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Opinião Esporte Ataque dos EUA à Venezuela atinge também Copa e Olimpíada. E agora? Andrei Kampff Colunista do UOL 03/01/2026 09h33 Deixe seu comentário Carregando player de áudio Ler resumo da notícia O ataque dos Estados Unidos contra a Venezuela , ocorrido na madrugada deste sávbadoi(3), recoloca um tema que o sistema internacional insiste em empurrar para debaixo do tapete: o uso da força fora das exceções previstas pelo direito internacional . Não se trata de uma disputa ideológica, mas de uma constatação jurídica. A Carta das Nações Unidas proíbe ataques contra a integridade territorial de outro Estado, salvo hipóteses restritas como legítima defesa ou autorização do Conselho de Segurança. Fora disso, o nome técnico é conhecido: crime de agressão . O mundo discute a legalidade do ato. O fato atinge não só a política internacional, como também pega em cheio o movimento esportivo global. Os dois principais eventos esportivos do planeta, Copa e Olimpíadas serão nos EUA. E agora? Do ponto de vista jurídico, o fato é grave porque aprofunda a erosão da já fragilizada arquitetura do direito internacional. Quando uma potência decide agir unilateralmente, ignorando mecanismos multilaterais, a mensagem é clara: regras existem, mas não se aplicam da mesma forma a todos . Essa relativização não fica confinada à diplomacia. Ela contamina sistemas paralelos de governança global e o esporte é, hoje, um deles. Sakamoto EUA criam seu Iraque na América do Sul Sylvia Colombo Espólio do chavismo torna futuro da Venezuela incerto PVC A ameaça não é à Copa do Mundo, é à humanidade Paulo Camargo Sua empolgação de janeiro vai morrer em fevereiro? A neutralidade esportiva Durante décadas, o movimento esportivo tentou se proteger desse tipo de tensão por meio do princípio da neutralidade esportiva . A ideia era simples: manter o esporte afastado de conflitos políticos e militares. Esse discurso, no entanto, foi sendo esvaziado pelos próprios regulamentos privados das entidades esportivas, que passaram a incorporar compromissos explícitos com direitos humanos, integridade e valores universais. A neutralidade deixou de ser um escudo e passou a ser uma escolha. E, após a invasão da Ucrânia , consolidou-se um novo marco: o esporte assumiu que não dá para seguir como se nada tivesse acontecido . Ainda que não fosse a primeira vez - basta lembrar as sanções esportivas aplicadas à Iugoslávia nos anos 1990 -, o caso recente criou um precedente contemporâneo, com outra densidade normativa e simbólica. Além do discurso político, o próprio esporte passou a positivar esses compromissos em seus regulamentos privados . O Estatuto da FIFA estabelece, logo em seus princípios fundamentais, o respeito aos direitos humanos reconhecidos internacionalmente , comprometendo-se a promovê-los e protegê-los em todas as suas atividades, enquanto veda qualquer forma de discriminação e associa a integridade esportiva à dignidade humana. Na mesma linha, a Carta Olímpica , sob a égide do Comitê Olímpico Internacional , afirma que o objetivo do Olimpismo é colocar o esporte a serviço do desenvolvimento harmonioso da humanidade, com promoção da paz, da dignidade humana e do respeito aos direitos fundamentais. Embora não trate expressamente de "guerra" ou "crime de agressão" nos termos do direito internacional público, esse conjunto normativo criou uma ponte direta entre esporte e valores universais , tornando cada vez mais difícil sustentar a neutralidade absoluta diante de conflitos armados que envolvem violações graves desses princípios. Foi com base em todos esses docs discurso que FIFA e UEFA afastaram clubes e seleções da Rússia das competições internacionais. O argumento não foi apenas segurança ou logística, mas a incompatibilidade entre a guerra e os valores proclamados pelo esporte. O Comitê Olímpico Internacional , por sua vez, adotou um modelo híbrido, permitindo participação sob neutralidade estrita, sem bandeira, hino ou símbolos nacionais. O esporte, ali, não foi neutro: foi seletivo, consciente e ativo . Precedentes no esporte É aqui que surge o coração desta coluna: o teste da régua . Se o esporte tratou a Rússia como tratou, ele terá coragem - política e econômica - de aplicar a mesma lógica ao país que ocupa o centro do sistema esportivo global? O noticiário se concentra nas reações diplomáticas e na legalidade do ataque. O esporte, até aqui, permanece em silêncio. E o silêncio, neste caso, também é uma forma de posicionamento. Continua após a publicidade Do ponto de vista normativo, os instrumentos existem. Estatutos permitem suspensões, restrições, mudanças de sede, medidas excepcionais por razões de segurança e integridade. O problema nunca foi a ausência de mecanismos, mas a disposição política para utilizá-los quando o custo é alto demais . Punir a Rússia foi possível. Punir os Estados Unidos significaria enfrentar o coração financeiro, político e simbólico do esporte global. Caminhos para o esporte Essa situação coloca o movimento esportivo numa sinuca de bico institucional . Os dois maiores eventos do calendário esportivo mundial - a Copa do Mundo de 2026 e os Jogos Olímpicos de 2028 - estão marcados para os Estados Unidos . Como sustentar um discurso de coerência normativa e direitos humanos sem enfrentar o elefante no meio do estádio? A régua, aqui, não pode ser simbólica. Ou ela mede todos, ou perde qualquer legitimidade. No curto prazo, as consequências mais prováveis não virão em forma de sanções esportivas diretas, mas de pressão reputacional , questionamentos de atletas, patrocinadores e organizações da sociedade civil. O esporte evita a palavra "boicote", mas convive permanentemente com ela. E quanto mais seletivo for o uso de valores universais, mais frágil se torna a narrativa institucional. No fim, o que está em jogo não é apenas a Venezuela, nem apenas os Estados Unidos. É a credibilidade do esporte como ator global. Ou os princípios que ele proclama são universais, ou são apenas retórica conveniente. A neutralidade já não existe como refúgio. Resta saber se o esporte terá coragem de olhar para o próprio espelho, mesmo quando o reflexo é grande demais para ser enfrentado. Mesmo sem conhecer o desfecho desse conflito, uma conclusão já se impõe: quando o direito internacional é relativizado e o esporte escolhe o silêncio seletivo, o maior derrotado tem nome e sobrenome, a diplomacia internacional . O esporte pode ficar logo atrás nesse pódio da vergonha. O resto é discurso. E o esporte, como sabemos, já escolheu e aprendeu quando falar. Continua após a publicidade Nos siga nas redes sociais: @leiemcampo Este conteúdo tem o patrocínio do Rei do Pitaco. Seja um rei, seja o Rei do Pitaco. Acesse: www.reidopitaco.com.br . Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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