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Curaçao é o menor país da história a se classificar para a Copa Em uma das paredes do Netto Bar, um dos mais tradicionais de Willemstad, em Curaçao, uma foto de Pelé ajuda a contar a história do futebol na ilha. A imagem remete à passagem do Santos pelo país e à relação antiga com o Brasil, referência para gerações que cresceram admirando outras seleções. A classificação inédita para a Copa do Mundo de 2026, porém, começou a mudar esse sentimento e fortaleceu uma identificação local. — Tradicionalmente há três times que torcemos. Eu sou torcedor do Brasil, depois Holanda, Argentina... Mas agora vai ser Curaçao, e depois os demais (risos) — disse Gilbert Martina, presidente da Federação de Futebol de Curaçao, em entrevista ao ge . + Convocados de Curaçao para a Copa do Mundo 2026; veja a lista + Veja todas as convocações para a Copa do Mundo 2026 1 de 7
Foto de Pelé e autógrafo do brasileiro no bar mais antigo de Curaçao — Foto: Larissa Ramos Foto de Pelé e autógrafo do brasileiro no bar mais antigo de Curaçao — Foto: Larissa Ramos A admiração antiga pelo Brasil não é apenas relacionada ao futebol. Comida, música e a língua são outros pontos que aproximam os países. O idioma local é o "papimento", que mistura espanhol, holandês, línguas da África Ocidental e o português . Isso porque, na época da escravização, muitos escravizados de colônias portuguesas foram para Curaçao. Localizado no sul do Caribe, Curaçao fica pouco acima da Venezuela e conta com uma população atual de 185.491 habitantes, sendo a menor nação da história a se classificar para a Copa do Mundo . A pequena ilha é autônoma desde 2010, tem governo próprio, mas ainda pertence ao reino dos países baixos, e quase todos os jogadores da seleção nasceram na Holanda. Apenas um, Tahith Chong, nasceu na ilha, mas foi para a Europa ainda novo. + Curaçao, estreante na Copa, anuncia volta de treinador a um mês do torneio + Rival do Brasil, Escócia vence Curaçao de virada no penúltimo amistoso antes da Copa O futebol local 2 de 7
Estádio Antoine Maduro recebe os jogos da Promé Division, em Cuaçao — Foto: Larissa Ramos Estádio Antoine Maduro recebe os jogos da Promé Division, em Cuaçao — Foto: Larissa Ramos Enquanto a maior parte dos atletas convocados atua profissionalmente em outros países, a realidade do futebol local é diferente . Na "Promé Division", a primeira divisão curaçauense, muitos atletas conciliam os treinos com outras profissões por não conseguir viver somente do esporte . Um deles é Na-Jir Peny, meio-campista do Scherpenheuvel, time da Elite de Curaçao. Funcionário de um banco durante o dia, ele reserva as noites para os treinamentos e jogos da equipe. — Aqui não vivemos de futebol. Nós temos que trabalhar durante o dia e praticar (o futebol) de tarde, de noite. Não vivemos de futebol. É um suporte extra. Não vou deixar o meu trabalho para viver disso. Isso não é possível aqui — contou. + Veja a tabela completa da Copa do Mundo 3 de 7
Na-Jir Peny atua pelo Scherpenheuvel, time da primeira divisão de Curaçao — Foto: Beto Kaulino Na-Jir Peny atua pelo Scherpenheuvel, time da primeira divisão de Curaçao — Foto: Beto Kaulino Apesar das limitações do futebol local, a classificação inédita para a Copa do Mundo fortaleceu a identificação dos moradores com a seleção nacional . Para Na-Jir, o feito representa a realização de um sonho que parecia distante para quem cresceu acompanhando o esporte na ilha . — Foi fantástico. Quando você é pequeno, sonha com isso, mas sabe que é difícil. Foi uma alegria total. Pode ter mais interesse por pessoas de fora também para saber como as coisas são aqui em Curaçao — afirmou o meia Na-Jir Peny. Estreante na Copa, Curaçao tem apenas um jogador nascido no país A inspiração brasileira 4 de 7
Em jogo de lendas, muitos torcedores vestiram a camisa da Seleção — Foto: Larissa Ramos Em jogo de lendas, muitos torcedores vestiram a camisa da Seleção — Foto: Larissa Ramos A foto de Pelé no Netto Bar, o mais antigo da ilha e com uma decoração futebolística, é apenas um dos símbolos de uma admiração construída ao longo de décadas, como citado anteriormente . No passado, o governo de Curaçao patrocinou algumas visitas de clubes brasileiros e, no caso, o Santos fez uma excursão em 1959. Na época, Pelé esteve na capital Willemstad e tirou uma foto com Adam, um jogador local famoso, que por ser cliente do bar deixou o registro no mural. A admiração ao Brasil foi construída ao longo de décadas, sendo a primeira referência no esporte. + Ronaldinho causa euforia e mobiliza torcedores na Legends Cup, em Curaçao Presidente da Federação de Curaçao, Gilbert Martina, contou que sua memória inicial do futebol veio através dos relatos do pai sobre a equipe brasileira campeã mundial de 1970, considerada por muitos uma das maiores da história . A ligação é tão forte que dois dos cinco filhos dele receberam nomes inspirados em campeões mundiais brasileiros. — Tenho cinco filhos e dois deles têm nomes de jogadores brasileiros. Primeiro Jairzinho , campeão mundial em 1970. O segundo é Jorginho , campeão mundial em 1994. Mas eles não jogam futebol (risos) - afirmou. 5 de 7
Gilbert Martina, presidente da Federação de Curaçao, celebra momento da ilha — Foto: Larissa Ramos Gilbert Martina, presidente da Federação de Curaçao, celebra momento da ilha — Foto: Larissa Ramos A admiração pelo Brasil também ajuda a explicar por que a classificação para a Copa do Mundo provocou uma mudança de comportamento na ilha . Acostumados a acompanhar o torneio torcendo por outras seleções, muitos moradores passaram a direcionar a atenção para a equipe nacional de Curaçao. + Brasil vence Legends Cup com elenco de campeões do mundo em Curaçao Legends Cup tem euforia por Ronaldinho e mobiliza torcedores em Curaçao "Agora vai ser Curaçao" Quando o árbitro apitou o final da partida, não consigo descrever em palavras. Tantas lágrimas, como se alguém tivesse morrido, mas foram lágrimas de felicidade. — Gilbert Martina, presidente da Federação de Curaçao. O empate sem gols com a Jamaica assegurou a vaga de Curaçao na Copa do Mundo 2026 com uma campanha histórica nas eliminatórias, na qual permaneceu invicto em dez partidas. A classificação provocou uma mobilização. Acostumada apenas a acompanhar o torneio, a pequena ilha passou a celebrar a própria seleção e encontrou no futebol um motivo de união nacional. — Foi uma noite divina. Muito, muito lindo. Muito lindo no estádio, aqui em Curaçao, na ilha. Todos, todos comemorando de uma forma que nunca festejaram. Foi incrível se classificar sendo o menor país do mundo para a maior Copa do Mundo que será realizada este ano — relembrou. 6 de 7
Jogadores de Curaçao celebram a classificação inédita para a Copa do Mundo — Foto: REUTERS/Gilbert Bellamy Jogadores de Curaçao celebram a classificação inédita para a Copa do Mundo — Foto: REUTERS/Gilbert Bellamy Segundo o presidente da federação, a festa continuou pelas ruas da ilha e se estendeu ao dia seguinte. Horas antes da chegada da delegação, moradores já aguardavam nas ruas para receber os jogadores. Nunca tínhamos visto o país tão unido por um resultado. Aquilo uniu o país profundamente. — contou Gilbert. O curioso é que o futebol não era o principal esporte local até pouco tempo. Na ilha, a torcida pelo beisebol dominava, com vários nomes sendo representantes na maior liga dos Estados Unidos (MLB) . Porém, as prioridades mudaram em Curaçao e o futebol definitivamente se tornou mais popular, segundo o próprio presidente da Federação. Mais crianças passaram a procurar por clubes, inclusive para o feminino. Para Gilbert Martina, a Copa mostrou aos jovens que um país pequeno pode competir em alto nível. — Essa classificação traz conhecimento, traz a consciência de que é possível. É uma enorme fonte de inspiração para os jovens. Mostra que podemos alcançar nossos objetivos. Você pode ser pequeno e ainda assim realizar grandes feitos — afirmou. A vaga, no entanto, foi garantida graças a um recomeço no futebol de Curaçao, que teve início em abril do último ano . A Federação de Futebol passou por uma crise política e financeira, causada por desentendimentos entre os clubes e organização, inclusive, sofrendo uma intervenção da Fifa. Gilbert chegou dando ênfase à estrutura, estabilidade e aos recursos financeiros e patrocinadores para que o treinador e os jogadores pudessem se concentrar apenas nos resultados . Aos poucos, o país foi se ajustando e mesmo com o pouco tempo de melhorias conseguiu o feito histórico de participar de um Mundial. 7 de 7
Elenco de Curaçao depois de vencer Aruba por 2 a 0 na segunda rodada das Eliminatórias da Copa — Foto: ANP via Getty Images Elenco de Curaçao depois de vencer Aruba por 2 a 0 na segunda rodada das Eliminatórias da Copa — Foto: ANP via Getty Images + Seleções inovam com convocações para a Copa do Mundo, e vídeos viralizam; veja lista — Temos muito respeito. Muito respeito por todos, mas vamos para conquistar pontos. Sabemos que será uma tarefa muito difícil. Teremos que usar a tática de futebol holandesa que é muito completa para conquistar pontos. Com três ou quatro pontos podemos avançar — afirmou Gilbert. Uma participação inédita e novos sonhos para a pequena ilha de águas cristalinas. Agora, ao menos por alguns meses, a principal camisa vestida pelos moradores será a azul de Curaçao, e já sonhando com os próximos passos para se manter entre as melhores equipes do mundo . — Temos a ambição de nos classificarmos para 2030. Não posso dizer que estaremos em todas as copas, mas daremos tudo de nós para classificar outra vez em 2030 — finalizou o presidente. Curaçao está no Grupo E da Copa do Mundo 2026, junto da Alemanha, Costa do Marfim e Equador. A estreia da seleção curaçauense será no dia 14 de junho, contra os alemães, em Houston. Seu segundo jogo está marcado para o dia 20, diante do Equador, em Kansas City, e a última partida da fase de grupos acontecerá no dia 25, contra a Costa do Marfim, na Filadélfia. Brasil conquista título inédito da Legends Cup em Curaçao