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Só para assinantes Assine UOL Opinião Para ir, ou não ir, até Havana Juca Kfouri Colunista do UOL 31/12/2025 01h00 Deixe seu comentário Rua de Havana decorada com a bandeira da ilha Imagem: julianpetersphotography/Getty Images Carregando player de áudio Ler resumo da notícia Não conheço Cuba e provavelmente jamais conhecerei. Era uma criança de 9 anos quando Fidel Castro e Che Guevara comandaram a revolução que a libertou da ditadura de Fulgêncio Batista e Havana era uma cidade pujante e chamada de "o prostíbulo dos Estados Unidos". Depois, já no fim de minha adolescência, também fui encantado pelas proezas revolucionárias e pela ilusão de que, via luta armada, poderíamos fazer do Brasil um país em que vigorasse a máxima comunista, ou cristã?, do "a cada um de acordo com suas necessidades, de cada um de acordo com suas possibilidades". Wálter Maierovitch Sobre Moraes, Gonet se precipitou em arquivamento M.M. Izidoro A marolinha antes da grande onda verde-amarela Ricardo Kotscho Master: Moraes precisa explicar contrato da esposa Nelson de Sá China foge das guerras de 2025; EUA não dão trégua O livro "A Ilha", de meu amigo e vizinho Fernando Morais, publicado em 1976, despertou a vontade de conhecer o país vítima de cruel bloqueio por parte da nação mais poderosa do mundo. Ali, em reportagem ao mesmo tempo realista e esperançosa, descrevia-se um povo tomado de orgulho e alegria, apesar das dificuldades. Longe de ser rico, longe de ser miserável, o país vivia sob limitações, não havia fome, as crianças iam à escola, a saúde pública era conquista de todos e a União Soviética despejava um milhão de dólares por dia para manter vivo o sonho comunista no quintal dos Estados Unidos. Se não bastasse, Cuba abrigava brasileiros e os treinava para empreender a guerrilha que, ingênua e romanticamente, idealizávamos como a meio para derrubar a ditadura instalada em 1964. Confesso que via entre admirado e constrangido os intermináveis discursos de Fidel Castro, sempre de uniforme militar, para multidões impressionantes, durante horas. Ao mesmo tempo, via nas conquistas esportivas das equipes cubanas a prova de que nada era impossível com organização popular, educação e arte. Continua após a publicidade Ainda assim, não me animava a ir fazer turismo onde seria mais bem tratado que a esmagadora maioria do povo e fui não indo, se é que me faço entender. O fim da União Soviética, em 1991, deixa Cuba órfã de pai e mãe. Pausa. Corte. Já neste século 21, mais exatamente no começo da segunda década, leio "O homem que amava os cachorros", Boitempo, e tomo contato com seu autor, Leonardo Padura, nascido em 1955. Vou atrás de seus outros livros e faço do cubano, criador do detetive Mario Conde, um de meus escritores prediletos. Tive a alegria de escrever a orelha de "O romance de minha vida", também da Boitempo como todos os seus livros traduzidos no Brasil, e passei a ver Padura como a mais fiel testemunha da ilha caribenha. Para o bem e para mal, ele que de lá não sai e enfrenta não bloqueio, mas certo boicote. Continua após a publicidade Acabo de ler "Ir até Havana", seu livro mais recente. Ele não gostará de saber, mas o livro é tão bom que se você pensa se tratar de roteiro turístico saiba que talvez sirva mais para Não ir até Havana , tamanho o desalento, o desencanto que relata, amorosamente, sobre a decadência da capital cubana. Não apenas o ideal marxista-leninista do Homem Novo fica como relegado às utopias que insistimos em perseguir, como conhecer Cuba fica parecido com percorrer quaisquer periferias das grandes cidades brasileiras. Poderia transcrever aqui dois ou três parágrafos do livro e cravar com as palavras de Padura o diagnóstico que faz de sua amada cidade, de seu amado país. Mas não darei spoiler. Como disse em entrevista recente, "Cuba não é nem o inferno que a direita apresenta nem o paraíso que a esquerda romântica idealiza" e, ao mesmo tempo, #revela ser este "Ir até Havana" o livro que sempre quis escrever. Já para frei Betto, "Cuba seria o paraíso? Para quem vive na miséria em nossos países - e são tantos - a cidadania dos cubanos é invejável. Para quem é classe média, Cuba é o purgatório; para quem é rico, o inferno. Só suporta viver na Ilha quem tem consciência solidária e sabe pensar em si pela ótica dos direitos coletivos. Ou alguém conhece um cubano que deu as costas à Revolução para, em outra parte do mundo, defender os pobres?". Continua após a publicidade Certa vez, no Roda Viva da TV Cultura, ao ser perguntado sobre a pobreza em Cuba, Padura respondeu: "Vi ao chegar ao quarteirão da TV mais crianças que dormirão na calçada e com fome do que em Cuba, onde nenhuma criança dormirá nesta noite ao relento ou com fome". Enfim, sigo por aqui, sem planos de ir à Cuba (por mais que me mandem), na torcida pelo fim do desumano bloqueio estadunidense e por melhoria na vida do orgulhoso povo cubano. E recomendo o livro como ótima leitura neste verão. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. UOL Flash Acesse o UOL Flash Receba novos posts de Juca Kfouri por email Informe seu email Quero receber As mais lidas agora 'Doido de tesão': eu transei com goleiro no vestiário após partida Até que dia pode jogar na Mega da Virada 2025? 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