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Elvis desabafa após derrota e cobra diretoria da Ponte Preta O título da Série C, comemorado em outubro de 2025, não foi o ponto final de um ano de superação para a Ponte Preta . Pelo contrário. O que se seguiu à festa no Moisés Lucarelli foi a exposição definitiva de um problema que já se arrastava nos bastidores e que, no início de 2026, atingiu ainda mais o campo, conforme evidenciou o desabafo de Elvis na última quarta-feira, após a derrota em casa por 1 a 0 para o Velo Clube: - Vergonha o que está acontecendo (...). A gente está sofrendo por causa de uma desorganização do clube. - Tem que cobrar a gente, os mais experientes, mas também a diretoria. Chega. Ano passado foi tudo errado, e a gente foi campeão. Não é assim que se faz futebol. - A Ponte não merece isso, e a gente muito menos (...). Ano passado a gente passou por situações surreais no futebol (...). Não existe o que a gente está passando (...). Ninguém merece passar por isso. + ge Ponte Preta no WhatsApp; clique aqui para seguir! Salários atrasados, transfer ban, saídas em série, paralisações e um elenco cada vez mais esvaziado formam hoje o retrato de uma crise que se agravou mês a mês. + CNRD nega pedido da Ponte e amplia período do transfer ban por inadimplência 1 de 4
Elvis desabafou sobre momento da Ponte e o caos financeiro do clube: "A gente passou por situações surreais no futebol" — Foto: Anderson Romão/AGIF Elvis desabafou sobre momento da Ponte e o caos financeiro do clube: "A gente passou por situações surreais no futebol" — Foto: Anderson Romão/AGIF Os primeiros sinais Os alertas começaram a soar entre maio e junho de 2025, em plena disputa da Série C. Naquele período, surgiram as primeiras informações de atrasos salariais envolvendo jogadores e funcionários do departamento de futebol . A diretoria, à época presidida por Marco Antonio Eberlin, tratou o problema como pontual, atribuindo os atrasos a bloqueios judiciais em contas do clube . VEJA TAMBÉM: + Jeh recebe proposta do futebol turco e encaminha saída do clube Mesmo com pagamentos parciais realizados no início de julho , a situação não se estabilizou. O tema passou a frequentar o noticiário semanalmente, enquanto o time oscilava em campo e convivia com promessas de novos prazos para quitação das pendências. Elenco da Ponte Preta tem salários atrasados O mês de julho, aliás, marcou um agravamento na crise. O clube sofreu o primeiro transfer ban após atrasar parcelas de um acordo firmado com a Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD) . A sanção passou a limitar o planejamento esportivo e evidenciou que o problema financeiro era mais profundo do que inicialmente divulgado. Mesmo assim, a equipe seguiu competitiva. O então técnico Alberto Valentim elogiava a entrega do elenco, enquanto internamente crescia o desgaste pela sequência de salários atrasados . 2 de 4
Marco Antonio Eberlin, atual vice-presidente da Ponte Preta — Foto: PontePress Marco Antonio Eberlin, atual vice-presidente da Ponte Preta — Foto: PontePress + Desabafo de Elvis é um pedido de socorro; leia análise sobre momento do clube Protestos, saídas e a troca no comando técnico Em agosto, com a classificação ao quadrangular final da Série C encaminhada, o elenco adotou uma postura mais firme. Houve paralisação pontual de treinos como forma de protesto . Pouco depois, jogadores como Maguinho e Jean Dias pediram para deixar o clube antes mesmo da fase decisiva . Elenco da Ponte Preta não treina em protesto contra salários atrasados O desgaste culminou na saída de Alberto Valentim, que aceitou proposta do América-MG. Para o lugar dele, a diretoria apostou em Marcelo Fernandes, com a missão clara de administrar o vestiário em meio ao caos financeiro e conduzir o time ao objetivo esportivo. 3 de 4
Apresentação de Marcelo Fernandes — Foto: Marcos Ribolli Apresentação de Marcelo Fernandes — Foto: Marcos Ribolli Mesmo sem conseguir resolver as pendências financeiras, a Ponte avançou no quadrangular final sem reforços, em razão do transfer ban . Em campo, o time respondeu. Vieram vitórias importantes, o acesso e, posteriormente, o título da Série C - conquistado em meio a relatos de mais de 100 dias de salários atrasados . A festa foi marcada por discursos de união e resiliência dos jogadores, que fizeram questão de ressaltar que a conquista foi fruto do compromisso coletivo , apesar do extracampo. Dias depois, no entanto, começaram as cobranças formais. Ponte Preta é campeã nacional pela primeira vez e encerra jejum de 125 anos O caos do Réveillon O fim de 2025 foi marcado por uma sequência de ações judiciais. Jogadores do elenco campeão recorreram à Justiça cobrando salários , com reconhecimentos de rescisões indiretas, como nos casos do zagueiro Wanderson e do atacante Everton Brito. Às vésperas das eleições, o próprio presidente Eberlin classificou o clube como estando na “UTI” . A mudança de gestão, com a eleição de Luiz Torrano em dezembro, não foi suficiente para conter a escalada da crise. Luiz Torrano detalha metas e planos como presidente da Ponte Preta A transição para 2026 foi caótica. A reapresentação do elenco foi adiada, houve anúncio de corte de 30% nos gastos e, diante da manutenção dos atrasos, os jogadores decidiram paralisar a pré-temporada às vésperas do Natal . Em nota, o elenco disse que os débitos chegavam a sete meses em alguns casos. Mesmo após o retorno aos treinos em janeiro, o cenário pouco mudou. O transfer ban seguiu em vigor, reforços contratados não puderam ser inscritos e novas saídas passaram a acontecer. A Ponte tem um transfer ban na CNRD (Comissão Nacional de Resolução de Disputas), desde julho de 2025, e outro na Fifa, desde setembro do ano passado. Somados, os valores dos dão aproximadamente R$ 2,8 milhões: R$ 2,2 milhões da CNRD pelas parcelas em atraso de um acordo para pagamento de dívidas e cerca de 110 mil dólares (R$ 592 mil na cotação atual) da Fifa por uma dívida envolvendo mecanismo de solidariedade. Até a publicação da reportagem, as duas punições continuavam em vigor. 4 de 4
Marcelo Fernandes conversa com elenco da Ponte antes de treino — Foto: Marcos Ribolli/ PontePress Marcelo Fernandes conversa com elenco da Ponte antes de treino — Foto: Marcos Ribolli/ PontePress Paulistão com elenco reduzido Sem conseguir regularizar os reforços , a Ponte estreou no Paulistão com um elenco enxuto, formado majoritariamente por remanescentes da Série C e atletas da base. A derrota para o Corinthians foi acompanhada de desabafos públicos e alertas do técnico Marcelo Fernandes sobre o risco esportivo do cenário . Na sequência, novas baixas aconteceram, inclusive de jogadores que sequer haviam estreado . O clube passou a recorrer novamente aos jovens, repetindo uma solução emergencial que já vinha sendo adotada. Com o clube impedido de registrar novas contratações, o técnico Marcelo Fernandes segue sem poder contar com o goleiro Thiago Coelho; o lateral-direito Lucas Justen; os zagueiros David Braz, Lucas Cunha e Walisson Maia; o volante Tárik; o meia Cristiano; e os atacantes Herbert e Vitor Pernambucano. O zagueiro Wallace, os laterais-direito Gabriel Inocêncio e Bryan Borges e o volante Pedro Martins chegaram a se apresentar e treinar com o elenco, mas deixaram o clube em meio às incertezas sobre o futuro. Além deles, os volantes Léo Oliveira e Luiz Felipe, remanescentes de 2025, iniciaram a pré-temporada, mas saíram antes do Paulistão, enquanto o meia Serginho, também integrante do grupo campeão da Série C, foi emprestado ao North-MG um dia depois de atuar na estreia contra o Corinthians. Com apenas 10 jogadores inscritos na lista principal - uma vez que Serginho já saiu, a Ponte recorreu às categorias de base para completar o grupo nas duas primeiras rodadas - são 13 atletas na relação "B", incluindo destaques do time da Copinha que foram chamados às pressas e viraram desfalques do sub-20 no meio do torneio, além de garotos de apenas 17 anos que já entraram em campo no Paulistão, como, por exemplo, o meia Lukinha e o atacante Damião. A base, aliás, também convive com atrasos salariais, chegando a oito meses de pendências para jogadores e funcionários. Ainda assim - e também sem os jogadores que foram para o profissional, chegou à terceira fase da Copinha. Ponte Preta busca alternativa jurídica para derrubar transfer ban A derrota para o Velo Clube, em Campinas, foi o ponto ápice da insatisfação. Após o jogo, o meia Elvis fez um desabafo contundente, cobrando a diretoria, citando promessas não cumpridas e alertando para o risco real de rebaixamento . Marcelo Fernandes, por sua vez, reconheceu o esgotamento emocional de atletas e funcionários em meio ao caos sem fim. Segundo o zagueiro Saimon, tem jogador atuando machucado por falta de opção no elenco: - A gente vem se agarrando ao nosso brio, à nossa dedicação diária, a atitude de cada um. E não é de hoje. Não tem mais o que a gente fazer. Fizemos o máximo, mas a cada jogo que a gente joga é mais prejuízo para nós mesmos. Não vou citar nome, mas tem jogador sem conseguir treinar por estar machucado tendo que jogar machucado por não ter suplentes. É uma pena ter que ver jogador se arrastando, jogando machucado por não ter outra opção - afirmou Saimon à Rádio Jovem Pan, de Campinas, na saída de campo após a derrota por 1 a 0 para o Velo Clube, na última quarta-feira. Marcelo Fernandes desabafa após derrota da Ponte Preta contra o Velo Clube NOVA BAIXA? + Jeh recebe proposta do futebol turco e encaminha saída A crise atual da Ponte Preta não é resultado de um episódio isolado, mas de uma sequência de desequilíbrios acumulados ao longo de anos, potencializados pela falta de caixa, judicializações e erros de gestão. Em entrevista ao ge em setembro de 2025, a advogada Talita Garcez disse que a dívida global do clube gira em torno de R$ 450 milhões. O que começou como atraso pontual virou bola de neve e, agora, impacta diretamente no projeto esportivo, na base e o funcionamento cotidiano do clube - na última quarta-feira, funcionárias da cozinha fizeram uma paralisação pela falta de pagamento. Ponte Preta negocia venda de Jeh a clube da Turquia + CLIQUE AQUI e leia mais sobre a Ponte Com o Paulistão em formato curto e a pressão aumentando rodada a rodada, a Ponte segue seu 2026 diante de um dilema claro: agir rapidamente para estancar a crise ou correr o risco de transformar um ano que começou com esperança em mais um capítulo doloroso de sua história recente. Até aqui, são duas derrotas em dois jogos: 3 a 0 para o Corinthians e 1 a 0 para o Velo Clube. Sem pontuar e também zerada em gols, a Ponte amarga a lanterna - caem os dois últimos após apenas oito rodadas na primeira fase. O próximo compromisso da Macaca está marcado para sábado, às 18h30, contra o Capivariano, fora de casa.