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Como o Atlético descobriu Cissé? Ex-coordenador de captação da base conta Na mesma semana em que o Atlético-MG passava por um traumático vice na Copa Libertadores de 2024, um dos principais talentos do atual time era garimpado no território africano: Mamady Cissé. Aos 19 anos, o garoto passou por um processo intenso, rápido e surpreendente até chegar ao elenco principal e ser convocado para defender Guiné na Data Fifa. A vinda do volante destaca um movimento novo e que será habitual no futebol brasileiro: a captação de novos talentos no futebol africano . O mercado é monitorado pelo futebol europeu e tem entrado na rota das grandes equipes da América do Sul. Dupla do Atlético avança em recuperação durante Data Fifa CEO aponta Brasil próximo de criar liga; clubes terão reunião em abril A busca global por talentos é concorrida e envolve os olhos humanos, mas também muita tecnologia. Por se tratar de estrangeiro, a transferência só ocorre após o atleta completar 18 anos e com todo um caminho além da parte esportiva: o suporte social. Cissé passou por tudo isso e pode ser tratado como uma exceção ao alcançar o topo em um período tão curto. O ge ouviu o responsável por encontrar Cissé em um torneio na Nigéria. Ele contou detalhes do processo e do olhar para o continente. 1 de 4
Captador da base do Atlético-MG, Dennys Diletosso, e Cissé após torneio na África. — Foto: Reprodução. Captador da base do Atlético-MG, Dennys Diletosso, e Cissé após torneio na África. — Foto: Reprodução. + ✅ Clique aqui e siga o canal da torcida do Galo no WhatsApp! Dennys Dilettoso era o coordenador de captação de base do Atlético na época. Hoje, ocupa o mesmo cargo, mas no Botafogo. O convite para viajar à Nigéria envolveu Rodrigo Weber e Erasmo Damiani, que ocupavam as funções de diretor do CIGA e diretor da base do Galo, respectivamente. — Eu era o único scout sul-americano. Tinham outros seis de clubes, principalmente do leste europeu. Fui conhecendo os atletas, entendendo um pouco mais a história, e um deles era Mamady Cissé. "Ele já me chamou bastante atenção logo após o primeiro jogo, principalmente pela parte técnica. O repertório técnico era diferente dos demais e diferente do que eu já tinha visto quando fui a Senegal." Cissé era um dos mais novos do torneio sub-21. Com a camisa 10, atuava como atacante de beirada, algo pontual, na visão de Dilettoso. — Ele atuava como extremo no time dele. Acompanhei na competição, entendendo que ele não era um atacante de lado. Eu imaginava que ele ia se tornar um camisa 8, um camisa 10. Entendendo as capacidades, as características individuais dele, entendendo que ele tinha troca de ritmo, aceleração, ambidestria e capacidade de desequilíbrio num espaço curto. 2 de 4
Relatório Cissé — Foto: Reprodução/gerado por IA. Relatório Cissé — Foto: Reprodução/gerado por IA. O analista preparou um material para apresentá-lo ao clube. Um vídeo com os lances de Cissé destacava a força física, o drible, o controle de bola, passes longos e a naturalidade nos gestos técnicos. Também foi produzido um relatório a respeito do jogador, pensando na parte social e adaptação dele a um novo país. Além de Cissé, ele indicou mais dois atletas e iniciou todo o processo de regularização para a vinda do volante. — Liguei dizendo que iria levar três atletas. De imediato, o Weber e Damiani me estimularam a resolver e fazer o negócio. Falaram o valor que poderia chegar. No último dia, resolvemos a negociação na Nigéria. Nisso, com a Izabela Bastos (pedagoga), começamos a procurar um professor de francês. "Além da parte técnica, colhemos informações do entorno do jogador. Quantos irmãos, qual a língua, os hobbies dele, a religião, para entender a questão do Ramadã. A partir daí, o clube faz o movimento e entende como seria a adaptação dele, que falava em Inglês superficialmente" A aceitação foi rápida. A operação foi montada na Nigéria. Foi só aguardar ele fazer 18 anos, tirar o visto, para ele vir em 2025 — Dennys Dilettoso 3 de 4
— Foto: Pedro Souza / Atlético-MG — Foto: Pedro Souza / Atlético-MG Quase um ano depois da avaliação, Cissé desembarcou em Belo Horizonte em maio de 2025. Ficou alojado na Cidade do Galo, com suporte para moradia e alimentação. Dennys Dilettoso, Erasmo Damiani e Rodrigo Weber não estavam mais no clube. O projeto seguiu com o novo coordenador da base, Luiz Carlos Azevedo, e o diretor de futebol do Galo, Paulo Bracks. Como se deu a chegada de Cissé ao Atlético? Os primeiros passos foram sobre a adaptação de Cissé. O volante passou por uma avaliação técnica completa, que identificou a necessidade de ganho de força. Ganhou cerca de 9 quilos de massa muscular. Na parte social, teve o acompanhamento de uma tradutora e de aulas de Português. Um processo intenso para que estivesse no mesmo nível competitivo dos outros atletas. Ao ge , o gerente da base detalhou como funcionou cada passo do atleta. — Desde a chegada, montamos um plano multidisciplinar com nossos departamentos de PlayCare, no qual houve o apoio com meses de tradutor, onde ele recebia aula de português. O desempenho com um olhar bem atento à alimentação e suplementação. — Na parte técnica, houve um acolhimento da comissão para apoio na adaptação e entendimento do nosso modelo de jogo. Importante também pontuar a proximidade do Bracks e todo o futebol profissional — explicou Luiz Carlos Azevedo. 4 de 4
Cissé em treino da seleção da Guiné — Foto: Guiné Cissé em treino da seleção da Guiné — Foto: Guiné Mamady Cissé surpreendeu na adaptação. Não demorou para se destacar na equipe sub-20 e ajudar na campanha do clube na Copa do Brasil da categoria. O Alvinegro parou nas semifinais. Aos poucos, o volante foi introduzido aos treinos do profissional para ser observado e também sentir os trabalhos em uma intensidade mais alta. Agradou. Na reta final da temporada passada, foi escolhido para estar no time de transição, que disputaria o Campeonato Mineiro sob o comando de Jorge Sampaoli. A equipe era mesclada com atletas da base e outros do time principal. Cissé estreou contra o North. Dois jogos depois, ganhou a primeira oportunidade como titular no Estadual. Seguiu no plantel e à disposição para o Campeonato Brasileiro. Figurou entre os 11 na final do Campeonato Mineiro. A ascensão rápida surpreendeu a todos em volta e até mesmo quem o descobriu. Tanto que, nos últimos dias, o clube propôs uma renovação de contrato até 2030 e com uma valorização salarial. Nesta Data Fifa, ele foi convocado para defender a seleção de seu país, Guiné, pela primeira vez. — Não vou ser leviano em dizer que imaginava que, um ano depois da chegada, o Cissé fosse ser protagonista no sub-20 e presença titular na equipe profissional. Eu estaria mentindo se dissesse, com toda certeza, que a minha impressão lá atrás era que ele teria sucesso nessa velocidade - finalizou Dennys Dilettoso. O projeto e o olhar para o futuro O projeto do clube não para em Cissé. Outros nomes vieram e passaram por um período de testes. E esse olhar ao continente africano continuará. O atual gerente de captação, André Velloso, já esteve em visitas reforçando o olhar para projetos sociais. — O mercado africano já era muito grande, mas pouco explorado por times da América do Sul. A Europa tinha só ela observando. Temos procurado fazer é dar uma atenção e entender a adaptação. Vamos mergulhar nessa possibilidade e estamos fazendo boas parcerias. Tem muita coisa caminhando. Mas não podemos esquecer que Minas é a nossa prioridade. Vamos ser bem mais agressivos para ter os melhores aqui na base do Galo. — Luiz Carlos Azevedo, gerente da base do Atlético. Assista: tudo sobre o Atlético no ge, na Globo e no Sportv 🎧 Ouça o podcast ge Atlético 🎧