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Só para assinantes Assine UOL Opinião Fiel torcida: os que sabem muito bem que estão embaixo Juca Kfouri Colunista do UOL 21/12/2025 12h35 Deixe seu comentário Carregando player de áudio Ler resumo da notícia Sérgio Miceli Imagem: Divulgação "Reconhecido como um dos principais pensadores do campo da sociologia da cultura no Brasil, Sergio Miceli investigou sobretudo a história dos intelectuais, mas ao longo de seu percurso acadêmico voltou também o seu olhar para temas que vão dos programas de auditório televisivos à elite eclesiástica. Professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), o sociólogo morreu no dia 12 de dezembro, aos 80 anos, em decorrência de um câncer no fígado", escreveu Ana Beatriz Rangel. Leia mais AQUI . Tive a alegria de ser aluno dele na USP e reproduzo seu texto quando viajou com torcedores corintianos para Porto Alegre, em 1976, para acompanhar a decisão do Campeonato Brasileiro. Ele era torcedor do Fluminense e já faz muita falta. POR SÉRGIO MICELI Josias de Souza Substituto de Eduardo quis veto a chips satânicos Sakamoto Zambelli e Eduardo: para onde vão 1,7 mi de votos? Michelle Prazeres O repertório que as tecnologias sequestraram Thais Bilenky RJ: avanço do crime deixa pergunta sem resposta Os que sabem muito bem que estão embaixo Que diferença entre os juízos preconcebidos sobre o Corintians e a experiência que acabo de ter num ônibus da caravana organizada pelos Gaviões da Fiel! É sabido que o grosso da base social do Corintians tem extração popular: é o time do povo, dos "indignos", dos pobretões de espíritos, dos cajonas, de certas minorias imigrantes. A torcida organizada não desmente tal fato, incluindo operários e as profissões mais baixas do terciário, serventes, motoristas, secretárias, balconistas, zeladores, havendo uma porcentagem elevada de negros e mulatos, gente sem estudo, de "mau gosto", os tipos ideais para serem cantados em verso, prosa e teses. O que essas pessoas fazem durante a viagem? Ao contrário do que muitos pensam, fantasiam e, antes de tudo, temem, não se trata de um bando de fanáticos que investem seus parcos rendimentos e suas emoções para compensarem, num registro mágico, toda sorte de carência. O Corintians não é apenas uma fonte eventual de alegrias e muito menos o depositário-mor de esperanças messiânicas. A trajetória sem títulos nos últimos 22 anos torna inconsistente qualquer explicação que vincule a extensão de sua base social ao desempenho do time. São de todo inconvincentes as análises que recorrem aos argumentos do atavismo, da natureza, da identificação passional. Os Gaviões que conheci gostam sobretudo de conviver: entornar batidas, fazer batuque, puxar samba, contar piadas cabeludas, aceitar gozações certeiras, em suma, têm prazer de estar juntos. A travessia ao encontro do time constitui um tempo forte de suas vidas, durante o qual, dentro de certos limites de "respeito", tudo é permitido. Para os que se excedem, alguém lembra daqueles que foram advertidos e mesmo dos pouquíssimos expulsos. A rigor, eu diria que o Corintians nem é o dado mais relevante dessa transação: o fato de pertencerem a uma torcida organizada para cujo ingresso é preciso dar provas de haver incorporado a "filosofia", o fato de extraírem daí uma identidade relativamente impermeável ao restante de suas vidas, o fato de terem uma história comum, vale dizer, um calendário de vitórias e derrotas, de bebedeiras e pauleiras, de brigas e prisões, tudo isso e mais o orgulho que têm de sua própria organização, eis o perfil dos corintianos. Mas não se deve pensar que se trate de uma organização amorfa, ou então, espontaneísta: ao contrário, dispõe de uma liderança, de uma hierarquia interna com antigos militantes exigindo a reverência dos jovens Gaviões, de tradições, de símbolos. O destempero vocabular, a fatura de breques, de xingamentos poetizados, o cavalo de São Jorge, o charuto, o acordeon, a simulação de licenciosidades, enfim uma série de práticas e referências comuns que dão força e coesão ao ser e ao fazer corintianos. Não é de repente que se consegue apreender os princípios de uma lógica alimentar que mistura olho-de-sogra ou bolacha doce com uísque, ao que se segue frango com farofa e cerveja. Continua após a publicidade A esta altura, o Corintians é menos um time do que uma militância, menos uma torcida desinteressada do que uma organização embrionária de anseios populares. Seria mesmo ocioso listar as inúmeras expressões com que os Gaviões se dispõem a "acordar a burguesia". Sabem muito bem que estão embaixo, do lado do alambrado, nas gerais, têm consciência de que a segmentação da própria torcida corintiana se inscreve num processo de luta interno e externo ao clube, envolvendo cartolas, técnicos, conselheiros. Referem-se jocosamente ao fato de serem um estado dentro do Estado, de que o cargo de presidente rende dividendos políticos, têm uma noção de sua força e de sua combatividade. No limite, os corintianos possuem a experiência concreta de seu poder de veto, bastando lembrar as ocasiões recentes em que fizeram valer suas reivindicações, em que deram provas de sua autonomia em relação à cúpula dirigente: o olé de louvor à Ferroviária, a ausência de bandeiras no jogo contra o Noroeste, o silêncio contra o Botafogo de Ribeirão Preto. Se o Corintians amedronta, se o Corintians suscita discursos de desprezo e exorcismo da "massa", e reaviva o horror de certos grupos pelas manifestações populares, enfim, se o Corintians constitui hoje um desafio à compreensão, ininteligível aos não corintianos, aos não "paulistas", aos que estão fora do "povo", é porque o Corintians tornou-se um produto social à imagem e semelhança de suas bases sociais. Além de ser um time, um clube, uma torcida, o Corintians converteu-se numa instituição capaz de articular interesses, rompendo em certa medida as barreiras de todo tipo que até agora enquadravam o futebol no esquema dominante de controle social. Arrancando adesões de torcedores de outros times e de outros estados, propiciando, reconhecidamente, uma leitura quase religiosa, superando bairrismos, o Corintians converteu-se no primeiro time de futebol decididamente "nacional", vale dizer, não um time capaz de representar melhor que os demais o chamado "caráter nacional" mas um time que apresenta uma imagem social de tal modo peculiar, que expressa dilemas, contradições e tensões determinadas, bem como possui adesões entre torcedores de outros times que o Corintians é o único time digno. A lealdade que ele cobra é a exigência de uma clareza e firmeza inabaláveis na adesão. Não basta querer ser corintiano, pois para isso é preciso ser corintiano até as últimas consequências. Das aspirações dos corintianos em converter o seu time no "time campeão do mundo", no "time do "melhor", em suma no time único. Ora, a que será que uma ou outra dessas frases se juntam e não admitem a divisão nas arquibancadas? O que será, quando todas as outras dizem: "Corintians, Corintians, Corintians... Numa só voz o Corintians... Numa só voz o mundo corintiano do livro de Natal Condim, Corintians, cavalo de Poseidon. Afinal, hoje o Corintians, antes de tudo, um movimento social. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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