Conteúdo Original
Futebol Antes de conquistar a América, o Cruzeiro precisou acreditar em si mesmo Giselly Corrêa Colaboração para o UOL 01/11/2026 08h43 Deixe seu comentário Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Byanca Brasil beija troféu da Libertadores Feminina após vitória do Cruzeiro sobre o Corinthians Imagem: Rodrigo BUENDIA / AFP Um dia antes da final brasileira da Libertadores Feminina, em Quito, resolvi sair às ruas para sentir o termômetro da preferência dos equatorianos para a decisão. Cruzeiro ou Corinthians? Qual dos dois clubes teria a torcida dos anfitriões? Imaginei, a princípio, que seria o Corinthians, dado seu protagonismo e sua hegemonia no futebol feminino sul-americano. Mas o que encontrei foi um cenário diferente: dos seis entrevistados, quatro escolheram o clube mineiro. A estreia contra a LDU, equipe da casa, vencida pelo Cruzeiro por 2 a 1, havia sido apenas o primeiro capítulo de uma história que colocaria o Equador, para sempre, na memória das Cabulosas. Cheguei cedo ao estádio Rodrigo Paz Delgado para acompanhar a disputa do terceiro lugar entre Santa Fe e Olimpia, vencida pelas colombianas. Ao fim da partida, encontrei Natália Simões, a única torcedora cruzeirense que acompanhou, das arquibancadas, toda a campanha do clube na Libertadores. Conversamos por alguns minutos e, enquanto ela ajeitava o bandeirão da Desorganizada Cabulosa, torcida dedicada exclusivamente ao futebol feminino do Cruzeiro, ouvi uma frase que, mais tarde, soaria como um presságio: "Uma hora temos que ganhar". Natália se referia ao retrospecto recente diante do Corinthians, adversário que havia imposto ao Cruzeiro eliminações na Copa do Brasil e no Brasileirão, além da derrota na final do campeonato nacional do ano passado. Havia, naquela frase, uma mistura de cansaço, esperança e convicção. Como se, depois de tantas tentativas frustradas, fosse preciso acreditar que aquele dia reservaria outro destino às Cabulosas. Balaio do Kotscho Desafio à imprensa: um dia sem falar dos Bolsonaros A Hora Congresso atual corre para mudar regras eleitorais Alicia Klein Libertadores Feminina deixa lição para Conmebol PVC Palmeiras é favorito, mas o Vasco vai ser forte E, por falar em presságios, uma das músicas que compuseram a playlist muitíssimo latina da final foi "Clareou", na voz de Diogo Nogueira. A canção, que fala sobre aprender com as derrotas, resistir às adversidades e encontrar forças para recomeçar, parecia ter sido escolhida a dedo para o que estava por vir. Naquele momento, era apenas mais uma música tocando nos alto-falantes do estádio. Algumas horas depois, ganharia outro significado: Assista aos jogos da Libertadores Feminina 2026 ao vivo no UOL Play A vida é pra quem sabe viver Pra quando apanhar não se abater Ganhar e perder faz parte Levante a cabeça, amigo, a vida não é tão ruim Um dia a gente perde Continua após a publicidade Mas nem sempre o jogo é assim Pra tudo tem um jeito E se não teve jeito ainda não chegou ao fim Mantenha a fé na crença Se a ciência não curar Pois se não tem remédio Continua após a publicidade Então remediado está Já é um vencedor Quem sabe a dor de uma derrota enfrentar E a quem Deus prometeu, nunca faltou Na hora certa o bom Deus dará O início do jogo foi desesperador até para o mais esperançoso dos cruzeirenses. O Corinthians dominou o primeiro tempo e abriu 2 a 0, com requintes de crueldade: dois gols de Gabi Zanotti e um título que parecia encaminhado. O Cruzeiro foi para o intervalo precisando encontrar respostas para um adversário que, até então, não lhe havia dado espaço. Na volta, sofreu mais um gol. O placar de 3 a 0 parecia transformar o sonho inédito em mais uma frustração diante do mesmo rival. Continua após a publicidade Atrás do gol, acompanhei de perto a reação da goleira Camila e de suas companheiras de defesa. Pouco depois, o primeiro gol cruzeirense saiu dos pés de Byanca Brasil, liderança do grupo. Mais do que diminuir a diferença, ela parecia determinada a convencer as próprias companheiras de que ainda havia jogo. Gritava "confia" em direção ao time, ao treinador Jonas Urias e às jogadoras que estavam no banco de reservas. E aquele "confia" ecoou. O que parecia impossível começou a ganhar contornos de realidade. Em poucos minutos, o Cruzeiro encontrou forças para reagir, e o que antes era uma vantagem de três gols se transformou em um inacreditável empate por 4 a 4. A cada bola na rede, a distância entre os dois times diminuía, enquanto crescia a sensação de que estávamos diante de uma daquelas partidas que desafiam qualquer tentativa de explicação puramente técnica. O gol de empate, nos minutos finais, veio dos pés de Letícia Ferreira, artilheira da temporada passada, que havia enfrentado uma lesão no joelho. Havia algo profundamente simbólico naquele momento. Letícia, que conhecia de perto a dificuldade de ficar longe dos gramados, devolvia ao Cruzeiro a possibilidade de conquistar a América. Seu gol parecia carregar também um pouco das outras sete companheiras que não puderam viajar ao Equador por causa de lesões, certamente o maior obstáculo enfrentado pelo clube ao longo da temporada. Era como se, por alguns instantes, todas elas também estivessem em campo. Nos pênaltis, o destino reservou um último capítulo à altura do ineditismo, da superação e de tudo o que cercava aquela campanha. Camila, goleira tantas vezes criticada e que talvez nem estivesse como titular nesta Libertadores não fosse a lesão de Claudia, tornou-se decisiva. Depois de falhar durante a partida, defendeu uma cobrança e ajudou a transformar uma noite que poderia ser lembrada pelos erros em uma das maiores de sua carreira. Quando a árbitra confirmou o título cruzeirense, a reação foi imediata. Camila caiu de joelhos, aos prantos, repetindo, quase sem conseguir compreender o que acabara de acontecer: "Eu não acredito, eu não acredito". Mas era verdade, Camila. Ali se materializavam o triunfo, a glória eterna, o sonho mais do que sonhado. A fé, a confiança e a persistência, sentimentos tão frequentemente evocados no futebol e tão difíceis de traduzir em resultados, haviam encontrado sua expressão mais concreta. O intangível, enfim, se tornava palpável. Acredita, Camila. O Cruzeiro está no topo da América. Continua após a publicidade À beira do campo, a gestora Luiza Parreiras sorria, abraçava e vibrava. Jogadoras cumpriam promessas e, ainda tomadas pela emoção, já faziam outras. Byanca Brasil chorava e repetia que aquele era o melhor dia de sua vida. Crianças equatorianas se aproximavam para pedir fotografias e até a luva de Camila, agora personagem central de uma história que ultrapassava as fronteiras de Minas Gerais. Aquela torcida que eu havia encontrado nas ruas de Quito, inicialmente tão surpreendente, parecia fazer ainda mais sentido. O Cruzeiro conquistara a simpatia de quem não necessariamente conhecia sua trajetória, mas reconhecia a força de uma equipe que se recusou a aceitar a derrota quando tudo parecia perdido. Ao longo da temporada, o clube mineiro precisou lidar com lesões, ausências, dificuldades e derrotas dolorosas. Chegou à primeira Libertadores de sua história sem a experiência continental do adversário e carregando o peso de ainda não ter conseguido superá-lo nas decisões mais importantes. Na final, precisou enfrentar também um placar que parecia irreversível. Talvez por isso a frase de Natália, dita horas antes, tenha permanecido comigo durante toda a noite: "Uma hora temos que ganhar". Não era uma previsão fundamentada em estatísticas, tampouco uma análise sobre o que aconteceria dentro de campo. Era a expressão mais simples de algo que sustenta o futebol mesmo quando a lógica aponta para outro caminho: a capacidade de acreditar. Antes de conquistar a América, o Cruzeiro precisou acreditar em si mesmo. E, naquela noite em Quito, fez com que todos nós acreditássemos também. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Publicidade Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. UOL Flash Acesse o UOL Flash As mais lidas agora Reforma tributária avança, mas alíquota e prazos preocupam setor produtivo Corinthians aguarda aval jurídico para fechar acordo de até R$ 70 milhões Perfis evangélicos pregam veto de igrejas a ações e religiosos de esquerda Final da Libertadores Feminina deixa lição para a Conmebol A 'operação de guerra' do Nordeste para reduzir abstenção na eleição