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Análise dos Times

Selecao Brasileira

Principal

Motivo: Felipão, como ex-técnico e campeão mundial, demonstra um afeto e conhecimento profundo sobre a Seleção, buscando sempre o melhor para o time.

Viés da Menção (Score: 0.2)

Motivo: Felipão faz menção ao Grêmio como seu clube atual, demonstrando um vínculo positivo e de pertencimento.

Viés da Menção (Score: 0.3)

Motivo: Felipão defende Abel Ferreira, técnico do Palmeiras, indicando uma visão positiva e de respeito pelo trabalho realizado.

Viés da Menção (Score: 0.4)

Palavras-Chave

Entidades Principais

internacional grêmio palmeiras abel ferreira neymar corinthians selecao brasileira copa do mundo messi ronaldo tite felipao rivaldo galvao bueno cristiano ronaldo

Conteúdo Original

Felipão relembra a carreira, quer reatar com Tite e brinca sobre fama de bravo A tradicional bufada apareceu algumas tantas vezes. O "bá", a interjeição bem gaúcha, também. Mas o último técnico campeão do mundo com a seleção brasileira está light como nunca. Em 2h de uma pedida e aguardada entrevista ao Abre Aspas , Felipão falou de tudo com franqueza pouco vista nos últimos tempos. Principalmente pela ferida de 2014, o 7 a 1 que marcou a carreira longeva – ainda em atividade no Grêmio – e para lá de vitoriosa. Passou a limpo Galvão Bueno, Tite, Ronaldo e Rivaldo. Contou histórias de Cristiano Ronaldo e Messi. Analisou Neymar e a Seleção (a entrevista foi realizada antes da convocação). Também saiu em defesa do "gremista Ronaldinho" e do palmeirense Abel Ferreira. Até bastidores de negociações com Corinthians e Internacional ele revelou. 1 de 9 Felipão em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Victor Lannes Felipão em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Victor Lannes Ficha técnica: Nome: Luiz Felipe Scolari Nascimento: 9 de novembro de 1948, em Passo Fundo (RS) Profissão: ex-jogador e ex-treinador. Hoje, dirigente de futebol Clubes como jogador: Caxias, Juventude, Novo Hamburgo e CSA Clubes e seleções como treinador: CSA, Juventude, Brasil de Pelotas, Al-Shabab, Pelotas, Grêmio, Goiás, Qadsia, Kuwait, Coritiba, Athletico, Criciúma, Al-Ahli, Jubilo Iwata, Palmeiras, Cruzeiro, Seleção (Copas 2002 e 2014), Portugal, Chelsea, Bunyodkor, Guangzhou Evergrande, Atlético-MG. Na Seleção , campeão do mundo em 2002 e da Copa das Confederações em 2013. Ao todo, foram 53 jogos, com 37 vitórias, 7 empates e 9 derrotas. Em 2014, a Seleção terminou em quarto lugar na Copa disputada no Brasil. Principais títulos como treinador: Campeonatos gaúchos pelo Grêmio (1987, 1995, 1996). Copa do Brasil (1994), Libertadores (1995), Brasileiro (1996), Recopa Sul-Americana (1996). Pelo Criciúma, Copa do Brasil (1991) e Catarinense (1991). Paranaense pelo Athletico (2023). No Palmeiras, Libertadores (1999), Brasileiro (2018), duas Copa do Brasil (1998 e 2012), Mercosul (1998), Rio-São Paulo (2000). Campeonatos nacionais fora do país pelo Jubilo (Japão 1997), pelo Bunyodkor (2009 e 2010 no Uzbequistão), pelo Guangzhou (2015, 2016 e 2017 na China) e no Qadsia (1991-1992 no Catar). No Kwait, venceu a Copa do Golfo em 1990. ge: O Brasil vive tempos de convocação para a Copa do Mundo, situação que o senhor passou em 2002 e 2014. Foi difícil tomar aquela decisão de não chamar o Romário? Felipão: — A escolha foi naquele momento, por uma série de situações, menos a parte física do que qualquer outra coisa. O clamor popular daquela época eu entendia perfeitamente, mas tinha algumas situações que analisava e para mim não correspondiam, não era o que eu queria. Tinha o clamor, por exemplo, que o Ronaldo estava voltando de lesão. Tive a confiança e toda a situação equilibrada de dizer "eu garanto para ti que ele vai estar bem" do doutor Runco, confiei plenamente na minha equipe de trabalho. Fiz a minha escolha e ninguém teve colocação nenhuma, a não ser dentro dessa escolha. Inclusive, o presidente, o Ricardo Teixeira, me deu total liberdade para que eu escolhesse. Eu iria arcar com os ônus ou bônus de vencer ou ser derrotado. E a escolha foi nesse sentido. Nunca teve uma situação como a atual, não dá para fazer um parâmetro. Se fosse há 24 anos, o senhor levaria o Neymar para a Copa? — Se fosse o técnico da Seleção, analisaria o porquê, onde, o que fazer, quem faria determinada situação para que o Neymar pudesse aparecer, o que é que ele faria. Uma série de estudos que a gente faz para levar alguém e indicar alguém. Eu atualmente não tenho nada como técnico, não sou técnico, mas, no momento em que eu analisava A ou B para levar, também me socorria do doutor Runco, do doutor Serafim, que na época trabalhava comigo, Paulo Paixão, Darlan Schneider, as pessoas que podiam me dar referência sobre o que eu ia conseguir fazer com aquele jogador, na divisão entre esse ou aquele. — Então, eu não posso dizer que levaria ou não levaria, porque não conheço a situação atual, não sei qual é o pensamento do Carlo em situação de jogo. (Nota da redação: a entrevista foi gravada antes da convocação da última segunda-feira) Felipão responde se levaria Neymar para a Copa do Mundo É possível estabelecer um paralelo entre as convocações de 2002 e 2026? Tanto pelo debate em torno da convocação de um determinado jogador (antes Romário, agora Neymar), quanto pelo fato de o craque do time estar voltando de lesão (daquela vez Ronaldo)? — Mas o paralelo que fazem não é o correto. Nós tínhamos uma situação já vivida, estudada. Não era por lesão, era uma questão pessoal, muitas vezes, porque nós iríamos jogar de uma determinada forma, tínhamos um jogador com determinadas características e, para incluir determinado jogador, eu teria que fazer algumas concessões, ou alguns teriam que fazer alguma coisa diferente. Naquela época, a convocação era bem diferente. A CBF tinha uma sede na Rua da Alfândega, no Rio de Janeiro, os acessos eram diferentes. O que você passou naqueles dias? — Eu estive na Alfândega agora porque fui ao consulado americano lá no Rio essa semana. E eu me lembrava, olhei bastante para os lados. Lembrei o que a gente passou. Passou as dificuldades da não convocação de A ou B, de que a torcida não entendeu, se revoltou, quase virou o carro que estávamos. Uma situação que não era normal para um técnico, que não acho que seja correto para nenhum técnico. Ele vai fazer sua escolha e sua escolha tem que ser a escolha nossa, do povo. A escolha dele é a nossa, porque ele que está envolvido e ele vai arcar com a sua responsabilidade, como o presidente falou comigo naquele dia: "Faça sua escolha e a responsabilidade é tua". — Vocês se lembram que eu fiz a convocação e tinha um livrinho azul que era anotado à mão, porque naquela época eles queriam que eu fizesse a convocação no dia anterior para submeter para vocês (imprensa). Eu não, vou levar o meu time na hora. E até a seleção fez uma escolha para mim do voo Porto Alegre-Rio de Janeiro e não fui. Eu fui Porto Alegre-São Paulo, São Paulo-Rio de Janeiro, porque eu não queria ter nenhuma situação envolvida comigo. Então, todo mundo me esperando no Galeão e eu por São Paulo, depois para o Rio, faço a minha convocação. Eu fiz a convocação, foi escrito naquele caderninho, o pessoal achou até estranho, como é que pode ser? Então, fiz aquela convocação e aí fizemos toda a arrumação para que não acontecesse uma situação igual a que a anterior tinha havido. A turma já sabia que não ia ser convocado A, B ou C e aí tinham agido de uma forma ridícula no Rua da Alfândega. Há paralelos entre a situação de Neymar agora com a de Romário em 2002? Felipão responde Na época, se falou que o Romário quebrou sua confiança com uma operação no olho, teve a história da aeromoça... O que realmente aconteceu? — Teve um monte de historinha. Quando tem algumas histórias que a gente fica sabendo ou toma desconhecimento, sim ou não, não sabe, mas quando tu analisas as características do teu time, dos jogadores que vai dispor no teu time, aí que é importante saber se tem que convocar ou não. Eu tomei as decisões que achei que tinha que tomar naquele momento e baseado no staff que eu possuía também, uma série de detalhes que tinha conhecimento e que vivenciava no dia a dia. Essa foi a discussão mais midiática, mas internamente havia outras dúvidas mais difíceis? — Uma ou outra. Não esqueça que nós assumimos, se eu não estou enganado, éramos sexto colocados e classificavam quatro naquela época. Nós iniciamos perdendo para o Uruguai. Foi difícil. Quando chegou a Copa América, nós perdemos para Honduras. Daí reforçamos a ideia de que já tínhamos 18, 19, 20 jogadores dos 23 que nós levamos, já certos. Vimos ali na Colômbia, com quem nós podíamos contar, com algumas situações de bastidores que vivíamos e que a imprensa não tinha conhecimento. A gente vai ajeitando, escolhendo. Condicionam muito a questão do Romário ao fato de vocês terem ganhado a Copa, mas o mais importante numa decisão dessa é a convicção antes do resultado? — Sabem muito pouco do ambiente vivido por todos. A gente que vive o ambiente tem alguns conhecimentos diferentes de quem está fora e que opina. A gente não pode se basear nessas opiniões. Tem que se basear na sua opinião própria. Se der certo, muito bem, ótimo. Foi o que o Ricardo falou para mim. Se der certo, está tudo bem. Se der errado, tu vai ter que responder. Por que Romário ficou fora da Copa de 2002? Felipão responde Outra ausência muito comentada foi a do Alex. Por que não levá-lo? — Foi uma questão de momento vivido e de escolha, porque eu precisava de um jogador com aquelas características que foi escolhido o menino do Corinthians, o Ricardinho. Quando toma a decisão, é sozinho, mas ouve a opinião do preparador físico, do médico, mas tem que tomar a decisão. Nós entendemos naquela oportunidade que não precisávamos de um atacante mais com aquelas características. Havíamos trabalhado com o Alex e sabíamos que as características dele eram mais à frente do que no sentido de recompor. E o Ricardinho recompunha mais. Às vésperas da Copa, você perde o capitão, que era o Emerson. Qual o peso disso naquela Copa do Mundo? — Eu perco o capitão, perco a pessoa que era da minha confiança, que trabalhava aqui no Sul também. Mas a perda de um jogador naquele momento era diferente da atualidade. As notícias que chegavam, a forma como chegavam, a forma como se focava o jogo naquela época, fazia com que a gente pudesse trabalhar intimamente o grupo para que aquela perda não fosse totalmente sentida, mas, sim, de uma forma a incentivar o resto do grupo a fazer alguma coisa. Com aquela perda, um jogador ganha a posição e fez um campeonato mundial espetacular, que é o Gilberto Silva, com uma característica que dava ao Roque Júnior, ao Edmilson, ao Lúcio, aos dois laterais, a tranquilidade até maior do que o Emerson possuía. Ele estava ali para fazer o trabalho hipoteticamente sujo que precisava. Achamos uma manchete de um jornal do Rio de Janeiro que te definia como "o homem com fama de mau". E você falava que era uma questão do futebol gaúcho ser diferente, jogar muitas vezes na lama e tudo mais... — Eu fui há pouco tempo no Serginho Groissmann (Altas Horas), que é meu amigo de 30 anos. E aí, quando eu cheguei: "ele tem cara de bravo". Pelo amor de Deus, não sou bravo, não sou nada. Mas é a imagem que passava. Quando jogador de futebol, eu encarava meus adversários de forma tranquila, com amizade, com sinceridade, mas fazia valer o meu lugar. Depois, como técnico, teve uma ou outra briga no decorrer desses anos. Foi muito comentado, principalmente pela imprensa, que a minha fama era de que se fizesse isso, fizesse aquilo. Nunca fomentei essa situação, mas também não me preocupava que fosse falado. — Eu me lembro que quando fui pela primeira vez para o Palmeiras, a imprensa de São Paulo dizia que eu não ia durar um mês, porque tinha tido uma briga homérica com o Palmeiras anos atrás. Quando eu trabalhei com o Grêmio e um dos nossos perrengues era o Palmeiras com a Parmalat, lembram? Fui para lá e me dei tão bem, tanto que hoje é um time que eu adoro. Eu sou gremista, nasci gremista, mas adoro o Palmeiras e tenho uma admiração muito grande. Meu segundo time no mundo é o Palmeiras. As pessoas achavam que não ia dar certo, mas é a forma de trabalhar, de observar. 2 de 9 Felipão em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Victor Lannes Felipão em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Victor Lannes Será que houve também uma tentativa de construir um anti-herói por tudo que se imaginava daquele Palmeiras do Vanderlei Luxemburgo, aclamado com o futebol mais bonito? — Futebol bonito, minha opinião, é o que vence. Se não venceu, não é bonito. O Criciúma foi campeão da Copa do Brasil contra o Grêmio empatando 1 a 1 no Olímpico, e 0 a 0 em Criciúma. Não jogava bonito, não. Jogava para o gasto. Eu me lembro que uma vez nós estávamos ganhando em 1995 na final da Libertadores do time da Colômbia (Atlético Nacional), 3 a 0, e aí tomamos um gol, porque fomos querer jogar bonito. Eu entrei no vestiário e queria matar os caras, foi 3 a 1. Mas vocês gostavam também de alimentar isso. O senhor e o Cacalo (dirigente na época do Grêmio) trabalhavam essa imagem para o Grêmio copeiro e brigador? — Claro, o Cacalo era o meu diretor, que sentava comigo no banco. Estava 0 a 0 um jogo contra o Palmeiras, contra a Corinthians, e coisa e tal. Eu ia colocar mais um atacante, o Cacalo dizia assim: "0 a 0 está bom, calma, não inventa, não faça isso". Era uma outra época. Nós do Sul jogamos um futebol mais pegado, mais forte que o futebol paulista e o futebol carioca, o futebol mais jogado, mais trabalhado. Mas tiveram times que jogaram bonito. Qual o seu time que jogava o futebol mais bonito? — Eu não digo mais bonito, mas a situação que passava a segurança era o time do Grêmio em 95. Qualquer um que entrava na equipe tinha segurança, sabia o que ia fazer. As pessoas têm a ideia de que o Palmeiras era um time muito forte, mas o Júnior Baiano, que todo mundo acha que ele não jogava muito, batia e jogava para caramba. O Júnior Baiano foi um dos melhores jogadores que eu tive na vida. Ele sabia jogar. Quer dizer, se tem um time do Palmeiras com o Arce, Júnior Baiano, Roque Júnior e o Nagata (Júnior, lateral-esquerdo). Tem César Sampaio, Alex, Pena, Oséas, Basílio, Euller. Não jogava bonito, mas era um futebol que você sabia que ia ganhar de 1 a 0, 2 a 0. Tinha dificuldade, mas sabia que ia fazer gol. Na Copa das Confederações de 2013 também jogou bonito... — Esse foi o problema de 2014, que ganhou a Copa das Confederações em 2013 jogando maravilhosamente bem, bonito, todo mundo alegre, feliz. Em 2014, deu uma série de probleminhas, não com os jogadores, mas entre nós lá dentro. Nós temos que assumir algumas dificuldades e deu errado. Depois, jogar no Brasil é muito difícil, mais difícil do que jogar fora. Jogar fora não tem a pressão que tem aqui. A pressão externa e as cobranças por ser uma Copa no Brasil atrapalharam muito? Ter vivido essa geração tecnológica prejudicou? — Nós não conseguimos blindar ou fechar totalmente a Seleção da forma como blindamos ou como estávamos blindados em 2002. Foi muito problemático, porque a gente tinha que tomar umas atitudes que impactavam junto às pessoas que trabalhavam conosco, comerciais, empresas que eram patrocinadoras, uma série de detalhes. Interesses pessoais, interesses de grupos dentro da Seleção. Uma coisa eu posso te dizer: depois de 2002, que a Seleção ganhou o Mundial, 2014 foi quarto lugar. Foi o melhor lugar que nós chegamos até hoje. É ruim? Sim, foi ruim, mas ainda foi o melhor lugar. Ninguém lembra disso. Bastidores do 7 a 1: Felipão diz que Copa das Confederações “foi o problema” Foi possível identificar "essas coisinhas" que o senhor fala na época ou só depois fez uma reflexão e diagnosticou? — Principalmente depois da Copa. Principalmente quando nós perdemos e que quem tem que assumir é o treinador, e quem assumiu fui eu. A derrota que até hoje é falada em 7 a 1 para a Alemanha. E que a gente vai somando uma coisa e outra e vai captando que aquilo poderia ser diferente. Mas não tinha como fazer diferente porque você fez de acordo com aquilo que achava o ideal. Só que aquele dia não deu o ideal, foi errado, foi errado. Aconteceu tudo o que aconteceu. A catástrofe aconteceu e não podemos voltar atrás, não. É assumir o que tenho que assumir. É um tema que o senhor hoje aborda de maneira mais natural? Em algum momento tentou não falar? — Sim, sim! Tentei, mas tive um apoio muito grande em 2014, principalmente do doutor Fábio Koff (então presidente do Grêmio). Eu morava em São Paulo e ele foi lá e disse para eu não ficar remoendo a situação de derrota o resto da vida. Foi um segundo pai que tive, e disse que eu iria com ele para o Grêmio. O clube estava sem treinador e que eu assumiria. Voltei, me entreguei de corpo e alma e fui esquecendo até 2015, quando rumei para a China. Tive apoio, não foi sozinho. Quer queira, quer não, mas também tive o apoio da minha família. Eles vivenciaram a situação de derrota e me deram... Não força, mas o apoio para esquecer e viver o que eu sempre vivi. O senhor chegou a pensar que poderiam lembrar mais do 7 a 1 do que de 2002? — Te farei uma pergunta. Quem ganhou em 2002? A Seleção. — A Seleção! Quem perdeu em 2014? A Seleção. — Não... Felipão! Eu levei um tempo para assumir, mas depois foi normal porque este é o pensamento que acho ser da população. Alguém tem de assumir e, se um desastre aconteceu... Se eu fosse escolher, trabalhar, fizesse tudo... Agora fará de novo? Vai mudar tudo? Não! Eu não mudaria porque entendia à época que aquilo era o melhor. 3 de 9 As caras e bocas de personagem do futebol brasileiro: aos 77 anos, Felipão apresenta versão paz e amor — Foto: Victor Lannes As caras e bocas de personagem do futebol brasileiro: aos 77 anos, Felipão apresenta versão paz e amor — Foto: Victor Lannes Esse quadro de família próxima, do Koff... Isso foi uma depressão? — Não! — Nunca tive depressão! Um cara como eu, que gostava do vinho, churrasco, chimarrão, vai ter depressão na vida? Não, mas machuca. O resultado não era esperado, nunca vai ser aceito. Nem por mim e nem por ninguém! — Machucou, mas logo depois o ambiente, as pessoas que lidam contigo dão a mão e ajudam. Elas te socorrem. Assim como você socorre A, B ou C quando eles precisam. Se tu fazes o bem, recebes o bem. O senhor reassistiu àquele jogo? — Eu nunca reassisti ao jogo, nenhum jogo. Lances esporádicos, em uma outra oportunidade, assisto ou relembro... "ahh! Está bom!". Mas eu não vejo o jogo no dia seguinte ou dois, três, quatro anos depois. Tenho mais ou menos uma ideia e aquilo ali segue. E a minha vida no futebol sempre seguiu normalmente. Não vejo motivo para fazer algo diferente daquilo. O senhor lembra como foi aquela noite ou o dia seguinte? — Não lembro! Provavelmente não devo ter dormido, ficado chateado ou dormido pouco, mas para dormir eu não pago imposto. Devo ter sentido normalmente como todos, mais por isso ou por aquilo... Por que eu não fiz? Por que aconteceu aquilo? Aconteceu. É verdade que depois daquela derrota o senhor se chateou com o Galvão Bueno e que também não queria mais falar com a Globo? — Fiquei chateado por algumas colocações, mas depois de um certo tempo falei com muita gente daquele tempo. Tenho 77 para 78 (anos). Vou levar adiante para quê? Vou ficar chateado com A ou com B? O que eu vou ganhar? Quanto tempo eu tenho de vida ainda para poder ficar raivoso com alguém? Passou! Cada um faz o seu trabalho. Só acho que podemos ser lembrados como vivemos certos assuntos antes de tomar uma atitude. Claro que fiquei magoado com uma ou outra situação, mas já não tenho nenhuma preocupação ou qualquer coisa com A, B ou C. Nem o Galvão nem o João, o Pedro... Já passou! Encerrou o assunto, seguimos para frente. Pronto. Felipão admite que chateação com Galvão Bueno, mas diz: “Já passou, encerrou o assunto" Acredita no hexa? – Acredito. E torço para que o Carlo consiga, o Rodrigo Caetano, a turma que está envolvida no processo. E o seguinte: o que envolve uma Copa do Mundo, que ninguém está ainda falando muito, são os cruzamentos. A primeira fase é Marrocos, Haiti e Escócia, tudo bem. Mas depois vêm os cruzamentos. Esses cruzamentos são os importantes, porque aqui (primeira fase) você pode até perder um jogo. Lembra que a Argentina perdeu para a Arábia Saudita e foi campeã? Mas ela perdeu nesses três jogos. – Depois são os jogos que nós falamos aqui no Sul: o mata-mata, um jogo só. A tua equipe ou está bem ou está mal. E aí a gente perde ou ganha. Os cruzamentos são importantes. Pelos cálculos da turma que nós temos aqui no Grêmio, se nós passarmos em primeiro, nas outras chaves vamos pegar uma situação mais ou menos (na segunda fase). Aí depois são cruzamentos: Argentina, Espanha, Portugal, Inglaterra, França. Esses são os jogos que tu não pode errar. Recentemente, em outra entrevista, você falou que essa geração é parecida com a sua de 2002, mas com um pouco menos de qualidade. Ainda assim, dá para ganhar? – Dá para ganhar. Em muitas situações, o time não sendo o melhor, mas naquele dia estando equilibrado... Passa! Tem que ter o equilíbrio daquele jogo. Hoje os jogos todos são estudados de uma forma colocada no vídeo, uma vez, duas vezes, três vezes, cinco vezes. Já no meu tempo, em 2002, (analisamos) a entrada do Owen da ponta esquerda para o meio, aquela jogada já era estudada. Não era para acontecer. Imagina agora. Nós temos que saber também, nós brasileiros e os jogadores brasileiros, a comissão, é que precisamos ter uma seleção brasileira nossa, uma seleção envolvida. Que nós saibamos que A vai fazer um trabalho para que B receba, para que C seja finalizador. Nós temos que saber tudo isso para que, em determinadas situações, em inferioridade, consiga equilibrar. Confiança no hexa! Felipão comenta chances do Brasil na Copa O senhor tem muita experiência no futebol e hoje parece estar com a percepção mais leve de tudo. Tem a impressão de que o ambiente do futebol está mais hostil de tempos para cá? — Uhum! Tenho. Inclusive, converso bastante com o meu filho, que está aqui no Brasil (o outro está em Portugal). Falo muito com ele e com a minha esposa como modificaram o futebol e atitudes de jogadores e trabalho. O futebol não é mais jogado com alegria. Financeiramente é o que vale agora. — Vejo nas escolinhas, já que tenho lidado muito com categorias de base. Vou bastante entre o sub-14 e sub-20, mas ouço relatos que na sub-10 os pais brigam com professores. Sub-10! Como vai saber se um menino de dez anos vai jogar futebol? As pessoas estão vendo com outros olhos, o que antigamente não era assim. Com empresário, rede social... — Já tem empresário com dez anos! Tem rede social... Pais que vão ao CT e, se o menino está na reserva, brigam com o técnico! Meu Deus do céu! Não era assim, mas agora mudou. É diferente o futebol dos últimos dez anos para cá. O próprio Palmeiras, que o senhor conhece tão bem, é vaiado mesmo estando na liderança do Brasileirão... — Picham o muro! Leila não sei o que, pelo amor de Deus! O que ela tem feito pelo Palmeiras. Vejo aqui no meu time, o Grêmio... Se faz um cruzamento errado é o fim do mundo! Mudou bastante, garanto isso. A situação de envolvimento com o torcedor passou a ser de muita cobrança. 4 de 9 Felipão em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Victor Lannes Felipão em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Victor Lannes — Há uns dois meses, fui ver um treino de quem não esteve em uma viagem. Treinou quem estava lesionado e quem sobrou. Fui dar uma força, conversar com os jogadores. Eu vi o treino de determinado atleta que fazia força e outro que queria, mas não tinha força. Não era por falta de vontade, mas porque já não tinha força. Mas passar isso para a imprensa e ao torcedor é muito difícil. Ele quer, mas já não tem a força que o companheiro tinha. Não é que não se dedique, mas que não tem a força ou a qualidade. O senhor entende de onde vem a impaciência? — Hoje estou do lado de lá. Acho que passamos muito da impaciência ao torcedor, muito mais do que precisa receber de nós. Talvez seja uma questão social? Vivemos em um país onde a desigualdade é tão grande que um jogador que ganha R$ 1 milhão não tem o direito de errar. — Não podemos falar isso no futebol. Se ele ganha R$ 100, R$ 10, R$ 20, R$ 1 milhão, é da vida. Esqueça! Tem de ver se tem a qualidade. Outro dia ouvi falar do treinador: "ah, nossos treinadores...". Quer mais qualidade do que tem o Carlo Ancelotti? Uma pessoa espetacular. Temos de ver a qualidade. A sociedade como um todo recebe informação que muitas vezes não precisava. Se ganha tanto ou não é assunto do clube. Se ele pode fazer, ótimo. Caso não possa, não faça. Pronto! Hoje o senhor não é mais treinador. Melhorou a saúde? Vimos os episódios do Muricy, Ricardo Gomes... — Estou bem de saúde, graças a Deus! Eu não me estressava. O senhor era divertido, mas muitas vezes se estressava... — Eu chutava o balde! Pronto! Acabava o assunto! Eu ia para minha casa e ficava tranquilo. Na hora, falei o que precisava e acabou. Guardar mágoa por algo, nunca. Meu nível de saúde... Falo com a minha esposa, a Olga, com quem sou casado há 53 anos: "Olga, te cuida porque quando morrer será devagarzinho. Eu serei seco. Pronto. Morreu. Deu". Vais a médico, geriatra, não sei mais o quê. Não vou em nenhum! Quando der, deu! Pronto! O que é errado, né? Tudo bem. Eu sei que é errado o que estou dizendo. Mas não me estressava. Por que essa pessoa que hoje se mostra divertida e carismática sempre teve uma casca para o "lado de fora" do futebol? – Porque não era do seu tempo, mas fizeram isso aí. – Montaram um estereótipo meu. Que o Felipão é isso. Eu não era isso, eu não era e não sou. E também me servia, né? Com os grupos que eu dirigia. Então foi montado, e eu passo hoje em uma e outra palestra que tenho feito. As pessoas vão me conhecendo e dizem: "mas não é assim". Já passou, está bom. Já foi montado. E também foi uma época que a gente usava esse tipo para algumas situações que eram boas para o grupo. 5 de 9 Felipão em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Victor Lannes Felipão em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Victor Lannes O senhor esteve em São Paulo com o Abel Ferreira para homenagem... — Ele foi meu jogador. Ele tem algo de Felipão nas coletivas? — O Abel sempre foi assim. Uma pessoa preocupada com o dia a dia e com toda aquela situação. Quando ele foi convocado, lembro que ele se preocupava com uma ou outra coisa naquela época, como jogador. Em falar, em conversar, em solicitar uma coisa ou outra para o amigo. — Ele se preocupava com a pessoa ao lado dele. Ele era jogador, não era diretor. Então eu vejo o Abel hoje, às vezes, em determinadas situações, reagindo como eu acho que ele reagiria se ele estivesse em Portugal. Ou se ele estivesse ainda como jogador. Eu lembro dele como jogador daquela época. Por isso que entendo, aceito e acho que às vezes ele pode agir intempestivamente como eu agi em algumas oportunidades. Não me arrependo, era a minha forma de ser. Aconteceu. Mas acho que ele é um cara preocupado e é autêntico desde aquela época. O treinador tem que passar essas mensagens, fazer um "nós contra todos"? — Tem que passar. Quer dizer, não é "nós contra todos", mas é o teu grupo, é o ambiente, é o jogar, é o resultado. Um monte de coisas que o treinador tem que estar envolvido e os jogadores juntos. Eu acho isso. Eu gosto. Admiro o Abel, pelo amor de Deus. Felipão fala de admiração por Abel Ferreira e lembra como foi dirigi-lo Um caso que pode servir de exemplo, e que até virou folclore no futebol, foi quando vazou o senhor dizendo no vestiário do Palmeiras que "tem que ter raiva da p... do Corinthians", em 2000. Afinal, você deixou os jornalistas ouvirem aquilo propositalmente? – Não foi verdade! Não foi verdade que eu deixei o repórter colocar o microfone ou que estava a janela aberta (de propósito). O repórter, ou a repórter, não foi correto. Jamais imaginei aquilo. Eu falava para o meu grupo. Nunca falei em direção à torcida do Corinthians, ao Corinthians ou quem quer que seja. Eu falei ao meu grupo o que era ter vontade, raiva, tinha que ter, jogar com gana. Eu não sabia que alguém estava colocando o microfone. A pessoa que fez isso foi mal-intencionada. No meu grupo eu não fui mal-intencionado. Eu fui bem-intencionado. Se atingiu alguém, eu peço desculpa, mas não fui com essa intenção. Teve o papo de que talvez fosse até uma forma de inflamar... – Não foi, não foi. O que eu queria, fiz dentro do grupo. Lá fora foi a pessoa que não foi correta comigo. Mas você entrava no Palmeiras, você fazia tudo. Agora não entra mais. Anos atrás circulou a informação de que o Corinthians tinha interesse em contratá-lo e que até chegou a abrir negociação. Isso realmente aconteceu? – Existiu em duas oportunidades. Mas depois, quando a gente imaginava ou quando ia para os "entretantos", os "finalmentes"... Eu sou muito vinculado ao Palmeiras. Será que eu seria bem aceito? Eu faria essa pergunta para mim. Os dirigentes também fizeram essa pergunta para eles próprios. E a gente chegou à conclusão que não era o ideal. Respeitei, sempre respeitei. – É como aqui, Grêmio x Internacional. Já estive com o presidente do Internacional no hotel em Gramado acertando contrato, mas depois nós pensamos. Era o Fernando Carvalho. "Fernando, acho que não". Nós somos tão amigos que eu vou comer um churrasco com ele em determinado dia aqui, já marcamos e tudo mais. O Abel vai estar junto, o Tite vai estar, mesmo que a gente nunca mais tenha se falado, é um momento de falar da amizade que nós tínhamos em Caxias há 300 anos. Ela não pode ser posta assim por causa de um jogo. – "Fernando, acho melhor não, por causa disso e daquilo". Mas a amizade continua, o respeito. Isso que é bonito: respeito pelo clube, pelas pessoas. Então, não sei se eu iria um dia. Acho que seria muito difícil a aceitação em Corinthians, Internacional. Mas era e ainda sou profissional, trabalho aqui no Grêmio, mas era um técnico profissional. É isso que também acho que as pessoas muitas vezes esquecem. O Roger (Machado) foi nosso aqui (no Grêmio), um lateral maravilhoso, fantástico, foi nosso treinador. Ele foi treinar o Inter, e eu vejo que às vezes a torcida não (aceita). Ele é um profissional do mais alto gabarito, um dos melhores técnicos que tem por aí. Por que não aceitar um técnico? Por que nós, da Seleção, temos que ter técnicos só brasileiros? Temos que ver a qualidade. Meu Deus, eu vejo a qualidade. Então, não interessa se tu é A, B ou C, ou se tu gosta de A, B ou C como equipe. Interessa o teu profissionalismo, a tua qualidade. Felipão revela negociações para dirigir Corinthians e Inter Pretende se reaproximar do Tite? – Claro, claro, conversar, porque afinal, depois do que nós vivemos, nunca mais tivemos um relacionamento de amizade. É como eu disse antes, passou, terminou, por uma razão ou outra aconteceu uma situação que eu não gostei, e ele provavelmente não tenha gostado. E pronto, passou já. Vamos encerrar. Para quê? Ou vamos ter um relacionamento como pessoas humanas, normal? Felipão quer se reaproximar de Tite O que o futebol representa para você? – Representa a minha vida, cara. Tudo o que imaginei, eu vivi, vivi bem. Recebi essa oportunidade e fiz por merecer. Eu tive possibilidades de melhorar a minha vida em tudo. Conviver com pessoas que eu jamais imaginava, ter amigos do mundo todo, que eu nunca pensei nisso, ser campeão do mundo. Pô, eu soube esses dias que só tem sete técnicos campeões do mundo vivos, eu sou um deles. Maravilhoso, né? Nunca pensei nisso. Quando eu pensei em jogar futebol, nos meus 17, 18 anos, imaginei jogar Aimoré, Caxias. Uhhh... chegar no Grêmio? Eu não podia chegar, porque era ruinzinho, né? Então, eu chegava. Não imaginei tudo isso. Nunca imaginei o ambiente que vivi. – Se eu tivesse todos os percalços que tive, se tivesse que fazer tudo de novo, diria que faria de novo tranquilamente, alegre, feliz, porque vivo bem, contente, feliz com tudo aquilo que consegui no futebol. Não tenho nada de uma situação que eu dissesse: "Ah, não, ia fazer diferente". Não, não. Foi ótimo, foi maravilhoso, eu consegui imprimir na minha vida algo que o futebol me deu que foi espetacular. Quando o futebol entrou na sua vida? — Eu sempre fui atrás do futebol, desde os 18 anos. O meu pai não queria que eu jogasse futebol. De jeito algum! Ele achava que o jogador era uma classezinha bem danada. Não errou totalmente, né? Mas tudo bem. Ele me deixava (jogar) desde que eu estudasse. Fiz curso de Contabilidade, trabalhava, me formei em Educação Física, fiz Direito por dois anos, mas fui atrás do futebol. Por sinal, quem me deu oportunidade de jogar foi um ex-técnico do Grêmio, o Seu Oswaldo Rolla, o Foguinho. Ele dirigia o Aimoré, de São Leopoldo. Fiz um teste e ele disse que eu podia permanecer. Meu sentimento com o Grêmio vem desde lá. Quando fui para o Caxias, sete anos após defender o Aimoré, fui por um ex-goleiro do Grêmio, famoso, espetáculo de pessoa: Sérgio Moacir Torres Nunes, já falecido. Tenho uma identificação com o Grêmio muito grande desde pequeno, até sem querer. O senhor falou que estudou Contabilidade, Direito... — Não gostava. Não? — Não gostei. Porque eu aprendi Direito, eu até fiz alguns contratos de jogadores do Aimoré, ajudava, né? Podia ajudar o pessoal. E não é difícil fazer um contrato, pelo amor de Deus. É só ler bem e a gente faz. Mas eu não gostava. Eu gostei depois da área que fui, a sequência do futebol, que é Educação Física. Depois fiz um concurso do estado, fui professor 16 anos no Rio Grande do Sul. Nessa transição, você via o teu ganha-pão ou sentiu era que tua vocação? — Eu juntava uma situação à outra: jogar futebol e ser professor de Educação Física. Dentro da especialização de Educação Física, eu fiz mais um ano de especialização em futebol. E eu disse: "vou ser técnico", porque parecia ser uma coisa mais lógica para mim. Tive técnicos que me incentivaram, como o Carlos Froner, que mostraram algumas situações que foram o princípio de como eu comecei a trabalhar. Porque você se engana. Quando começa a trabalhar no futebol, acha que pela faculdade, por tudo aquilo que já viveu, vai ser um grande treinador. Não é assim, não. É muito diferente. A gestão de grupo é menosprezada no futebol? — Nos ensinamentos, é menosprezada. Eu era jogador do CSA, em 1981, e fui campeão. Nós ganhamos o campeonato de Alagoas. E aí o Valmir (Louruz), que era o meu técnico, foi embora e eu comecei como técnico. — Mas eu tinha que fazer escolha. Dos 25 jogadores, eu tinha que colocar 11 em campo. Aí todos os meus amigos que iam à praia comigo — todos não, mas alguns —, que iam comer um caranguejo na praia, que iam tomar alguma bebida, fazer alguma coisa… Se eu não colocasse no time, eu passei a ser o mau. — E é gestão de grupo. Vai aprender isso com o tempo. É difícil. Aprendi no CSA, mas trupiquei muitas vezes. Depois é que eu fui aprender um pouquinho mais como auxiliar aqui em Porto Alegre, no Juventude, depois com o técnico do Juventude. É aí que vai aprendendo como gerir uma equipe. 6 de 9 Felipão em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Victor Lannes Felipão em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Victor Lannes Qual o segredo? — Não tem segredo. Comando não se ensina a ninguém. Vai ter comando ou não vai ter comando. Negocia? — Bastante. Tem que aprender a negociar, a ouvir. Aprender, não. Saber ouvir muita coisa, saber negociar. Tem que ser um pouquinho mais inteligente do que é. Quantas vezes o senhor permitiu que o Paulo Nunes ficasse na maca um pouco mais para manter o time do Grêmio forte? — Quase sempre, porque o baixinho era o terror. Gente boa demais, espetacular. Mas ele te dava tudo e mais um pouco do que tu imaginavas. Então tu podia fazer alguma condescendência com ele. — Não era só com ele, era com A, com B, com C. E os outros — e aí é que está o que eu quero dizer —, os outros que estavam envolvidos no processo, jogadores, sabiam que ele teria que ficar um pouco mais na maca. Porque no domingo ele dava dez piques, dez velocidades a mais, dez corridas a mais. Então eles sabiam que podiam olhar para ele bem de lado e dizer: "Paulo, pode ficar aí, deixa que eu faço". Essa é a qualidade de um time de futebol. Na Seleção é mais difícil fazer isso do que no clube? — É mais difícil, mas tendo as pessoas certas é mais fácil. Porque uma seleção sempre são os melhores. Pelo menos pensa-se assim. Por exemplo, vou te dar um dado. No jogo com a Inglaterra, o Rivaldo, quando o Ronaldinho foi expulso, passa dois minutos depois por mim no banco e diz: "Professor, não muda nada que eu faço, eu marco dois". Nunca tinha dito isso na vida (risos)... — Não, nunca falou, nem marcava o dele (risos). Brincadeira. Ele marcava bem. Esse é o envolvimento. Isso é o que faz uma equipe de futebol. E realmente naquela época a gente jogava daquela forma. O goleiro batia o tiro de meta direto para o meio do campo, não tinha saída de três, não tinha saída de bola com o volante, não tinha uma série de coisas. E aí o Rivaldo marcava dois. O Rivaldo, grandão, ganhava e ia atrás da bola. Então, esse envolvimento dos atletas com o técnico, principalmente numa seleção, consegue ser alguma coisa diferente. — O que é que o técnico da seleção argentina atual conseguiu? Ser campeão. O que é que ele fez? Todo mundo corre para o Messi. E o que o Messi fazia? Ele pegava a bola e fazia o gol (risos). Então, se correr para ti, tu faz. Agora, se tu não fazes nada, eu vou correr para ti? Eu não vou correr. É diferente. Depois de 2014, voltou-se muito para a tática, mas se deixou de lado a parte humana do futebol? — Subestimam o lado humano do futebol. É muito estudado, é muito trabalhado, é muito metódico. É muito ideal. "Eu quero que passe a bola assim". Não! Quanto mais improvisação… E o que está se buscando no futebol, é aquele que seja diferente, o que faça alguma coisa de improviso, o que modifique uma partida. Eu tenho um sistema. Mas, dentro do sistema, tenho variantes. Eu deixo à vontade. O jogador diz o quê no intervalo para vocês principalmente? "Nós vamos ouvir o míster para mudar o jogo". Precisa? Ele já está te colocando em campo, já te dá a oportunidade de jogar, de fazer algumas coisas, de fazer algumas improvisações, fazer alguma coisa diferente. Precisa ouvir de alguém? Não precisa. Tem uma supervalorização do técnico? — Tem. Não precisa disso. Agora, tem que ter personalidade. Falta senso de responsabilidade de dizer: "está difícil, vou resolver"? Em 2002 o senhor tinha isso. — Nos treinamentos da semana, antes de jogos, o que a gente enchia o Ronaldo… Meu Deus do céu! "Tem que fazer isso?". Devagar, quase parando. Mas fazia o gol. Tá bom, ótimo. A gente sabia o que podia fazer para ele, que ele podia ter aquela atitude nos treinamentos, porque os outros tinham a atitude. Quando chegava a bola, ele sabia o que fazer. Fazia normalmente aquilo de olho fechado. Então, dava para fazer. Hoje é mais difícil. Hoje o envolvimento dos jogadores é muito pessoal. — Um ano em um clube… Os jogadores não têm mais o envolvimento, não têm mais a camisa. É muito profissional. Tem que haver envolvimento do gostar, e gostar do clube que ele está trabalhando. Não por situação financeira só. Também por situação financeira. Mas além de gostar do que faz, gostar do clube, ter identidade com o clube, que é o que a gente procura. Hoje está um pouquinho mais difícil. — Mas, felizmente, agora no Grêmio, dos 35 jogadores, 13 são oriundos da base. Ótimo. É envolvimento, é identidade. Quando você tem 30%, 40%, 50% com identidade de clube, é mais fácil de trabalhar. 7 de 9 Felipão em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Victor Lannes Felipão em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Victor Lannes Há quem esteja mais interessado em levar uma vida de jogador do que realmente em jogar futebol? — Uma vez eu disse uma bobagem num determinado programa, num determinado momento. Não vou dizer agora. Mas se você não gosta do que faz, vai para outra profissão. Não gosta? Vai para outra profissão. Eu já disse uma bobagem, não volto a dizer agora. "Não gosta daquilo? Não faz isso". Se você gosta, tudo bem. (Nota da redação: Felipão disse "se não quer pressão, é melhor ir trabalhar no Banco do Brasil"). Você viveu episódios que são inimagináveis hoje em dia. Um exemplo é quando o Arce apareceu com a perna engessada, mas a lesão era de mentira, e ele foi para o jogo... – Ah, nós falamos ainda outro dia. O Arce é meu amigaço, eu converso com ele e ninguém lembra: o Arce chegou de muleta e de gesso para um determinado jogo e que ele jogou no outro dia. Grandes cruzamentos do Arce. Mas naquele tempo, como eu disse, era diferente... A gente podia fazer uma coisa ou outra, agora não se pode mais. Não se pode, nem tem como fazer. Aquilo foi ideia sua ou alguém da comissão? – Acho que foi ideia minha. Ninguém da comissão ia ter essa ideia... E o Arce aceitando. Quer dizer, o envolvimento também de todos nós era tão bom que fazíamos isso. Lesão fake: Felipão conta história de quando simulou que Arce não jogaria pelo Grêmio Aquele time de 1995 do Grêmio alçou o senhor a um patamar diferente. Foi o time da sua vida? – Sim, mas tenho que me lembrar que em 1987 eu vim a primeira vez depois de um jogo em que o Grêmio perdeu para o meu time, o Juventude, por 3 a 0. No campo do Caxias. O técnico foi embora e naquele dia mesmo o Verardi (ex-dirigente gremista) me pegou no meio do campo. Será que não foi mais importante aquele time ou aquele momento? Não sei. Quem sabe foi, porque eu vim para o Grêmio com um time que tinha Luiz Eduardo, China... Que a gente foi campeão em 1987 no Campeonato Gaúcho. – Eu vim fazendo o meu contrato com o Verardi no campo do Caxias e olhando: "mas o Grêmio tem treinador". E ele: "não, o treinador vai embora". E tinha que ter a aceitação do meu diretor do Juventude, que era o Sérgio Tomazzoni. "Mas Deus", eu falava assim para mim. Nós íamos para os jogos finais do campeonato. Quando eu vim para o Grêmio... É uma situação que é tudo diferente hoje. Chegar ao Grêmio, com meu Chevetinho verde, estava lá a caminhonete do Lima, dois metros de altura... São situações que a gente vai vivendo e são ótimas, boas. – Eu tenho envolvimento com o Grêmio em muitas situações. O Diego Souza, quando veio para o Grêmio. Eu estava na seleção portuguesa e tinha convidado o Mano (Menezes) para jantar no (restaurante) Solar dos Presuntos, em Portugal. E o Mano não pagou a janta. Quem pagou fui eu. O Mano era treinador do Grêmio, e o presidente do Benfica era o Luiz Felipe Vieira. Nós estávamos juntos quando foi oferecido o Diego Souza para o Grêmio. E o Luiz Felipe Vieira não queria mais fazer o negócio porque o Diego Souza tinha jogado no Flamengo, tinha um problema lá, eu disse: "presidente, pode trazer que no Grêmio eu garanto". Meus envolvimentos com o Grêmio são diferentes. E ele veio para o Grêmio e fez coisa fantástica, jogou bem para caramba. 8 de 9 Felipão em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Victor Lannes Felipão em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Victor Lannes O senhor certamente já ouviu a história que depois do jogo de ida da final, Paulo Nunes, Jardel, Nildo e companhia vão para a festa com o Higuita. Como foi descobrir isso? – Eu não sabia. Soube depois. Pô, pelo amor de Deus. E o Paulo Nunes, ele estava comigo aqui no Grêmio, depois foi para o Benfica, voltou para o Palmeiras comigo. E o Paulo Nunes começou a frequentar a igreja que o César Sampaio ia. Ia o César Sampaio, Oséas... Tinham quatro ou cinco que iam ao culto. Aí vai o Paulo Nunes: "professor, acho que eu posso ir lá?". Eu digo: "o quê? Pô, pelo amor de Deus, nem passe perto. Se eu souber que tu estás lá, acaba". E ele dava risada. Mas ele não era tão ruim assim como eu estou pintando. Ele não era tão malandro. Em Medellín, quando vocês vão para com a vantagem, Pablo Escobar já tinha morrido. Mas havia um cuidado maior, um perigo? – O cuidado não aconteceu desta forma. O que aconteceu é que nós tomamos um gol aqui. Aí lá saiu o gol deles, 1 a 0, e ficamos naquela dúvida: ataca ou defende. Se tu tomas mais um gol, perdia o título. Então fica esse ambiente, para o jogador é ruim, porque ele fica na dúvida. E não tem como falar ao jogador. A semana toda passa falando isso, isso, aquilo. Mas lá dentro de campo é diferente. – Ainda bem que tivemos uma situação inimaginável. O Alexandre Xoxó driblava o Arce nos treinamentos 42 vezes. Eu olhava para o Rivarola e dizia: "pode dar. Eu vou olhar para o lado. Dá que eu não vou apitar nem falta". O Rivarola vinha e sentava o porrete nele, porque o Arce é um gentleman. O Arce não fazia (falta). Aí no jogo precisou (substituir) por alguma razão, e o Alexandre entrou. Quem fez a jogada do gol? Quem driblou todo mundo? Quem fez toda a confusão e sofreu o pênalti? O Alexandre. Até hoje eu falo com o Alexandre sobre isso. O Dinho fez o gol de pênalti, a gente empatou e administrou. E não teve nada de situação de tráfico, polícia. Fomos muito bem tratados. Depois do 5 a 0 contra o Palmeiras, o senhor já tinha certeza de que o título seria conquistado? – 5 a 0, tu não vai ter certeza? Pelo amor de Deus. Com 1 a 0 tu já estás satisfeito na vida. 5 a 0, então... Bom, depois fizemos o gol ainda. Mas aí vem o gol do Palmeiras, do Amaral, com ele dois metros na frente, que o juiz disse assim: "vamos deixar o gol". E aí começa. Depois, aos 40, quando está 5 a 1, não sei quem foi que chutou a bola de fora da área na trave, lá no ferro. Ai meu Deus! – A gente tinha certeza absoluta que ganharia o jogo. Mas lá teve situações: o Danrlei não pôde jogar, estava expulso; o Murilo, que jogou, tinha um dedo quebrado, mas jogou assim mesmo, com infiltração. Mas tinha certeza que a gente ia ganhar o jogo. O Palmeiras foi fantástico e fez o 5 a 1. Ninguém esperava isso, ficou para a história. Mas eu, graças a Deus, digo: foi 5 a 1. Tá bom, tá ótimo, fiquei gostando mais ainda do golzinho do Jardel. Vocês ganham a Libertadores, vão para a final do Mundial em Tóquio contra um Ajax que não perdia há dois anos, era considerado imbatível. Como foi a sensação de levar até os pênaltis e perder? – Fomos aos pênaltis porque o juiz não foi correto. O juiz expulsa o Rivarola pelo telão. Porque no jogo ele não expulsa o Rivarola, nem deu falta. Depois, pela segunda vez que o telão mostrou... Não tinha VAR, não tinha coisa nenhuma. Primeiro VAR da história. – Primeiro VAR contra mim, pelo amor de Deus. Não existia isso, nem era norma. O telão mostrou uma vez, duas vezes, o juiz voltou atrás e expulsou. E nós tivemos as melhores chances do jogo, mesmo com dez. Nos pênaltis aconteceu algo que não é normal. Dinho e Arce, os melhores batedores, aqueles em quem mais confiança eu tinha. São coisas que acontecem. E o Ajax daquele tempo tinha um timaço. Era a base da seleção (holandesa), e eles sofreram para empatar com o Grêmio. Litmanen, Davids, Kluivert, Van der Sar no gol... Um timaço. “Primeiro VAR da história”: Felipão lembra derrota no Mundial de 1995 com o Grêmio Em 2000, com o Palmeiras, foi da mesma forma? Ou como aconteceu, com o Marcos saindo errado... – Não é que o Marcos saiu errado. Podem achar que não, mas ele (Ryan Giggs) foi cruzar e pegou mal na bola. E cruzou. Ela passou do Marcos. O Marcos fez a cobertura no poste, no meio da área, e ele pegou mal na bola, pegou mais forte do que o normal. Eu vejo assim. – O Marcos é uma figura fantástica. O Marcos em todo jogo da Copa do Mundo pedia para não jogar. "Professor, por que não põe o Dida? Eles são melhores que eu. O Rogério e o Dida são melhores". Pode pôr. Quem são os melhores jogadores que o senhor dirigiu? – Ah, não dá. Ou talvez os mais determinantes. – Eu tenho uma amizade até hoje que adoro como jogador e digo: não tem igual. Arce. Não teve igual: Luís Figo. O que jogaram, os que eram como pessoa... Não tem igual. Então, aqui no Brasil, se eu escolher um, não posso. Paulo Nunes vai ficar com ciúme. – Ah, pois é. Não posso. O Arce e o Luís Figo, pronto. Adilson? – Não, o Adilson, pelo amor de Deus. O Adilson veio de Minas com um problema na perna e recuperou no Grêmio. Foi fantástico o que jogava. Não quero escolher um terceiro brasileiro porque todos estão no meu coração. E os que deram mais trabalho? – Alguns, né? Tinha um na Seleção que eu disse: "se eu descobri que saiu desse quarto, nunca mais vem". Aí ele disse: "não, pelo amor de Deus". E foi um cara espetacular comigo. Não posso dizer o nome. Trabalhar no dia a dia, na parte técnica, eu nunca tive problema. A parte de malandragem, um ou outro, eu tive que ajeitar. São 20 anos falando de Cristiano Ronaldo, mas queria que contasse qual foi o primeiro olhar sobre ele? — Não fui eu. Foi o Murtosa. Foi o Paulo Bento. O Paulo Bento era técnico dele nos juniores do Sporting. E o Paulo Bento havia falado ao meu diretor, que na época era o senhor Carlos Godinho, diretor da federação também. Trabalhava comigo todo dia na federação. Disse que tinha que olhar o jogador tal. "Vou olhar o jogador tal com 17 anos?". A seleção portuguesa tem o Quaresma. Lembra do Quaresma? Jogava para caramba. Simão. Vou olhar? Pelo amor de Deus. "Murtosa, vai tu lá". Um jogo do júnior e coisa e tal. — O Murtosa foi, voltou e disse: "Pelo amor de Deus. É um animal. É um cavalo de forte. Tem que convocar". — Daí surgiu uma oportunidade, e ele foi convocado. No segundo jogo ele já fez o gol. Foi convocado pelas qualidades dele. Foi o Murtosa que incentivou a convocação.É uma pessoa espetacular. Tudo aquilo que vocês conhecem dele é real. É um cara vaidoso, se veste bem, blá, blá, blá, se ajeita. O que ele faz de benemerência para muitas entidades ninguém sabe. Ele é espetacular. Felipão conta como descobriu CR7 e lembra episódio da morte do pai do craque Mais do que um craque, ele virou um símbolo de obstinação, de dedicação. — Eu briguei com o Messi há tempos atrás. O Messi disse: "chefe, você nunca votou em mim na Bola de Ouro, você votou no Cristiano". Pô, tem que votar no Cristiano, é como um filho meu. O Messi é gênio. Se ele fechar os olhos, sabe que a bola está ali. O Cristiano não é gênio. O Cristiano se fez (gênio) pela vontade e pela dedicação. Ele também sabe que a bola está ali. Mas ele sabe de outra forma. O Messi não. Aquilo é normal dele. É a mesma coisa que o Ronaldinho Gaúcho. O Ronaldinho Gaúcho não precisava dar tática nenhuma para ele. Meu Deus do céu. Qual o tamanho da abdicação de uma pessoa para chegar com 40 anos assim? — Eu estive com ele há um ano. Um ano atrás. E aí eu perguntei para ele: “Vem cá, Ronaldo. Tu está trabalhando por causa dos mil gols? Mil gols? Vai trabalhar para isso?” “Não, não, não, professor”. “Ah... tu não me engana. Não me engana que tu está trabalhando para isso.” “Não, não. Estou contente.” — Ele estava lá na Arábia, “mas eu estou contente, estou satisfeito. Eles me trata maravilhosamente bem”, mas eu sei que ele está trabalhando para isso. Eu acho que ele vai conseguir. Mas ele tem uma dedicação especial. Desde criança, que enfrentava as dificuldades vindo da ilha lá para chegar a isso. Ele se envolve tanto com o futebol. Ele se dedica tanto ao futebol. — Uma vez, eu convocava ele para a seleção portuguesa, e ele vinha lá do Manchester United. E aí o Ferguson ligava e dizia assim: “Felipão, fala para ele não bater falta aí hoje, porque ele chutou 30 faltas aqui.” Meu Deus. Então, era de amanhã, eu chegava de tarde e ia fazer o nosso treinamento, que era dois, três dias antes do jogo. E ele queria bater mais 30. “Pelo amor de Deus, já fizeste isso. O Ferguson já me disse. Não faça isso”. Ele falava: “Pode deixar”. Essa é a dedicação do atleta. A família do Cristiano Ronaldo tem um carinho muito grande pelo senhor pelo momento em que ele perdeu o pai. O senhor tem memórias dessa época? — O pai dele faleceu, e nós íamos jogar contra a Rússia pela classificação do Mundial ou da Euro 2008. Eu me lembro que quando chegou a notícia, o Carlos Godinho, que é a pessoa com quem eu tenho amizade até hoje, disse: "Felipão, aconteceu isso e isso". Chegamos à conclusão que para dar essa notícia tinha que ser eu. Pela amizade, por tudo, pelo carinho. Eu chamei o Cristiano para o meu quarto na Rússia e, claro, passei a ele que já tinha vivido pela morte do meu pai e toda aquela situação. Abracei, chorei com ele, interagi e coisa e tal. "Agora tu estás liberado, vai embora para o velório, para o falecimento do teu pai". — E ele disse: "primeiro a nossa seleção. Primeiro eu vou jogar. O meu pai tinha certeza que ele queria que eu jogasse e que eu fosse o melhor em campo". E ele foi. O melhor em campo naquele jogo foi ele. Se não me engano foi 0 a 0 na Rússia. E foi assim que eu passei a ter uma amizade maior com a família também. Agora a irmã do Cristiano, se não me engano, mora em Gramado. Tem lá os investimentos. Uma ou outra vez eu encontro. 9 de 9 Felipão comandou Cristiano Ronaldo no início da carreira — Foto: Getty Images Felipão comandou Cristiano Ronaldo no início da carreira — Foto: Getty Images Vamos tratar de outro craque: Ronaldinho Gaúcho. O senhor fala dele com muito carinho... – Não sou eu só. O irmão dele, o Assis, fala dele há 200 anos. E o Assis era bom. Ele dizia assim para mim: "o senhor tem que ver o meu irmão". Ah, seu irmão tem dez anos, pelo amor de Deus. "Meu irmão que é craque, meu irmão, meu irmão". Depois eu fui conhecer o Ronaldinho. Não jogou comigo. Eu fui conhecer, convocar, conhecer pessoalmente, quando ele jogava no Paris Saint-Germain. Por questões da saída dele e do fato de não ter voltado, o Ronaldinho não tem uma relação tão boa com o Grêmio... – Ele ainda não tem essa relação, mas nós já falamos dez vezes aqui dentro: tem que trazer o Ronaldinho aqui e temos que ter essa amizade, esse carinho pelo Ronaldinho, que venha fazer parte do nosso grupo, do nosso Grêmio, porque ele é nosso, ele é gremista. Criou-se uma situação absurda e que não precisa ser levada em frente. Não precisa! Ele é nosso, é espetacular, é querido aqui, é da família. Então, para que ficar longe do que você gosta? Eu acho que ele gosta da gente, e nós gostamos dele. Como reconstruir essa relação? – Não sei. Eu participei de uma situação para ele e achei que ele vinha aqui, mas ele não estava em Porto Alegre. Mas é claro que se ele estivesse em Porto Alegre, e era uma situação para ele que eu iria gravar, ele iria vir aqui e nós começaríamos a construir uma situação. Não sei se num jogo do Grêmio, um jogo desses que vamos ter daqui para frente, um dia desses, a gente não convide o Ronaldinho. Venha, faça parte do nosso camarote, seja bem-vindo, e coisa e tal. Porque nós precisamos dele e ele precisa da gente. Felipão quer reaproximar Ronaldinho Gaúcho do Grêmio O senhor teve muitas experiências internacionais. Era um outro mundo... — Trabalhei em sete país e precisei me adaptar. Ou você forma grupo ou não. Qual foi o mais maluco de trabalhar? — Um país educado demais, fantástico para viver, é o Japão. Se você imaginar uma situação de vida, o Japão tem tudo. É espetacular, mas trabalhar na China foi ótimo. Fui um dos primeiros a ir para a Arábia em 1983. Já estavam Pepe, Telê, Vanderlei, Joubert. E o país era totalmente fechado. Tínhamos o Leonardo e, em um parque, existia separação. Se ele ficasse comigo em um lado do parque, a Olga ficava do outro e não passava para cá. Brincava o Leonardo comigo. Era assim. Depois mudou. Hoje vejo que meninas e mulheres vão ao estádio. A Arábia hoje com todos os craques, a evolução do campeonato. Terá a Copa em 2034 e provavelmente será espetacular. Eles têm qualidade para fazer. Não têm a técnica, mas os estádios, situações que serão muito bonitas. O que mais o marcou por estes países? — Uma vez Ryad. Trabalhávamos Murtosa, Aristides, que era auxiliar, o Candinho, Carpegiani, Espinosa e eu. Quando chegava o Natal, os brasileiros se reuniam, mas ainda era fechada a Arábia. Não tinha bebida alcóolica, nem clandestina. Se pegassem, você era deportado. O Murtosa inventou de fazer um vinho. Compraram uva, amassaram, deixaram no tambor. Era para ficar 60 dias, mas quiseram tomar em 30. Meu Deus do céu! Tomaram o vinho, mas depois todo mundo teve uma desinteria. Virou a história mais famosa da Arábia. Ficamos mal. O Uzbequistão é um mercado muito diferente. Como foi a experiência? — Eu estava no Chelsea, mas rescindi. O Rivaldo estava no Uzbequistão com mais três brasileiros e me indicou. Quando saí do Chelsea, surgiu a oportunidade. Hoje eles estão na Copa. Começamos ali a trabalhar o futebol do Uzbequistão, não eu, mas aproveitaram a oportunidade. Levaram outros técnicos... — O Rivaldo quem me abriu a chance, ele me levou ao Bunyodkor. Jogamos 32 partidas, ganhamos 28 e empatamos quatro. Foi uma campanha bem boa. Estava quase acertado com o Valencia. Até viajei e escolhi casa, mas o Chelsea disse que, se eu permanecesse na Europa, o contrato não seria rescindido, mas encerrado, sem o acerto de pagamentos. Poderia voltar ao Brasil ou ir a outro lado que seria honrado. Fui ao Uzbequistão e recebi praticamente duas vezes. Ganhava até mais do que no Chelsea. Não fiquei bravo. O senhor está fora do campo há dois anos... — Mas eu sinto (falta)! Fico lá em cima olhando: "ai, meu Deus! O que podia fazer? Podia fazer isso, aquilo". Mas aprendi e foi muito bom trabalhar quando comandei o Paulo Turra, fui comandado pelo Mano (Menezes). Aprendi a me colocar como um diretor, como alguém que está fora do comando da equipe. É isso, aquilo, mas sei me colocar. — O pessoal acha que tenho de falar isso ou aquilo. Agora temos o Luís Castro. Eu não pergunto por que ele não botou fulano. É uma opção dele. Não vou dar porque minha opinião pode ser totalmente diferente. Se for chamado para uma conversa ou para determinado assunto, eu não faço. Não faz o que não gostaria que fizessem contigo. — Não! Eu não aceitava! Nunca aceitei. Por que agora farei isso? Vejo o técnico falando que convocaria beltrano, fulano. Cara, fica quieto, pelo amor de Deus! Na tua vez, faça o que quiser. Pronto! Foi difícil aprender a usar o tempo livre? — É! Minha esposa se formou em biologia, mas precisou sair após 15 anos como professora do estado do Rio Grande do Sul. Desde os 32 anos, são 45 de futebol e ela me acompanhou a todos os locais que eu fui. Eu ia um ou dois meses antes. Na Arábia, fui três antes dela. Foi um estilo de vida que agora é diferente, agora tenho tempo para isso ou aquilo. Solicitei licença ao Grêmio para ir de 4 a 20 (de junho) a Nova Iorque, no programa da Globo. Vou com o pessoal. Não viajo mais. Faço uma ou outra. Quando é contra o Palmeiras eu vou porque lá também é minha casa. Não tem a brincadeira com a dona Olga de ela mandar o senhor trabalhar? — Ela manda porque eu incomodo. Já fico bastante em casa. Tenho um apartamento em Gramado, um lugar espetacular para irmos no fim de semana se o jogo não é aqui. Se o Grêmio joga na Bahia, tenho o sábado e o domingo que posso ir. Tenho três netos em Porto Alegre e posso ficar com eles. Estou aprendendo também, né? Embora devagar porque eu vejo que há dias que vou ao Grêmio, almoço e fico para algumas conversas. Ainda tenho bastante apego ao futebol, mas já voltado à família. Eles me apoiaram bastante e devo muito.