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O Corinthians surpreendeu até os fãs mais fanáticos de futebol ao anunciar, no último dia 11, a contratação de Clarence Seedorf como novo treinador do clube. A chegada, claro, não passou despercebida. Antes mesmo da estreia à beira do gramado, que acontecerá às 18h30 (de Brasília) deste sábado (24), contra o Vasco , o holandês já começou a deixar sua marca.
Já em seus primeiros dias no CT Joaquim Grava, os treinos foram feitos em dois períodos, pela manhã e pela tarde. O novo comandante aproximou os jogadores da psicóloga Anahy Couto e, segundo informações do GE , solicitou até mesmo que as televisões do local deixassem de exibir programações e calendário para mostrar gols e conquistas da equipe.
A postura de Seedorf não é novidade para quem conviveu com o ex-meio-campista. O ex-lateral Lucas Marques foi companheiro de equipe do holandês no Botafogo , há pouco mais de uma década, e contou como ele já dava mostras do que possivelmente faria como treinador no futuro.
"Digo para todo mundo que vi poucos atletas com a mentalidade vencedora como ele, pouquíssimos mesmo. Acho que nenhum se compara à mentalidade que ele tinha e que ele trouxe da Europa quando chegou ao Botafogo. Ele ajustou muita coisa ali. Como a nossa cultura é diferente da dele, a gente teve um choque, mas um choque bem grande. Ele impunha muita coisa para mudar radicalmente", iniciou, em entrevista exclusiva à ESPN .
"Foi questão de [desligar o] ar-condicionado do ônibus [para evitar choque térmico no calor do Rio de Janeiro], questão de algumas fotos no vestiário que ele trocou, tirou a foto dos atletas que tinham história no clube para colocar todas as nossas. São detalhes que ele foi impondo para mudar e conseguiu. A meu ver, deu muito certo. É um cara que sabe o caminho dos títulos, sabe o caminho da vitória, é um cara inteligentíssimo, e demonstrou isso como jogador", acrescentou.
"Existia tudo isso que as pessoas falam (sobre exigências), mas a minha relação com ele era muito legal, a gente trocava muita ideia, ele me orientava muito. O problema maior era quando as pessoas queriam debater demais. Ele tentando trazer uma coisa que era positiva, e as pessoas querendo debater com ele, acho que gerava um certo atrito, mas eu nunca tive esse problema, eu sempre escutei muito ele, por saber que ele tinha sido uma lenda do futebol", completou.
O que muita gente via como "implicância" de Seedorf, na visão de Lucas, fazia sentido para o que o atleta queria deixar de legado no Botafogo.
"O Dória uma vez contou do chinelo, que, quando saiu no corredor, ouviu para colocar o chinelo. Poderia dar uma topada ali. São detalhezinhos que fazem sentido. A troca de fotos no vestiário fazia sentido, porque ninguém visitava o Engenhão, quem estava dentro do vestiário éramos nós, então era legal você ver uma foto minha com a taça, Rafael Marques fazendo um gol, ele comemorando, o grupo unido abraçado. Por mais que existisse esse debate, tudo fazia muito sentido. A trajetória dele no Botafogo foi querendo o melhor. Ele conseguiu tirar o melhor de muita gente ali, acredito que tenha deixado até um legado legal", avaliou o ex-lateral.
Foi por querer o melhor de Lucas que Seedorf deu uma bronca marcante no ex-companheiro. A situação aconteceu alguns dias antes da final da Taça Guanabara de 2013.
"Antes do jogo da volta, fomos para o coletivo. Eu e o Seedorf estávamos no mesmo time. Eu estava um meio disperso, não queria brigar, chegar junto, com medo de machucar e ficar fora da partida. Aconteceu um lance do meu lado. O ponta me driblou e finalizou. A bola passou próxima ao gol. O Seedorf saiu lá do ataque, veio até a zaga me xingando de tudo que você imagina", relembrou.
"Lembro muito bem do que ele falou: 'Se você continuar assim, a gente vai perder essa final para o Vasco'. E eu fui embora com isso na cabeça. Eu tinha uma relação muito boa com ele, muito próxima mesmo, conversava diariamente. Só que fui com isso na cabeça. Depois, jogamos contra o Vasco, gol meu, do título. Quando chegou ao vestiário, ele veio e me deu um abraço. Falou assim: 'Eu não faço isso por maldade, faço pelo grupo, porque eu quero o melhor de vocês. Faço isso porque a gente precisa ganhar como grupo, e se ganha como grupo assim, cobrando, fazendo essas coisas'", contou.
"Eu entendi o que ele quis dizer depois disso. Fiquei com aquilo na cabeça, me concentrei muito mais para o jogo, me preparei melhor. Joguei muito esse jogo e fomos campeões com um gol meu. Sou muito grato a ele", concluiu.
Já no Botafogo, onde ficou entre o meio de 2012 e o início de 2014, Seedorf mostrava que queria ser treinador.
"A gente sabia que ele ia virar treinador. Ainda como jogador, deu treinos para as categorias de base do Botafogo. Ele treinava de manhã e à tarde já complementava com alguns treinos que dava para a rapaziada da base", afirmou Lucas.
"Em 2014, fomos para a pré-temporada no Botafogo em Saquarema e ele chegou de helicóptero, se despedindo de nós. A gente tinha acabado de classificar para a Libertadores com gol dele, começou o burburinho de ele acertar com o Milan . Ele já estava se preparando para virar treinador".
Seedorf de fato se aposentou dos gramados naquele começo de 2014 para assumir o cargo de técnico do Milan. A trajetória do holandês à beira do gramado, no entanto, ainda está longe de ser parecida com a que teve dentro das quatro linhas.
Depois do Milan, de onde saiu logo no meio de 2014, o ex-meia passou pelo Shenzhen FC, da China, em 2016, pelo Deportivo La Coruña, da Espanha, em 2018, e seleção de Camarões, entre 2018 e 2019. Já eram sete anos afastado da função antes de assinar com o Corinthians.
Ao todo, Seedorf tem 64 jogos como técnico, com 21 vitórias, 17 empates e 26 derrotas -- um aproveitamento de 41,7%, segundo dados do DataESPN.
"Não sei exatamente até que ponto ele vai conseguir ajudar o Corinthians, que vive uma situação muito delicada nos bastidores e acaba refletindo dentro de campo. É um cara que tem as costas largas, não tenho dúvidas disso, aguenta pressão, sabe lidar com isso. É inteligentíssimo, com uma capacidade mental incrível. Se ele conseguir transmitir isso para os jogadores, acho que tem tudo para se dar bem, basta saber se vai conseguir", finalizou Lucas.
Vasco (F) - 24/10, 18h30 (de Brasília) - Brasileirão
Mirassol (C) - 30/10, 20h (de Brasília) - Brasileirão
São Paulo (F) - 04/11, 21h30 (de Brasília) - Brasileirão