agora, que muita gente achava que não era para ter, e eu mostrei, como eu estou mostrando desde 2016. Mas isso vai ser sempre, faz parte e tem que saber lidar com isso. No momento em que essas coisas, que são pejorativas, venham te interferir, você deixa de ser quem você é e deixa de dar resultado. — Busquem aí na internet, um cara que livrou cinco times em nove anos. Não tem. No dia que eu não livrar um, não livrar outro, de repente a gente já vai para outro rótulo. Então como é que eu vou ficar chateado numa coisa positiva? São cinco feitos dificílimos para fazer. São dois times que não foram rebaixados, depois que o Santos caiu, só tem o São Paulo e o Flamengo. Pergunta para os demais times torcedores que foram rebaixados a importância de uma permanência. “Ah, mas estão comemorando permanência”. Deixa o seu time cair para você ver. — O Milton Bivar (ex-presidente do Sport), que faleceu agora, foi meu presidente. A gente foi jantar e tomar um vinho depois da permanência lá no Sport. Eu falei: “deixa eu te fazer uma pergunta, se a gente tivesse sido rebaixado hoje, era um prejuízo de quanto para o Sport?” Ele falou: “R$ 60 milhões”. A conta é mais ou menos essa. O futebol está cada vez mais caro, a cota de patrocínio, de TV, as cotas são cada vez maiores, então o prejuízo é muito maior. Chegou um tempo ainda que os times tinham a mesma cota mais um ano, hoje não. A cota cai, tem que se remontar. O futebol brasileiro hoje vive alinhamento entre expectativa e realidade. O quanto acha que um feito desses vai condicionar também a percepção externa sobre os trabalhos? — Acho que as dúvidas vão ter sempre. Como tiveram dúvida quando eu fui efetivado em 2016. Mas sabe onde eu me apego? Eu, um mero mortal, um treinador jovem começando a carreira, fazendo 10 anos. Mas minha maior referência é o Zagallo. Em 1997, já vencedor de tudo, ele quase dá um bico na câmera e fala assim: “vocês vão ter que me engolir”. Se o Zagallo fala “vocês vão ter que me engolir”, imagina eu? Então a gente vai sempre mostrando e mostrando. Virou o ano tem que mostrar mais alguma coisa. — Viram o Dorival agora? Ganhou as três Copas do Brasil nos últimos quatro anos e todo mundo questionando. É a nossa vida. Você tem que saber lidar com isso. Eu me preparei demais para lidar com isso, então vamos embora. Vê o Tite, um dos maiores vitoriosos treinadores do futebol, de repente não deu certo no Flamengo, deu certo no Corinthians, foi campeão, foi na seleção teve os melhores resultados, mas na Copa do Mundo as coisas não andaram. Isso não faz dele um treinador pior ou melhor porque foi ali e de repente não foi tão bem no trabalho e foi bem no outro. Vai muito das circunstâncias. Só que a gente não analisa circunstâncias também quando a gente vê. Como o seu pai tá de saúde? — Tá bem, tá bem. Sempre que eu tô no Rio, eles estão lá em casa direto curtindo a netinha, eu tenho uma filha. A minha mãe e meu pai estão sempre lá em casa. Ontem, a gente viu a final lá junto (da Copa do Brasil). Todo jogo manda boa sorte. Quando perde "vamos para a próxima, não deu". Ele já não é mais o furacão né, já tá com 81, o chopp, a minha mãe, a esposa, já fala: "calma, vamos tomar cervejinha em casa, fica aqui quieto, segura aí". Então, já não tá com aquela volúpia toda de girar tanto igual furacão, mas tá bem, graças a Deus, saúde boa. Tá bem. Jairzinho e Jair Ventura falam da diferença entre gerações Quanto ser filho do Jairzinho te abriu portas no futebol? — Ser filho do Jairzinho para mim é um privilégio . Antigamente a gente não tinha foto, na rua era autógrafo. Eu saía nas ruas, vinha todo mundo pedir um autógrafo para o meu pai e eu, moleque, não entendia. Não conseguia mensurar o tamanho dele assim. E com o passar do tempo você fala: “caraca, meu pai é o Jairzinho”. — Aí daqui a pouco tem excursão dos caras de 70, você tem Pelé, Rivellino, Tostão, os cara todos contigo assim. Então isso pra mim foi muito normal. Eu vivi nesse meio. Então os cara: “pô, você tá no Corinthians, o Sheik tem sua idade, o Danilo tem sua idade. Como é que você consegue controlar esse vestiário?” Para mim isso é muito natural, eu estar no meio desses caras, desses ícones, no vestiário, até por eu ter sido atleta. A gente não teve um problema de gestão. — “Ah, o Jair perdeu o vestiário. Ah, o Jair saiu por isso...” O que a gente tem, eu fui para a final de Copa Brasil, o gol do Pedrinho foi anulado e aí não veio o título (pelo Corinthians). Se a gente tem 5 derrotas consecutivas, troca o treinador, essas coisas que acontecem de resultado. Mas uma coisa que eu me orgulho é de gestão em todos os clubes que eu passei, de não ter um “ai”. Eu falo para a minha comissão, a gente só tem um motivo de sair do clube: é se a bola não entrar. Você jogou bem, a bola não entrou, a bola dos caras vai e entra, você perde dois, três, quatro jogos, a gente sabe como funciona o futebol. Agora, por gestão, por conduta, por trabalho, isso a gente não tem esse direito. Agora, um problema aqui, outro ali é contornável e, por vezes, inevitável? — É lógico que acontece (problema). A grande maioria dos jogadores é muito competitiva. Eu sou um cara extremamente competitivo, só que eu sei perder. Não gosto, sou extremamente competitivo, mas a gente tem que manter, como gestor, o grupo para olhar para a gente. Ao mesmo tempo que quando a gente ganha, acho que não tem oba-oba e quando a gente perde, a gente tem que ter o controle emocional muito bom, muito forte nesses momentos que a gente sabe que o futebol é de vitória e derrota. — Lógico que vai ter discussão, lógico que vai ter jogadores menos satisfeitos que outros jogadores, isso é comum. Agora tem treinadores que gostam de, de repente, expor mais a situação. “Ah, mas esse treinador é muito bonzinho, ele passa a mão”. Eu acredito na minha gestão de cobrar de maneira interna, lógico que vai ter momentos que a gente sai ali pode ter cobranças dentro do jogo mesmo, mas eu prefiro não expor meus atletas. Eu prefiro fazer isso de maneira dentro do vestiário, que a gente fala que é um lugar sagrado. E dali tudo pode acontecer e tudo se resolve, né? 4 de 9 Jair Ventura - Abre Aspas — Foto: Roberto Maleson Jair Ventura - Abre Aspas — Foto: Roberto Maleson — Eu tenho uma filha de 7 anos. Meu último trabalho no Rio e o único foi o Botafogo. Eu saí no final de 2017. E de lá para cá já são 10 clubes e eu estou praticamente de 2018 até agora sem morar no Rio. Não levo a minha família, não levo a minha filha, que a gente sabe como é que é a vida de treinador. E a gente vive com os jogadores como se fosse uma família, eu, minha comissão, os atletas, a gente tá todo dia, a gente concentra, viaja. Então assim, tem o desgaste, lógico que tem, não é uma Disneylândia , mas tem que ter um respeito, caso aconteça, da gente divergir de ideias. Como lida com essas insatisfações? — Acho que sempre (lidar) com respeito. A gente fala muito quando o jogador sai que é falta de respeito com o treinador, quando bica água... Mas quando acontece a falta de respeito não é com a comissão, a falta de respeito é com o cara que treina igual a ele, na chuva, com família doente, com dor. E o cara, imagina, sai puto, mas e o outro que está entrando? Isso já tira a confiança do cara. O cara fala: “pô, então eu não posso, eu não tenho direito de jogar igual a ele?” A falta de respeito é com os companheiros deles que treinam todo dia também. — Muita gente me pergunta nas minhas coletivas, mas o fulano é o titular? Não, porque se eu falo que é, o outro faz assim (faz gesto para baixo com a mão). Eu estou aqui para ser o sparring dele? Então não. Vai jogar aquele que tiver melhor. O cara não pode se sentir seguro na posição. — Um exemplo, no Botafogo o Jefferson machuca. O Gatito bem pra caramba. O Jefferson volta, maior salário, capitão, seleção brasileira e aí vai voltar o Jefferson ou vai jogar o Gatito que tá bem? Dei sequência para o Gatito. Foi fácil pra mim? Eu, moleque, começando... era muito mais fácil, de repente, “pô, Gatito, desculpa Jefferson voltou...” Mas e os outros 30 e poucos jogadores que estão me olhando? Vamos ver agora se ele é bom de gestão mesmo. Se eles falam, na linguagem deles, se ele é de verdade. Ficou o Gatito. Como é que eu vou tirar o cara? É a oportunidade, apareceu por uma lesão do Jefferson. O Gatito foi bem e seguiu e é assim com todas as posições. Se você fala que joga o melhor e não joga, você perde o vestiário. Então, acho que essa é uma das maneiras de você ter um bom convívio, você ter um bom vestiário. 5 de 9 Jair Ventura - Abre Aspas — Foto: Roberto Maleson Jair Ventura - Abre Aspas — Foto: Roberto Maleson Você citou as feras dos tempos do seu pai. Como conviveu com tanto gênio do futebol? O quanto que isso também tem dentro de você, na sua percepção de jogo? — No início, você muito garoto, você não consegue mensurar a representatividade deles, mas com o passar do tempo, todos nós apaixonados pelo futebol, você vai vivendo assim e você fala, "caramba, tu tá do lado desses caras, tu tá dividindo uma mesa de jantar, uma viagem, um evento da Copa de 70". — Quando eu cheguei no Santos, Pelé fez um post para mim: “Espero que você tenha tanto sucesso igual o teu pai teve, que eu tive com o seu pai. Seja bem-vindo ao Santos!” O Pelé mandou um Twitter para mim, você imagina? Então, são coisas que marcam na nossa vida, com certeza. — A nossa referência é a seleção de 70, mas nem sempre a gente tem as peças de 70, né? Aí você vai pegar o time de menor investimento da Série A, você vai conseguir fazer aquilo que os caras faziam? Não. Então, esse sou eu, cara, esses são os nossos trabalhos. — Eu disputei uma Libertadores em 2017 com o Botafogo e a gente tinha média de 44% de posse, passamos em primeiro com uma rodada de antecedência. Em 2018, a gente disputou outra Libertadores, 78% de média de posse, passamos em primeiro com uma rodada de antecedência. Modelos totalmente diferentes, atletas diferentes, cenários de clubes diferentes, isso tudo tem que ser levado em consideração. Mas, lógico, o meu primeiro trabalho foi um trabalho de menos posse, um time mais reativo, ficou marcado, mas agora não mais. Agora, eu sou o bombeiro (ri). É assim que você se vê quebrando rótulos? — Acho que o mais importante é seguir dando resultado que os clubes precisam, seja uma permanência, seja um acesso, seja um título, uma classificação para a Libertadores, para Sul-Americana e isso a gente vem fazendo por onde a gente passa. Qual o objetivo do clube? É esse? A gente vem conseguindo alcançar. Daqui a pouco, o rótulo... "o treinador dos objetivos" , então tá bom, depois eu deixo o meu telefone, quem precisar dos objetivos, a gente passa o número que a gente vem, a gente vem alcançando nesses anos aí. Quem te ajudou, quem te inspirou, quais trabalhos, quais treinadores serviram para você evoluir? — Eu sou um pouquinho de cada um de todos eles. Todos. Sem exceção. Não vou falar nomes. Se eu esquecer um, depois o meu telefone vai tocar. Referências hoje fica muito fácil a gente falar de Klopp, de Guardiola, que a gente estuda, a gente vê um pouquinho de cada um deles, mas eu não posso, eu quero ser a cópia do Pep se não você tem as circunstâncias, as mesmas situações que ele tem de trabalho. No Atlético-GO, por exemplo, a gente era um grande da Série B, a gente conseguiu o acesso com o melhor ataque, o artilheiro da competição, o segundo maior em posse. Então assim, você consegue, em algumas ocasiões, você consegue fazer aquilo que você entende que seja o mais vistoso para fazer. — Não vou falar de clubes, mas você vai marcar em bloco alto. Se você tem dois zagueiros pesados, com pouca mobilidade, pouca recuperação, com bloco alto, você vai tomar bola nas costas e bola no espaço o tempo todo. Então, você vai fazer isso, são as ideias que você mais gosta, desde que você tenha atletas com essa característica. Existem treinadores que fazem independente disso e que põe como prioridade eles. Eu ponho sempre como prioridade os clubes que eu passo. Alcançar os seus objetivos. Entre de repente eu ficar com o rótulo, mas saber que eu deixei aquela torcida feliz, o presidente, o diretor tudo que foi pedido, isso é feito. Vai ter momento você vai ter que marcar mais, vai ter momento você vai ter que jogar mais. Então, é isso que a gente vai fazendo ao longo desses 10 anos: sendo mutável, de acordo com as características dos atletas, respeitando eles. 6 de 9 — Foto: Infoesporte — Foto: Infoesporte — No Goiás, a gente chegou na zona de rebaixamento, classificamos para uma Sul-Americana. Eu tinha Pedro Raul e Nicolas num bom momento. Eu joguei com dois noves. Agora, se eu tenho três zagueiros que estão num bom momento, por exemplo, o Halter, no Vitória, estava com a gente, foi um dos meus artilheiros agora. Eu libero dois alas que atacam mais. A gente joga com três zagueiros e libera Cáceres também, que fez gol pra caramba comigo. Então, vai muito de característica. Agora, se eu tenho dois laterais mais defensivos, não tem porque eu fazer uma linha de cinco, se eu tenho dois caras que não vão. — É de acordo com a leitura. Se você pegar todos os meus trabalhos, se você buscar lá no Wyscout, tem aquele mapinha de calor, existem treinadores que você vai buscar, pô, o treinador tal joga sempre no 4-2-3-1, defende no 4-4-2. Existem alguns treinadores que eu já vou encarar, que fazem muito bem o que eles fazem, mas não mudam. Não abrem mão do 4-2-3-1 e do 4-4-2 defendendo porque é a zona de segurança. Eu não tenho essa zona de segurança de sistema. Eu vou de acordo com os meus jogadores . Não que seja errado ou certo. Os caras vão adaptar um beirada, que não seja beirada, para não sair do 4-2-3-1. Eu não. Eu vou mudar. Pegando o rótulo do bombeiro, não tem nenhum fogo queimando agora. Você tenta ajustar o time com peças que deseja, mas entende também que o clube nem sempre vai conseguir atingir as tuas expectativas de mercado? Como você faz? — Ótima pergunta. Mas isso pode ser um grande defeito de alguns clubes. Porque, de repente, alguns profissionais vão ficar chateados com o rótulo e vão querer mudar uma estratégia de clubes que fazem. Exemplo: o Fortaleza, esquece que caiu esse ano, é um case de sucesso. Como é que o Fortaleza do Vojvoda jogava? Com posse ou transição em velocidade? Transição em velocidade. O Fortaleza foi moldado para fazer isso esses anos todos. — Agora, você imagina você chegar lá e falar assim: vou mudar o Fortaleza. Vou botar um time propositivo. Vamos contratar jogadores para ter mais posse, jogar com dois meias. Beleza. Você vai ter jogos que você vai conseguir propor. Aí, você vai pegar Flamengo, você vai pegar o Galo, ele vai conseguir propor? A gente não vai conseguir ter mais posse que o Flamengo. Não vai. Então assim, você tem que propor, mas e os seus adversários? Vou fazer isso no Campeonato Baiano. Aí, eu vou reformular a rota toda do início para jogar uma Série A? Não. Então, você tem que ter a realidade do seu clube, a realidade do campeonato. — A gente quer jogadores de força, jogadores competitivos. Para a gente igualar R$ 40 milhões, R$ 50 milhões de folha, você tem que ter um time extremamente organizado, extremamente competitivo. Se você não tiver isso, você não consegue ir lá no Allianz como a gente foi e conseguir o empate. "Ah, mas empatou com o Palmeiras?" Empata com o Palmeiras lá... entendeu? É muito difícil a Série A. Está cada vez mais difícil para equipes que não viraram SAF, que não têm grandes investimentos. A discrepância está muito grande na hora de contratação. É muito difícil para a gente. Eu vim para cá conversando com o Fábio (presidente do Vitória), com departamento de futebol, o tempo todo. A gente pensa num nome, a gente não tem a realidade desse nome, tem esse, tem esse e... 7 de 9 Jair Ventura conversa com atletas do Vitória — Foto: Victor Ferreira/EC Vitória Jair Ventura conversa com atletas do Vitória — Foto: Victor Ferreira/EC Vitória Como funciona essa parceria no Vitória? — O Fábio, desde que chegou, paga antecipado. Eu nunca tinha visto isso no futebol. Ele já pagou janeiro, ele paga antecipado (entrevista feita em dezembro). A gente não tem dívida. O clube anda numa crescente muito grande estrutural. Salvador é uma cidade maravilhosa e os jogadores se falam. Tem clubes que os jogadores não querem ir. Hoje, o Vitória é um case de sucesso. O Erick está pedindo para ficar, a gente está tentando renovar, entre outros jogadores que são felizes, que se adaptam bem ao clube. Nosso staff é muito bom. Nosso ambiente é muito saudável. O presidente está todo dia no clube. Ele está lá todo dia. Cumpre com seus compromissos e isso é o nosso diferencial de outras equipes que a gente briga, entendeu? — E a torcida nem se fala, né? Os cara pegam a gente na concentração, botam a gente dentro do avião. É impressionante! A torcida é coisa de maluco. A gente estava vendo agora nosso último jogo contra o São Paulo, a torcida começou a cantar, cantar, cantar, cantar, e ia começar o jogo, Wilton não, espera que tem que começar todos os jogos simultâneos. Daqui a pouco, os caras cantando, as torcidas cantando e quando você vai ver, você já está meio assim também (mexe o corpo). Eu olhei assim, tinha um jogador do São Paulo, o cara já assim também, já no clima da nossa torcida. É coisa de maluco, cara. A torcida, você vê os vídeos aí, eles invadindo, abraçando e tudo. É muita paixão e é muita responsabilidade quando tem essa paixão toda, né? Jair Ventura exalta estrutura do Vitória e fala sobre disparidade econômica entre clubes O seu rival está mais perto desses orçamentos gigantescos que você falou. Como fazer com que o torcedor, com essa paixão, entenda isso? — Não entende, não entende.. A gente tem que ganhar, né? Joguei um, ganhamos (nota da redação: no primeiro Ba-Vi do ano, deu Bahia). Tem que ganhar. O torcedor nunca vai entender de orçamento, de SAF, de grana, de poder, não vai. Essa é a grande verdade. Na hora que começa o jogo, meu irmão, é o clássico e ninguém quer saber de orçamento . Tem que dar um jeito de ser competitivo, de jogar e vencer o jogo. O Ceni, além do investimento do Bahia, é um excelente treinador. Já está um bom tempo lá. Eu fui pegar o Ceni, tinha não sei quanto tempo de trabalho, eu tinha nem um mês. Então é difícil, lógico que é difícil, mas vamos embora. — A gente tem que enfrentar. Na Série A, a gente pega Remo, depois Palmeiras e Flamengo. Já é assim cara. É só jogo grande e não tem jeito. Muito trabalho, arregaçar a manga que não tem milagre não. Maior desafio de um treinador é convencer o grupo das suas ideias? — Sempre. O treinador pode ter a melhor ideia do mundo, os melhores treinos, tudo, tudo, tudo. Agora como você vai passar isso pra eles? A comunicação é muito importante. O poder de persuadir os caras é muito importante. Se eles não comprarem as suas ideias, não vai acontecer . Os caras têm que comprar. Eles têm que acreditar que aquilo, se for por ali, vai dar certo. E aí as coisas acontecem. Agora, como extrair o máximo deles? Eu tenho diversos relatos de atletas. Pedro Raul deu uma declaração agora: "o melhor treinador que trabalhei foi o Jair". — Com o passar dos anos, a gente vai aprendendo um pouquinho, sabendo como extrair. Tem um que você tem que dar um pouquinho mais de carinho, outro não tanto. A gestão não é igual para 33 atletas. É diferente. Tem cara que tem que forçar mais. Eu tive um jogador que estava no momento sem fazer gol. Falei: "caramba, o que que eu faço pra esse cara voltar a fazer gol?" Vou começar a alfinetar ele. Eu comecei: "pô, mas e aí? Gol que é bom nada. Só faz gol de pênalti, de pênalti é mole. Até eu". Porra, teve um jogo difícil pra gente e aí ele foi lá e fez o gol. Veio no banco assim, para cima de mim, puto, "fala agora! Fala agora que só faço gol de pênalti." Era isso que eu queria. Ele: "puta que pariu!" Me abraça, me beijou, joguei ele pro alto. E é isso, cara, você tem que estimular. O jogo contra o São Paulo viralizou vídeo do Osvaldo falando com o grupo antes do jogo. Quão importante é o líder de vestiário para o treinador, para o grupo comprar a ideia? — É um facilitador muito grande. Eu tive já clubes que eu fui e não tinha esse líder assim. Então, o desgaste é muito maior para a gente. A gente tem que falar, a gente tem que estar sempre sendo a mesma voz, fica aquela coisa meio repetitiva, sabe? É bom quando você tem jogadores assim, líderes, que te ajudam, que sentem que é o momento de você falar um pouquinho mais. Eu sinto que o momento que de repente o jogo já é tão grande, você não precisa passar senão o cara passa do ponto, já vai tomar um cartão, ser expulso. Então, esse feeling assim é importante. Esses caras com essa representatividade dentro do campo, eles entendem que é um momento de repente de congelar mais o jogo. Porra, você pega o Barradão lotado, é difícil você passar instrução, o cara tá lá do outro lado, você não consegue falar. Estádios assim, a gente tava nessa reta final 100% de ocupação sempre, então é difícil falar. Então, quando você tem esse cara mais experiente que congela o jogo, ou acelera na hora que tem que acelerar, ou acalma, passa confiança, de repente tem um menino jovem que tá sentindo o jogo um pouco, ele: "calma, vamos, vai dar certo", sabe? Importante ter esses caras com esse perfil de liderança. São facilitadores para o treinador, não só dentro do vestiário, mas também no campo . 8 de 9 Jair Ventura - Abre Aspas — Foto: Roberto Maleson Jair Ventura - Abre Aspas — Foto: Roberto Maleson Você citou o Sassá, que é um jogador que surgiu muito bem. É difícil manter um cara com o potencial que ele tinha no prumo durante muito tempo? — Nós fomos campeões juntos no sub-20 do Botafogo com gol dele. A primeira competição que a gente disputou foi o Sparks Cup na Alemanha. A gente ganha do Benfica na semifinal e ganha do Schalke 04 lá na Alemanha, na casa dos caras, gol do Sassá. Então, a gente cresceu junto ali dentro do Botafogo. Ele teve uma situação muito delicada, que pouca gente sabe, a perda da mãe. Isso deu uma balançada nele muito forte e ele acabou tendo alguns probleminhas extracampo, mas é lógico que a gente quer sempre o melhor para esses caras. Depois, ele foi para o Cruzeiro ainda, jogou uma Libertadores bem, fez gol no Boca, enfim. Mas, eu sempre tô ali para ajudar. Eu gosto demais de alguma maneira ajudar a vida desses caras, desde que eles te deem abertura pra isso. — Nós somos seres humanos. A representatividade da mãe na vida dele era muito grande. Então mexe isso. Só que as pessoas do lado de fora, é aquilo: vai, entrega resultado, se não entregar, já vamos para o outro. A gente chegou no Vitória agora tinha praticamente um monte de jogadores da goleada (8 a 0 do Flamengo) e por os outros resultados que já ninguém queria vir mais com a camisa do Vitória. O Willian Oliveira foi capitão no nosso último jogo, era um cara que ninguém queria mais né. O próprio Cáceres, outros jogadores que já não estavam e a gente foi recuperando de maneira gradativa. A anamnese - a entrevista com os jogadores - surgiu como? — Eu não peguei de nenhum curso, não peguei nenhum treinador, nunca vi ninguém fazer. Mas um insight que eu tive em algum momento, como auxiliar ainda, eu falei, isso aí é uma maneira boa de eu começar e... com o decorrer dos anos, eu vou botando uma coisa, tirando outra, implementando e uma coisa que eu faço e assim que é bem legal. — Vocês não fazem ideia, não, ninguém sabe e eu falo para eles que vai ficar ali e fica, nem minha comissão sabe, né? Mas é bem complicado, a gente não tem ideia, as pessoas não têm ideia do trauma de tanta coisa que esses meninos carregam. É bem, bem pesado assim, muitas coisas, tudo, tudo, tudo, tudo. E vocês não fazem ideia do que são as coisas assim. É bem complexo. Você é um cara que tem imagens marcantes, de conexão com clubes, com a torcida, tem a dancinha. O quanto esse jeitão do Jair você não quer perder? Às vezes, para passar uma imagem "mais sóbria". — É personalidade e gana no meu trabalho. Mas ao mesmo tempo não ser um cara normal, não ser mais um. Mas isso tem um peso. Quando você tem personalidade, quando você se posiciona, como eu me posiciono, as críticas são maiores, de repente, os rótulos são maiores. Nenhum momento de dança é de debochar de adversário, é de comemoração. E esse sou eu, cara. — Sou um cara vibrante, sou um cara que quando perde fica louco, mas seguro, conto até 10, porque eu tenho um vestiário pra tomar conta. Só que quando eu ganho também, eu não consigo fingir que é só mais um jogo, que é só mais um trabalho, que é só mais um contrato. Cada contrato, cada trabalho, cada oportunidade no clube é a oportunidade da minha vida. Eu encaro isso como um prato de comida . Como se fosse minha primeira oportunidade. E é por isso que a gente vem conseguindo, por isso que a gente extrai o máximo dos caras. Porque sempre onde eu chego é com a faca nos dentes. É a oportunidade! Tem que dar certo por isso, porque com tudo isso, com todos esses feitos, muito mais méritos do que deméritos, a gente tem rótulos, a gente tem uma série de coisas. Imagina se não fosse. — Todos os clubes que me ligam, eu falo duas coisas: vou entregar um time organizado e competitivo. Isso aí todos os meus times são. Independente se joga mais, se marca mais, todos os times que a gente trabalhou são organizados e competitivos. Você vai ver que tem trabalho, você vai ver times organizados, você vai ver time competitivo. Eu acho que esse é uma situação que eu consigo entregar. A dancinha começou no Botafogo. Como surgiu? — Vamos lá, a origem é a seguinte. A gente fez um acordo de cavaleiro com o Colo-Colo (na Libertadores 2017). Eles usavam o Nilton Santos na véspera do jogo e a gente usaria o estádio deles para reconhecimento. Só que, eles, malandros, vieram primeiro aqui, depois era o jogo lá. Que que eles fizeram? "15 horas vocês podem treinar no nosso campo para reconhecer". "Beleza". Deu 15h15, a gente arrumando o campo, os caras invadiram o campo. Jogadores deles com treinador chutando a bola, tirando cone, a porrada quase comeu . Não teve treino. Começou. Aí beleza. A coletiva lá na Libertadores tem que falar antes do jogo. O treinador dos caras: "Botafogo? Não conheço. Vamos atropelar. O que aconteceu lá não vai acontecer mais. O time é fraco. Não tem jeito. A gente vai para atropelar". Chegamos para o jogo. Vestiário pintado, cara. A gente teve que botar as coisas do lado de fora, Pimpão vomitou, passou mal, quase não foi para o jogo. — Aí começou o jogo lá. Os caras tacando coisa na gente, isqueiro, tênis, rádio, sapato, moeda, o jogo todo. A gente ganha no Nilton Santos e lá a gente faz um gol contra com Emerson no início do jogo, muito cedo, em quatro, cinco minutos. Aí, eles ficaram naquela coisa assim "ataca, não ataca". E a gente controlando o jogo. E daqui a pouco a gente vai e faz o gol. Eu corri um risco danado, porque ainda tinha jogo pra caramba, né? E aí, cara, eu comecei a saltitar, assim, porque tudo que a gente passou, aquela coisa de alegria mesmo, espontâneo, cara. Eu tava começando a minha carreira e não foi ritmo nenhum de música (risos). Dancinha, Jair Ventura, GIF — Foto: Reprodução — Eu sou muito eclético, cara. Eu treino todo dia, vou para academia, corro, gosto de treinar, escuto música. Vou de samba a Pink Floyd, Zeca Pagodinho, tudo, tudo, tudo. E ali não teve, não teve uma música assim, entendeu? Fiquei saltitando. E aí, virou uma marca, né, cara? E assim, e tiveram alguns jogos que eu nem dancei. E os caras dançaram, mas tipo assim, pelo passado, eu acho que de repente, sabe? Mas faz parte, eu nunca apelei quanto a isso, como eu faço também, não é de provocação, tanto que eu saio dançando para o lado oposto do banco dos caras, nem aí. Dançando não, saltitando. — Agora no nosso último jogo (no Brasileiro do ano passado), os jogadores, sabe como é que eles são filha da puta, né? "E agora dança, dança". A gente dançou lá no vestiário lá, mas, graças a Deus, sem menosprezo a ninguém, desrespeito a ninguém, mas isso é uma comemoração nossa, que eu sou esse cara que vive intensamente e a gente faz algumas coisas sem pensar ali. Quando você começou, um técnico de 36 anos era algo muito incomum. Agora tem o Filipe Luís, Guanaes, próprio Diniz, contemporâneos seus, digamos assim. Como vê esse cenário hoje? — Quando a gente foi efetivado, era o fim de todos os treinadores experientes para lançar os jovens por causa do 7 a 1. Em 2016, eu, Zé Ricardo, Odair, Barbieri veio um pouquinho depois, mas veio, alguns outros treinadores de vou esquecendo alguns nomes, só que todo mundo me perguntava: "Jair, chega de treinadores experientes? Tem que ser o jovem?" Não. Você não precisa para falar bem de A, falar mal de B. Não é que tem que ser os jovens e não é que não tem que ser experiente, tem que ser os melhores. Pode pegar minhas coletivas aí desde 2016. A gente tem que ter muito respeito. Eu sou treinador graças a todos esses meus treinadores experientes . Tem espaço para todos, porque tem jovens que não estão prontos e não são todos os treinadores experientes que estão ultrapassados. Então, a gente não pode jogar tudo no pacote e definir. — Aí botaram, com o passar do tempo, todos nós brasileiros no mesmo pacote. Eu volto a falar: não são todos os treinadores brasileiros que são bons e não são todos os treinadores estrangeiros que são bons. Você não pode definir se o cara é bom ou não pela idade ou pela cor de um passaporte . Então, quando o clube fala assim: qual o perfil do treinador que você quer? Estrangeiro. Mas cara, o mundo é muito grande para ser estrangeiro. Mas qual o perfil? Estrangeiro. Ah não, tem que ser um brasileiro. Também o Brasil é muito grande. Então assim, pra mim, na minha concepção, tem que ficar os melhores, seja pela idade, seja onde nasceu, tem que ficar os melhores. Jair Ventura fala sobre o cenário dos treinadores no Brasil: "Temos um grupo no WhatsApp" — Não tem essa de estrangeiro, brasileiro, briga... Todos são bem-vindos. Trouxemos, na minha concepção, um dos melhores treinadores do mundo para a nossa seleção. A gente não buscou um passaporte. A gente trouxe um treinador capacitado, vencedor, diferente de "ah, vamos trazer um estrangeiro.” Trouxe um cara campeão, né? A gente está muito bem representado. Esse intercâmbio é muito importante. Eu joguei na França, na Grécia, no Gabão. Eu saí do muito para trabalhar fora, então assim, essa troca é muito importante. Culturalmente é muito importante. Você acha que falta um debate maior da classe, debate de ideias? — A gente já melhorou bastante, a gente tem um grupo de treinadores hoje, a gente tava falando da licença (da CBF). Acho que a licença fez com que a gente se unisse bastante. No grupo de WhatsApp onde a gente a gente se fala... 9 de 9 Turma de treinadores em aula da CBF na Granja Comary. Entre eles, Mano Menezes, Rogério Ceni, Jair Ventura, Eduardo Barroca, Dorival Junior e Mauricio Barbieri — Foto: Divulgação/CBF Academy Turma de treinadores em aula da CBF na Granja Comary. Entre eles, Mano Menezes, Rogério Ceni, Jair Ventura, Eduardo Barroca, Dorival Junior e Mauricio Barbieri — Foto: Divulgação/CBF Academy Tem estrangeiro nesse grupo? — Cara, não sei. Boa pergunta, mas é grupo de treinadores. Se não tiver, são bem-vindos! Eu fiz muita amizade assim de jogar contra. Agora, tipo outros treinadores que a gente conheceu no curso na licença, a gente tem um coffee break, a gente saía para jantar depois, então a gente trocava ideias. O próprio curso cada um ia falar um pouquinho dessa ideia... “Ah não mas eu gosto de pressionar dessa maneira”, aí o outro: "po, eu pressiono assim..." Faz você sair um pouquinho da casinha e pensar diferente. Por muitas vezes a gente se abdica de buscar coisas novas porque aquela coisa de 2016 deu resultado. "Ah, mas em 2017 eu eliminei cinco campeões da Libertadores daquela maneira". Cara, hoje eu faria tudo diferente. Hoje, eu tenho muito mais repertório para fazer coisas diferentes que os anos, as topadas, os clubes, a vivência, os aprendizados de todos esses clubes que eu passei, 10 clubes que eu passei que me deram. E isso a gente precisa passar para aprender. Então, com certeza, hoje eu faria muitas coisas diferentes do que eu fiz no início de carreira. Eu estou muito mais pronto, mas ainda não estou pronto. Você começa a carreira no Botafogo e não voltou para um dos 12 times de maior torcida do Brasil, mesmo entregando resultados. Reflete sobre isso? — Não. Eu sou muito grato de estar trabalhando numa camisa como é o Vitória, uma torcida apaixonada, a torcida do Sport também, entre outros clubes que eu trabalhei assim. Não penso nisso. Eu penso muito em fazer o meu melhor hoje, cara. Isso que eu sempre falo. Eu acho que tem muita gente que vive muito futuro assim sabe. A gente, como ser humano, tem muito daquela coisa de guardar para um dia fazer isso. A gente vai dormir já pensando que vai ser da gente daqui a 2, 3 anos. Eu sou muito hoje. Se eu fizer hoje o meu melhor, aquela situação que eu estava falando de cada contrato, cada chance, oportunidade que eu tenho no clube, que amanhã eu vou ter um futuro melhor. O passado é imutável, a gente não muda mais. — Não tenho um clube, algum sonho assim, eu quero isso, eu quero aquilo, eu penso muito em fazer o meu melhor hoje. Eu vivo muito o hoje para ter um para ter um futuro melhor ainda. Não tenho projeções. Eu tenho amigos treinadores, você também conhece, que faz projeção: "ah, tantos jogos eu vou estar aqui, tantos jogos eu vou estar ali". O cara daqui a três anos quero estar no clube tal, ou na seleção, ou no país tal, na liga tal, não. Eu sei que se eu fizer o meu melhor a cada dia, as coisas melhores no meu futuro vão surgir pra mim. Li que você gosta muito de biografias. Tem conseguido ler, ver filmes? — Zero. A cabeça está travada. Cara, impressionante. Quando eu vou no cinema trabalhando, o filme tá passando e eu tô vendo o próximo adversário, tô vendo o treino de amanhã. É a mesma coisa pra ver série, pra ler livro, assim, eu não consigo focar muito assim. Eu perdi um pouco do foco pra vida, assim. Fora o futebol, quando a gente não tá no campo, que a nossa cabeça não para, cara. A gente tem um problema de um jogador que tá com problema tal, e outro tá com problema de saúde, e outro tá separando, e outro tá aí... o futebol não dá rotina, né cara? — A vida de treinador te consome muito , sabe? A família que fala que tô na folga, mas diz: “você não tá aqui, pô.” Você tá como só a imagem, né? O interno, você tá lá, a cabeça. Cara, é impressionante como consome a gente. Então, mas é o que eu amo. É o que eu quero pra minha vida. Sou apaixonado em fazer e faz parte, né? É o ônus e o bônus e a gente sabe que é assim que funciona. Tua família sente muita falta? — Cara, eu sinto muita falta. Eu tenho uma filha de 7 anos. Eu tentei ser pai alguns anos e não conseguia, e quando eu consegui, ela nasceu, eu tava no Santos. E 2019 eu tiro um ano sabático para ficar com ela. Eu optei em não trabalhar em 2019, quando a gente acaba saindo do Corinthians. A gente foi vice-campeão da Copa Brasil e aí eu tive um convite de um time da Série A logo no início do ano, mas eu não quis. Achei que era o momento de... eu estava há tanto tempo tentando ser pai e quando eu consegui... eu fiquei um ano para ficar com ela. Neném né, ela tinha acabado de nascer... fez um aninho. Fiquei com ela esse ano e volto a trabalhar no Sport em 2020 e não parei mais graças a Deus. Então, praticamente eu não criei a minha filha , né? — Eventos de colégio, formatura, "Ah, hoje vai dançar no balé", e eu não vejo, né? É só vídeo que a gente liga hoje graças ao telefone, mas eu não estou criando o maior amor da minha vida que é a minha filha. Eu não tenho tempo para ela porque o futebol... esse ano eu trabalhei, a gente começou Goiás, aí eu não fui nem no Rio, do Goiás eu já fui para o Avaí, do Avaí eu fui direto para Salvador. Floripa-Salvador. Eu não vim no Rio. Eu trouxe as roupas de tudo para lá. Então, essa é a nossa vida. Esse é o meu senão hoje. A coisa mais importante da minha vida, que é a minha filha, eu não consegui estar nos melhores momentos. — Esses momentos eu sei que não vão voltar mais, mas faz parte. Eu falo com o Ricardo Gomes, ele: “pô, eu não consegui ir no nascimento da minha filha”. É assim, ele jogou no Paris, ele ficou muitos anos fora. É a nossa vida né, a gente tem que se abdicar da minha maior paixão por outra paixão que é ser treinador de futebol. Quando é que você se sente mais injustiçado no futebol? — Eu vou ser bem sincero. Eu não sou muito de injustiça não porque eu sou sabedor da onde eu entrei. Esse tempo todo que eu demorei para virar treinador eu sabia como era essa máquina aqui que moe gente, que moe treinador. Então, se eu falar que eu não estava preparado, é mentira. Eu sou sabedor. — Não tem injustiça, porque eu já sei como é que funciona. Mas, se você perguntar, por exemplo, um desses cinco times que a gente ajudou a permanecer, no outro ano teve um time que mandou embora com cinco jogos. É justo? Não, mas é o game. A gente foi mal no estadual, remontagem, aquela coisa, com cinco jogos já não serve. Então assim, você ajudou os caras a permanecerem. Você fez de alguma maneira. Não foi por falta de gestão, não foi por falta de bons treinos. Só que com o resultado, que eu falo para vocês, com o resultado não ter acontecido em cinco jogos do início do ano, já não serve mais. Você acha que é justo? Não, mas... eu acho legal? Não, mas eu não vou ficar me remoendo por isso, que eu sei que não vai ser a primeira nem a última vez. Não é sobre justiça ou injustiça, mas o ambiente do futebol é cada vez mais hostil? — Total. Só que eu acho que é um caminho sem volta, tá? Ou você se adapta a essa realidade ou você busca um novo mundo. Porque eu acho que a tendência é só piorar. Eu tive um caso de um jogador, na época das redes sociais assim... e ele começou a ser questionado porque estava roubando clube porque estava lesionando muito. Cara, ele foi na minha sala desesperado falou: “não quero mais, eu não quero mais isso para mim, estão chegando na minha família”. O ponto que isso chega né. Ele: “eu vou pedir, não quero mais receber enquanto eu não tiver bem e eu não quero mais.” Falei: "não, preciso de você". Foi uma indicação minha. Você vê o ponto que isso chega. — Você no momento que as coisas não estão acontecendo, você ficar buscando isso é um sadomasoquismo, você querer sofrer também. Então assim, você tem que ter o momento de você, de repente, deixar um pouquinho de lado e deixar... Mesmo nos momentos bons, no nosso caso vai ter "pô, ganhou beleza, mas era pra ser fulano e não ciclano", entendeu? Então, vai ter sempre isso e você tem que saber conviver, cara. Por isso que cargos de muitas responsabilidades, você tem que estar preparado. Não é fácil, não é fácil. Porque se você, de repente, entra no externo, todo mundo queria que o Dorival tirasse o Yuri, pô, para esse jogo. Ele foi teimoso? Não. A convicção naquilo. O Yuri fez um gol e assistência. O Yuri foi meu jogador, peguei ele com 16 anos no Santos. É um moleque diferente. Ele vive bons e maus momentos. Só que você acha que o Dorival “não, eu vou teimar com todo mundo?” não, pô, esse moleque é bom. Está no momento ruim, mas é bom. Você acha que a rede social deixou o jogador com mais medo de jogar ? — Cara, medo de jogar, acho que não. Você vê o Rayan, para mim o destaque do campeonato (2025). Olha a personalidade que esse moleque tem. Ele briga com a torcida, ele xinga a torcida dos caras, ele faz símbolo... E tu acha que ele está preocupado com rede social? Ele está cagando, mas é um em 1 milhão. A gente está falando de personalidade, entendeu? Mas o moleque está pronto, pô. Tem moleque que está pronto. Ele é diferente. —Eu cheguei no Santos, o Rodrygo tinha 16 anos, chamei ele para anamnese, conversando com ele, eu falava assim: pô, tudo que eu estou falando, esse moleque está entendendo? Ele estava entendendo, pô. Para ele, aquilo é tudo muito simples. Os caras acima da média é tudo muito simples, é tudo muita percepção, sabe? É tudo muito tranquilo. O externo, ele não tem dúvida, né? Esses caras não têm dúvida neles. Vai acontecer. Vai dar certo. Medo de jogar? Jair Ventura fala sobre a mentalidade dos atletas "acima da média" E a pressão sobre treinador nas redes? — Isso a gente tem que estar preparado para isso. O vilão do futebol é o treinador , né? Em 2005, eu vou fazer meu primeiro curso de treinador, com o Lazaroni, antes da faculdade de educação física. Não adianta eu vim aqui agora falar: "pô, sacanagem, é só o treinador". É o treinador, meu irmão. Isso eu tenho que estar preparado para isso. A gente não vai mudar. A gente falou de justiça e injustiça. A gente não vai mudar. Isso é uma realidade. E é no mundo, não é no Brasil. Você vê treinadores saindo cada hora de outros trabalhos. Você tem que ganhar. Tem que ganhar mais do que perder pra você ficar mais tempo no cargo . Essa é a grande verdade. A gente é refém do resultado, né? Por isso que eu falo daquela situação de resultado, se eu for só pelo resultado, é assim que a gente vai levar, porque a gente pode jogar bem e perder. O jogo de 2017, a gente jogou melhor que o Grêmio, mas o Grêmio passou e foi campeão, eu vou ficar aqui chorando? Já joguei pior e ganhei também. Você tem empresário, Jair? — Hoje não. Eu tenho parceiros, né? Mas eu não tenho. Você põe um prêmio quando pega times assim de ter que salvar do rebaixamento? — Já tá de olho grande, tá vendo? (risos) É importante, né? Tem que pagar o colégio da filha, né? (riss). Qual a avaliação da carreira de treinador até aqui? — O futebol é minha paixão desde que eu nasci. Sou extremamente privilegiado nesses 10 anos de carreira, de ter vivenciado grandes coisas, grandes clubes, torcidas fantásticas, entre momentos bons e ruins, mas que tive a oportunidade de vivenciar. Trouxe uma melhora como pessoa. Eu tenho gratidão de tudo isso, de ter vivido isso tudo, ter conseguido conhecer muitas pessoas, muitos amigos, de a gente estar nesse aprendizado, eterno aprendizado a cada dia, cada clube que a gente passa, cada cultura e cada experiência, e a maior dificuldade é eu volto nessa tecla de não criar minha filha. A coisa que eu mais amo na vida e hoje tenho que abdicar praticamente desses tempos que não vão voltar mais, que a gente sabe, que são os tempos mais importantes da vida de uma criança, mas que em prol disso eu faço minha outra paixão, que é ser treinador de futebol. Mas com certeza a coisa mais ruim que me acontece, que continua acontecendo, é ficar esse tanto de tempo que eu fico longe da minha filha.