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Com apenas 20 anos de idade, Kimi Antonelli está prestes a fazer história na Fórmula 1 . Líder isolado no campeonato, o italiano pode liquidar a temporada de 2026 já no GP dos Estados Unidos, caso tenha uma combinação favorável de resultados. Se confirmar seu favoritismo já no Texas, o representante da Mercedes quebraria o recorde de mais de uma década de Sebastian Vettel e se tornaria o mais jovem campeão da F1.
Para que isso aconteça, Kimi precisa realizar uma matemática complexa. Com 340 pontos, o italiano está 102 na frente do segundo colocado, George Russel, seu companheiro de equipe. Para ser campeão, Antonelli precisa aumentar essa vantagem para 125, garantindo que não pode mais ser alcançado.
Para tirar esses 23 pontos de diferença, é obrigatório que Antonelli vença a corrida. Com isso, ele ainda precisaria contar com tropeços dos outros competidores para levar o título para casa. Segundo colocado, Russell não pode terminar entre os oito primeiros. Com isso, Kimi alcança os 125 de vantagem, mesma pontuação que ainda está em disputa, porém teria mais vitórias que o inglês, e por isso não poderia ser alcançado.
Mas, se você perguntar qual foi o primeiro passo do italiano nessa semana de corrida histórica, a resposta pode te surpreender. Kimi Antonelli gosta de garantir que seu carro esteja limpo.
O italiano não consegue se permitir partir antes de completar um ritual familiar: uma visita ao lava-rápido em seu carro de passeio, um Mercedes GT63. Antonelli lava-o à mão, meticulosamente, por dentro e por fora. Só então ele pode viajar para sua próxima corrida de Fórmula 1.
Perguntado se ele se cronometrava na lavagem do carro, Antonelli, de 20 anos, riu.
"Não, não, não", ele respondeu em uma pequena entrevista em grupo, incluindo a ESPN .
"Eu demoro porque precisa ser bem feito. Porque se você não secar bem e ainda houver um pouco de água [nele], fica estranho. Parece sujo. Então precisa ser feito bem e também por dentro."
É engraçado, porque, ao contrário do meticuloso processo de lavagem do carro, quase nada na jornada de Antonelli até este ponto foi um exercício de paciência.
O Grande Prêmio dos EUA em 26 de outubro será a primeira vez em sua carreira que ele poderá vencer o campeonato mundial de pilotos da Fórmula 1, mesmo que haja apenas uma pequena chance matemática de que ele consiga isso no Circuito das Américas.
Mas, quer ele consiga isso lá, ou na Cidade do México uma semana depois, ou em Interlagos, a vantagem de Antonelli é tão grande que ele certamente se tornará, em algum momento nos próximos dois meses, o campeão mundial mais jovem da história do esporte, em apenas sua segunda temporada. Em meio a tudo isso, manter qualquer semblante de normalidade tem sido um desafio por si só.
O que nos traz de volta ao lava-rápido.
"Correr está sempre na minha mente. Eu tento não pensar muito, antes de tudo, na situação em que estou, porque sinto que se eu pensar demais no campeonato, provavelmente ficaria ansioso também. Além disso, eu não teria tempo de qualidade em casa, porque estaria apenas me preocupando com isso", disse o piloto
A normalidade e a rotina têm sido o nome do jogo para Antonelli em 2026, enquanto ele tenta combater a crescente percepção do que está prestes a alcançar. Mas tem sido difícil...
O italiano teve seu status lendário consolidado em setembro com sua vitória surpreendente a partir da 19ª posição no grid no Grande Prêmio da Itália. Isso será lembrado como o momento culminante de uma temporada que terminará com ele se tornando o primeiro campeão mundial do país desde Alberto Ascari em 1953.
Perguntado sobre como ele processou se tornar o maior ícone esportivo da Itália tão jovem, ele deu os ombros e balançou a cabeça, quase como se ainda não conseguisse compreender tudo isso completamente.
"Eu tento pensar nisso o mínimos possível", disse. "A situação em que estou, e também a pessoa que estou me tornando... sempre que volto para casa, quero me sentir o mais normal possível".
E os amigos de escola de Antonelli foram fundamentais para isso - os mesmos com quem ele estudou no ano passado, quando sua mãe insistiu que ele tinha que terminar sua educação, mesmo tendo se tornado um novato na Fórmula 1 aos 18 anos. Os mesmos amigos que vieram apoiá-lo no paddock na corrida de Imola, a poucos passos de sua cidade natal, Bolonha, no ano passado.
"Eu sempre tento fazer as coisas normais, como qualquer ser humano. Então, ir ao supermercado, ir ao cinema... é mais difícil, mas eu ainda faço isso. Vou com meus amigos ao pub para assistir esportes. Especialmente quando temos um fim de semana livre e tem corridas, ou tem tênis, ou qualquer tipo de esporte. Claro, às vezes não é fácil, porque sempre que você vai, é mais difícil conseguir a mesma privacidade", explica
As falas de Antonelli sobre ir ao lava-rápido, ao pub, ao supermercado e à pista de boliche seriam mais difíceis de entender se ele vivesse em uma cidade grande e agitada, dada a combinação severa de sua enorme fama e a era das redes sociais na qual ele cresceu. Enquanto a maioria de seus rivais da F1 mora em Mônaco, ele agora reside em San Marino, a pequena república situada dentro da Itália, a cerca de 80 milhas de Bolonha.
"Gosto de San Marino porque é muito pequeno e basicamente todos se conhecem. Ninguém pede mais para tirar fotos porque são sempre as mesmas pessoas. Acho isso muito legal", detalha o italiano.
Parecia ser uma aposta enorme, para dizer o mínimo, quando o chefe da Mercedes, Toto Wolff, decidiu que o homem para substituir Lewis Hamilton, o piloto mais vitorioso da história da F1, que foi para a Ferrari em 2025, deveria na verdade ser um adolescente. Antonelli, o prodígio empolgante, mas não testado, do programa júnior da equipe, foi escolhido.
A narrativa de que era muita responsabilidade muito cedo foi fácil de escrever. Antonelli bateu em sua primeira corrida de treino em Monza em agosto de 2024, um dia antes da equipe fazer a confirmação oficial.
Wolff mais tarde admitiu que colocá-lo no treino livre diante de uma mídia e torcida italiana frenéticas não foi uma boa escolha. Depois daquele acidente, o chefe da Mercedes deu sua opinião sobre o talento bruto e ainda não lapidado de Kimi, uma opinião que ele repetiu muitas vezes nos dois anos seguintes: "É sempre mais fácil acalmar um cavalo rápido do que fazer um cavalo lento acelerar".
A temporada de estreia de Antonelli foi uma montanha-russa, especialmente em uma sequência desastrosa de corridas europeias no meio do ano, que incluiu uma colisão com Max Verstappen na Áustria e Charles Leclerc na Holanda - e o contraste marcante com as performances consistentes de George Russell no outro carro facilitou a nomeação do piloto britânico como favorito da pré-temporada. Mas Kimi entrou no recesso de inverno com a chance de avaliar a oportunidade que lhe foi dada.
"Na primeira temporada, você naturalmente está um pouco mais tenso. Senti principalmente que precisava de tempo para digerir. Entender o que foi bom, o que não foi bom. E entender também o que foi bom para mim", disse.
E parece que as reflexões funcionaram. Depois que Russell venceu a corrida de abertura na Austrália, Antonelli conquistou uma vitória na China e depois nas quatro corridas seguintes (Japão, Miami, Canadá e Mônaco). Ele não olhou para trás desde então e abafou uma breve reação de Russell na Bélgica ao ficar no topo do pódio na Itália e na Espanha.
Até para Antonelli, o contraste entre a vida de um novato que pensa demais e a de um líder de campeonato é grande.
"É meio insano, o salto", ele admitiu. "Porque, com certeza, ter um carro rápido ajuda. Obviamente. [Mas] eu não esperava ser um concorrente (ao título) nesta temporada. Claro, eu me encontro nesta posição e estou muito feliz e grato, e tenho que continuar em frente. Só temos que terminar o trabalho".
Ele apontou para a vitória em Monza como o melhor exemplo de como ele mudou as coisas.
"No ano passado, a maneira como lidei comigo não foi boa. Enquanto este ano, sinto que, em coisas que são menos importantes, confiei muito nas pessoas que tenho ao meu redor. Então, elas cuidam disso e eu não preciso me preocupar. A única coisa com que me preocupo é entrar na pista e dar o meu melhor. Enquanto no ano passado, eu me preocupava com muitas coisas. Este ano, me sinto muito mais protegido. Isso tem sido importante para mim".
Aqueles próximos a Antonelli dirão todos a mesma coisa: tornar-se a nova superestrela da F1 não o mudou nem um pouco. A abordagem despreocupada do italiano parecia perfeita para um novato adolescente, mas muitos na Mercedes se perguntavam por quanto tempo isso duraria com sua elevação a um candidato à campeão mundial.
Mas, em vez de se tornar um ambiente de pressão, as coisas mudaram, algo que ele disse notar na forma como interage com o engenheiro de corrida Peter Bonnington, que agora trabalha com Antonelli após ter guiado Hamilton em seus seis campeonatos na Mercedes.
"É mais tranquilo. Você tem mais confiança com a equipe. Vocês se conhecem melhor. Como italiano, gosto de dar abraços. Compartilhar o momento. E no ano passado, às vezes ele ficava muito tenso. Mas este ano, ele realmente gosta. Porque ele sabe que isso também faz parte de mim. Mas ele também gosta disso", disse Antonelli.
Bonnington tem sido alvo de muitas pegadinhas de Antonelli este ano. A conta do Instagram da equipe registrou várias brincadeiras às custas do engenheiro de corrida, incluindo quando Kimi colocou molho de pimenta na bebida dele durante os testes de pré-temporada, e desligando seu crachá para a sede da Mercedes na F1 durante uma visita antes do intervalo de verão.
O entusiasmo juvenil de Antonelli por pegadinhas se estendeu a toda a equipe. Depois da pausa de verão, uma entrevista falsa foi organizada pela equipe no paddock, dando a 19 mecânicos a oportunidade de emboscar o italiano e cobri-lo com pratos de creme.
Durante nossa entrevista, Antonelli começou a rir e pediu brevemente para sair do enquadramento para que pudesse detalhar seu próximo plano ardiloso. Ele então passou por uma lista de pessoas que foram alvo ao longo da temporada, mas havia um nome óbvio faltando.
Perguntado se alguma vez ousou pregar uma peça em Wolff, Antonelli riu.
"Isso é outro nível," ele respondeu. "Você precisa ter muita coragem para fazer isso!", disse o italiano.
Claro, Antonelli pode ter a confiança necessária para fazer isso até o final do ano.
"Vou ter que terminar bem no campeonato. Então terei um motivo para fazer a pegadiha [com Wolff]."
"E então ele não vai reclamar muito sobre isso! Mas isso é outro nível", brincou o postulante a campeão da Fórmula 1.
(*Tradução: Vinicius Garcia)