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Só para assinantes Assine UOL Reportagem Esporte Piso de plástico: certificação da Fifa não garante a segurança para atletas Mauro Cezar Pereira Colunista do UOL 13/12/2025 10h07 Deixe seu comentário Chuteira de Weverton ficou com "pasta" durante jogo entre Palmeiras e Santos no Allianz Parque Imagem: Marcello Zambrana/AGIF Carregando player de áudio Ler resumo da notícia Por Fabrício Chicca* A discussão sobre gramado é fundamental, e básica, para o futebol brasileiro. Para estabelecer os pontos que devem ser discutidos vamos listar os fatos. A FIFA atribui certificações para pisos artificiais. Isso é um fato, como vários também é fato que vários estádios no Brasil possuem essa certificação. As certificações são dadas de acordo com alguns items testados de maneira científica. Thais Bilenky Lula e empresário têm DR e veem alvo em comum Letícia Casado Motta chega à metade da gestão enfraquecido Marco Antonio Sabino Péssima semana para São Paulo, ótima para o prefeito Paulo Camargo O líder pode pedir o impossível no final do ano? Entre os principais itens testados estão o Rotational Traction Tester (RTT) e sua versão mais leve, o Lightweight Rotational Traction Tester (LRTT), que avaliam quanto a superfície resiste à rotação de um pé de teste equipado com travas, sob uma carga predeterminada. Essa medição busca simular o movimento de giro que um jogador faz durante uma partida. Outro equipamento fundamental é o Advanced Artificial Athlete (AAA), que tem como objetivo medir a dureza da superfície e sua capacidade de absorver impactos. O dispositivo simula a força que o pé de um atleta exerce sobre o solo ao aterrissar após um salto ou movimento brusco. À primeira vista, esses testes parecem abrangentes e científicos. O problema surge quando comparamos os parâmetros utilizados nos testes com o que realmente acontece em campo durante uma partida de futebol profissional, seja o fato é esses testes não refletem a realidade do jogo. Pesquisas recentes têm demonstrado que os testes da FIFA apresentam limitações significativas que comprometem sua capacidade de avaliar a segurança real dos gramados artificiais. Um estudo de Cole et al. (2023) revelou que o AAA mede forças em um intervalo de tempo extremamente curto, menos de 50 milissegundos, e que as forças aplicadas pelo dispositivo não correspondem às forças realmente registradas durante os movimentos dos atletas em situações de jogo. Além disso, o formato do pé de teste não reproduz adequadamente como a força é distribuída no contato real entre o pé do jogador e o solo. Outra pesquisa ainda mais recente, conduzida por McGowan et al. (2025), expôs uma discrepância alarmante entre os testes e a realidade. Os testes da FIFA aplicam uma tensão normal de apenas 26 kPa (quilopascal, unidade de medida de pressão), enquanto as forças reais exercidas durante uma partida são dramaticamente superiores: 728 kPa durante chutes e 655 kPa em movimentos de corte e mudança de direção. Essa diferença de mais de 25 vezes torna os testes praticamente irrelevantes para avaliar o que acontece em situações reais de jogo. Um estudo anterior de McGowan et al. (2023) também apontou que a velocidade de rotação utilizada nos testes influencia significativamente os resultados, mas que a relação entre essa velocidade e a tração real ainda não é completamente compreendida pela ciência. Ou seja, mesmo os parâmetros que a FIFA utiliza não têm uma base científica sólida. Continua após a publicidade As descobertas dessas falhas reforçam um argumento crucial: os padrões da FIFA representam o mínimo aceitável, não a excelência. Uma certificação FIFA Quality Pro não garante que o gramado seja seguro para atletas de elite, garante apenas que ele passou em testes que não simulam adequadamente as condições reais de jogo. Mas há um fato que aparentemente pode suportar a ideia aos menos cuidadosos e ávidos a encontrarem uma desculpa que piso artificial pode ser aceito. O fato é: não há consenso científico. Entenda os desafios metodológicos que impedem um consenso científico definitivo sobre a segurança das superfícies artificiais no futebol. A explicação está na dificuldade inerentes à pesquisa em medicina esportiva, que tornam praticamente impossível estabelecer uma relação causal inequívoca entre o tipo de superfície e o risco de lesões. Para entender essa dificuldade, é preciso compreender como funciona o método científico ideal e por que ele não pode ser aplicado neste contexto. Em ciência, um dos padrões ideais para estabelecer causalidade é o ensaio clínico randomizado controlado (RCT, na sigla em inglês). Neste tipo de estudo, os participantes são aleatoriamente divididos em dois grupos: um grupo experimental, que recebe a intervenção sendo testada (ou seja jogar no piso sintético e verificar o tipo e complexidade das lesões), e um grupo controle, que não recebe. Todas as outras variáveis são mantidas constantes, de modo que qualquer diferença observada entre os grupos possa ser atribuída exclusivamente à intervenção. A amostragem tem que ser imensa para diluir os impactos estatíticos de atletas individuais. Por exemplo, se o grupo de controle tivesse apenas 2 jogadores, e um jogador tivesse uma condição privilegiada e tivesse baixo indíce de contusões isso afetaria 50% da amostragem e destruiria o valor estatítico do experimento. No contexto ideal, um estudo definitivo sobre gramados sintéticos funcionaria assim: 1. Randomização: centenas de jogadores profissionais de nível similar seriam aleatoriamente divididos em dois grupos. O Grupo A jogaria e treinaria exclusivamente em gramado sintético durante toda a temporada. O Grupo B faria o mesmo, mas apenas em gramado natural. Continua após a publicidade 2. Controle de variáveis: todos os jogadores usariam o mesmo modelo de chuteira, seguiriam o mesmo programa de treinamento físico, teriam a mesma carga de jogos, jogariam nas mesmas condições climáticas e receberiam o mesmo acompanhamento médico. Os gramados sintéticos seriam todos da mesma geração, com a mesma manutenção. Os gramados naturais teriam a mesma qualidade e cuidados. 3. Cegamento: Idealmente, nem os jogadores nem os médicos que avaliam as lesões saberiam em qual grupo cada atleta está (embora isso seja obviamente impossível quando se trata de superfícies de jogo). 4. Acompanhamento: durante toda a temporada, todas as lesões seriam meticulosamente registradas, classificadas por tipo, gravidade e mecanismo (contato ou não-contato). 5. Análise estatística: so final, os pesquisadores comparariam as taxas de lesões entre os dois grupos. Se o Grupo A apresentasse significativamente mais lesões de um tipo específico, poderíamos concluir com alguma confiança, mas possivelmente ainda sem consenso, que o gramado sintético aumenta o risco daquele tipo de lesão. Criar esses crupos no context do futebol profissional é impossível. Mesmo que conseguíssemos formar dois grupos, não haveria como controlar todas as variáveis relevantes. Os jogadores não vivem em laboratório. Eles têm diferentes históricos de lesões, genéticas distintas, biomecânicas individuais, níveis variados de fadiga acumulada, diferentes qualidades de sono e nutrição. Cada jogo tem uma intensidade diferente, cada posição exige movimentos específicos, cada chuteira interage de forma única com cada superfície. Os grupos teriam de ser imenso com milhares de jogadores. Um estudo adequado precisaria acompanhar centenas de atletas por várias temporadas para ter poder estatístico suficiente, especialmente para lesões raras mas graves, como rupturas de ligamento cruzado anterior. Continua após a publicidade O custo seria proibitivo e nenhuma instituição de pesquisa teria recursos para isso. Estudo com essa dimensão foi feita na NFL com evidências sugerindo fortemente indíces muito maiores de contusões em pisos sintéticos. Diante dessas limitações, os pesquisadores recorrem a estudos observacionais, que analisam dados já existentes de lesões ocorridas em condições reais de jogo. Esses estudos comparam, por exemplo, a taxa de lesões em jogos disputados em gramado sintético versus natural, usando dados de ligas profissionais. Porém é fácil de ver as fragilidades desse estudo. Fato: Há uma publicação importante da revista científica The Lancet de 2023 que indica que piso sintético tem menos incidência de contusões. Para tentar superar as limitações de estudos individuais, os cientistas realizam meta-análises, que combinam os resultados de múltiplos estudos para chegar a uma conclusão geral. A meta-análise publicada na revista The Lancet em 2023 analisou 22 estudos e concluiu que a incidência geral de lesões era menor em gramado sintético. Acontece que originalmente foram selecionados mais de 1400 estudos e apanas 22 foram considerados. Mas mesmo as meta-análises têm limitações. A própria meta-análise da Lancet reconheceu que apenas 5 dos 22 estudos incluídos (23%) ajustaram adequadamente para fatores de confusão. Isso significa que a maioria dos estudos analisados tinha problemas metodológicos que poderiam distorcer os resultados. O estudo mesmo fala que não se pode concluir que trata-se de fator evidência inequivoca para defender o uso de piso sintético, e que, sobretudo, os jogadores modificam sua maneira jogar quando o fazem em grama sintética. Estudos mais recentes e específicos, que focam em lesões graves de membros inferiores, têm encontrado um risco aumentado em gramados sintéticos, especialmente para lesões de ligamento cruzado anterior, tendão de Aquiles e entorses de tornozelo. Continua após a publicidade Quando estudos quantitativos, esses que trazem uma unidade mensurável no final, não é suficiente, cientistas passam para a pesquisa qualitativa, nesse caso a opinião dos atletas e qual é o valor da percepção dos próprios atletas Quando jogadores de elite, que passaram décadas jogando em diferentes superfícies, relatam consistentemente que sentem mais desconforto, maior impacto nas articulações e maior risco em gramados sintéticos, isso deve ser ignorado porque alguns estudos não encontraram diferenças estatisticamente significativas? A resposta é não. Um estudo de Poulos, C. (2014) mostrou que a vasta maioria dos atletas ter percepção ruim sobre jogar e se contundir em piso sintético. A ciência tem limitações, e a ausência de evidência definitiva não é evidência de ausência de risco. Os atletas profissionais têm uma percepção biomecânica refinada de seus próprios corpos, desenvolvida ao longo de anos de prática em alto nível. Suas experiências fornecem dados qualitativos valiosos que complementam os dados quantitativos dos estudos científicos. A impossibilidade de realizar um experimento controlado definitivo significa que provavelmente nunca teremos uma resposta científica 100% conclusiva sobre se gramados sintéticos causam mais lesões. O que temos, em vez disso, é um corpo crescente de evidências que apontam para um risco aumentado de lesões específicas e graves, especialmente em membros inferiores. Essas evidência são suficientes para que o piso não seja aceito nas principais ligas do mundo. A decisão sobre qual superfície usar deve, portanto, ser baseada não apenas em estudos que analisam incidência geral de lesões, mas também em evidências sobre lesões específicas, na percepção dos atletas e no princípio da precaução. Quando há incerteza científica sobre um risco potencial à saúde, especialmente quando se trata de carreiras profissionais que podem ser encerradas por uma única lesão grave, a prudência sugere o dado qualitativo oriundos da opinião dos atletas. A situação dos gramados sintéticos no futebol profissional assemelha-se a outros dilemas da medicina e da saúde pública onde o rigor científico absoluto esbarra em limitações éticas e práticas. Assim como nunca randomizamos pessoas para fumar durante décadas a fim de provar que o cigarro causa câncer, ou exigimos estudos controlados com motociclistas dirigindo sem capacetes para provar que o equipamento evita muitas mortes, não podemos submeter atletas de elite a um experimento que potencialmente comprometa suas carreiras apenas para satisfazer o padrão-ouro da ciência. Afirmar que não há consenso é uma verdade, mas não excluí as evidências. Defender o uso de piso sintético sugerindo que não há consenso é ignorância científica, ou clubismo para alguns. Continua após a publicidade Referências para avaliação da certificação da FIFA Cole, D., Fleming, P., Roberts, J., James, D., Benetti, M., Wistel, K., Billingham, J., & Forrester, S. (2023). Comparison of player perceptions to mechanical measurements of third generation synthetic turf football surfaces. Sports Engineering, 26(5). https://doi.org/10.1007/s12283-022-00398-x Kuitunen, I., Immonen, V., Pakarinen, O., Mattila, V. M., & Ponkilainen, V. T. (2023). Incidence of football injuries sustained on artificial turf compared to grass and other playing surfaces: A systematic review and meta-analysis. eClinicalMedicine, 59, 101956. https://doi.org/10.1016/j.eclinm.2023.101956 McGowan, H., Fleming, P., James, D., & Forrester, S. (2023). Understanding the variability in rotational traction testing on artificial turf. Sports Engineering, 26(34). https://doi.org/10.1007/s12283-023-00426-4 McGowan, H., Fleming, P., James, D., McMahon, J., Pak, J.-H., & Forrester, S. (2025). Investigating normal stress effects on the shear and traction characteristics of performance infill materials used in artificial turf surfaces. Sports Engineering, 28(6). https://doi.org/10.1007/s12283-025-00489-5 McGowan, H., Fleming, P., Pak, J.-H., James, D., & Forrester, S. (2023). The effect of rotational velocity on rotational traction across a range of artificial turf surface systems. Scientific Reports, 13, 21631. https://doi.org/10.1038/s41598-023-48134-0??Poulos, C. N., Gallucci Jr, J., Gage, W. H., Baker, J., Buitrago, S., & Macpherson, A. K. (2014). The perceptions of professional soccer players on the risk of injury from competition and training on natural grass and 3rd generation artificial turf. BMC Sports Science, Medicine and Rehabilitation, 6, 11. https://doi.org/10.1186/2052-1847-6-11 Continua após a publicidade *Professor da faculdade de arquitetura da Universidade de Victoria em Wellington na Nova Zelândia - Phd e Mestrado em arquitetura - Pós Graduado em Real Estate Marketing pela universidade de British Columbia no Canadá e líder da pesquisa internacional sobre estádio de futebol Stadia. 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