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Abre Aspas: Daniel Dias fala sobre bullying na infância, conquistas paralímpicas e família Ele escolheu sorrir para a vida. Num mundo em que as pessoas com deficiência física ainda enfrentam muitas barreiras e diversos tipos de preconceito, Daniel Dias preferiu adotar o sorriso como sua maior arma. Longe das piscinas desde 2021, quando se retirou do esporte de alto rendimento, o campineiro criado em Camanducaia, Minas Gerais, já sofreu bullying, olhares de reprovação e até foi barrado em um local público por usar prótese na perna direita. Em uma conversa de quase 2h com o ge , o maior medalhista paralímpico do esporte brasileiro (foram 27 medalhas em Paralimpíadas, sendo 14 de ouro, sete de prata e seis de bronze) abriu o seu coração, falando de vida pessoal, carreira, trajetória e do seu dia a dia fora das piscinas. -- Sorrir para a vida. Essa foi minha principal escolha. Para deixar o processo mais leve, para deixar a vida mais leve. A vida tem os seus desafios, não são todos os dias que a gente está motivado, que eu acordo pronto para o treino, não são todos os dias que eu acordo e dou um sorriso. Mas são todos os dias que eu posso escolher e trazer o sentimento que o sorriso pode trazer - disse Daniel. 1 de 6
Daniel Dias, ex-nadador Paralímpico, no Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli Daniel Dias, ex-nadador Paralímpico, no Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli Casado e pai de três filhos, o ex-nadador revelou que sofreu bullying na infância por conta da sua deficiência física aparente - ele tem malformação congênita nos dois membros superiores e na perna direita. Em outro episódio da sua vida, já na adolescência, Daniel conta que foi barrado por um segurança ao tentar passar por uma porta giratória com a sua prótese. - Quando criança, eu sofria muito preconceito, o chamado bullying hoje. Falo sobre isso nas palestras. O quanto machuca e tem que ser banido, evitado, o quanto isso tem que ser falado. Me machucou muito, me feriu muito quando criança (...). Tiveram episódios em que eu não pude entrar em um ambiente pelo detector de metal. Eu uso prótese. Eu era adolescente, fui entrar, tinha o detector, e o guarda não deixou. Sem explicação nenhuma. A explicação estava no olhar dele. Eu nasci com a deficiência, eu sei quando a pessoa me olha com respeito e quando me olha com preconceito. Na conversa com o ge.globo, Daniel também contou que já estava inclinado a encerrar a carreira nas Paralimpíadas de Tóquio e que a polêmica reclassificação em 2019 - foi obrigado a trocar a classe S5 pela S6, para pessoas com um grau de deficiência menor - foi o estopim para não voltar atrás na decisão. Decepcionado com a mudança forçada, ele revela frustração por não ter encerrado a carreira da forma que queria. - Eu já estava decidido a parar. Após os Jogos de 2016, no Rio, eu já tinha começado a pensar. Em 2017, eu tiro um tempo para pensar na minha vida, no que eu vou fazer, como vai ser isso... Afinal de contas o atleta não está pronto para dizer "adeus", "vou encerrar", "vou pendurar a sunga". E ali eu já tracei uma meta, a de que vai ser o meu último ciclo - disse o ex-nadador. Abre Aspas: Daniel Dias fala sobre os motivos que contribuíram para a sua aposentadoria Daniel também deu detalhes do episódio vivido em 2019, quando o IPC (Comitê Paralímpico Internacional) fez uma reclassificação em vários atletas, mudando-o da S5 para a S6. - Eu me preparei para isso, mas, em 2019, quando acontece, contribui para que eu pudesse parar, porque foi muito forte. Negativamente foi muito ruim receber aquilo. Afinal de contas não eram atletas novos que estavam chegando. Eram atletas que estavam competindo há 10 anos, sete anos. Eram atletas que eu já via competindo e, de repente, esse atleta vai competir contigo, sendo que ele era duas classes acima. Isso foi me magoando muito e, ao mesmo tempo, eu olhei para a minha carreira e vi que fui muito além do que eu imaginava. Eu já entreguei muito para o esporte, então estava na hora de dar adeus e atuar em outras áreas. Então foi o conjunto que fez com que eu parasse - contou. Ficha técnica Nome: Daniel de Faria Dias Idade: 37 anos (24 de maio de 1988) Local de nascimento: Campinas-SP Participações em Paralimpíadas: Pequim 2008, Londres 2012, Rio 2016 e Tóquio 2020 Medalhas em Jogos Paralímpicos: 27 no total, sendo 14 de ouro, sete de prata e seis de bronze Outras conquistas: 40 medalhas em Campeonatos Mundiais Paralímpicos de Natação e 33 medalhas em Jogos Parapan-Americanos + Jackie Silva critica biquíni no pódio e relata brigas com Sandra: "Não queria mais jogar com ela" + Bruninho revela cobrança extrema de Bernardinho e exorciza Londres 2012: "Fundo do poço" + Virna rejeita rótulo de seleção "amarelona" e defende Mari: "Foi um crime o que fizeram com ela" + Giba conta bastidores e admite entregada em 2010: "Não vamos ser hipócritas" + Tande chora ao lembrar infarto e se arrepende de treinos à la Romário: "Eu poderia ter sido maior" Abre Aspas: Daniel Dias ge: Como é ser o maior medalhista brasileiro da história das Paralimpíadas? -- Essa pergunta é ótima. Eu parei de competir já tem um ciclo e estamos indo para o segundo ciclo. E confesso que isso é uma coisa que eu paro para pensar em algum momento, começo a olhar as minhas medalhas... Confesso que ser o maior medalhista olímpico e paralímpico brasileiro é algo incrível, é algo sensacional e, se eu puder resumir, eu fui muito além do que eu imaginava no início da minha carreira. Então ser o maior medalhista é uma grande conquista, mas eu vejo que isso representa muito mais do que medalha. Representa as pessoas com deficiência. O meu objetivo sempre foi fazer a diferença. Minha mãe sempre falou: "Daniel, quando você crescer, você tem que fazer a diferença". E eu acredito que através das conquistas eu pude fazer a diferença e continuo fazendo. Então, tentando resumir, é uma sensação indescritível, mas é muito além de medalha. É uma representatividade muito grande para a pessoa com deficiência. Você falou que, quando você começou, não imaginava chegar onde chegou. Então o que você imaginava para a sua carreira no início? -- Eu falo o seguinte, se eu fosse escrever uma carta para aquele garoto de 16 anos, quando conhece a natação, quando conhece o esporte paralímpico, eu escreveria uma carta dizendo que não chegaria nem perto de onde cheguei. Eu não imaginaria nunca. O que eu sonhava naquele momento era ir para o Campeonato Mundial, para a Paralimpíada, e eu queria realizar esse sonho. Eu tinha acabado de ver uma Paralimpíada em Atenas 2004, então eu queria estar numa Paralimpíada, com aquele sentimento de representar o Brasil. Eu sempre gostei de esporte, sempre fui ligado a esporte. Eu queria ser jogador de futebol, sempre gostei de acompanhar o futebol. A primeira Copa do Mundo que eu acompanhei foi a de 1994 e eu queria representar o Brasil. E ali eu vi aquela possibilidade e o meu sonho era esse. Só que as coisas foram acontecendo muito rápido. Quando eu fui ver, já estava no meu primeiro Campeonato Mundial, Parapan... Que bênção, o meu primeiro Parapan, em 2007, ser em casa, no Rio de Janeiro, já vivendo grandes emoções. Então foi sensacional. Não mudaria nada do que aconteceu na minha carreira, mas, para aquele garoto lá, eu não chegaria perto de onde eu cheguei. Qual seria o título dessa carta? -- O título seria "sonhe alto". Sonhe alto, que é possível realizar sonhos. 2 de 6
Daniel Dias celebra bronze nos Jogos Paralímpicos de Tóquio — Foto: OIS/Bob Martin Daniel Dias celebra bronze nos Jogos Paralímpicos de Tóquio — Foto: OIS/Bob Martin Você sempre falou sobre o Clodoaldo Silva, que você o assistiu nas Paralimpíadas de Atenas 2004 e ali você decidiu que também queria ser nadador. Clodoaldo é o seu maior ídolo? Como é a relação de vocês? -- Vou me atentar aqui (risos). Clodoaldo é uma figura (risos). Ele é um cara sensacional, maravilhoso. Clodô, um beijo meu amigo! E hoje que privilégio. Eu falo assim, o esporte me possibilitou grandes conquistas, mas também me possibilitou estar com um cara que eu vi nadando, que eu vi competindo, que eu me inspirei, uma referência, um exemplo para mim. Ele é aquele cara que eu falei: "eu quero um dia ser como o Clodoaldo. Eu quero fazer o esporte por causa do Clodoaldo". Então o Clodoaldo representa tudo isso para mim. Então, poder ter competido e ter nadado com ele em 2016, quando ele decidiu pendurar a sunga, nadamos o último revezamento dele, conquistamos medalha e demos uma volta olímpica na piscina, eu sempre falo que isso foi incrível... E poder chama-lo de amigo, acho que isso é a nossa relação de amizade, que começou em 2011 no Parapan de Guadalajara. Naquela ocasião, estava todo mundo saindo, indo conhecer a cidade e nós ficamos no mesmo apartamento, conversando até a madrugada. Ali pude conhecer melhor o Clodoaldo e digo ali a gente começou uma grande amizade. Clodoaldo foi uma grande referência e continua sendo, mas hoje poder chamá-lo de amigo é sensacional. Quando paro para pensar sobre isso, eu lembro a primeira entrevista que eu dei, que foi incrível, porque eu falei que queria ganhar do Clodoaldo. Jamais imaginei que a gente ficaria na mesma classe e a gente competiria juntos. Você falou que sempre foi muito ligado em esporte, que teve o sonho de ser jogador de futebol, mas acabou indo para a natação. Como foi isso? Você lembra a sensação da primeira vez em que entrou na piscina e pensou "peguei gosto, é isso o que eu quero"? -- Lembro sim. No final de 2004, eu tinha assistido às Paralimpíadas e via todo mundo falando de Clodoaldo. Foi aí que eu fui conhecer uma associação em São Paulo para treinar, não para competir, mas para conhecer o esporte. Afinal eu nem sabia nadar, não sabia que a natação tinha quatro estilos. Por mais que eu fosse ligado em esporte, não era em natação que eu era ligado. A natação me foi apresentada e, quando eu entrei numa piscina pela primeira vez, achei gigante aquela piscina de 50m. Eu era um garoto que tinha saído do interior, eu cresci em Camanducaia, Minas Gerais. Pô, eu não tinha visto uma piscina daquele tamanho ainda e, quando eu olho aquilo começo a pensar em tudo, no que está acontecendo na minha vida... Mas, na primeira vez que eu entro na água, não quer dizer que eu não tinha nadado antes, mas não com esse objetivo, eu olhei para aquilo quando eu mergulhei e, sempre falo isso, ali eu me senti completo. Ali eu parecia que já fazia aquele esporte há muito tempo. Parecia que eu estava em casa. Essa era a minha sensação. E, é claro, saí nadando tudo errado, mas para mim estava tudo certo, tudo OK. Depois dali eu aprendi a nadar muito rápido, mas essa sensação eu jamais esqueci. De estar completo, de aqui ser o meu habitat. Foi esse o meu sentimento. Você sentiu essa mesma sensação ao longo da carreira toda vez que entrava na piscina? -- Eu sempre tentei resgatar isso. Sempre busquei isso e nunca quis perder. Até hoje. Quando eu entro numa piscina, o sentimento é esse, maravilhoso. Eu sinto que faço parte daquilo. Então eu sempre conversava com o treinador sobre isso. É incrível quando eu entrava na piscina, quando eu entro na piscina. Quando eu entrava para competir também. Todo aquele privilégio de estar ali, aquele sentimento, aí vinha o sorriso. Ao longo da sua carreira foram 27 medalhas em Paralimpíadas e muitas outras medalhas em Mundiais e Parapans. Teve alguma medalha que você considera que foi a mais especial da sua carreira? -- São muita conquistas e muitas especiais. Se eu somar as três grandes competições da minha vida, que são Paralimpíadas 27, Parapans 33 e Campeonatos Mundiais 40, são 100 medalhas no total. Difícil hoje eu pensar assim, porque são 100 medalhas. Mas tem aquelas que marcam mais. Não que as outras não sejam especiais. Eu diria que a minha primeira medalha paralímpica foi a mais especial. Aquela medalha marca o meu início na Paralimpíada. Quando você conquista uma medalha paralímpica, isso te dá uma visibilidade muito grande. E eu estava realizando um sonho. Eu falei daquela carta e o meu sonho era esse. E foi muito especial, porque foi no dia 7 de setembro de 2008, a primeira medalha de ouro do Brasil e a minha primeira medalha de ouro nos Jogos Paralímpicos, com direito a recorde mundial do outro lado do mundo. Poder ouvir o hino do país do outro lado do mundo foi algo que me fez pensar que deu tudo certo. Então eu tenho um carinho enorme por essa medalha. Daniel Dias relembra conquista mais importante da sua carreira Conquistas são diferentes de momentos. Essa medalha também foi o momento mais especial da carreira ou teve algum outro momento, independentemente de conquista, que te marcou de uma maneira única? -- Boa colocação, porque momentos são diferentes das medalhas algumas vezes. Então o meu momento mais marcante eu fico com a Rio 2016. Foi quando eu tive o privilégio de nadar nove provas e ganhar nove medalhas. Também foi o momento em que eu me tornei o maior atleta masculino medalhista do Brasil. E a minha família estava ali, o povo brasileiro estava ali. Não tem torcida igual a nossa, não tem país igual a esse. Eu sentia, da água, a vibração. Quando eu entrava na água, parecia que a água estava vibrando. E aí quando chegava do outro lado e via o resultado, a torcida ia ao delírio, no bom sentido, é claro. Então esses momentos todos foram muito especiais, ali a gente viveu grandes emoções e a vida é isso. Na primeira prova que eu nadei, os 200m livre, quando anunciaram o meu nome, parece que eu parei para admirar aquilo. Foi rápido, mas eu parei, olhei aquela torcida toda e, quando eu mergulho, parece que vibrava. Daí veio a medalha de ouro e depois vieram mais oito medalhas. Foram momentos que eu jamais vou esquecer e eu tive o privilégio de estar ali com dois dos meus filhos acompanhando. Eles não lembram muito, eu mostro para eles, mas, para mim, foi um gás a mais para eu chegar naquele grande resultado. Quem foi o seu maior rival ao longo da carreira, aquele cara que te deu mais trabalho, aquele cara que você tinha mais vontade de vencer? -- (Risos). Eu escolhi nadar muitas provas. Poxa, tinham competições que eram nove, 11 provas e eu acabei nadando vários estilos. Mas, com certeza, sempre teve aquele grande adversário que ganhou, perdeu e com quem eu tive que me tornar um atleta melhor para competir com ele. Foi o Roy Perkins, um americano. Um grande atleta, um grande adversário que me marcou muito. Ele era bem na dele, mas na hora que ia para prova ele crescia muito e aquilo me desafiava bastante. E aí a gente teve duelos muito bacanas. Mas poderia citar também o Sebastian Rodriguez, que é um grande amigo hoje e que tem me ensinado sobre resiliência. Ele, realmente, era grato por eu estar no esporte, porque eu chego e acabo quebrando os recordes dele em 2006, quando eu o conheci. E em 2008 ele me encontra e fala que a minha chegada fez bem a ele, porque ele estava relaxado. Lembro que ele estava fora de forma em 2006 e e em 2008 ele volta forte. Era muito legal ver isso, essa rivalidade boa no esporte. Já que você falou de rivalidade boa e das relações construídas com os adversários, o esporte paralímpico parece ser um ambiente bem para cima e descontraído. Existem tretas entre os atletas? Rolam brigas? Já vivenciou ou presenciou algumas? -- Vamos ser bem sinceros. O resumo do esporte paralímpico é de alegria, de sorriso nos rostos. Mas, gente, nós estamos falando de esporte de alto rendimento e alto rendimento é cada um querendo desempenhar o seu melhor e ter grandes resultados. É aí que existem as tretas e as rixas. Principalmente em revezamento, trazendo agora para a natação. Quando a equipe se une sempre tem aquele olhar, aquela conversa e, no final das contas, um diz: "olha, falaram isso de vocês, vocês vão deixar?". A gente absorvia tudo isso. Quando o nosso revezamento começou a ficar muito forte, tinha o Phelipe (Rodrigues), o André Brasil, eu... Tinha o Ruiter (Silva) de vez em quando, o Ruan (Souza) nadava com a gente... Aí teve o Caio (Amorim) que também nadou com a gente. Eram os grandes nomes das classes deles e nós meio que fixos. Aí chegavam nos revezamentos e não conseguiam representar bem. Rolavam umas discussões, mas nada de pancadaria. Era aquela fala nos bastidores, que só te motiva, te dá um gás a mais. Era um tal de "foi ele que falou", "deixa ele", "a hora dele vai chegar". Quando a gente ficava sabendo da posição de cada um no revezamento, rolavam uma falas do tipo "vem atrás de mim, que você vai engolir água". Começa a dar aquela motivada. Isso faz parte do esporte e tem que ter isso mesmo. É um gás a mais, principalmente no esporte individual. E o revezamento era o momento de mostrar a união do time. 3 de 6
Daniel Dias, ex-nadador Paralímpico, no Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli Daniel Dias, ex-nadador Paralímpico, no Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli O Brasil hoje é uma potência no esporte paralímpico, mas, vira e mexe, vemos atletas de elite recorrendo a vaquinhas ou demais ajudas para competirem. Falando de uma forma geral, você acha que ainda falta investimento no esporte paralímpico brasileiro? -- Essa é uma ótima pergunta para a gente poder falar sobre investimento no esporte paralímpico. Eu concordo que somos uma potência, os resultados estão aí, o Brasil hoje fica entre os cinco no quadro de medalhas e há um tempo já estava entre os 10. Então, os atletas estão mostrando e fazendo acontecer, mas vivemos uma triste realidade ainda. Hoje ainda temos as redes sociais, que nos ajudam a buscar recursos, mas as pessoas precisam entender que o atleta tem que se dedicar 100% ao esporte. Então, se ele não for atleta, não se dedicar e não conseguir resultados, ele não vai conseguir apoio nem incentivadores. Ainda é uma triste realidade, mas eu diria que nós estamos caminhando. Se eu falar de quando eu comecei, hoje é bem diferente, porque nós já temos uma estrutura e um conhecimento maior. Mas ainda falta muito. E eu não diria só para o esporte paralímpico, como que para o olímpico também. No Brasil, tirando o futebol de elite, nós temos muito a melhorar. Precisamos de mais investimento no esporte. Com mais investimento nós vamos ter mais resultados e isso vai criando uma cultura para que as empresas possam estar juntas dos atletas. E, acima de tudo, temos que olhar o esporte paralímpico como alto rendimento. Porque o retorno sempre vem, tanto de mídia como de resultados. Então é tentar um equilíbrio para que a empresa possa estar no meio paralímpico, para que ela possa tirar tudo o que o atleta pode oferecer. + Vanderlei Cordeiro chora ao falar de infância na lavoura: "Minha mochila era um pacote de arroz" + Xuxa cita mergulho na depressão, fobia de piscina e fuga no álcool: "Bebia todos os dias" + Varejão conta vida de glamour da NBA, conexão com LeBron e tática contra rivais: "Cabelo na cara" Com todo esse tamanho que você atingiu no esporte paralímpico, como você tenta contribuir para atrair mais investimentos para o esporte? -- Agora eu estou do outro lado, nos bastidores do esporte. Hoje eu desenvolvo um projeto social que é para fomentar o movimento paralímpico. A gente começou pela natação, e a ideia é não ficar só na natação. Nós estamos aí com o Instituto Daniel Dias, com o projeto "Nadando com o Daniel Dias", no qual atendemos quase 900 crianças pelo Brasil. E aí, dessa maneira, a gente usa a Lei do Incentivo ao Esporte. Com isso temos grandes empresas conosco, e eu acredito que são projetos como esse que possam trazer uma visibilidade maior. É o que eu sempre falo, desses 900 pode sair um talento e a empresa que estiver nos patrocinando pode crescer com esse garoto ou garota. O Comitê também criando os centros de referência e isso é muito bacana. É um projeto que está espalhado pelo Brasil e isso pode aumentar o esporte paralímpico, dando reconhecimento e retorno financeiro para esses atletas e para o movimento paralímpico. Você foi nadador da classe S5 até 2019. Foi nesse período que você conquistou a maior parte das suas medalhas. Há seis anos, houve aquela polêmica reclassificação, onde você foi colocado na classe S6 para pessoas com um grau de deficiência ou pouco menor que a S5. O que de fato aconteceu nessa reclassificação? -- Eu diria que a reclassificação hoje é um assunto que a gente tem que falar, e eu sempre competi naquela categoria. E a minha deficiência é malformação congênita. Meu braço não vai crescer mais. Eu posso desenvolver com treinamento e esse é o objetivo do esporte. O objetivo do esporte é o atleta evoluir, melhorar, ser melhor a cada temporada, batendo os recordes. Esse sempre foi o meu objetivo. E aí, quando acontece em 2019 essa reclassificação, primeiro que é sem sentido nenhum. E foi num momento antecedendo os Jogos e Campeonato Mundial. Isso não quer dizer que o Daniel era contra a mudança. Eu sempre fui a favor de uma evolução na classificação. A classificação precisava evoluir, melhorar, mas ela não pode ser subjetiva. E, no meu ponto de vista, o que aconteceu naquele momento foi que ela ficou ainda mais subjetiva. Você não pode, sendo um classificador, chegar e falar: "Eu acho que é isso, eu acho que é aquilo". A gente tem a medicina e a tecnologia evoluindo bem, então podemos ter testes que sejam feitos nos atletas e que possam determinar se ele movimenta ou não movimenta um braço, por exemplo. Se ele faz esse movimento, se não faz. Então a gente tem que olhar tudo isso com carinho, porque o movimento paralímpico carece disso também. Eu digo que talvez esse seja o Calcanhar de Aquilles do movimento paralímpico. A gente vê tantos casos e é uma triste realidade. Como pode chegar para um 14 vezes medalhista paralímpico e falar: "Você não faz mais parte do esporte". E eu não sei explicar isso. Se ele era, como ele não é mais? Se eu era da classe agora não sou mais?! Não faz sentido. Por anos a gente competiu, conquistou medalhas, nós buscamos algo que a gente sempre falou que é que as pessoas olhassem o esporte paralímpico como alto rendimento. Foi isso que nós fizemos, elevamos esse sarrafo. Como eu que estava treinando numa classe não faço mais parte dela de uma hora para outra? Então isso me magoou bastante, mas também me fez lutar por isso para que um dia a gente chegue mais próximo do que queremos. Daniel Dias comenta reclassificação e abordagem do Comitê Paralímpico Internacional Nesse episódio de 2019, houve alguma margem para discussão da reclassificação? Como foi esse processo? Você chegou a argumentar? Teve alguma margem para discussão? -- Infelizmente não teve margem para discussão. E isso foi o que me chateou mais. Beleza, vamos ter a mudança. Só que de repente a mudança chega e já passa a acontecer. Você que era atleta de S7 agora é S5, você que era S5 agora é S6, o Andre não pode mais competir... Então você começa a ter uma mudança tão intensa que não faz sentido. Tá, vamos conversar, vamos debater?! Não teve conversa. Foi decidido goela abaixo. Isso foi algo muito difícil de a gente aceitar, de engolir mesmo. Viajei, tirei tempo de treino para conversar com o Andrew (Parsons, presidente do IPC, o Comitê Paralímpico Internacional) e as decisões já estavam tomadas. E isso foi o que mais me frustrou. Volto a falar, a mudança tinha que acontecer, mas como foi não foi legal. Tinham que ter procurado os atletas: "Vamos conversar, vamos construir juntos". Afinal de contas a classificação sempre foi um grande problema no esporte paralímpico. O Clodoaldo já era um exemplo para a gente. Isso já mostra que tinham coisas erradas. E a gente nunca foi ouvido, isso me chateou naquele momento, eu fiquei muito chateado com o que aconteceu. Isso não tem a ver com manter recorde, não tem nada a ver com isso, tem a ver com alinhar para que a mudança fosse feita de uma melhor forma. Essa questão contribuiu para a sua aposentadoria em 2021, depois das Paralimpíadas de Tóquio? Você tinha só 33 anos na época. -- Eu já estava decidido a parar. Após os Jogos de 2016, no Rio, eu já tinha começado a pensar. Em 2017, eu tiro um tempo para pensar na minha vida, no que eu vou fazer, como vai ser isso... Afinal de contas, o atleta não está pronto para dizer "adeus", "vou encerrar", "vou pendurar a sunga". A gente como atleta tem que pensar isso. E a partir de 2016, quando eu tenho grandes resultados, eu começo a pensar: "até quando?" E ali eu já tracei uma meta, a de que vai ser o meu último ciclo. Eu me preparei para isso, mas, em 2019, quando acontece isso, contribui para que eu pudesse parar, porque foi muito forte. Negativamente foi muito ruim receber aquilo. Afinal de contas não eram atletas novos que estavam chegando. Eram atletas que estavam competindo há 10 anos, sete anos. Eram atletas que eu já via competindo e, de repente, esse atleta vai competir contigo, sendo que ele era duas classes acima. Isso foi me magoando muito e, ao mesmo tempo, eu olhei para a minha carreira e vi que fui muito além do que eu imaginava. Eu já entreguei muito para o esporte, então estava na hora de dar adeus e atuar em outras áreas. Então foi o conjunto que fez com que eu parasse. Na despedida de Daniel Dias, Brasil conquista ouro, prata e bronze na natação paralímpica Tem alguma coisa na sua carreira que você gostaria de ter feito e não fez? -- Ah, eu, sinceramente, quando paro para pensar assim, não tem. Eu consegui realmente ter grandes resultados, conquistei medalhas, prêmios... Nos Jogos do Rio, a cada medalha eu podia dar uma volta na piscina e um abraço nos meus filhos. Então, assim, não mudaria nesse sentido, mas, voltando na classificação e não ficar batendo muito nisso, eu, se pudesse, teria mudado o final dessa história. Qual seria o final dessa história se você pudesse ter mudado? -- Ah, o final seria conquistando as quatro medalhas que eu decidi nadar em Tóquio. Eu já não iria nadar mais provas mesmo, não foi nem por causa de classificação, eu já tinha decidido que ia nadar quatro provas, e aí eu já tinha conquistado 28 medalhas, igualando um atleta olímpico aí, um tal de Michael Phelps. Isso seria bem diferente. Como você vê a renovação da natação paralímpica brasileira depois da sua aposentadoria? Hoje temos grandes nomes como Gabrielzinho Araújo, Carol Santiago e Gabriel Bandeira, mas não temos um super puxador de medalhas como você foi. Você acha que o esporte está mudando nesse sentido? -- Essa é uma ótima colocação. Eu hoje vejo que o legado fica. Temos o Gabrielzinho, que traz muito a alegria do movimento paralímpico. É um cara sorridente, que comunica bem e é dançarino. E além de tudo é um grande atleta. A Carol Santiago vem revolucionar a natação feminina, o que sempre foi uma grande luta para o Brasil. E a Carol Santiago vem e puxa as meninas com ela. Tivemos a Cecília (Araújo), a Mariana Gesteira... São grandes nomes do feminino também. Mas eu concordo, a gente não tem mais aquele cara que vai ganhar seis medalhas, sete medalhas... Mas nós temos um grupo hoje que traz grandes resultados para o Brasil e essa é a grande mudança do mundo paralímpico, para mim. A cada dia o movimento se torna mais alto rendimento, se profissionalizando. E é isso que a gente sempre buscou, que a gente sempre quis. E é por isso que a gente vê essa grande mudança hoje, e o Brasil está super bem servido com grandes nomes. Tem esses que eu citei e tantos outros que eu podia falar aqui. Daniel Dias fala sobre os novos ídolos da natação paralímpica e elogia Gabrielzinho Falando agora dos próximos ciclos, tem algum atleta que você acredite que possa virar o grande ídolo da natação paralímpica brasileira? -- Olha, ele já está aí na mídia. Está fazendo história. O Gabrielzinho eu não tenho como não falar dele. Ele em Paris fez história, não só para o Brasil, como para o mundo. Em Los Angeles eu creio que não vai ser diferente. Resta saber até quando que ele vai aguentar isso, essa pegada. Porque ele gosta de treinar, faz com muita vontade, muita excelência, tem uma grande equipe com ele, e o Comitê está cuidando bem dele. Então eu falaria do Gabrielzinho. Ele vai fazer história ainda, mais do que ele já está fazendo. E a questão maior agora é quem vai vir depois do Gabrielzinho. Eu tenho certeza que o Brasil já está trabalhando isso, a gente vê alguns nomes surgindo, mas eu vou falar aqui do Gabrielzinho por tudo o que ele está conquistando e pode ter certeza que em Los Angeles a gente vai ver muita dança lá. Além de nadar, claro, né?! Como está a sua vida atualmente? O que tem feito nesses seus primeiros anos fora da natação? -- Vamos colocar entre aspas o aposentado, porque parece que a gente é velho. Eu me retirei do alto rendimento, não foi aposentadoria. E aí eu começo uma transição. Você sai de uma rotina objetiva para uma subjetiva. O atleta tem que se dedicar na segunda, na terça, na quarta… e quando eu parei, era uma agenda subjetiva. Um dia eu estou em casa, um dia em uma reunião, no outro fazendo uma entrevista. Enquanto atleta, isso era muito mais esporádico. E aí você precisa lidar com isso. Foram aparecendo oportunidades de palestras. E poder hoje palestrar para grandes empresas e empresários. E isso paralelo ao instituto. Já havia decidido que faria quando parei. Passei a viajar pelo Brasil. O Brasil é muito grande. Enorme. Estou conhecendo muitos lugares incríveis. Viajei como atleta, mas pouco no Brasil. E agora posso aproveitar a família também. Que foi um dos motivos de eu ter parado. Tento conciliar minha agenda com minha família. Hoje posso buscar na escola, levar para o esporte. Os três fazem esporte. O que a família representa para você? Foi difícil ficar longe deles enquanto competia? -- Foi muito difícil ficar longe deles. Principalmente depois de me tornar pai. Claro que faz parte, mas você perde o primeiro passo, a primeira palavra. E eu pensei em tudo isso. Quando você se torna pai, você fica mais chorão também. E viver isso com eles me motivou a parar. A família é a base. É a melhor escola da vida. Quando eu ganhava uma medalha, eu chegava em casa e eles estavam prontos para me dar um abraço. Eu amava competir. Amo a natação, mas amo estar com eles. É aquele abraço que não tem palavras, mas aquece o coração. A vida de atleta é desgastante. Tem pressão por resultados. Mas é na família que você encontra o consolo. Mesmo dando tudo errado aos olhos do mundo, a família está contigo. 4 de 6
Raquel e Daniel com os filhos Hadassa, Daniel e Asaph — Foto: Reprodução Instagram Daniel Dias Raquel e Daniel com os filhos Hadassa, Daniel e Asaph — Foto: Reprodução Instagram Daniel Dias A sua esposa, a Raquel, é uma pessoa sem deficiência. Em algum momento da sua vida, você já viu pessoas olhando para vocês como casal com olhares preconceituosos? -- Infelizmente sim. No início do namoro e de casado, você via muito esse olhar de preconceito. Isso a gente aprende a lidar. O amor supera tudo. O amor superou este obstáculo. Conseguimos vencer. É uma medalha que ninguém vê, mas está no nosso peito. Fomos vencendo estes preconceitos, constituímos uma família linda com três filhos. Hoje está muito melhor. Mas é muito dar maior visibilidade que vocês dão pra nós e nossas conquistas. Você tem algum episódio que sofreu algum tipo de discriminação por ter uma deficiência física aparente, alguma situação que tenha te marcado muito? -- Quando criança eu sofria muito preconceito, o chamado bullying hoje. Falo sobre isso nas palestras. O quanto machuca e tem que ser banido, evitado, o quanto isso tem que ser falado. Me machucou muito, me feriu muito quando criança. Graças a Deus sempre tive uma boa relação com meus pais. Conversava com eles, falava o que acontecia. Mas muitas crianças passam por isso. Nem apenas por deficiência. Por "N" razões. Precisamos de duas palavras simples nesses momentos e que aprendi na minha vida: amor e respeito. Amar o próximo e respeitar as diferenças. Somos únicos com características diferentes. Quando a gente tenta compreender, e é o que eu tento passar para os meus filhos, a diferença nos une. Somos iguais nas diferenças. Aprendi isso a duras penas na minha infância e na minha adolescência. Tiveram episódios em que eu não pude entrar em um ambiente pelo detector de metal. Eu uso prótese. Eu era adolescente, fui entrar, tinha o detector, e o guarda não deixou. Sem explicação nenhuma. A explicação estava no olhar dele. Eu nasci com a deficiência, eu sei quando a pessoa me olha com respeito e quando me olha com preconceito. Aquilo me magoou muito. Eu falei: "preciso fazer algo para fazer a diferença para que ninguém passe por isso". E o esporte possibilitou de ser conhecido e de poder falar sobre as deficiências, falar sobre a pessoa com deficiência. Peço também aqui para as famílias, para as mães e para os pais: conversem com os filhos, entendam, vejam se está passando por alguma coisa. É desafiador, é difícil. E para as crianças, você tem características únicas na sua vida, não é uma deficiência que define quem você é. O que define você está aí dentro do seu coração. E eu carreguei isso comigo e tento transmitir isso para as pessoas. Daniel Dias relembra preconceito sofrido durante a vida Como é essa conversa com seus filhos? Como eles recebem e como transmitem isso para você? -- Minha filha mais nova tem seis anos. Faz um ano que ela olhou para mim e disse: "Papai, o senhor não tem uma perna, né?" Ela começa a perceber mais agora. A criança tem esse processo. O que eu falei aqui eu disse para ela. “Isso não define o papai, o papai tem essa deficiência, assim como outras pessoas têm outras deficiências, assim como as pessoas são diferentes”. Disse que isso não pode mudar como tratamos as pessoas. Pessoa vem primeiro, seja ela como for, com a característica única que tem. Temos de amar e respeitar as pessoas. Eu acho bacana que na escola vão mostrando atitudes de aprendizado. Meu filho mais velho me mostra isso. Os melhores amigos dele, um deles tem deficiência. No fim das contas, tudo depende de como você olha a pessoa. Se eu quiser olhar a pessoa como uma deficiência, eu vou vê-la com deficiência mesmo. Se eu quiser olhar com amor e respeito, eu vou ver muito além disso. Esse é o meu papel como pai. Passar para os meus filhos. E que essa mensagem seja replicada. Não é difícil olhar para os outros com empatia. Não é difícil respeitar, não é difícil realmente amá-la. Basta querer. Isso é escolha. Abre Aspas: Daniel Dias comenta ótima relação com os filhos Uma das teclas que o esporte paralímpico bate muito é o combate ao capacitismo. Você acha que tem mudado ao longo dos anos a maneira como a sociedade vê a deficiência física ou ainda falta muito para evoluir nesse sentido? -- Falta, mas evoluiu muito. Se você ver em grandes empresas, tem pessoas com deficiência trabalhando e mostrando sua capacidade. É bem diferente do que eu lembro quando eu era mais jovem. O meu sentimento é que parecia que só existia o esporte como oportunidade. Ou fazia esporte e vai vencer na vida ou vou ter de ficar em casa. Hoje essa luta tem tido as suas vitórias. Você vê pessoas com deficiência pela rua, sonhando, realizando sonhos. A vida é movimento. A gente tem que se movimentar. Isso tem sido uma grande conquista, e o esporte fez parte disso, contribuiu muito. 5 de 6
Daniel Dias, ex-nadador Paralímpico, no Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli Daniel Dias, ex-nadador Paralímpico, no Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli Você é um cara que está sempre rindo, transmitindo felicidade para as pessoas. Sempre foi assim? -- Sempre foi assim. Eu lembro de ser uma criança assim. Sempre fui uma criança que brincava bastante, brincava com as pessoas, gostava de conversar. Hoje trago para a minha vida até hoje e passo isso para os meus filhos. Digo que eles têm que sorrir sempre, não vai ficar com cara de bravo por acordar cedo para ir para a escola. Isso não quer dizer que nossa vida é mil maravilhas. A gente tem problemas, dificuldades, mas eu sempre digo: o sorriso muda tudo. Sorriso pode mudar uma vida, pode mudar nosso dia, pode mudar um momento difícil. Sorriso é uma escolha. Posso acordar, olhar no espelho e sorrir. Ou posso acordar, olhar no espelho e não dar um sorriso. A vida é um momento. Hoje é hoje, amanhã vou atrás da minha medalha, e o que passou espero ter aprendido. Sorrir é maravilhoso. O sorriso muda o ambiente. Quando eu dou um sorriso, vocês também dão um sorriso. Sorriso é como se fosse um espelho. A vida já é muito difícil, já tem sua pressão, já é muito pesado. Se a gente for leve, se a gente puder sorrir, isso é incrível. Mensagem simples, mas que pode impactar uma geração. Daniel Dias fala sobre a necessidade de sorrir para a vida: "Sorriso muda tudo" Com quantos anos você começou a entender que tinha uma deficiência física e como começou a lidar com esse processo? -- Lembro que foi na escola. Eu comecei a frequentar escola com seis anos e sofrer preconceito. Ali eu entendo que sou diferente e que tenho uma diferença e precisava entender qual era. Começo a entender que não tenho as mãos, que não tenho uma perna, e como posso lidar com isso e vencer os obstáculos. E mais uma vez família foi importante, meus pais foram importantes. Sempre digo que meus pais nunca colocaram limite na minha vida de realização e capacitação. Sempre que eu quis fazer algo, meus pais olhavam para mim e dizia: "tá bom, filho, vamos lá, como a gente pode fazer, como a gente vai conseguir". Isso era maravilhoso. Poder me virar para fazer as coisas, me adaptar. Nós, como pessoas, temos capacidade incrível de se adaptar. Eu fui entendo desde cedo, e o esporte me ajudou bastante. Quando falo que fui criança ativa, educação física eu fazia todos os esportes: eu joguei bola, disputei campeonato de futebol na escola, de basquete, de vôlei, de handebol. Menos a natação até meus 16 anos. Fazer tudo isso me fez entender que realmente a deficiência era uma característica e que eu podia sonhar muito alto. 14x campeão paralímpico, Daniel Dias relembra quando começou a notar que era diferente Você fala muito dos seus pais. Como foi a sua criação e o quanto a formação que você recebeu deles contribuiu para você ser essa pessoa de sucesso? -- Contribuiu demais. Eu falo para os meus pais. Se eu conseguir transmitir 50% dos que eles me transmitiram para os meus filhos, tá bom demais. A sabedoria que eles tiveram foi incrível. Eles não colocaram limites na minha vida. Não me tratavam como coitado. Às vezes acontece uma superproteção também. Minha mãe foi raiz. Havaianas, fez errado, vai apanhar. É incrível olhar hoje e imaginar os desafios para os meus pais de me criar naquela época. Eles poderiam ter me protegido, me deixado em casa, mas minha mãe sempre disse: “Não vou estar com você sempre, então você vai ter que se virar e fazer suas coisas. Eu vou te ajudar e estar com você aqui". Isso me fortaleceu muito. Eu fui como uma criança qualquer da minha época. Aprontei bastante, ficava de castigo, apanhava. Mas fui muito amado. Eles fizeram um excelente trabalho e contribuíram na minha formação como atleta e como pessoa. Incrível olhar para trás, ver tudo que passei e perceber que eles sempre estiveram comigo, olhando, cuidando e impulsionando. Se eu puder resumir, seria isso, e se eu puder fazer isso com meus filhos, seria isso: amando, cuidando e impulsionado para que eles possam realizar os sonhos deles. Já que você tocou no assunto dos seus pais, o seu pai, o Seu Paulo, sempre foi um cara muito presente na sua carreira, assistindo às competições, indo às premiações. Como é a sua relação com ele e o quanto a presença dele ajudou na carreira? -- Meu pai trabalhou comigo, cuidou de mim, da carreira, me acompanhava, ia nas competições. Mas é porque minha mãe não gosta de viajar, tem medo dessas coisas. Ela ficava mais resguardada. Mas ter esse apoio foi importante para minha carreira como um todo. A carreira de um atleta é desafiadora, e quando eu estava começando no esporte, olhar para o lado e saber que ele estava ali, era algo que me trazia uma segurança maior. Eu sabia que ele estava cuidando. Só precisava me dedicar. Ele foi muito mais do que um pai. Digo que deu tudo certo. Foi um trabalho em equipe. Já comecei a aprender ali com a família. Você comentou que seus filhos gostam muito de esporte. Algum deles pensa em ser atleta, você gostaria que eles tomassem esse caminho ou buscassem outra profissão? -- Meus filhos gostam muito de esporte. Os três querem seguir a linha esportiva. Os três são novos, mas querem ser atletas. O Asaph está partindo para o futebol, Daniel é o judô com futebol. Quando vou nos eventos, peço para os atletas gravarem vídeos para eles, para dar uma animada. A Hadassa está indo para a ginástica. A Rebeca revolucionou o esporte. O sobrenome da Hadassa é Andrade. Aí ela fala: "Tá vendo, pai. Eu sou Hadassa Andrade, ela é Rebeca Andrade, vai dar certo". Eu apoio e falo que vai dar certo. Os três fizeram natação. Vou deixar claro (risos). Mas eles não querem seguir a natação como esporte. Sempre falo que é o que eles querem para vida deles, o que eles sonham, e eu, como pai, quero estar aqui para incentivar, apoiar, levar, acompanhar. Tem sido legal, eles já estão competindo. Acompanhar e torcer, eu viro para os meus pais e esposa e falo: "Como vocês conseguiam torcer?" Torcer é difícil, não é fácil. É mais fácil competir, viu (risos). Como você avalia a situação da pessoa com deficiência física no Brasil? Você acha que o Brasil é um país inclusivo, que está bem servido na acessibilidade? -- Eu não diria que somos bem servidos e nem que o país é inclusivo. Mas estamos no caminho. São questões que temos a construir, e a gente precisa ver o tanto que evoluiu. É mais fácil dizer que não somos, mas temos que olhar, apontar as melhoras e ver onde erramos também. Por exemplo, nos prédios você precisa ter acessibilidade. Hoje não se começa uma construção sem ser acessível e com projeto para isso. Os próprios estabelecimentos tiveram que se adaptar. As coisas estão caminhando. Pra mim, a grande mudança é nas pessoas. Não adianta eu estar em um lugar onde o prédio é acessível, tem rampa de acesso, elevador, piso tátil, mas a cultura não é. Para ser inclusivo, eu preciso ser uma pessoa acessível. Olhar para o outro com respeito, com empatia. A primeira mudança é nas pessoas, não em estrutura. A gente está melhorando. Colocar isso na cabeça das crianças. Estamos em uma caminhada, com políticas públicas acontecendo, e precisamos. Não podemos nos acomodar. Não é porque estou falando isso que não tem preconceito. Ainda acontece, ainda passamos por isso, mas estamos melhorando e evoluindo. O que você projeta para o futuro: pretende virar dirigente, entrar para a política ou algo do tipo? -- Futuro é algo incrível em nossas vidas, nos motiva, você sonha, busca aquilo. Já pensei em tantas coisas, vou ser um político para ajudar... Você pensa em tantas coisas para fazer a diferença. Mas tem tanta coisa acontecendo a minha vida, o instituto é uma delas. O futuro que eu vejo é focado no instituto, de impactar mais vidas, trabalhar a inclusão e de se tornar um grande exemplo de inclusão. Hoje a gente está com espaço que vai ser a sede, e a gente quer que seja um dos maiores centros de inclusão urbana do país e também do mundo. O futuro que eu vejo é nessa linha, de deixar um legado além das conquistas. É impactar a vida de crianças e adolescentes. Como a gente muda o mundo? Com crianças e adolescentes. Eles são o futuro e podem realmente melhorar muita coisa que a gente está conversando aqui. 6 de 6
Daniel Dias, ex-nadador Paralímpico, no Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli Daniel Dias, ex-nadador Paralímpico, no Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli Que mensagem você deixaria para quem está começando no esporte paralímpico agora? -- O que eu diria para você, e você vai ouvir muito isso: treine, se dedique, seja focado, seja determinado. Mas acima de tudo: acredite em você, no seu potencial. Acredite no seu sonho, vá em busca dele. Grandes coisas você pode realizar. E não desista. Desistir também é uma escolha. Talvez não venha na primeira, na segunda, mas uma hora o resultado acontece. Depende de você. Você falou que sorrir é uma escolha, que não desistir é uma escolha, a maneira como a gente olha para alguém é uma escolha. Qual foi a sua principal escolha na vida? -- Sorrir para a vida. Essa foi minha principal escolha. Para deixar o processo mais leve, para deixar a vida mais leve. A vida tem os seus desafios, não são todos os dias que a gente está motivado, que eu acordo pronto para o treino, não são todos os dias que eu acordo e dou um sorriso. Mas são todos os dias que eu posso escolher e trazer o sentimento que o sorriso poder trazer. Eu poderia falar minha família, conquistas, amigos, momentos. Quando a gente fala de sorriso e pensamos outras palavras, são palavras que vão nos fazer sorrir. Que possamos desfrutar dos momentos, sorrindo e deixando o processo mais leve. É essa escolha que eu fiz.