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Goleira mineira supera fome, ameaças e distância para realizar sonho na elite do futsal espanhol A goleira de futsal Ana Eliza Ribeiro de Oliveira, de 25 anos, é a prova de que não há obstáculos que possam impedir a realização de um sonho para quem tem determinação. No caso dela, o caminho entre a vontade de uma menina do interior de Minas, de 14 anos, até a certeza da conquista demorou 10 anos e mais de 8 mil quilômetros. A atual goleira do Burela, time da primeira divisão feminina de futsal da Espanha, enfrentou muitos desafios desde que decidiu jogar futsal na quadra de uma escola de Passa Quatro-MG. Contrariou a família, passou fome, foi ameaçada de deportação e ficou sem receber salário. Ana Eliza encontrou no esporte não apenas uma vocação, mas um refúgio para os problemas que vivia em casa. Nascida em Virgínia-MG e criada em Passa Quatro, a goleira descobriu o futsal aos 12 anos, nas aulas de educação física da escola pelas mãos de uma professora que obrigava tanto os meninos quanto as meninas a praticarem todos os esportes. Brasil disputa a Copa do Mundo Feminina de Futsal; veja tabela 1 de 5
Ana Eliza começou a carreira no Sul de Minas e, atualmente, é goleira do time de futsal espanhol Burela — Foto: Burela F.S. Ana Eliza começou a carreira no Sul de Minas e, atualmente, é goleira do time de futsal espanhol Burela — Foto: Burela F.S. A partir daí a quadra passou a ser o seu lar. Chegava logo após as aulas e só saía no final da noite. — Comecei a buscar o futsal como refúgio. Muitas vezes em que estava chovendo, muita gente não ia treinar, e eu ia de qualquer jeito, porque queria estar fora daquele ambiente complicado. No começo serviu como escapatória, mas, depois, se transformou em algo que realmente eu quis para minha vida — afirma. Ela conta que o começo foi difícil. A posição de goleira veio porque ela tinha muita flexibilidade e “era muito ruim jogando com os pés, mas não tinha medo de levar bolada”. Da quadra para o time da cidade foi um caminho natural. Fã e seguidora dos goleiros espanhóis, aos 14 anos, profetizou: “Um dia eu vou jogar na primeira divisão da Liga Espanhola”. O desejo enfrentou resistência dentro de casa. Ela chegou a ser trancada dentro do quarto para não ir a uma competição. Sem se conformar, fugiu pela janela. Jogadora brasileira busca sonho na Turquia, mas desaba em dura realidade: “Nada para comer” 2 de 5
Ana Eliza começou a carreira no Sul de Minas e, atualmente, é goleira do time de futsal espanhol Burela — Foto: Burella F.S./Divulgação Ana Eliza começou a carreira no Sul de Minas e, atualmente, é goleira do time de futsal espanhol Burela — Foto: Burella F.S./Divulgação Esse foi só um exemplo da garra que marcou toda a carreira de Ana Eliza. O treinador municipal, Petric Carvalho, que mais tarde se tornaria seu companheiro, foi o primeiro a enxergar a sua persistência e incentivar o seu talento. Com ele, Ana Eliza passou a buscar vários times no Brasil e ouviu muitos nãos até que, em 2021, apareceu a primeira oportunidade em um time amador de Américo Brasiliense, no interior de São Paulo. A promessa era de estrutura, moradia e apoio, mas nada se confirmou. Passou a morar com outras atletas em uma casa superlotada. A virada veio de forma inesperada. Em meio à pandemia, sem jogar e presa a um time sem condições, Ana Eliza pensava em desistir quando recebeu uma ligação em espanhol. Era um olheiro do Joventut Elx que procurava uma goleira para o time que tinha acabado de subir para a primeira divisão e havia visto seus vídeos na internet. — Naquele dia, a gente estava por um fio, tipo vamos esquecer de tudo, abandonar tudo. A pessoa responsável pelo time tinha nos humilhado na frente de todo mundo. A gente estava muito abatido com aquela situação, e o telefone começou a chamar sem parar. A gente quase não acreditou — conta sem conseguir segurar as lágrimas. 3 de 5
Ana Eliza começou a carreira no Sul de Minas e, atualmente, é goleira do time de futsal espanhol Burela — Foto: Arquivo Pessoal Ana Eliza começou a carreira no Sul de Minas e, atualmente, é goleira do time de futsal espanhol Burela — Foto: Arquivo Pessoal Sem passaporte, sem dinheiro e com medo, a goleira contou com a ajuda da família de Petric para conseguir viajar. A chegada à Espanha trouxe novos desafios. Pisou no país sem falar a língua e com visto de turista e a promessa do clube de que sua documentação seria resolvida. Não aconteceu. Em situação irregular, caiu em uma blitz voltando de um jogo. Após quase ser deportada, o time decidiu mandá-la de volta para o Brasil. — Uns dias depois, a gente estava vendo um dos jogos da equipe, estava vendo as minhas companheiras, e o narrador comentou que eu não estava jogando porque tinha sofrido uma lesão muito grave e tinha voltado para o Brasil. Na hora eu fiquei revoltada e mandei uma mensagem dizendo que não foi isso que aconteceu, que voltei por temas legais, de tramitação de documentação, e ele desmentiu a informação que tinha dado ao vivo — contou. 4 de 5
Ana Eliza começou a carreira no Sul de Minas e, atualmente, é goleira do time de futsal espanhol Burela — Foto: Arquivo Pessoal Ana Eliza começou a carreira no Sul de Minas e, atualmente, é goleira do time de futsal espanhol Burela — Foto: Arquivo Pessoal Durante a sua estadia no Brasil, em 2022, foi convocada para a seleção universitária brasileira que disputou o Mundial em Portugal. Uma confirmação de que seu talento não passara despercebido. Mas Ana Eliza estava com foco na Espanha e providenciou a regularização da documentação para voltar à Europa. O que aconteceu com o interesse do Sala Zaragoza. Mas, novamente, encontrou uma dura realidade de salários atrasados, intimidações, ameaças de deportação e fome. Sem dinheiro nem para o transporte, Ana Eliza caminhava mais de uma hora para ir para os treinos e chegou a se alimentar apenas de chá e pedaços de pão. — Uma das minhas felicidades era quando a gente ia jogar fora porque eu sabia que no hotel eu ia comer — conta. Foram meses de resistência física e emocional, enfrentando falta de pagamento, pressão e medo. Em um jogo, exausta e desnutrida, chegou a desmaiar. A situação piorou ainda mais quando ela denunciou as práticas abusivas do time. O treinador passou a isolá-la a ponto de as companheiras de time terem medo de falar com ela. 5 de 5
Ana Eliza começou a carreira no Sul de Minas e, atualmente, é goleira do time de futsal espanhol Burela — Foto: Arquivo Pessoal Ana Eliza começou a carreira no Sul de Minas e, atualmente, é goleira do time de futsal espanhol Burela — Foto: Arquivo Pessoal Mesmo assim, seu trabalho continuava firme e, em 2023, ela recebeu uma proposta do Burela, onde segue como titular já começou a acumular conquistas, como a Copa de la Reina e a Copa Galícia. O primeiro título, foi, para Ana Eliza, a confirmação de que a sua trajetória, tão marcada por injustiças e sacrifícios, a tornou uma pessoa e uma atleta melhor. — Quando acabou o jogo, passou um filme na minha cabeça porque eu sou fruto de muito trabalho. Eu era uma atleta muito ruim, só que de tanto trabalhar, de tanto treinar, cheguei a atleta que sou hoje. O esporte me impulsionou a sair daquela situação complicada que eu estava e me possibilitou provar a mim mesma até onde eu posso chegar — completou. Veja mais notícias do Sul de Minas no ge