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Opinião Esporte Gaza, Ucrânia e Venezuela: critérios para o esporte agir em tempo de guerra Andrei Kampff Colunista do UOL 06/01/2026 09h03 Deixe seu comentário Carregando player de áudio Ler resumo da notícia O esporte internacional gosta de repetir que não faz política. Mas essa afirmação já não se sustenta nem no plano fático, nem no jurídico. O esporte é hoje um ator geopolítico relevante , inserido em cadeias econômicas globais, em disputas simbólicas entre Estados e em estratégias de soft power. Quando escolhe reagir - ou se omitir— diante de guerras, ele atua politicamente, ainda que negue. A comparação entre Gaza e Ucrânia , que já fizemos em outras ocasiões, permanece emblemática. Diante da invasão da Ucrânia pela Rússia , o sistema esportivo reagiu de forma rápida e dura: exclusão de seleções, afastamento de clubes, veto a bandeiras e símbolos nacionais. Já diante da devastação em Gaza , com milhares de civis mortos, instalações esportivas destruídas e atletas mortos ou impedidos de competir, o discurso dominante foi o da "neutralidade" e da "complexidade do conflito". Essa assimetria não é apenas moralmente desconfortável. Ela é juridicamente problemática . Dora Kramer Em nome de Trump, direita outra vez se precipita Marco Antonio Sabino Tarcísio acerta o tom e atinge o centro Sakamoto Uma cortina de fumaça sobre escândalo do Master Mariana Sanches Rubio recalcula rota após captura de Maduro O recente episódio envolvendo a invasão dos Estados Unidos à Venezuela , apontada por diversos especialistas como violadora do art. 2(4) da Carta da Organização das Nações Unidas , recoloca a pergunta de forma ainda mais incômoda: haverá punições esportivas semelhantes às impostas à Rússia? Ou o critério volta a ser definido pela posição geopolítica do agressor no sistema internacional? Dá para afirmar que a Copa seguira nos EUA e as Olimpíadas em Los Angeles. Até porque tem muito contrato assinado e uma logística absurda definida. Agora, o esporte não só pode, como deve pensar em sanções. E mais do que isso, em critérios mais objetivos para punições esportivas. Mas para chegar nos EUA a pressão internacional terá que ser forte. (Escrevemos sobre isso na coluna passada) Pressão precisa ser exercida a partir de critérios. Do ponto de vista do Direito Internacional, o uso da força armada fora das hipóteses de legítima defesa ou autorização do Conselho de Segurança é ilícito. Esse é um dos pilares do sistema construído no pós-1945. Quando o esporte escolhe sancionar apenas alguns violadores dessa ordem, ele deixa de dialogar com o direito e passa a reproduzir hierarquias políticas globais . Aqui, a reflexão de Ronald Dworkin é particularmente útil. Para Dworkin, sistemas decisórios só são legítimos quando orientados por princípios coerentes e universais. A seletividade - decidir de uma forma em um caso e de modo oposto em outro estruturalmente semelhante - rompe a integridade do sistema. Aplicado ao esporte, isso significa que sanções baseadas em conveniência política corroem a autoridade normativa de federações, ligas e comitês internacionais. A literatura da geopolítica do esporte já abandonou há tempos a ideia de autonomia absoluta. O esporte é usado para legitimar regimes, lavar reputações, pressionar adversários e sinalizar alinhamentos estratégicos. Ignorar isso não torna o esporte neutro; apenas o torna incoerente . Como observa Antoine Duval , o esporte opera em um contexto de pluralismo jurídico: ele não está fora do direito internacional, mas em permanente tensão e diálogo com ele. Fingir isolamento é, em si, uma escolha política. Continua após a publicidade Caminhos possíveis Há precedentes claros de que a autonomia esportiva cede diante de decisões multilaterais. A exclusão da Iugoslávia na Euro de 1992, por força de sanções da ONU, é um marco histórico. O próprio Comitê Olímpico Internacional já reconheceu, em diferentes documentos, que o esporte deve respeitar os direitos humanos e o direito internacional como parte de sua legitimidade institucional. O problema não é a intervenção pontual; é a falta de critério uniforme . Por isso, insistir apenas em decisões casuísticas - reagindo a alguns conflitos e silenciando sobre outros - enfraquece o discurso esportivo sobre paz. O esporte não precisa "resolver guerras", mas precisa responder a elas com método . Um caminho possível é a criação de um comitê independente , com mandato técnico, transparência e parâmetros jurídicos objetivos: existência de agressão armada reconhecida internacionalmente, resoluções multilaterais, impacto direto sobre atletas e competições, e gravidade das violações de direitos humanos. Outra alternativa é vincular decisões esportivas, ao menos como baliza mínima, a entendimentos consolidados da ONU, evitando julgamentos políticos ad hoc. Sem isso, a comparação entre Gaza e Ucrânia continuará assombrando o sistema esportivo. Não porque os conflitos sejam idênticos, mas porque a resposta institucional é estruturalmente desigual . E agora, com a Venezuela, a pergunta ganha novo peso: o esporte seguirá punindo apenas adversários geopolíticos convenientes? O esporte é uma poderosa linguagem de projeção externa. Cada sanção, cada exclusão e cada silêncio comunicam valores. Quando esses valores não seguem critérios jurídicos claros, a mensagem que se transmite não é de paz, mas de seletividade. E seletividade, no direito, não é neutralidade — é arbitrariedade. Se o esporte quiser preservar sua legitimidade normativa, precisará assumir o que já é: um ator geopolítico. E atores geopolíticos responsáveis não decidem por impulso ou conveniência, mas por princípios, critérios e coerência. Sem isso, falar em paz continuará sendo apenas retórica de palco — distante demais da realidade que se impõe fora dos estádios. Continua após a publicidade Nos siga nas redes sociais: @leiemcampo Este conteúdo tem o patrocínio do Rei do Pitaco. Seja um rei, seja o Rei do Pitaco. Acesse: www.reidopitaco.com.br . Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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