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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte Entre feijoada, cervejas, caipirinhas e muito rock veio o título de 1982 Walter Casagrande Jr. Colunista do UOL 12/12/2025 11h54 Deixe seu comentário Carregando player de áudio Ler resumo da notícia Casagrande e Sócrates durante jogo do Corinthians Imagem: Arquivo pessoal/Casagrande Para terminar a história do título paulista de 1982 conquistado pelo Corinthians, que dividi em três partes, chegamos finalmente ao dia 12/12. Nessa mesma data, há 43 anos, Corinthians e São Paulo decidiram o campeonato num domingo ensolarado e lindo, típico céu para se comemorar algo. Falei no texto anterior que eu e os outros solteiros, juntamente com Eduardo Amorim (casado), ficamos a semana toda preocupados devido a uma ameaça de tentarem desmoralizar a Democracia Corintiana antes da final. Alexandre Borges A única unanimidade é que Hugo Motta foi um erro Daniela Lima Motta perde apoio no STF, na Câmara e no Executivo Juca Kfouri Cruzeiro e Flu eram, e são, favoritos para a final Reinaldo Azevedo Caso Zambelli: entenda o absurdo de Motta Depois que vencemos o primeiro jogo da final por 1 a 0, gol do Sócrates, na noite de quarta-feira (8) no Morumbi, nós fomos nos divertir na noite paulistana, no Derepente Bar, na rua Bela Cintra, onde eu costumava ir sempre por ser um bar de rock and roll. Na quinta-feira (9), era a reapresentação no Parque São Jorge para iniciarmos a preparação para a grande final. O ambiente estava leve, divertido, festivo. Lembro bem que não tínhamos a mínima dúvida de que seríamos campeões. Não por desmerecer o grande time tricolor, mas porque tínhamos muita confiança e segurança no que queríamos. Fizemos um treino leve para relaxar o cansaço do jogo e voltamos para o hotel. Lá, jantamos umas 20h e, umas 22h, fomos para o bar curtir bandas ao vivo. O Derepente Bar era incrível e ficava lotado todas as noites, e como ia direto, conhecia todo mundo lá. As garçonetes eram talentosas e lindas, e eu era apaixonado por uma delas, que era a cara da Elis, inclusive cantava toda noite algumas músicas que a Elis dava show. "Como Nossos Pais" e "Velha Roupa Colorida", ambas do genial Belchior, eram as favoritas. Não me lembro do nome real da garçonete, porque eu a chamava de Elis. Na sexta-feira (10), treinamos em dois períodos, sendo que pela manhã fizemos um bate-bola mais suave, e à tarde o último coletivo do ano antes da final do campeonato. Continua após a publicidade E, como fizemos nos dias anteriores, jantamos no hotel e depois fomos lá para o Derepente Bar outra vez. Eu não curtia muito a sexta-feira porque enchia demais e o espaço ficava apertado, apesar do bar ser grande. Voltamos mais cedo e a ansiedade pela final começou a bater. Eu tinha 19 anos e era a minha primeira final como profissional e estava com aquele friozinho delicioso na barriga, louco para chegar domingo para jogar. No sábado pela manhã, fizemos um treino leve, mas aconteceu algo inusitado. Quando chegamos umas 8h30 para treinar, cruzei logo de cara com o Magrão, e ele veio até mim e perguntou: "Fala, Big, beleza?" Respondi: "Tudo beleza, Magrão." Ele continuou: "Como foram as coisas no hotel?" Aí eu disse a ele: "Foi tudo beleza, mas os caras estão reclamando que lá não tinha feijão." Continua após a publicidade Foi aí que tudo começou. "Ah, é? Vou resolver isso, ligarei para a Regina (mulher dele) e vou pedir para ela fazer uma feijoada, e depois do treino, vamos para a minha casa." Fechei a conversa: "Beleza, Magrão, vou perguntar quem está a fim de ir." Casagrande, Sócrates, Zenon e outros ídolos do Corinthians Imagem: Arquivo pessoal/Casagrande Falei com a rapaziada e todos que estavam no hotel toparam, e mais o Ataliba, Wagner, Mauro e o Daniel Gonzalez. Acabou o treino, fomos para a casa do Magrão, e nesse bolo estavam também o Adilson Monteiro Alves, o saudoso médico do time e amigo Dr. Léo Villarinho, e um repórter que cobria o Corinthians e que era próximo do Magrão. Bom, tomamos muitas cervejas, caipirinhas, comemos a feijoada e ficamos lá conversando. Quando deu umas 16h30, o Magrão dormiu no sofá, e nós estávamos "num bode tremendo" e fomos para o hotel dar uma hibernada. Continua após a publicidade À noite, os outros jogadores foram chegando, porque para a final concentraram todos. Depois do jantar, tivemos uma conversa em grupo com o também saudoso e amigo psicólogo Flávio Gikovate. Era opcional a terapia em grupo com o Flávio, e durante o ano, tinha pouca participação do grupo. Costumávamos participar eu, Magrão, Wladimir, Ataliba, Sollitinho, Eduardo, Daniel Gonzalez e outros, mas na véspera da final o elenco todo participou. Depois fomos dormir, e quando acordamos, o bicho estava pegando. Todos os jornais e rádios estavam detonando a gente por causa da feijoada. Aquele jornalista/repórter de rádio que curtiu a feijoada com a gente vazou tudo. As falas eram as seguintes: "Que absurdo! É uma grande irresponsabilidade os jogadores beberem e comerem uma feijoada na véspera de uma final." "Essa Democracia Corinthiana é uma grande bagunça e vão tomar um baile do São Paulo." "Sem chance dessa democracia vencer a organização tricolor." Continua após a publicidade Bom, aqueles que eram contra a democracia e torciam contra nós se sentiram no máximo. As fake news já existiam mesmo antes das redes sociais, dos celulares e computadores. Fomos para o Morumbi com o famoso ônibus do Corinthians, que, por onde passava até chegar no estádio, era saudado pelos torcedores que buzinavam, acompanhando o nosso ônibus. Chegamos no Morumbi e, no saguão do estádio, os jornalistas vieram em cima da gente para perguntarem sobre a feijoada e nem tocavam no jogo, só na feijoada. A entrada em campo foi uma festa, inclusive estava a saudosa, talentosa e linda atriz Sandra Bréa, com uma camisa dividida ao meio, com um lado tricolor, com o distintivo do São Paulo, e o outro lado, preto e branco, com o símbolo do Corinthians. As torcidas, principalmente a do Corinthians, deram um espetáculo na entrada dos times em campo, com fogos, bandeiras e papéis. O primeiro tempo foi bem violento, dos dois lados. Pouco futebol e muitas divididas, chegadas mais fortes, corpo a corpo. Mas o segundo tempo foi um jogaço e o nosso time dominou por completo. Continua após a publicidade Numa jogada genial, o Biro-Biro tabelou com o Magrão, que devolveu de calcanhar e saiu na frente do Waldir Peres; eu consegui sair da frente e fizemos 1 a 0. O Morumbi explodiu, e nessa jogada o zagueiro Oscar foi expulso, mas mesmo com 1 a menos, o Tricolor foi em busca do empate para tentar virar o jogo, porque o empate era nosso. O São Paulo tinha os incríveis laterais Marinho Chagas pela esquerda e Getúlio pela direita, que batiam muito bem as faltas. Numa dessas, o Getúlio bateu de longe, mas forte e com efeito, que o nosso goleiro Sollito não conseguiu segurar a bola, e no rebote, Darío Pereyra empatou. O São Paulo se entusiasmou, mas nosso time manteve a calma e tomou conta do jogo. Pouco tempo depois, o talentosíssimo Zenon descobriu um espaço que só ele viu e deixou o Biro cara a cara com o Waldir novamente, e num toque, meteu a bola por baixo das pernas dele e marcou o nosso segundo gol; nesse momento, vencíamos por 2 a 1 e faltando pouco tempo para o fim do jogo. O Morumbi já estava em festa e o título praticamente garantido, mas no futebol tudo pode acontecer. Continua após a publicidade Quando, aos 43 minutos, o Ataliba fez uma das jogadas mais espetaculares que já vi, passando pelo meio de dois jogadores do São Paulo (Everton e Marinho Chagas) que se chocaram. O Tatá me viu melhor colocado e passou a bola para mim; eu dominei e bati rasteiro, em diagonal, e marquei o gol que definiu o nosso título. Foi uma grande emoção porque marquei o meu 28º gol no campeonato. Esse título foi um dos mais importantes na história do Corinthians, porque a ditadura estava louca para a gente perder e a Democracia Corintiana ruir, e provavelmente alguns de nós (Magrão, eu, Wladimir, Adilson) iríamos sofrer represálias agressivas da polícia do governo. Quando o árbitro José de Assis Aragão apitou o final do jogo, nós explodimos em campo e a comemoração foi emocionante e intensa. E foi nesse momento que eu e o Magrão demos as mãos e corremos junto com o time para a volta olímpica, que se tornou uma cena histórica que até hoje é mostrada e usada em diversas situações. Virou até calendário em 1989 porque pegaram a nossa foto pelas costas e aparecia o Magrão com a camisa 8 de mãos dadas comigo com a camisa 9, e só colocaram um 1 e outro 9 e completaram a imagem em 1989. Continua após a publicidade À noite, a comemoração do time foi num restaurante de luxo, mas eu, Sollitinho e o lateral Ismael fomos para o restaurante mais cultural e político de São Paulo nos anos 80, na Baixa Augusta. Spazio Pirandello, que era num casarão de 1905, que possui cinco salas e um jardim bem no meio da cidade. Os proprietários eram o ator de teatro e artista plástico Antônio Maschio e o jornalista e crítico musical Wladimir Soares. Ali, frequentavam grandes nomes da nossa cultura e da política revolucionária. Foi numa das mesas do Spazio Pirandello que saiu a ideia das Diretas Já. Entre várias exposições, eles davam também o prêmio Spazio Pirandello e me lembro bem que em 1982 eu recebi esse prêmio, e quem me entregou foi a atriz Irene Ravache, num show do Eduardo Duzek. O Spazio era outro lugar que eu frequentava na noite paulistana, e quem tiver curiosidade e quiser saber mais sobre esse local incrível é só entrar no Google e colocar Restaurante Spazio Pirandello. Continua após a publicidade Quando saímos do Pirandello, fomos para o restaurante onde estavam os outros, mas eu, Sollitinho e Ismael estávamos numa outra vibe e ficamos no bar. Na segunda-feira (13), teve a reapresentação no Parque São Jorge, com quase todo o elenco virado da noite, e fizemos um som no vestiário e fomos para o famoso Bar da Torre dentro do clube. Essa foi a história da última semana das finais do campeonato paulista de um ano muito marcante: 1982. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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