🔎 ou veja todas as análises já realizadas

Análise dos Times

Bahia

Principal

Motivo: Artigo critica postura do tecnico Ceni e do clube de proteger o jogador e reduzir a responsabilidade pelo ato

Viés da Menção (Score: -0.3)

Motivo: Citado apenas como adversario do jogo seguinte, sem avaliação jornalística

Viés da Menção (Score: 0.0)

Motivo: Citado apenas como adversario em partida posterior, sem avaliação jornalística

Viés da Menção (Score: 0.0)

Palavras-Chave

Entidades Principais

sao paulo walter casagrande cruzeiro bahia rogerio ceni barcelona willian jose lula aline wolff alaor carlos de oliveira neto kate manne

Conteúdo Original

Futebol Menino bom: caso Willian José ilustra como futebol infantiliza adultos Guilherme Padin Do UOL, em São Paulo 06/11/2026 12h00 Deixe seu comentário Resumo Willian José, atacante do Bahia Imagem: Gilson Lobo/AGIF O técnico do Bahia, Rogério Ceni, se referiu a um atacante do seu time, Willian José, como "menino bom" para defendê-lo das críticas por ter compartilhado um vídeo no qual chamava a região Nordeste de "câncer" do país. Prestes a completar 35 anos, Willian José nasceu em Alagoas, estado que fica na região atacada pela publicação. O uso da palavra "menino" é corriqueiro no futebol, inclusive para se referir a atletas adultos envolvidos em polêmicas ou julgados por suas atitudes. No caso de Willian José, porém, especialistas ouvidos pelo UOL veem na expressão um mecanismo que reduz a responsabilidade de um jogador com quase duas décadas de carreira e transforma a ação de um adulto em descuido, molecagem ou erro de menino. Sakamoto STF tem cinco abacaxis de Vorcaro para descascar Alexandre Borges Trumpismo acabou; é o oposto do bolsonarismo Tatiana Farah Três pontos que merecem atenção na live de Lula Juca Kfouri Corinthians é favorito a cair e merece ser rebaixado A infantilização, segundo psicólogos, psiquiatras e ex-jogadores, não depende da idade nem da experiência. Ela serve para preservar o atleta como patrimônio, manter o controle sobre seu comportamento e protegê-lo das consequências de seus atos. O mesmo sistema que exige desempenho e retorno financeiro desde a infância limita a autonomia do jogador e, quando ele chega à vida adulta, fala e decide por ele. Classificação e jogos Brasileirão 2026 O jogador do Bahia compartilhou o vídeo na noite de domingo das eleições, logo após a reeleição do presidente Lula. Por causa da publicação, foi afastado do jogo seguinte do time nordestino contra o São Paulo, em 28 de outubro. Ao ser questionado, Ceni reconheceu a gravidade do episódio, mas disse não acreditar que o conteúdo representasse o pensamento do atacante. "É sempre triste, pesado, não há como negar a seriedade do assunto. Acho que não é nem o que o Willian pensa, para ser sincero. Não é o que eu penso, o que o Bahia pensa, às vezes um momento de descuido. Acho que ele tem que, o mais breve possível, tentar explicar. Juro mesmo, não acredito que é o que ele pensa, é um menino bom." Rogério Ceni, técnico do Bahia No dia 29, ainda sob a repercussão da publicação e da declaração de Ceni, Willian José se retratou. Disse não ser xenofóbico, pediu desculpas e reconheceu que errou . No jogo seguinte, contra o Cruzeiro, no dia 5, não foi relacionado novamente. O Bahia repreendeu institucionalmente a conduta , mas não divulgou nenhuma medida além do afastamento das duas partidas. O clube não informou se o atacante deixará a equipe, receberá multa ou seguirá no elenco. A reportagem procurou Ceni para abordar o comentário que fez sobre Willian, e aguarda retorno. Continua após a publicidade Proteção retira do atleta a autoria do próprio ato Para Aline Wolff, psicóloga clínica do esporte, tratar um homem com mais de 30 anos e quase duas décadas de profissão como menino funciona como atenuante diante de um episódio explícito de xenofobia. Ao dizer que não acredita que a publicação represente o pensamento de Willian, Ceni tenta protegê-lo, mas também retira do jogador a autoria da própria ação. "Me chama atenção uma frase do técnico: 'não acredito que é o que ele pensa'. A intenção parece ser proteger. Mas essa proteção tira do atleta a autoria do próprio pensamento e ação e isso infantiliza. Não vejo esse gesto como isolado. No esporte, testemunho com frequência um sistema que decide pelo atleta, fala por ele e não o escuta em questões que dizem respeito à vida dele. O mesmo sistema que tira a voz depois absolve. Quem não é tratado como alguém que pensa também não é cobrado pelo que diz e faz." Aline Wolff, psicóloga Alaor Carlos de Oliveira Neto, psiquiatra do Hospital Oswaldo Cruz, afirma que o amadurecimento se tornou uma espécie de armadilha existencial. Ao verem um homem de 35 anos protegido pela definição de "menino bom", diz ele, jogadores e público aprendem que a saída para escapar do tribunal da internet é nunca abandonar a menoridade moral. "O recado deixado é: não amadureça, não assuma responsabilidades éticas plenas e construa poder suficiente para que outros façam o trabalho de justificar a sua perversidade como mera 'molecagem'." Continua após a publicidade Alaor Carlos de Oliveira Neto Crianças para responder, adultos para produzir Os especialistas ouvidos pelo UOL também identificam uma lógica de mercado na blindagem dos jogadores. Aline Wolff observa que o atleta é tratado como patrimônio. Classificar sua conduta como um erro de menino ajuda a preservar esse ativo, mas retira o protagonismo da pessoa. "O atleta também é patrimônio, e tratar o erro como coisa de menino protege esse patrimônio, mas tira o protagonismo da pessoa e isso, na minha visão, é o grande problema do sistema." Aline Wolff Yamal atua pela equipe principal do Barcelona desde os 15 anos Imagem: REUTERS/Alessandro Garofalo Continua após a publicidade Para Oliveira Neto, transformar o preconceito em molecagem ou caso folclórico é a moeda de troca usada para tolerar comportamentos violentos quando o atleta entrega resultados. "Transformar o preconceito em 'molecagem', 'caso folclórico' ou 'deslize de menino' é a moeda de troca que a sociedade utiliza para tolerar a barbárie, contanto que ela entregue resultados." Alaor Carlos de Oliveira Neto Segundo o psiquiatra, a criança é tratada como adulta para gerar riqueza; depois, já adulta, é tratada como criança para não perder valor. Chamar Willian José de menino seria, na prática, um recado: "não queimem a mercadoria". Essa inversão começa ainda na formação do atleta, afirma Wolff. Crianças e adolescentes recebem responsabilidades financeiras e esportivas incompatíveis com a idade, enquanto decisões sobre estudo, carreira e vida pessoal ficam concentradas no entorno. Quando chegam à vida adulta, a mesma estrutura que os ensinou apenas a executar passa a protegê-los da responsabilização. "Na infância, o atleta é cobrado como adulto para produzir. Muitos carregam a expectativa de sustentar a família antes mesmo de terminar a escola. Na vida adulta, é tratado como criança para não responder pelos próprios atos. Desde cedo, muitas decisões são tomadas por outros: clube, empresário, família. O atleta aprende a executar. Depois, a cultura ao redor confirma esse lugar. Se ele não decide, também não responde." Continua após a publicidade Aline Wolff "Menina" reduz autoridade; "menino" diminui responsabilidade A infantilização também opera no esporte feminino, mas com efeito oposto, segundo Wolff. Quando direcionado a mulheres adultas, o termo "menina" costuma enfraquecer sua autoridade. No caso de homens poderosos, "menino" serve para reduzir a responsabilidade. "Chamar uma mulher adulta de menina costuma diminuir a autoridade dela. Chamar um homem poderoso de menino costuma diminuir a responsabilidade dele", afirma Aline Wolff. A psicóloga relaciona esse tratamento ao conceito de "himpathy", criado pela filósofa Kate Manne para descrever a simpatia desproporcional recebida por homens poderosos. Wolff pondera que há críticos para os quais o status explica mais essa proteção do que o gênero, mas considera que os dois fatores atuam juntos. "A filósofa Kate Manne cunhou o termo himpathy para descrever a simpatia desproporcional que homens poderosos costumam receber. Tem críticos que argumentam que o status explica mais do que o gênero. Eu acho que as duas coisas pesam. O mesmo erro, cometido por um rapaz anônimo, dificilmente seria descrito como coisa de 'menino bom'", completa. Continua após a publicidade Casagrande vê geração mimada: "Não contesta nada" O ex-atacante Walter Casagrande Júnior, ídolo do Corinthians e colunista do UOL, atravessou e observou diferentes gerações do futebol. Atletas sempre cometeram erros e se envolveram em polêmicas, afirma, mas a infantilização ganhou força nas últimas duas décadas. O ex-jogador cita como marco o episódio de 2010 no Santos. Depois de Neymar descumprir ordens e xingar Dorival Júnior, o técnico Renê Simões disse estar envergonhado e fez o alerta: " Estamos criando um monstro ." Para Casagrande, o "monstro" mencionado por Simões não se resume a Neymar. Ele representa um perfil que, em sua avaliação, se consolidou nas duas gerações seguintes. "Um perfil de jogador de futebol infantilizado, mimado, que não assume responsabilidade, não contesta nada, e que não se preocupa em ter conhecimento sociopolítico do país, sobre discriminação, preconceito, transfobia, racismo. Eles não têm dimensão do grau criminal desses comportamentos." Walter Casagrande Júnior Continua após a publicidade Casagrande contrapõe essa falta de reação coletiva à postura de Vinícius Júnior diante dos episódios racistas que sofre na Espanha ao menos desde 2021. Também menciona a realização, no Brasil e com público, de uma Copa América durante a pandemia de covid-19. Vinícius Júnior, atacante do Real Madrid, é vítima de racismo na Espanha desde 2021 Imagem: OSCAR DEL POZO/AFP "O Vini Júnior foi escrachado por anos pela sociedade espanhola porque ele batia de frente [contra o racismo]. Penduraram um boneco dele enforcado, e os jogadores dessa geração não defendem ele, salvo exceções. Quando teve a pandemia, que morriam várias pessoas por dia, trouxeram uma Copa América que não era nossa pra cá, e nenhum jogador da seleção se pôs contra. Ninguém viu problema nisso", disse o ex-jogador. De volta ao caso de Willian José, Casagrande afirma que a infantilização também interessa aos treinadores porque ajuda a preservar sua autoridade. Jogadores habituados a não participar das decisões teriam menos disposição para questionar métodos, esquemas ou o que ocorre dentro do time. "A intenção é de ficar no comando, de não ter ninguém que contrarie, questione e venha debater o cara que comanda, o treinador. O jogador infantilizado não contesta nada dos treinadores, se o esquema é bom ou ruim, o que está acontecendo no time. Muitos deles são infantilizados, e muitos treinadores colaboram para ter o comando sempre", avalia. Responsabilizar também é reconhecer a voz do atleta Para Aline Wolff, episódios como o de Willian José transmitem ao público a mensagem de que "o talento compra tolerância". Aos jovens que sonham com a carreira, o futebol oferece uma contradição: serão cobrados como adultos, mas ouvidos como crianças. Continua após a publicidade A psicóloga defende que responsabilizar um ídolo não significa abandoná-lo. Significa reconhecer que suas palavras e atitudes têm peso. Essa cobrança, acrescenta, deve vir acompanhada da participação dos atletas nas decisões sobre a carreira e a própria vida, antes que uma crise aconteça. "Para o garoto que sonha em ser jogador, o recado é mais duro: ele vai ser cobrado como adulto e ouvido como criança. Eu defendo o caminho oposto. Responsabilizar um ídolo é levá-lo a sério. É reconhecer que o que ele diz tem peso, inclusive quando erra. E isso vem junto com a outra metade: dar voz a esses atletas antes da crise, nas decisões sobre a própria carreira e a própria vida. Adulto responde pelo que faz. E adulto também precisa ser escutado." Aline Wolff Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Publicidade Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. UOL Flash Acesse o UOL Flash As mais lidas agora Nova caneta emagrecedora chega às farmácias por R$ 333; saiba mais Celular de Vorcaro registra 316 interações com Moraes meses antes de prisão Felca explica anotação 'chorar aqui' em roteiro: 'Quem dera fosse falso' Mulher é esfaqueada no pescoço após briga em bar em SP; advogada é suspeita Justiça de São Paulo libera operação de três bets após veto do Planalto