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Renato Paiva detona Textor: "Quis interferir constantemente no meu trabalho e não deixei" Português de nascimento, carioca de coração. Renato Paiva chegou ao Brasil pela primeira vez como treinador profissional no Bahia , se casou com uma brasileira e estabeleceu residência no Rio de Janeiro. Cansado de ficar em casa, Paiva deseja voltar ao trabalho, seja no Brasil ou fora do país. Após quase duas décadas lapidando talentos na base do Benfica , o treinador europeu abriu o jogo em uma conversa profunda e franca ao Área Técnica, quadro do ge. No papo de duas horas na redação da Globo no Rio de Janeiro, Paiva explicou a sua filosofia de jogo, admitiu arrependimento ao pedir demissão do Bahia, rebateu a fama de retranqueiro e revelou os bastidores de sua demissão no Botafogo . O português ainda falou pela primeira vez sobre seu trabalho no Fortaleza , revelou as estratégias no histórico duelo contra o PSG, contou do agradecimento feito pela presidente do Palmeiras após a eliminação no Mundial e relembrou o desafio de lidar com jogadores com "peso excessivo" no elenco do Independiente Del Valle, onde foi campeão equatoriano. 1 de 17
— Foto: Infoesporte — Foto: Infoesporte O técnico ganhou os holofotes do mundo quando dirigiu o Botafogo na Copa do Mundo de Clubes e bateu o poderoso Paris Saint-Germain . Ele detalhou os bastidores da sinuosa relação com John Textor e não fugiu das polêmicas ao falar sobre o americano. - Há uma entrevista do senhor que me despediu, onde diz que me despede porque eu traí os meus princípios. Eu nunca pude responder nem quis, mas eu vou dizer que eu fui despedido exatamente porque eu não traí os meus princípios . Porque essa pessoa quis interferir constantemente no meu trabalho e eu não deixei . E esse é o verdadeiro motivo do meu despedimento. Não é o Palmeiras. Não é a derrota no Mundial. Não é um beijo de três dias e depois despedido. - Foi a oportunidade que ele encontrou para tomar uma decisão que na cabeça dele possivelmente já estava tomada por eu não permitir interferências no meu trabalho. Para mim é claro. 2 de 17
Renato Paiva - Área Técnica — Foto: Juliana Lima Renato Paiva - Área Técnica — Foto: Juliana Lima Renato Paiva não poupou críticas ao modo de conduzir o clube do empresário. Ele lembrou o episódio em que recebeu ordens para não escalar o lateral Cuiabano de ponta, mesmo com o jogador performando bem na posição e com poucas opções no elenco para suprir a carência. - Cuiabano começa a fazer gols. Cuiabano começa a ser o melhor em campo em vários jogos. E eu recebo um recado de que não posso colocar o Cuiabano de ponta. Porque o Cuiabano tem que ser vendido como lateral. E eu pergunto: este senhor está preocupado com o Botafogo? Cuiabano é o que desequilibra, é o que faz gols, é o que ajuda o time a ganhar. Esta preocupação deste senhor é com o torcedor do Botafogo? Com o prazer do torcedor do Botafogo de ver a sua equipe ganhar e jogar? Ou com outra coisa? É a pergunta que eu deixo no ar. Sobre pedido de escalar Cuiabano de lateral: "Este senhor está preocupado com o Botafogo?" Episódio da demissão nos Estados Unidos Eliminado nas oitavas de final da Copa do Mundo de Clubes pelo Palmeiras, Renato Paiva foi desligado do cargo um dia depois. O americano não gostou da postura do time diante do clube brasileiro, mas não havia dado sinais que a derrota iria motivar a demissão do técnico. Segundo Paiva, o americano deu um abraço nele e disse para seguir em frente após a queda no Mundial. O modo de conduzir o processo incomodou o comandante europeu. - Ele tem todo o direito em despedir-me. Ficou muito feio como fez. Porque nós perdemos o jogo com o Palmeiras, vamos para o hotel, ele fala com o grupo, almoça, despede-se ao meu lado, estava a falar com o Cláudio Caçapa, ele vem, despede-se e diz-me: “ keep going coach, keep going (vamos em frente treinador, vamos em frente)” . Eu jamais me esqueço. Um abraço e “keep going coach.” 3 de 17
Paiva orienta jogadores em Botafogo x Palmeiras — Foto: Carl Recine - FIFA/Getty Paiva orienta jogadores em Botafogo x Palmeiras — Foto: Carl Recine - FIFA/Getty Esse episódio ocorreu no sábado no dia 28 de junho após a derrota por 1 a 0 para o Palmeiras, na Filadélfia. No dia seguinte, um ônibus com parte da delegação do Botafogo seguiu para Nova York para aproveitar a folga. Renato Paiva ficou no hotel, mas os diretores estavam com o grupo na cidade americana. A programação, porém, foi interrompida por uma reviravolta: Textor havia mudado de ideia e decidido demitir o treinador. Ele ordenou o retorno imediato ao hotel para que a decisão fosse comunicada. A missão coube aos diretores Alessandro Brito e Léo Coelho, que só informaram Paiva sobre o desligamento após o jantar com a delegação. Paiva explica como foi sua demissão no Botafogo e revela mágoa com condução de Textor - E é quando eles me informam do que tinha acontecido. Ele não despede ninguém. Ele manda despedir. Portanto, tem todo o direito de me despedir. Agora, como as coisas são feitas. É aquilo que dói. Em vez do "keep going coach", ias a uma sala e dizias: "olha, eu não gostei do jogo do Palmeiras, eu não gosto do teu penteado, eu não gosto de como é que te vestes, eu sou o dono, vamos acabar o contrato". Hoje, eu sei que ele me queria despedir. Mas depois, mandar os outros fazerem isso? - Ao final disso tudo e quando para todo o mundo uma pessoa te beija em direto (ao vivo) é de propósito. Porque esse beijo podia-se ter dado no balneário (vestiário). Eu estou a ser entrevistado em direto no final do jogo para todo o mundo e aparece alguém para me dar um beijo. Esse beijo podia ter sido no balneário. Foi para todo o mundo ver. As pessoas a perguntar que tipo de situação foi esta? Se eu fiz alguma coisa, se agredi alguém, se não sei o quê, percebe? Portanto, este tipo de situação fala muito mais dele do que de mim e do meu trabalho. 4 de 17
Renato Paiva - Área Técnica — Foto: Juliana Lima Renato Paiva - Área Técnica — Foto: Juliana Lima Carinho pelo Botafogo Apesar dos entreveros com o dono da SAF alvinegra, Renato Paiva declarou que o Botafogo foi a equipe que mais o marcou a nível pessoal pelos relacionamentos com cada um no convívio diário. Ele ressaltou a qualidade humana e profissional de todas as pessoas do clube. - Sem exceção, as pessoas com quem eu trabalhei no Botafogo são do nível superior. Em questões pessoais e profissionais, o Botafogo foi a equipa que mais me marcou e também foi a equipa onde eu senti mais a minha saída. Paiva se emociona ao lembrar carinho no Botafogo: "Toda a gente se levantou a aplaudir" Ele se emocionou ao lembrar da manhã seguinte à demissão, quando foi tomar café da manhã no hotel onde a delegação inteira estava, e recebeu aplausos de todos de pé. - Há coisas que tu não consegues esquecer e vais levar para a vida. Esta é uma daquelas que eu vou levar para o caixão . É ver um grupo de pessoas gigante manifestar o teu carinho e o teu respeito. Em pé, bater palmas. Eu falei com eles, com muita dificuldade. Mas, quando eu falo de Botafogo parte negativa, eu falo de uma pessoa. Uma pessoa . Eu quero que isso fique bem claro. Nem torcida, porque torcida tem a liberdade de decidir o que gostas, o que você não gosta, é 8/80, seja aquilo que for. É subjetivo. 5 de 17
Renato Paiva - Área Técnica — Foto: Juliana Lima Renato Paiva - Área Técnica — Foto: Juliana Lima Arrependimento ao sair do Bahia Primeiro técnico da SAF do Bahia em 2023, Renato Paiva chegou em um momento de transição do clube. Apesar de a conclusão da venda ao grupo City ter sido oficializada em maio , o treinador já vivia os primeiros meses da nova gestão e permaneceu no cargo por nove meses, até pedir demissão. Ao relembrar aquela decisão, ele admitiu que, ao final do ciclo, já estava desgastado e revelou que sua filha chegou a receber ameaças na rede social. - Houve entradas no Instagram da minha filha, a ameaçar a minha filha e ali uma ou outra questão em termos de dia a dia de trabalho, em que o City tem um grupo de Saúde e Performance, que é um bocadinho autônomo e que eu, com a minha visão do meu preparador físico e da forma de nós trabalharmos, numa realidade de jogos de três em três dias, houve ali um momento de muitas lesões em que nós achamos que havia uma interferência. O meu preparador físico não estava satisfeito com a interferência da performance nesse trabalho e houve ali vários incômodos e eu acabei por tomar a decisão de sair. Renato, porém, relevou ter se arrependido da decisão de pedir demissão do Bahia. Ele gostaria ter aproveitado melhor a qualidade do elenco do time. O que poderia ter ajudado a melhorar a imagem que deixou ao pedir o boné. Apesar dos problemas de metodologia apontados por Paiva, o preparador físico Antonio Bores não seguiu o mesmo caminho que o comandante e resolveu permanecer no clube. Renato Paiva revela ameaças à família e explica pedido de demissão no Bahia Passagem curta no Fortaleza Renato Paiva não gosta de falar publicamente sobre seu trabalho no Fortaleza, porque considera o tempo no cargo algo inexplicável. Para ele, os 48 dias à frente do Leão, que terminou rebaixado para a Série B do Campeonato Brasileiro, são difíceis de explicar. O treinador abriu uma exceção para o ge e falou pela primeira vez sobre aquele período. - (Recebo) um telefonema. Por que é que te queremos? Queremos mudar o tipo de jogo que nós temos no Fortaleza. Os jogadores não estavam a funcionar já este jogo um bocadinho mais reativo que nós tínhamos, com o Vojvoda. Os jogadores estão um pouco cansados disto e a sua forma de jogar é diferente e nós precisamos de algo diferente e portanto, por isso é que nos lembrámos de si. Aquilo fez muito sentido e fui. 6 de 17
Renato Paiva, quando era técnico do Fortaleza — Foto: Mateus Lotif/FEC Renato Paiva, quando era técnico do Fortaleza — Foto: Mateus Lotif/FEC Os resultados, porém, não vieram. Com apenas 20% de aproveitamento em dez jogos, Paiva foi demitido. Responsável pelo futebol do Fortaleza até então, Marcelo Paz comunicou ao treinador que seria necessário mudar o estilo de jogo. A poucas rodadas do fim do campeonato, o clube precisava de uma equipe mais defensiva e pragmática. - Por que é que me foram contratar? Porque há um mês atrás na chamada era: vamos mudar isto tudo e queremos uma forma diferente de jogar. Isto é a história do Fortaleza. Com erros meus, com responsabilidade minha também na descida, não vou fugir disso. Era o líder durante aquele tempo. Mas, sinceramente, técnico nunca fui, não me deram tempo para isso, eram jogos, pouco treino e foi aquilo que foi. E repito, isto volta a dizer muito mais de quem contrata do que propriamente de quem é contratado. Renato Paiva detalha demissão no Fortaleza e erros da diretoria Má forma física no Del Valle Após quase duas décadas no Benfica, Renato Paiva recebeu sua primeira oportunidade profissional no Independiente Del Valle. O primeiro compromisso rendeu frutos e ele se sagrou campeão equatoriano em 2021. Mas a conquista exigiu muito além do campo. Foi preciso convencer os atletas a cuidarem do próprio corpo e adotarem hábitos mais profissionais, especialmente em relação à forma física. - Tivemos que convencer os jogadores, não obrigá-los. Por exemplo, convencer os jogadores da simples coisa de chegar de manhã e pesar. Tira a roupa, pesa, depois é que veste e vai tomar o café da manhã. Isto para eles foi um choque, porque a maior parte deles gordos, com peso excessivo. - O que o meu preparador físico fez? Uma apresentação em que explicou a eles o prejudicial que era eles estarem fora de peso. Lesões. Se lesionam, jogam menos. Se jogam menos, piores contratos. Piores contratos, não têm dinheiro. Então, fomos convencendo os caras num profissionalismo muito bom. Gente que gosta de festa, de vez em quando chegavam assim com uns olhos (aponta para o olho) ao treino, mas gente gosta de festa e o nosso conceito foi aos poucos ir profissionalizando eles e sensibilizando para o que era importante se eles de fato queriam ser campeões, porque nunca tinham sido. Renato Paiva fala sobre pesagem no Del Valle: "A maior parte deles com peso excessivo" Seleção ideal Renato Paiva comandou diversos craques ao longo da sua trajetória no futebol. O ge convidou o técnico para montar o seu 11 ideal entre os jogadores que foram seus atletas. Ele escalou vários portugueses que comandou no Benfica, montou um ataque com três centroavantes e disse que outros dois jogadores teriam vaga nesse time: o meia Cauly, ex-Bahia, e o volante Matheus Pereira, ex-Fortaleza. Veja abaixo o time: 7 de 17
Seleção ideal do Renato Paiva: Ederson; João Cancelo, Pacho, Rubén Días e Alex Telles; Gregore, Bernardo Silva e João Félix; Gonçalo Ramos, Igor Jesus e Paulinho — Foto: Infoesporte Seleção ideal do Renato Paiva: Ederson; João Cancelo, Pacho, Rubén Días e Alex Telles; Gregore, Bernardo Silva e João Félix; Gonçalo Ramos, Igor Jesus e Paulinho — Foto: Infoesporte Renato Paiva monta seu time ideal Bate-pronto No quadro, o convidado dá respostas curtas e rápidas sobre tópicos de sua carreira no futebol. Paiva revelou arrependimento ao deixar o Bahia e por não ter aceito uma proposta do LAFC quando estava no Del Valle. Ele ainda elogiou Lucho Acosta e disse que Savarino é um atleta difícil de comandar, graças à personalidade forte. Maior amigo do futebol? Meu agente e a minha comissão técnica. Jogo mais marcante da carreira de treinador? Botafogo 1 x 0 PSG. Título mais importante? Liga Equatoriana de 2021. Derrota mais dolorida? Grêmio 1 (4 x 3) 1 Bahia , pelas quartas da Copa do Brasil de 2023. Qual o maior clássico que você passou? Benfica x Sporting. Ou um Benfica x Porto, decisão de títulos, mesmo na base, é jogo pesado. Aqui, Botafogo x Flamengo . Botafogo x Fluminense . São clássicos pesados. Maior craque que você treinou? Bernardo Silva, João Félix e Paulinho que está no Toluca. Maior craque que você enfrentou? Vitinha e Arrascaeta. Melhor jogador no Brasil hoje? Lucho Acosta. Jogador mais resenha de vestiário que se acomodou? Cuiabano. Distanciado. Jogador que mais dava trabalho de comandar? O Savarino, pela personalidade dele. Personalidade forte, difícil entrar nas ideias do Savarino. Jogador líder de vestiário que mais te ajudou? Marlon Freitas e Cristian Pellerano. Principal jogador que você revelou? Revelar é claríssimo. É o Pacho, do PSG. Bate-pronto com o Renato Paiva Íntegra da entrevista Adaptação ao Brasil e cultura brasileira - A questão da cultura brasileira vem da infância. Em Portugal, eu nasci em 70. Anos 70, 80 e 90, a cultura brasileira tinha uma influência muito forte em Portugal, através da música e através das novelas. Depois, mais à frente, começaram a haver novelas portuguesas, mas até lá só havia novelas brasileiras. Posso lhe dizer, por exemplo, que a Gabriela Cravo e Canela, o último episódio, parou o Parlamento Português. - Depois, a minha chegada ao Brasil, quando entro no Benfica, faço parte da base e scouting paralelo e a parte do scouting com a América do Sul e, portanto, eu via tudo o que era Argentina, Brasil, Uruguai, Colômbia, Libertadores, Sul-Americana. Portanto, também a minha ligação cultural a partir daí com o futebol brasileiro ficou muito forte. Depois, saí do Benfica, todo o meu percurso acabou por me trazer ao Bahia. Foi a primeira experiência no Brasil como treinador profissional e depois acabei por casar com uma brasileira e morar no Rio. E esse é um bocadinho do porquê o Rio. O Rio por quê? - Por questões familiares, obviamente, eu poderia viver em Portugal, mas optei por viver no Rio. Por questões de que, de fato, eu comecei a perceber porque é que lhe chamam Cidade Maravilhosa porque é uma cidade que te oferece imensas coisas positivas. Eu não vou falar da questão da segurança porque toda a gente sabe isso, mas isso é uma parte e, às vezes, infelizmente, muito visível e esquece de outras coisas que são absolutamente extraordinárias aqui. Não só em termos paisagísticos, em termos culturais, em termos gastronômicos, portanto, em termos sociais. E daí, a nossa opção por ficar a viver no Rio de Janeiro. 8 de 17
Renato Paiva em entrevista para o Área Técnica com Roberto Maleson — Foto: Juliana Lima Renato Paiva em entrevista para o Área Técnica com Roberto Maleson — Foto: Juliana Lima Relação com o mar - Eu tenho uma relação com o mar. Eu mudei-me com 12 anos para uma cidade, por causa do emprego do meu pai, para uma cidade que é Setúbal, que é uma cidade de pesca junto ao mar, que tem praia. E um dos meus passatempos preferidos era quando podia ir para o pé do mar, fosse praia, fosse caminhar, fosse até ver. Porque Setúbal tem uma Serra da Arrábida, um ponto alto do país, onde toda a vista que tu tens, paisagem, é mar. Então, muitas das vezes, é uma zona até de reflexão, para tirar as fotos e etc. Então, a ligação com o mar ofereceu-me muitos momentos de reflexão na minha vida. - Muitas das vezes, até sozinho. Tu e o mar, tu e o silêncio, tu e a natureza. Parece um pouco filosófico, mas cada um sabe o impacto que tem. De fato, o meu impacto nesse aspecto foi muito grande. Quando vou para o Bahia, em Salvador, uma das coisas que eu tentei conseguir foi ter uma casa a dois minutos da praia, num condomínio. Eu todos os dias chegava do trabalho às 17 horas. A primeira coisa que eu fazia era ir para a praia. E, muitas das vezes, estava na praia sozinho. Então, a ligação com o mar é fantástica. Eu não consigo explicar o porquê, mas sei que me sinto sempre muito bem junto ao mar. Início da carreira de treinador - Eu comecei a especializar-me, a fazer cursos e no Vitória de Setúbal aparece o Carlos Carvalhal. Vai treinar o Vitória de Setúbal, quando eu estava a ler a tese de formatura dele na Faculdade de Motricidade Humana sobre periodização tática. Aquele autor do livro vem treinar o clube onde tu estás, eu imediatamente pedi a autorização para assistir aos treinos. Ele imediatamente abriu as portas, e eu passei a acompanhar os treinos diariamente. - Tudo aquilo que eu estava a ler na teoria, comecei a entender o sentido quando tu conectas a prática com a teoria. A partir daí, o bicho do treino começou a crescer. Setúbal é a cidade do José Mourinho, com o qual eu joguei futsal. E o José, muitas das vezes também dizia, por eu ser capitão e tal: "tens uma liderança porreira, eu acho que devias investir também na área do treino". Renato Paiva revela incentivo de Mourinho para que virasse treinador: "Investir em treino" Modelo de jogo e Jogo de Posição - O modelo, para mim, é algo que eu bebi desde sempre. É um modelo de jogo ofensivo. É um modelo de jogo em que tu queres ter a bola e queres ser protagonista. É um modelo de jogo onde, quando perdes a bola, tens de ter uma reação rápida e forte à perda da bola para voltares a ter a bola outra vez. É um modelo onde tu tentas que o adversário não tenha a bola. Para mim, o jogo tem muito sentido em que tu vais caminhando no terreno... isto numa ideia ótima. Tu vais caminhando no terreno, ganhando superioridades através da construção com o goleiro. - E o jogo de posição tem exatamente isto. As pessoas fazem muita confusão, e alguns jogadores também, porque falavam comigo, de que o jogo de posição é estar parado num lugar. E não tem absolutamente nada a ver com isso . - O jogo de posição tem um ponto de partida, que aí é inerente ao teu sistema que tu utilizas. Se é o 4-3-3, se é o 3-5-2, seja aquilo que for. Mas, quando tu atacas, tu divides o campo. Eu divido o campo em 5 zonas. E, quando tu atacas, essas zonas têm de estar todas ocupadas. Os meus jogadores têm de ter um mapa mental sobre saber onde há colegas. E há duas delas que são inegociáveis. A última da direita e a última da esquerda. A da largura. Renato Paiva dá aula e explica detalhadamente o jogo de posição - Eu paro um treino, uma equipa em posse, o exercício que seja, se essa equipa não tiver os dois corredores ocupados. Para mim, é inegociável. O ponto de partida é esse. Mas, depois, o jogo começa a ser dinâmico. E o que os jogadores identificam é: se aquele colega liberou o espaço, eu posso entrar nesse espaço. E, ao entrar nesse espaço, já deixo um espaço para que entre outro colega (confira a explicação completa no vídeo acima) . Qual a dificuldade de implementar essa filosofia? - Precisa de tempo. Eu acho que todas precisam de tempo, mas precisam de mais tempo do que outras. Por exemplo, o Guardiola é um dos expoentes máximos do jogo de posição e vê quanto tempo ele levou para ser campeão no City, por exemplo. No Brasil ele já tinha sido despedido, ou em Portugal também. - Não é por acaso que os meus melhores trabalhos em termos de qualidade de jogo são no Del Valle, onde eu estive um ano e meio, onde claramente os primeiros seis meses foram de crescimento da equipa, mas os segundos seis meses são onde a equipa demonstra todo o seu poder e ganha a final do campeonato no final do ano. Renato Paiva lista dificuldades do seu modelo de jogo: "Precisas de tempo" Trabalho no Del Valle - Foi fantástico, porque foi um choque, culturalmente, um bocadinho grande para nós, equipa técnica. Tivemos que convencer os jogadores, não obrigá-los. Eu tenho que explicar-lhes o porquê. Por exemplo, convencer os jogadores da simples coisa de chegar de manhã e a primeira coisa que faz no clube é pesar. Vai se pesar. Tira a roupa, pesa, depois é que veste e vai tomar o café da manhã. Isto para eles foi um choque, porque a maior parte deles gordos, com peso excessivo . - O que é que o meu preparador físico fez? Uma apresentação em PowerPoint em que explicou a eles o prejudicial que era eles estarem fora de peso. Lesões. Se lesionam, jogam menos. Se jogam menos, piores contratos. Piores contratos, não têm dinheiro. Então, fomos convencendo os caras num profissionalismo muito bom. Gente que gosta de festa, de vez em quando chegavam assim com uns olhos (aponta para o olho) ao treino, mas gente gosta de festa e o nosso conceito foi aos poucos ir profissionalizando eles e sensibilizando para o que era importante se eles de fato queriam ser campeões, porque nunca tinham sido. 9 de 17
Renato Paiva e Pacho em comemoração do Del Valle em 2021 — Foto: Reprodução Renato Paiva e Pacho em comemoração do Del Valle em 2021 — Foto: Reprodução - E em termos de campo, não cometermos o erro que se comete na Europa, na minha opinião. A Europa é muito bonita as questões táticas na Europa e tal, só que eu acho que a Europa... não todos os lugares e nem todos os clubes, mas acho que muitos jogadores sul-americanos não funcionam na Europa, por quê? Porque a tática é tanta que acaba por estrangular aquilo que o jogador sul-americano tem de bom. - O desafio foi deixá-los, fazê-los perceber o porquê dos posicionamentos e depois deixá-los. Driblou dois, driblou dois. Perdeu a bola, ok, porque o jogador equatoriano é de uma potência, de uma velocidade tremenda, enorme. A partir daí, foi uma base extraordinária. O Del Valle é um oásis para mim. É um oásis no futebol sul-americano em termos de organização e metodologia. Está longe de ser um grande do Equador, em termos de títulos e de torcida. Emelec, Barcelona e Liga de Quito, claramente. Nós tínhamos 5 mil adeptos em casa, mas uma organização extraordinária e uma base, jogadores sempre a chegar, sempre a chegar e já muito bem preparados. Portanto, que nós em um ano e meio vendemos nove ou 11 jogadores. 10 de 17
Renato Paiva em entrevista para o Área Técnica com Roberto Maleson — Foto: Juliana Lima Renato Paiva em entrevista para o Área Técnica com Roberto Maleson — Foto: Juliana Lima Primeiro treinador da SAF do Bahia - Eu cheguei no ano zero, eu cheguei quando eles compraram, né? Contratamos 26 jogadores. Ou seja, é um time completamente novo. E eles disseram-me. Olha, o ano zero vai ser assim e agora nós todos os anos, qual é o objetivo? Analisarmos estes 26 jogadores e irmos peneirando e vamos tentar no ano 1 comprar oito ou nove. No ano 2, comprar cinco ou quatro, até qualificar o elenco como deve ser, por exemplo. - Para mim, há ali alguns erros na constituição do elenco e bate com o que eu digo, ficaram sete. Há uma gestão de expectativas irreal da parte da torcida. O City comprou-nos e agora vamos ser campeões. Portanto houve este entusiasmo. Então, os resultados não foram bons, apesar de termos ganho o Baiano, que não se ganhava há três anos. Foi uma boa conquista nesse momento, igualamos a melhor campanha na Copa do Brasil, mesmo com estas condições, chegamos às quartas de final, fomos eliminados nos pênaltis pelo Grêmio e quando eu saio, havia uma pressão muito grande, alguma parte da mída em Salvador, alguma parte da torcida. Eu sentia o estádio difícil e pesado para mim. 11 de 17
Organizada protesta contra Renato Paiva — Foto: Divulgação/Redes sociais Organizada protesta contra Renato Paiva — Foto: Divulgação/Redes sociais - Depois houve entradas no Instagram da minha filha, a ameaçar a minha filha e ali uma ou outra questão em termos de dia a dia de trabalho, em que o City tem um grupo de Saúde e Performance que é um bocadinho autônomo e que eu, com a minha visão do meu preparador físico e da forma de nós trabalharmos, numa realidade de jogos de três em três dias, houve ali um momento de muitas lesões em que nós achamos que havia ali uma interferência. O meu preparador físico não estava satisfeito com a interferência da performance nesse trabalho e houve ali vários incômodos e eu acabei por tomar a decisão de sair. Chegada ao Botafogo com baixas importantes no elenco - Saíram, de fato, doze jogadores do elenco e houve reposição. Nessa reposição, a qualidade não foi igual ao que estava e, para além da qualidade, temos também o fator adaptação. São reforços que chegam, mas que precisam de adaptação. Precisam de adaptação. O Rwan Cruz vem da Bulgária, o Elias Manoel vem da MLS, enfim, há vários jogadores que precisam de adaptação. E o que eu fui sentindo ao longo dos jogos, em especial nos primeiros jogos, é que eu olhava para trás e não tinha confiança em fazer as cinco substituições . Eu senti que os jogadores não estavam preparados. E a exigência é de campeão. - Nós fomos trabalhar em cima de um grupo de jogadores que eu já sabia que me davam uma resposta muitíssimo boa e trabalhar em cima desse grupo e, aos poucos, rezando para que não houvesse lesões, e aos poucos, ir sentindo, avaliando como é que estava a adaptação e a progressão desses reforços para, de fato, entrarem no onze. Renato Paiva sobre elenco do Botafogo: "Olhava para trás e não tinha confiança" - Eu faço sempre duas análises do meu trabalho no Botafogo. A subjetiva e a objetiva. A objetiva são números e fatos. Doa a quem doer. E quais são? Invicto em casa. Só um empate com o São Paulo, onde o goleiro do São Paulo foi o melhor jogador em campo de longe. Fizemos da nossa casa uma fortaleza. Quando saímos para o Mundial, tínhamos a segunda melhor defesa da Série A. Só o Flamengo tinha menos gols sofridos que nós. Estávamos a seis pontos do Flamengo. Estávamos vivos na Libertadores. Estávamos vivos na Copa do Brasil. - Único pecado, para mim, de fato, o Botafogo fora de casa. O Botafogo fora de casa não conseguiu resultados. Tivemos algumas derrotas. Todas fora, com uma curiosidade, todas por um gol. Clássicos. Não perdemos nenhum. Não perdemos nenhum clássico. É um fato. - Depois, vamos à parte subjetiva do tema e vamos à novela do retranqueiro. Porque é uma novela que de um jeito a um determinado senhor largar a alguns amigos da internet para depois ter uma justificação para me despedir . Vamos então. "O Paiva era retranqueiro, porque jogava com três volantes." Tem que me explicar em que lado do mundo jogar com três volantes significa ser retranqueiro . Essa é a primeira coisa que tem que me explicar. Renato Paiva: "Em que lado do mundo jogar com três volantes significa ser retranqueiro?" - Uma equipa retranqueira, num jogo decisivo de Libertadores, fica com um jogador a menos aos 20 minutos! Tem 80 minutos pela frente para jogar com um jogador a menos. Está 0 a 0. É o último jogo da fase de grupos. Ou ganhas ou és eliminado. E um treinador retranqueiro, o que é que faz? Perde um zagueiro. O que é que ele faz a seguir? Tira alguém da frente e mete um zagueiro. Acho eu! É o normal que qualquer treinador faria. O que é que eu fiz? Puxei o Gregore do meio para zagueiro, zagueiro adaptado, e disse ao Gregore: “Gregore, sem bola és zagueiro, com bola és médio, nós temos que compensar esta deficiência.” - Artur e Igor, na frente os dois, dois caras rápidos, agudos, para dar trabalho ali àquela gente, né? E depois, ali três no meio, onde eu encontrei o Cuiabano mais o Savarino e o Marlon, ficaram ali os três no meio, porque, era 0 a 0, estava fora. Ou arriscas, eu não posso ir nunca para casa a dizer: devia ter arriscado e não arrisquei. Eu não tinha outra hipótese, era aquela. E, portanto, eu quero ver quantos treinadores retranqueiros fazem isto. Nós fizemos 1-0, podíamos ter feito 2-0 até o 3-0, praticamente eles não têm oportunidades de gol e nós ganhamos esse jogo. Botafogo 1 x 0 Universidad de Chile | Melhores momentos | 6ª Rodada | CONMEBOL Libertadores 2025 - Esta história dos três volantes serem retranqueiros e eu pergunto: como é que joga o Botafogo hoje? Três zagueiros, né? Não é retranqueiro? Com três zagueiros? Não é! Porque eu fui campeão no Del Valle, com três zagueiros. Mas isto é só para desmistificar esta teoria. Tu podes, com três zagueiros, ser uma equipa muito ofensiva. E com três volantes também ser muito ofensiva. - Aqui o tema não foi este. Aqui o tema é claro. Há uma entrevista do senhor que me despediu, onde diz que me despede porque eu traí os meus princípios. Eu nunca pude responder nem quis, mas eu vou dizer que eu fui despedido exatamente porque eu não traí os meus princípios. Porque essa pessoa quis interferir constantemente no meu trabalho e eu não deixei. E esse é que é o verdadeiro motivo do meu despedimento. Não é o Palmeiras. Não é a derrota no Mundial. Não é um beijo de três dias e depois despedido. - Ah, futebol brasileiro. Não, não é futebol brasileiro. Isto não é futebol brasileiro. Isto é decisão de uma pessoa que não é brasileira. Não é o futebol brasileiro, que isto fique bem claro. - Não há uma pessoa que tenha trabalhado comigo em nenhum clube que possa dizer que o Renato é um ditador e que o Renato não é democrático em escutar as pessoas. Eu escuto. E muitas das vezes mudo. Neste caso, não mudei. 12 de 17
Renato Paiva e Textor conversam com jornalistas no Nilton Santos — Foto: Barbara Mendonça Renato Paiva e Textor conversam com jornalistas no Nilton Santos — Foto: Barbara Mendonça - Quando eu coloco o Cuiabano de ponta. É lateral. Houve uma lesão. Eu fiquei sem pontas. O Telles muito bem. Cuiabano tem boas condições para ser ponta e vou apostar no Cuiabano de ponta. Cuiabano de ponta. O que é que começa a acontecer? Cuiabano começa a fazer gols. Cuiabano começa a ser o melhor em campo em vários jogos. E eu recebo um recado de que não posso colocar o Cuiabano de ponta. Porque o Cuiabano tem que ser vendido como lateral. E eu pergunto: este senhor está preocupado com o Botafogo? O Cuiabano é o que desequilibra, é o que faz gols, é o que ajuda o time a ganhar. Esta preocupação deste senhor é com o torcedor do Botafogo? Com o prazer do torcedor do Botafogo de ver a sua equipa ganhar e jogar? Ou com outra coisa? É a pergunta que eu deixo no ar. Jogo de cintura com as interferências - O meu jogo de cintura é escutar todos. Todos. Todas essas informações ou recados, como eu lhe chamo, nunca me foram ditos olhos nos olhos, nem por telefone. Foi via diretores. Eu vou dar este exemplo. Maracanã. Flamengo e Botafogo. O time vai para o aquecimento e entram dois diretores que precisavam falar comigo. Ah, teve que sair toda a gente da sala, ficámos só os três. - Então, traziam-me a informação de que o senhor tinha ligado, que íamos jogar com três volantes no Maracanã: Allan, Marlon e o Gregore. E que o Allan não era jogador para aquele jogo. Porque já tem muita idade, não sei o quê, mais um volante e tínhamos que ser mais ofensivos. Nós estávamos altamente desfalcados. Veja bem como é que são as coisas. Tínhamos de ser mais ofensivos e eu estava a jogar com Igor Jesus e Rwan Cruz. Dois noves. - E eu disse a eles: e se o Allan for o melhor em campo? Vão-me dizer alguma coisa? E eles disseram-me: “Renato, nós vimos a semana de trabalho. O que tu pensaste, em função dos jogadores que tens, para nós está ótimo. É só para te preparares, porque pode haver uma chamada sobre este tema.” Ok. Sabe quem foi o melhor em campo? O Allan. Disseram-me alguma coisa depois, esse senhor? Não. Isto é o funcionamento da arrogância de quem manda . 13 de 17
Renato Paiva - Área Técnica — Foto: Juliana Lima Renato Paiva - Área Técnica — Foto: Juliana Lima - Há uma justificação para tudo o que eu faço. E a maior parte das justificações vêm do treino. Eu fui criticadíssimo pelo início de... E acho que foi aí que o torcedor do Botafogo ganhou ranço comigo, por causa do Patrick de Paula, da utilização do Patrick de Paula. Eu gostava de convidar os torcedores do Botafogo, nesse momento, a ir assistir aos treinos. Ver o Patrick de Paula treinar. Como é que tu és treinador? Tens um cara que treina melhor que os teus colegas ou num nível muito alto e depois não o escalas para jogar? - Havia ranço com o Patrick de Paula. E depois paguei o ranço. Mas eu estava a fazer o meu trabalho. Porque o que o torcedor quer que o treinador seja honesto, que a equipa treine e que ele meta aos melhores. E naquele momento ele era dos melhores. E quando ele deixou de ser dos melhores, ele saiu da equipa. Essa que é a verdade. Ele não saiu da equipa porque houve pressão. Renato Paiva fala sobre uso de Patrick de Paula e destaque dele nos treinos: "Havia ranço" - Vou-me relembrar. Carabobo em casa. 0 a 0. Intervalo, 0 a 0. E aquilo não saía do 0 a 0. E o Carabobo todo lá atrás. E eu, bem, o que é que eu vou fazer? As convicções que tu tens. E eu sabia que isto ia acontecer. O que é que eu decidi? Fazer uma substituição ofensiva. Tirei o Gregore, meti quem? O Patrick de Paula. Tirei o Gregore, um mais defensivo, meti o Patrick de Paula. Foi a primeira vez que o Nilton Santos me chamou burro. Foi essa. Lembro-me perfeitamente . Mas eu disse, ok, eu sou burro, mas esta é a minha convicção, do conhecimento do jogo, do treino, dos jogadores, do adversário, é o que eu quero fazer. Preciso de alguém que remata de fora, não estamos a conseguir entrar, o Patrick remata muito bem de longe. - Primeiro gol quem faz? Patrick de Paula. E depois tu já deixas de ser burro. Passas a ser um gênio. Depois vem aquela frase do nunca critiquei. Só que essa frase do nunca critiquei, que é uma frase que nós dizemos a brincar, deixa mágoa em muita gente profissional de futebol. Por exemplo, no Bahia, nem podiam ouvir falar no Everaldo. O 9. Mas conosco foi o melhor marcador. A seguir veio o Ceni, foi o melhor marcador. Vaias aos jogadores - Mas o Everaldo era o ódio de estimação da torcida . O Everaldo sentia isso no campo. Xingavam. Assobiavam. O cara, vou-te dizer, um nível de profissionalismo, resiliência top. E ele ia fazendo os seus gols. Quando ele fazia um gol importante, vinha a história do nunca critiquei. E o que eu apeteço dizer é assim: “não amigo, você criticou. E doeu no jogador.” Você tem o direito de criticar. Obviamente. Eu não estou a dizer que nós, todos, treinadores, jogadores, estamos todos sujeitos à crítica. Todos. Mas uma crítica equilibrada. Paiva lamenta críticas a Everaldo no Bahia: "Era o ódio de estimação da torcida" - Eu pedia sempre nas minhas coletivas por onde passei esta questão de um jogador meu, durante o jogo, tocar na bola e ser assobiado. Então eu pedia. Protesta no intervalo. Protesta no fim. Mas apoia durante. Durante, nós precisamos das torcidas. Perde o jogador. Por mais que ele não goste, perde o jogador. Eu dizia sempre, apitou para o intervalo: xinga, assobia, insulta, faz aquilo que quiser. Final do jogo, a mesma coisa. Mas durante, apoiem. Porque o jogador sente. Essa intranquilidade passa para o jogador. Os jogadores são seres humanos . Carinho dentro do Botafogo - Botafogo. O clube, a nível pessoal, que mais me marcou. E por quê? Pela qualidade humana e profissional de todas as pessoas do clube. No Botafogo, desde a pessoa que abria a porta, os seguranças, os senhores da grama, cozinheiro, o responsável pelo CT, o responsável pelo refeitório. Os diretores. Fantásticos comigo. O elenco. Fantástico. Uma relação extraordinária com todos os jogadores. Todos. E, portanto, em termos de qualidade humana e qualidade profissional, sem exceção, as pessoas com quem eu trabalhei no Botafogo são do nível superior. Em questões pessoais e profissionais, o Botafogo foi a equipa que mais me marcou e também foi a equipa onde eu senti mais a minha saída. - Por exemplo, eu fui despedido num domingo, nos Estados Unidos, durante a noite. A notícia correu, né? Todo o Botafogo estava no hotel. Foi todo mundo para o Mundial. E, de manhã, já despedido, na manhã seguinte, quando eu entrei na sala do café da manhã, onde estavam todos, eu entrei e toda a gente se levantou a aplaudir. Portanto, quer dizer, há coisas que tu não consegues esquecer e vais levar para a vida. Esta é uma daquelas que eu vou levar para o caixão. - É ver um grupo de pessoas gigante manifestar o teu carinho e o teu respeito. Em pé, bater palmas. Eu falei com eles, com muita dificuldade. Mas, quando eu falo de Botafogo parte negativa, eu falo de uma pessoa. Uma pessoa. Eu quero que isso fique bem claro. Nem torcida, porque torcida tem a liberdade de decidir o que gostas, o que não gosta, é 8/80, seja aquilo que for. É subjetivo. 14 de 17
Paiva cumprimenta ex-volante e capitão Marlon Freitas — Foto: Vitor Silva / Botafogo Paiva cumprimenta ex-volante e capitão Marlon Freitas — Foto: Vitor Silva / Botafogo - E há uma coisa que o torcedor de Botafogo não pode negar. Vai ficar na história deles, vai ficar na minha história, vai ficar na história deste grupo, que é a vitória sobre o Paris Saint-Germain. Eu não tenho dúvidas nenhumas que este jogo do PSG foi a maior alegria que nós demos ao torcedor do Botafogo em 2025 . Não tenho dúvidas nenhumas disso. Como não tenho dúvidas nenhuma dizer que é uma das vitórias mais gigantes da história do Botafogo. E do futebol brasileiro . - Por exemplo, vou cometer uma inconfidência. No final do jogo Botafogo e Palmeiras, a presidente Leila veio falar comigo, veio dizer que era uma pena uma equipa brasileira eliminar outra equipa brasileira. Podiam ter seguido as duas e disse-me uma coisa: quero agradecer-lhe como brasileira o que vocês, Botafogo, fizeram pelo futebol brasileiro. Eu, como brasileira e presidente do Palmeiras, quero agradecer isto que vocês fizeram . Paiva exalta vitória sobre o PSG: "Uma das vitórias mais gigantes da história do Botafogo" Preparação para o jogo contra o PSG - Tinha uma ideia muito clara do PSG. Eu reuni um conjunto de jogos onde o PSG foi testado de diferentes formas. Tem a final da Copa da França, que é uma final onde joga contra um time da segunda divisão, portanto é claramente favorito, e eu sabia que tipo de contexto o PSG ia encontrar ali. Vi os dois jogos com o Arsenal na Champions, porque sabia que em Londres o PSG não ia ser equipa dominadora o tempo todo e, portanto, eu queria ver o PSG nessas condições. Vi o PSG na final da Champions, que era uma final contra uma equipa italiana e queria perceber qual era o envolvimento disso e ainda vi mais dois jogos de campeonato, um com o Marselha. Jogo também grande e um com uma equipa um bocadinho mais cá de baixo que foi o Reims, salvo erro. - Fiz esse estudo em diferentes contextos de Paris Saint-Germain, como era os comportamentos da equipa e depois acrescentei o 4 a 1 ao Atlético de Madrid, já no Mundial de clubes. Eu tinha que me preparar para os momentos em que ia ter bola. O que é que faz o Paris Saint-Germain e o que não tendo bola, o que é que faz o Paris Saint-Germain. A partir daí, eu fui passando aos jogadores que era possível. Eu disse-lhes que era possível porque eu acreditava e eu tenho a certeza que quando transmito isso aos jogadores em vídeo, no treino em campo, em reuniões individuais, eu tenho a certeza que eles acreditaram. 15 de 17
Igor Jesus comemora gol em PSG x Botafogo — Foto: Harry How/Getty Images Igor Jesus comemora gol em PSG x Botafogo — Foto: Harry How/Getty Images - Eu consegui passar crença aos jogadores porque estava ali tudo no vídeo na preparação. Então o que é que eu lhes disse basicamente? Meus amigos, possivelmente não vamos ter tanto a bola como queremos. O que é que temos que fazer quando tivermos bola? É muito importante o momento em que nós conseguimos ganhar a bola ao Paris Saint-Germain. Esse momento é vital para nós não a perdermos outra vez, ou seja, tirar a bola imediatamente daquela zona por causa da reação pós-perda do PSG e, a partir daí, se nós conseguirmos tirar essa bola nessa primeira vaga de pressão, nós vamos encontrar muitos espaços e com jogadores rápidos, a gente pode matá-los. E foi assim que aconteceu o gol. - Portanto, o momento defensivo, que foi o que trabalhámos mais de fato para esse jogo foi o momento que nós trabalhámos mais nos três treinos que tivemos. Nós defendemos em 4-3-3, com o Igor e os dois pontas (Savarino e o Artur) ajudando, mas fechados por dentro um triângulo e depois mais dois jogadores aqui o Marlon e o Allan e o Gregore atrás deles. Triângulo invertido. Um triângulo normal e um triângulo invertido. Objetivo: povoar o corredor central. Os meias do PSG não podiam jogar no corredor central. Estudo do PSG: uma das equipas na Europa, que menos cruzava para a área, tinha uma média entre 6 a 9 cruzamentos para a área por jogo. Muito pouco. - Então meus amigos, onde eles fazem mal é no corredor central. É em jogadas de envolvimento de combinação, progressão, terceiro homem, pivô com o 9. Nós não vamos deixar que isso aconteça. Vamos levá-los para onde? Para a zona incômoda, então vamos levá-los para fora. Quando a bola caía no corredor exterior, direito ou esquerdo, o meu lateral saltava. Quando a bola saltasse fora, o meu lateral imediatamente ia fazer com o lateral deles. Deixava a linha, perdíamos um jogador na linha defensiva, entrava o Gregore, ou seja, nunca perdíamos. Paiva detalha preparação e estratégias do jogo contra o PSG: "Povoar o corredor central" - Então, nós nunca demos muito espaço entre central e lateral, que é o espaço que eles vão procurar, onde andam os Vitinhas, entre zagueiro e lateral. Porque quando saía o meu lateral ficava este espaço, só como entrava o Gregore, o meu zagueiro ajustava, então este espaço preenchia-se, então eles não conseguiam, porque é um mérito muito grande ganhar o jogo, mas é um mérito também muito grande, se tu te lembras, o PSG quase não teve oportunidades de gol, teve cruzamentos e que era o que nós queríamos. Expliquei o que tinham que fazer, cobrir os cruzamentos e deixá-los cruzar, que eles não gostam. Eles vão para terrenos que não gostam e é isso que nós precisamos. E então foi sempre isto: corredor central fechado, superioridade numérica no meio, muita agressividade, muito trabalho dos três da frente. Eliminação para o Palmeiras - Não pode haver um jogador do Botafogo e eu sei que não há, um elemento do staff que viu os treinos de preparação para o jogo do Palmeiras, que possa dizer que nós montámos o jogo para defender. Esse é um jogo em que eu sou retranqueiro porque jogo com três volantes. Allan numa forma brutal. Um jogo gigantesco contra o Paris Saint-Germain, portanto eu tinha que tirar o Allan porque não podia jogar com três, mas é curioso no primeiro jogo do Campeonato no Allianz Parque, nós jogamos com três volantes, um deles era o Patrick de Paula. Empatamos 0 a 0 e fomos melhores que o Palmeiras. Avaliação subjetiva, mas avaliação. - Então, eu decidi manter a estrutura porque os jogadores estavam a jogar bem, mas nunca nos treinos, ao contrário do Paris Saint-Germain, porque aí o foco foi defensivo. Nunca nos treinos o foco foi defender o Palmeiras. Não. Como é que vamos atacar. Os dois primeiros treinos, como é que vamos atacar o Palmeiras. O último treino, como é que vamos defender o Palmeiras? Isto . Só que o Abel saca um coelho da cartola e é para isso que os treinadores existem, para se irem enganando uns aos outros. - Quando eu estava habituado a um Palmeiras, também com construção a três e que ele costumava fazer muito isso e com o Paris Saint-Germain também com construção a três e eu tinha aquilo mais ou menos preparado, o que é que o Abel fez? Fez uma construção a quatro. Ou seja, baixou os 2 laterais. Meteu os 2 laterais quase na mesma linha dos zagueiros. Estes quatro contra os três da frente que eu tinha para bloquear a hipotética saída a três. Então, o Palmeiras começou por fora a ganhar alguma vantagem. É quando nós corrigimos e passamos a defender em 4-4-2. Aí já com dois com os dois zagueiros, os meus dois pontas já preocupados com os dois laterais. Aí já o Palmeiras tinha ganho alguma superioridade no jogo. Paiva rebate críticas sobre retranca para encarar o Palmeiras: "É uma mentira absoluta" - O Palmeiras ser muito melhor que o Botafogo nesse jogo não significa que o treinador do Botafogo tenha que ser mau ou tenha que ser retranqueiro. Não. Há uma equipa de um lado e uma equipa do outro. Há uma estratégia e outra estratégia. E naquele dia, o Palmeiras foi melhor que o Botafogo. Ponto. A minha consciência quando as pessoas me dizem retranqueiro, que o Palmeiras... preparou o jogo do Palmeiras... isto é que dói. Preparou o jogo do Palmeiras igual com o do PSG, mas estavam lá para ver? É que é uma mentira absoluta. Relação com Textor após derrota para o Palmeiras - As ações dele falam por ele. Na entrevista diz que me despede porque eu traí os meus princípios e porque devíamos ter ganho ao Atlético de Madrid e ao Palmeiras. Somos muito melhores, muito melhores foi o termo que ele utilizou, que o Atlético de Madrid e o Palmeiras, e não éramos. Muito melhores não éramos. Éramos do mesmo nível. Portanto, eu volto a dizer a mesma coisa. - Foi a oportunidade que ele encontrou para tomar uma decisão que na cabeça dele possivelmente já estava tomada por eu não permitir interferências no meu trabalho. Para mim é claro. Porque ganhas do PSG, dá-te um beijo, diz-te na cara que é o dia mais feliz da vida dele. - E passado uns dias acontece aquilo, né? Portanto, para mim ou o senhor não bate bem, ou é instável e passado 10 dias faz o que faz. Nem é 10 dias, são 7 dias. Ou então, para mim é aquilo que eu digo. Várias interferências em que eu entendi, escutei, mas entendi fazer as coisas como a minha cabeça, o meu trabalho diário me mandava fazer. É inesperado? Totalmente. Renato Paiva fala sobre incoerências de Textor: "As ações dele falam por ele" - O despedimento é uma história... Ele tem todo o direito em despedir-me. Ficou muito feio como fez. Porque nós perdemos o jogo com o Palmeiras, vamos para o hotel, ele fala com o grupo, almoça, despede-se ao meu lado, estava a falar com o Cláudio Caçapa, ele vem, despede-se e diz-me: “keep going coach, keep going”. Eu jamais me esqueço. Um abraço, “keep going coach.” Sábado. Foi embora. Domingo havia um ônibus, estávamos em Filadélfia, havia um ônibus marcado para ir para Nova Iorque, que é ali super perto. Era um dia livre para todos. Eu fiquei no hotel e quase toda a gente foi para Nova Iorque. - No domingo. Ao meio da tarde, os diretores começam a receber chamadas do Textor, onde é que eles estavam. "Estamos em Nova Iorque, viemos aqui". Então, tem que apanhar um Uber e ir para Filadélfia para despedir o Paiva. E eles chegaram ao hotel, jantamos, porque eles... É que eles nem tiveram coragem de dizer antes do jantar. Jantamos. Um jantar normal. Acabou o jantar. Quando eu me vou levantar, o Alessandro e o Leo dizem-me “professor, precisávamos falar consigo.” E eu pensei que fôssemos falar dos jogadores ou de planificação agora quando regressássemos para o Brasil. - E é quando eles me informam do que tinha acontecido. Ele não despede ninguém. Ele manda despedir. Portanto, tem todo o direito de me despedir. Agora, como as coisas são feitas. É aquilo que dói. Em vez do keep going coach, ias a uma sala e dizias: olha, eu não gostei do jogo do Palmeiras, eu não gosto do teu penteado, eu não gosto de como é que te vestes, eu sou o dono, vamos acabar o contrato. Tudo bem, é a nossa vida. 16 de 17
Renato Paiva em entrevista para o Área Técnica com Roberto Maleson — Foto: Juliana Lima Renato Paiva em entrevista para o Área Técnica com Roberto Maleson — Foto: Juliana Lima - Hoje, eu sei que ele me queria despedir. Mas depois, mandar os outros fazer isso? Para mim, foi completamente inesperado. E como eu disse publicamente: ao final disso tudo e quando para todo o mundo uma pessoa te beija em direto (ao vivo) é de propósito. Porque esse beijo podia-se ter dado no balneário (vestiário). Eu estou a ser entrevistado em direto no final do jogo para todo o mundo e aparece alguém para me dar um beijo. - E passado sete dias faz o que faz, implica que da China, do Egito, da Hungria, países que eu me estou a lembrar, para não falar de Portugal, não é? Tinha para aí 500 mensagens no meu telefone. As pessoas a perguntar, que tipo de situação foi esta? Se eu fiz alguma coisa, se agredi alguém, se não sei o quê, percebe? Portanto, este tipo de situação fala muito mais dele do que de mim e do meu trabalho. Trabalho no Fortaleza - Olha, é a primeira vez que eu vou falar do Fortaleza, não vou falar muito, mas é a primeira vez que eu vou falar do Fortaleza em público. Primeiro, um clube muito querido por mim, muito admirado, exatamente pelo trabalho longevo que o Vojvoda tinha, portanto, dirigentes que eu pensava que davam condições e crédito aos treinadores. - Uma torcida apaixonada, os mosaicos deles, uma coisa sensacional. Um clube que estava na Libertadores, apesar da dificuldade na Série A que estava na Libertadores. Uma vontade muito grande de quem me contratou de me querer, porque eu disse duas vezes que não e só a terceira é que eu aceitei .Obviamente, disse que não por questões de condições. Há condições de trabalho que para mim são importantes, equipa técnica e tudo mais. - E depois vou falar isto, que é um telefonema, por que é que te queremos? Queremos mudar o tipo de jogo que nós temos no Fortaleza. Os jogadores não estavam a funcionar já este jogo um bocadinho mais reativo que nós tínhamos, com o Vojvoda. Eu não concordo muito, mas pronto. Os jogadores estão um pouco cansados disto e nós precisamos de algo diferente e portanto, por isso é que nos lembrámos de si. Aquilo fez muito sentido e fui. Paiva fala pela primeira vez sobre o Fortaleza: "Ninguém é técnico de nada em um mês" - E passado um mês fui embora, por isso é que eu digo quando o jornalista me diz: “você foi técnico do Fortaleza”. Epa, calma, eu não fui técnico do Fortaleza, ninguém é técnico de nada em um mês. Eu estive lá, tentei fazer o meu trabalho. Os resultados não foram bons? Não, não foram. Também já não eram antes, portanto eu também não consegui melhorar, é um fato. Demissão no Fortaleza - Passado um mês, me chamaram para uma reunião, já toda a gente sabia na comunicação social, menos eu, porque a reunião foi às seis da tarde, às três da tarde eu estava a almoçar e eu já estava despedido, mas marcaram-me uma reunião para às seis e o Sr. Marcelo Paz desfez-se em desculpas, que não é forma de trabalhar dele, que devia ter sido o primeiro a saber e que já toda a gente sabia e disse-me: Espanto. “ah Renato, você é um treinador com muito conteúdo, você mudou aqui a mentalidade do jogo, os jogadores estão muito contentes na questão de ter bola e tal, melhoramos muito nesse aspecto, mas faltam já poucas jornadas e aquilo que nós precisamos agora é um gol e fechar a casinha." - E eu disse: então, por que é que me foram contratar? Porque há um mês atrás na chamada era: vamos mudar isto tudo e queremos uma forma diferente de jogar. Isto é a história do Fortaleza. Ponto final. Com erros meus, com responsabilidade minha também na descida, não vou fugir disso. Era o líder durante aquele tempo. Mas, sinceramente, técnico nunca fui, não me deram tempo para isso, eram jogos, pouco treino e foi aquilo que foi. E repito, isto volta a dizer muito mais de quem contrata do que propriamente de quem é contratado. 17 de 17
Renato Paiva - Área Técnica — Foto: Juliana Lima Renato Paiva - Área Técnica — Foto: Juliana Lima Futuro do Renato Paiva - Treinar, treinar. Não sei se no futebol brasileiro, México, sei lá, Europa. Tive quase o com pé na Europa e tive quase com pé no Chile também. Mas aquilo que eu quero é treinar. Já estou há algum tempo em casa. Eu tive uma sondagem de uma equipa do Brasil. No início da época. Não fui. Mas pronto, vou esperar que apareça um projeto em que eu entenda que é o timing bom para ir, que é um campeonato bom para ir, que é um clube bom para ir. E o que eu quero é treinar. Já estou cansado de estar em casa (risos).