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Esporte Futebol Copa do Mundo Celeiro de craques? Arlei Sander Damo* Em colaboração para o UOL 19/07/2026 12h53 Deixe seu comentário Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Neymar chora após eliminação do Brasil contra a Noruega nas oitavas da Copa do Mundo 2026 Imagem: Buda Mendes/Getty Images Tem sido dito que a qualidade do elenco está entre as razões para a desclassificação da seleção brasileira nesta Copa, não por erros na convocação, nem pelas baixas antes e durante a competição, antes pela capacidade de performar desta geração quando comparada àquela que colocou o Brasil entre os finalistas em três copas consecutivas, com duas conquistas, em 1994 e 2002. A crônica esportiva acrescenta aos 24 anos desde a última taça o fato das quatro últimas eliminações terem ocorrido em fases intermediárias e por equipes medianas. Na gíria futebolística, baixamos de prateleira, algo inexplicável apenas por razões circunstanciais - pênalti desperdiçado, ciclo de preparação conturbado, falta de protagonismo, entre tantas. Tal cenário contrasta com a abundante premiação individual da geração responsável pelo último ciclo virtuoso. De 1993 a 2007 os brasileiros receberam cinco vezes o Balon d'Or e oito vezes o Prêmio FIFA de Melhor Jogador do Mundo. No período, Romário (FIFA em 1994), Rivaldo (FIFA e Bola de Ouro em 1999), Ronaldo Nazário (FIFA em 1996, 1997 e 2002, e Bola de Ouro em 1997 e 2002), Ronaldinho Gaúcho (FIFA em 2004 e 2005, e Bola de Ouro em 2005) e Kaká (FIFA e Bola de Ouro em 2005) conquistaram nada menos do que a metade das premiações distribuídas pelas duas agências em conjunto. Dos atletas que defenderam a seleção nas últimas cinco copas masculinas, apenas Vini Jr venceu a premiação da FIFA (2024). Vinicius Junior recebe prêmio de melhor jogador do mundo na cerimônia do The Best 2024 Imagem: FIFA/FIFA via Getty Images Janaína Figueiredo História e geopolítica entram em campo na final PVC O analfabetismo do futebol brasileiro Sakamoto Copa expôs como Brasil é humilhado por bets A Hora As tarifas e a decadência do império americano A constatação de que já não dispomos de supercraques seria comprovada pela performance aquém do esperado das seleções de base, sub-20 e sub-17. Embora a CBF gerencie essas equipes em competições internacionais, quem faz a formação são os clubes, a quem os críticos atribuem parte da responsabilidade na medida em que estariam focados na comercialização de direitos federativos para o mercado internacional - na média, algo entre 25 e 30% da receita corrente dos clubes. Vender os jovens de talento excepcional para os clubes europeus e recrutar atletas latino-americanos com as carreiras consolidadas, ainda que menos performáticos, tornou-se uma estratégia recorrente, como bons resultados para os clubes brasileiros, que conquistaram as 7 últimas edições da Libertadores da América. Eles cederam 7 jogadores para a seleção nacional e 25 para representações de outros países. Formar para vender implica, por óbvio, trabalhar com uma orientação fixada na demanda, pelo que os críticos podem estar certos quando afirmam que aquilo que é bom para os clubes pode não ser para a seleção. Entre os 800 clubes filiados à CBF apenas 10% possuem o Certificado de Clube Formador (CCF), que lhes garante um percentual na comercialização de direitos federativos ao longo de toda a carreira dos atletas. O selo CCF avalia as infraestruturas, basicamente, e a observância de certos preceitos legais, atinentes à legislação trabalhista e ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Com relativa segurança, pode-se estimar que haja mais de 10 mil aprendizes - entre 14 e 20 anos - alocados em centros auditados, mas é impossível saber quantos mais estão em outras instituições - umas 4 ou 5 vezes, talvez. Isso não significa que tenha clubes abdicando do percentual instituído pela FIFA visando assegurar a reprodução de pé-de-obra, pois os agentes que intermediam os acesos aos centros de formação sabem como assegurar seus "ativos" mais promissores. Há boa quantidade de dissertações e teses sobre o tema, mas elas estão longe de abarcar a extensão, a diversidade e a precariedade da formação de futebolistas realizada no Brasil, tanto maior se incluirmos a formação de mulheres. Sabe-se que a estrutura que os clubes com o selo CCF dispõe foi montada por volta da virada do século, em função do aumento da circulação de jogadores no mercado internacional, consolidada na década de 1990, e por pressão da Lei Pelé (1998). Entre esse grupo selado há centros de excelência, mas eles operam a partir dos interesses dos respectivos clubes e dos agentes/"investidores" com quem fazem parcerias. Só uma crença arcaica - tipo a "mão invisível do mercado" - pode esperar que dos interesses corporativos dos clubes e agentes de jogadores brotem benefícios automáticos à representação nacional. Há diversas tensões entre os interesses da CBF, dos clubes e das demais corporações que fazem política e negócio no e com o futebol, e o que acontece em relação à formação situa-se na face oculta do ecossistema. Endrick e Estêvão são atletas que passaram pela base do Palmeiras e deixaram o clube por cifras milionárias Imagem: Reprodução/Ronaldo Barreto No que concerne à pré-formação, que corresponde a etapa anterior ao recrutamento para um centro especializado, o cenário é ainda mais nebuloso. No Brasil, esta etapa, à que corresponde o aprendizado elementar das técnicas corporais, em geral foi e continua sendo realizada fora dos clubes de ponta, ainda que alguns mantenham as "escolinhas", via de regra em condições precárias. O essencial era aprendido na rua - e havia quem pensasse ser esta uma das nossas virtudes. Considerando que o Brasil é o mais populoso dos países nos quais o futebol é o esporte predileto dos meninos, sempre houve excesso de adolescentes querendo participar das "peneiras"; os mais talentosos poderiam suplantá-las, desde que fossem recrutados por agentes/olheiros. Há duas décadas conheci uma delegação basca que realizava estágio junto ao CT do FC Nantes visando aprimorar a formação do Athletic de Bilbao - clube que formou Unai Simón, Aymeri Laporte e Nico Willians, todos da seleção espanhola. O chefe da delegação explicou que dispunham de um dos melhores centros de formação da Europa - o qual visitei em 2003 -, mas precisavam aprimorá-lo, porque a política do clube, na contramão da globalização do mercado de pé-de-obra, só permitia jogadores bascos na equipe. "Não podemos nos dar o luxo de desperdiçar nenhum talento; temos que fazer os meninos gostar de futebol desde cedo, do contrário vão praticar outros esportes". E completou: "precisamos conciliar a formação esportiva com outras competências - resiliência, cooperação, etc...; temos que ser bons nas duas coisas, para agradar os pais e os meninos, porque eles têm outras alternativas". Continua após a publicidade Lamine Yamal e Nico Williams são destaques da seleção da Espanha Imagem: Getty Images Se são fundadas as suspeitas em relação à qualidade da elite futebolística brasileira atual, talvez ocorra questionar se o Brasil não deixou de ser o "celeiro de craques", condição que tanto poderia nos orgulhar quanto nos envergonhar. "Menor abandonado", foi o tema da Campanha da Fraternidade de 1987, um ano antes a Rede Globo e a UNICEF lançaram o "Criança Esperança"; em 1990 foi aprovado o ECA; a "Chacina da Candelária" ocorreu em 1993 e no mesmo ano o Betinho lançou a "Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida". Não é preciso recorrer às estatísticas para rememorar a tragédia das famílias de baixa renda no Brasil nesse período de prolongada crise econômica. O futebol, se dizia, era uma esperança, um sonho; no mais das vezes, ilusão e frustração. O "celeiro de craques" não era produto de uma virtude nacional, mas da sua antítese. Embora imperfeitas, as políticas públicas alteraram aquele cenário: o ECA, o Bolsa Família - que não foi descontinuado apesar das mudanças de governo - e a luta da escola pública contra a evasão foram algumas entre tantas iniciativas que reduziram a quantidade de crianças nas ruas e o tempo que passavam jogando bola. As entidades que gerenciam o futebol nacional talvez não saibam, mas o país no qual se formou a geração que chegou a três finais de copas consecutivas e amealhou metade dos prêmios mais cobiçados do planeta bola já não existe mais, como prova IDHM do Brasil recentemente divulgado pela ONU. Se acrescentarmos às políticas de proteção à infância, a desaceleração da taxa de natalidade, a reclusão das crianças - pelo medo e/ou pelo uso de smartphones -, além da educação física nas escolas já não ser mais só para os meninos jogarem bola, adquire tração a hipótese de que a condição de "celeiro de craques" não será recuperada por gravidade. Investimentos no topo da pirâmide, como tem sido a praxe, podem trazer resultados circunstanciais, mas não vão alterar as estruturas da formação e da pré-formação de futebolistas. * Arlei Sander Damo é professor do PPG em Antropologia Social e autor de "Do dom à profissão - a formação de futebolistas no Brasil e na França". Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Publicidade Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. UOL Flash Acesse o UOL Flash As mais lidas agora Pré-candidata a deputada pelo PL é filmada agredindo entregador em MG Mega-Sena acumula e prêmio sobe para R$ 42 milhões; confira as dezenas Copa expôs como o Brasil está sendo humilhado pelas bets Inglaterra 6 x 4 França foi 'pelada' ou jogo divertido? Colunistas divergem Copa do Mundo: Quem é o quarto goleiro da Inglaterra que ganhou medalha