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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte Conseguiram fazer a Copa do Brasil ser mais saborosa que o Brasileirão Julio Gomes Colunista do UOL 23/12/2025 05h33 Deixe seu comentário Taça da Copa do Brasil; troféu foi erguido por jogadores do Corinthians em 2025 Imagem: Thiago Ribeiro/AGIF Carregando player de áudio Ler resumo da notícia Os pontos corridos são uma tragédia. Eles só servem para uma única coisa: aumentar receita dos clubes. De alguns clubes, de um grupinho. Se, no Brasil, é isso que se considera o mais importante, aumentar absurdamente a receita de um punhado de clubes e que dois ou três deles ganhem a Libertadores sempre e possam "jogar de igual para igual" com algum europeu uma vez por ano, parabéns, missão cumprida. Não é muito diferente do que preferir que as terras produtivas do Brasil estejam nas mãos de 10 ou 15 superprodutores do agro, em vez de estarem distribuídas entre milhares de famílias. Ou do que preferir que a renda esteja concentrada nas mãos de 1% da população, em vez de estar melhor distribuída. É claro que a elitização do futebol brasileiro não é culpa somente dos pontos corridos. Eles são uma das ferramentas principais para que ela se dê. Haveria maneiras de aplacar um pouco o abismo que se abre entre clubes, mas nenhuma delas está sendo posta em prática. Alexandre Borges Havaianas: paranoia de um lado e elitismo de outro Josias de Souza Se Viviane não fosse sua mulher, Moraes pediria PF Carlos Nobre Brasil se aproxima do colapso ambiental Joyce Pascowitch A estranha solidão dos bilionários: vidas sem paz? Enquanto ganhar o Brasileirão dos pontos corridos vira cada vez mais coisa de um ou dois, sobram as Copas para o resto. Hoje, é muito mais realista para os clubes que se fizeram grandes no Brasil ganharem a Libertadores, a Sul-Americana ou a Copa do Brasil. Tem também os Estaduais, que foram dizimados pelo futebol da elitização nacional - poderiam estar no fim do ano do calendário, mesmo que pequenos, e teriam um efeito parecido com o do título do Corinthians na Copa do Brasil, de acabar bem o ano. Classificação e jogos Brasileirão O fato é que o mata-mata, o confronto direto, é o espírito de qualquer esporte. É assim na Copa do Mundo e em qualquer torneio de seleções, é assim nos torneios intercontinentais mais cobiçados, é assim no tênis, no basquete, no vôlei, no futebol americano, nas Olimpíadas. Um tem que ganhar do outro para levantar o troféu ou botar uma medalha de ouro no peito. Sem essa de ganhar do outro e do outro e do outro e perder daquele e daquele outro, empatar mais umas tantas e ficar somando pontinhos ao longo de um ano inteiro. Os pontos corridos matam o verdadeiro espírito das competições esportivas. E ainda vivem em uma premissa falseta: a da justiça. Sim, muito justo quando alguns competidores têm receitas 5, 20, 100 vezes maiores do que outros. Muito justo quando um campeonato é recheado de partidas com portões fechados, gramado assim ou assado, torcida única contra alguns rivais, não contra outros. No Brasil, com todas as nossas esquisitices, não existe justiça nos pontos corridos. O fato é que nada se equipara a ganhar um jogo final, uma decisão, uma semifinal. Nada se equipara a se classificar. A viver 90 minutos com a intensidade e o senso de urgência, sabendo que não tem amanhã, não tem a próxima rodada para se recuperar. Os "campeonatos nacionais" do Brasil eram os Estaduais. Eles eram disputados em pontos corridos. E deixaram de ser. O jogador brasileiro foi forjado no mata-mata e, não à toa, desde que os pontos corridos foram implementados no Brasil, nunca mais ganhamos uma Copa do Mundo. O torcedor brasileiro foi forjado no mata-mata e não à toa ele nunca teve uma relação tão tóxica quanto tem hoje com o futebol. Qualquer derrota é motivo para pichações e fúria, porque, no fim das contas, hoje em dia todos passam o ano perdendo, a não ser um ou dois. E os torcedores desses um ou dois são os que mais furiosos ficam, se não ganharem nada no fim do ano. Continua após a publicidade O mata-mata é democracia na veia. É o verdadeiro espírito do jogo. O torcedor corintiano teve uma carga de emoções no domingo que não se compara aos pontos corridos. A tristeza do vascaíno é a tristeza que forja o verdadeiro interesse no jogo. O flamenguista teve uma descarga muito maior de emoções da Libertadores deste ano ou na Copa do Brasil do ano passado do que no Brasileirão. Nos países europeus, em que a cultura dos pontos corridos é histórica, ganhar a Copa nacional está em terceiro plano. No Brasil, em que a cultura de Copas e enfrentamentos diretos é muito mais forte, a Copa do Brasil sempre teve um peso grande. Agora, então, tem um peso maior ainda do que o normal. O Brasileirão dos pontos corridos para apenas 20 felizardos (ou melhor, 2 ou 3 felizardos e 17 ou 18 sofredores), que agora será disputado o ano todo, é o enterro do futebol brasileiro vencedor e apaixonante que foi criado no século passado. Ganhar a Copa do Brasil é mais gostoso. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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