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Análise dos Times

Motivo: O Flamengo é mencionado brevemente em um exemplo histórico, sem análise específica de viés no contexto atual do artigo.

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Motivo: O Vitória é citado como o clube de formação do Bebeto, sem análise de viés relacionado ao tema central do artigo.

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Palavras-Chave

Entidades Principais

flamengo vitoria cbf bayern de munique eduardo tironi bebeto walter casagrande jr confederacao alema de futebol

Conteúdo Original

Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte Crianças viraram mercadorias, e a 'lei da selva' na base só amplia o abismo Julio Gomes Colunista do UOL 24/01/2026 11h42 Deixe seu comentário Entrada do CT da base do Flamengo no Ninho do Urubu Imagem: Alexandre Araújo/UOL Carregando player de áudio Ler resumo da notícia Na quinta-feira, eu e o grande Wálter Casagrande Jr, a quem sempre admirei e segue sendo assim, discordamos sobre um conceito do futebol de base, discussão esta que ganhou as redes e, como sempre, virou um prato cheio para os clubistas de plantão. Porque o torcedor de futebol no Brasil é assim, ele é "meu-time-centrista". Para o torcedor fanático das redes só existe o próprio time no mundo, ele é a única coisa que importa, todo mundo que emite uma opinião o faz para agradar ou desagradar o clube X, todo mundo é vendido, o jornalista usa a mesma régua (toda torta) que ele e por aí vai. Sinto informar que não, não é assim. Eu, por exemplo, tenho minhas opiniões, algumas vezes frágeis, sim, outras tantas vezes baseada em fatos que conheço e estudo. Não vivo abraçado com o erro, mudo frequentemente de posição quando me são apresentados realidades, fatos ou argumentos que me mostrem o contrário. Dito tudo isso, vamos lá. O assunto "futebol de base" não era pauta do UOL News Esporte da última quinta e nosso debate precisou ser devidamente interrompido pelo âncora Eduardo Tironi. Portanto, muita coisa ficou no ar e espero esclarecer aqui neste texto. Precisaríamos de um programa inteiro para falar do tema. O assunto surgiu porque considero que o modus operandis do futebol de base brasileiro hoje é um aprofundador das diferenças enormes que já vemos no universo profissional de clubes. Sakamoto Trump revive pesadelo ao ver milhares protestando Thais Bilenky Brasil não deve cair na armadilha de Trump Julián Fuks Apreensões que temos pela frente em ano decisivo Paulo Camargo Groenlândia não é sobre gelo, é sobre liderança Aqui, preciso partir de uma premissa - que é também a premissa que faz os clubistas pirarem e já de cara adotarem uma posição (a de seu clube, por óbvio). Eu não gosto do caminho tomado pelo futebol brasileiro. No século passado, fomos um país que formou 12 clubes enormes e outras dezenas de clubes populares, campeões e formadores de jogadores de futebol. Neste século, o sistema foi montado para que sobrassem poucos (ou poucos e bons, na visão clubista). Pouquíssimos, na realidade. Estamos na era dos extremos, de dois ou três clubes gigantescos e centenas que apenas sobrevivem com migalhas. O Brasil está ganhando a forma de um país europeu, sendo que cada Estado nosso tem o tamanho de um país europeu. É simplesmente muita gente que é deixada de fora. Assista a todos os jogos do Paulistão 2026 na HBO Max. Assine pelo UOL Play a partir de R$ 22,90/mês. Classificação e jogos Brasileirão Importante lembrar que ao mesmo tempo em que existe um Bayern de Munique dominador na Alemanha e duas ligas (primeira e segunda divisões) geridas de forma profissional e comercial, da terceira divisão em diante é tudo regionalizado, organizado e financiado pela Confederação Alemã de Futebol. O jardim é todo muito bem cuidado, principalmente no que toca o futebol de base. Eu acredito que a nacionalização do calendário brasileiro seja irreversível e OK, podemos conviver com ela. Mas criando mecanismos de proteção que não signifiquem a morte completa de dezenas de clubes e o soterramento da história linda que foi construída no século passado - quando éramos o "país do futebol", diga-se. Já hoje, neste novo cenário, não somos mais. Há várias camadas nas quais não quero entrar aqui, porque cada um dos tópicos por si só já pode gerar um debate interminável: distribuição do calendário, o peso dos torneios, o formato deles, a distribuição das receitas geradas, limitações, fair play financeiro, direitos e deveres dos clubes junto às comunidades e por aí vai. Vou me ater a somente um dos temas que, como disse, no meu ponto de vista é mais uma das ferramentas para aprofundar o abismo e que foi o centro do debate: o futebol de base. Eu vou dar algumas resumidas aqui, porque não vem ao caso entrar no detalhe. Hoje, o garoto só pode ficar atrelado a um clube, assinar contrato, de formação, aos 14 anos. O primeiro contrato profissional, aos 16. Ir para o exterior, aos 18. Antes dos 14, já pode haver um "vínculo desportivo". É onde a "lei da selva" é colocada em prática fortemente. Os clubes não podem assinar contratos com meninos de 10, 11, 12 anos, então o que é feito? Entram os empresários em campo, de preferência os que têm parceria com os determinados clubes, para dar "ajudas de custo" às famílias e assumir o "controle" desses garotos. Dos 14 em diante, existe um acordo de cavalheiros entre os "clubes formadores", os clubes que têm certificado das federações estaduais e da CBF. Um não "rouba" jogador do outro. Mas "rouba" dos clubes que não têm o certificado de formador. É por isso que muitos clubes tradicionais do futebol brasileiro sequer têm mais a base, para não formarem jogadores e serem "roubados" pelos clubes que podem oferecer mais dinheiro. Continua após a publicidade Percebam que aqui já estamos no primeiro dos problemas crônicos do futebol brasileiro. Vários clubes que historicamente encontraram talento na sua região, formaram meninos, com a precariedade (ou não) da época, já não exercem mais esse papel. Para o pessoal que reclama que "falta talento no futebol brasileiro", já comecem a olhar para este detalhe para entender o por quê. Depois, podemos ir para o próximo passo. Dos 14 em diante, temos uma mescla de "formação de jogadores do tipo exportação", aqueles biotipos altos, fortes, prontos para serem vendidos para fora, nas mãos dos treinadores que querem legitimamente subir na carreira e, portanto, só se preocupam com os resultados. Ninguém está formando e lapidando talento e sim, competindo com a vitória como objetivo final - inclua aí tudo o que detestamos no futebol profissional, retranca, antijogo, desrespeito com árbitros e técnicos, etc. Assistam a um torneio de base e verão o que estou falando. Mas voltemos aos meninos de menos de 14 anos de idade. A legislação varia de Estado para Estado, mas basicamente é proibido um clube levar para outro Estado um menino desta idade. Portanto, a proibição que eu defendi na conversa com o Casagrande meio que já existe. Mas é "meio que" porque, na prática, adivinhem, encontram todos os jeitos do mundo de burlar a regra. Tanto com legislação estadual permissiva como com os mecanismos de "dar emprego" para o pai, fingindo que a família mudou de Estado por conta própria. Essa legislação funciona de forma parecida na Europa. Não vou entrar nos pormenores de cada país da União Europeia, mas como muitos disseram que eu inventei "fake news" no debate de quinta-feira, aqui vai uma informação. Na Inglaterra, um menino de menos de 12 anos não pode estar filiado a um clube que fique a mais de 60 minutos de sua casa. Ou menino de menos de 16, não pode jogar a menos de 90 minutos. Sim, existe uma barreira geográfica na Inglaterra e em outros países. É o que o Casão chamou de "censura" e eu chamo de lógica. "Não se pode cercear o direito de ir e vir do trabalhador!", bradaram alguns nas redes sociais. E eu digo: como que um menino de 12 anos de idade pode ser considerado um "trabalhador"? Tomem muito cuidado, nesta discussão, para não confundir quem tem 12 ou 13 ou 14 anos com quem tem 16 ou 17 e que já pode até assinar contratos profissionais. Isso é muito importante. Noto que algumas frases que foram cuspidas por aí não se aplicam para o universo do que eu estou falando. Algum maluco de rede social, por exemplo, gritou que "Bebeto não poderia ter jogado no Flamengo!". Oras bolas, o Bebeto fez base no Vitória, clube de seu Estado natal, e só aos 18 foi para a base do Flamengo. Continua após a publicidade Sim, eram outros tempos, em que um garoto de 18 anos chegava para jogar na base e lá ficava por uns bons anos. Hoje, aos 18 anos o cara já cresceu (fisicamente) e já está pronto para ir para o time de cima ou para a Europa. Na nova realidade, talvez os 16 anos de hoje sejam os 18 de ontem e está tudo certo, a gente pode conviver com isso. Se voltarmos para o exemplo da Inglaterra e outros países da Europa, podemos argumentar que muitas vezes no Brasil o garoto sequer tem casa. Sim, eu entendo que não seria fácil organizar direitinho a coisa de forma geográfica. Porque passa por um problema mais profundo, que é a pobreza do nosso país. Aí que entraria ou poderia entrar, aqui na minha utopia, o futebol (e o esporte de forma geral) como canal de mudança de vida de forma sustentável. O futebol brasileiro precisa ser organizado de uma maneira em que os clubes de futebol continuem existindo e passem a atuar como uma ferramenta complementar ao Estado (geralmente, ausente). Qualquer talento de 10, 11, 12 ou 13 anos pode e deve sim, jogar bola ou outro esporte. E todos os Estados ou macroregiões da nação deveriam ter estruturas que ofereçam condições para isso. A CBF e o COI são instituições privadas, cheias de dinheiro, que mexem com o bem público. E que deveriam, sim, fomentar e subsidiar clubes esportivos de forma capilar, com estrutura física e conhecimento. O esporte precisa andar de mãos dadas com a educação de verdade e não no faz de conta do futebol de base de hoje em dia. A formação, pelo menos até 15 ou 16 anos, deveria estar preocupada com a construção de cidadãos que joguem bola. Que podem "virar" como podem não virar e eventualmente trabalhar com outras coisas, até mesmo dentro do universo do futebol. Parece justo para vocês que famílias sejam deslocadas dentro do país em função de meninos de 12 anos e que neles fique toda a responsabilidade de "salvar" pai, mãe, tio, tia, irmão, primo, prima e papagaio? Eu defendo que haja regulações bastante mais rígidas até os 15 ou 16 anos. Aí, depois disso, está tudo bem. Que o mercado regule as trocas de clubes e que os meninos possam se desenvolver ainda mais nos clubes mais poderosos do país e eventualmente na Europa. Hoje, a realidade que temos é de crianças que são tratadas como mercadoria por clubes, marcas e empresários. Se der certo, um monte de gente fica milionária em cima delas. Se não der certo (a maioria), são descartados como resto de comida. Conheço um caso prático, não vou citar nomes, de um menino levado do interior da Bahia para a base do Santos - família a tira colo. Trocou o comando da base, menino e família jogados na rua e empresário pegando o apartamento que havia "emprestado" de volta. E aí, como fica? Quem está olhando para isso? Continua após a publicidade Na prática, hoje, os clubes pequenos brasileiros morreram porque não conseguem mais competir nem na formação de jogadores (quanto mais no universo profissional). Os clubes mais poderosos gastam milhões com redes de scouts e empresários parceiros, redes que já extrapolaram as fronteiras no Brasil, estão na América do Sul e já dando os primeiros passos na África. O Palmeiras, que nunca teve cultura de formador de jogador, hoje é o rei da base porque tem o cidadão mais bem conectado do país, um gênio, e consegue ser mais eficiente do que todo mundo ao pegar meninos de 13/14 anos por aí. Eu não tenho nada contra o Palmeiras ou o Flamengo ou o São Paulo (que investe o mesmo que o Palmeiras na base), como pensam os torcedores destes clubes. Apenas sou contra a estrutura viciada que se formou no Brasil deste século, de acúmulo de capital e riqueza. De elevação de duas ou três instituições e a morte de 200. O futebol de base do Brasil, hoje, perpetua esse sistema como nunca havia acontecido antes. Os torcedores destes clubes não entendem que eles já eram os maiores antes, seguem sendo maiores hoje e seguirão amanhã. Não precisam ter tudo. O abismo não é bom para ninguém. Precisamos de um sistema melhor de distribuição de riquezas, de participação e de capilaridade. O futebol é uma parte muito importante da nossa cultura para que seja dominado por meia dúzia. Hoje, temos clubes gastando muito mais com captação do que propriamente a formação séria de atletas e indivíduos. Meninos tratados como mercadoria, tirados de suas casas de forma cada vez mais precoce em nome de um "sonho", que na maioria das vezes vira pesadelo. Empresários voando sobre a carniça. Clubes pequenos definhando, escolinhas no interior do Brasil já sendo compradas por empresários ou clubes de fora do Brasil. Alguns poucos meninos chegando a clubes grandes com a "vida feita" aos 14, carregando a família no ombro e sem nenhum intuito de triunfar naquele clube e, sim, mostrar futebol para ir para o exterior assim que completar 18 anos. Está tudo absolutamente desvirtuado. E não à toa estamos onde estamos. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. UOL Flash Acesse o UOL Flash Receba novos posts de Julio Gomes por email Informe seu email Quero receber As mais lidas agora Bella Longuinho faz procedimento nos glúteos e mostra antes e depois; veja Carro oficial: quem tem direito à placa especial e como ficam as multas Zé Felipe reconhece copo com rosto de Ana Castela e se declara 'Pior inverno em 40 anos': EUA enfrentam megatempestade e risco de -50°C Bianca Andrade mosta resultado de harmonização no bumbum; veja vídeo