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A Justiça deu prazo de 15 dias ao São Paulo para se defender no processo movido pelo ex-presidente Julio Casares contra o clube , revelado em primeira mão pela ESPN na última terça-feira (29).
Em decisão publicada na última quarta-feira (30), o juiz Valdir da Silva Queiroz Jr. , da 9ª Vara Cível do TJ-SP (Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo), ordenou que o Tricolor seja citado para responder a ação ingressada pelo ex-dirigente.
O magistrado ainda dispensou audiência de conciliação, sob o fundamento de que não há estrutura material para sua realização e de que o processo deve observar o princípio da duração razoável.
No entanto, o juiz ressaltou que nada impede que as partes tentem um acordo extrajudicialmente ou solicitem posteriormente uma audiência caso surja possibilidade concreta de conciliação.
Agora, a Justiça aguarda a contestação do São Paulo para dar andamento ao caso.
Ex-presidente do São Paulo , Julio Casares entrou na última segunda-feira (28) com uma ação contra o clube na Justiça para tentar reverter a acusação de " gestão temerária " e, consequentemente, anular sua expulsão do quadro associativo, ocorrida no dia 10 de setembro por ordem do Conselho Deliberativo tricolor .
Na petição, à qual a ESPN teve acesso, o ex-dirigente quer que o poder judiciário reconheça que sua gestão foi "regular, de boa-fé e aprovada pelos órgãos competentes", sustentando que "não houve gestão temerária, apropriação de recursos ou desvio de finalidade" e que as acusações contra ele "surgiram em um contexto de disputa política interna" no Morumbis.
Os advogados de Casares destacaram a eleição presidencial de 2020 e a reeleição de 2023 , ressaltando a conquista de "títulos inéditos" pelo ex-mandatário, como a Copa do Brasil de 2023 e a Supercopa do Brasil de 2024. O documento também cita os troféus do Paulistão de 2021 e da Copinha de 2025, além do vice da CONMEBOL Sul-Americana de 2022.
De acordo com sua defesa, o ex-presidente trouxe "avanços comerciais e financeiros" ao São Paulo, como o acordo de naming rights do Morumbi (que se transformou em "MorumBIS"), além de "novos contratos de patrocínio" e da "reestruturação financeira" do clube.
A tese central da ação é de que Casares atuou sempre de "boa-fé" e "apoiado por profissionais especializados das áreas financeira, contábil, jurídica e de compliance". Segundo a petição, "eventuais decisões técnicas e classificações contábeis eram responsabilidade desses departamentos", e "não exclusivamente do presidente".
O ex-dirigente salienta que o Tricolor tinha, na sua gestão, "mecanismos de governança e compliance ", com "auditoria independente". Ele ainda salienta que o Conselho Fiscal e Conselho de Administração da equipe acompanhavam suas contas, assegurando que "não houve dolo nem culpa grave por parte do autor".
A petição ainda enfatiza que as contas dos exercícios de 2021, 2022, 2023 e 2024 foram "aprovadas pelos órgãos estatutários do clube", acompanhadas inclusive "de pareceres favoráveis da auditoria independente, do Conselho Fiscal e do Conselho de Administração".
Segundo os advogados de Casares , essa aprovação "gerou o chamado quitus ", ou seja, a "quitação e exoneração de responsabilidade sobre os atos de gestão daqueles exercícios".
Quanto às contas de 2025, que foram reprovadas pelo Conselho Deliberativo do São Paulo, a defesa de Casares diz que elas foram aprovadas pelos Conselhos Fiscal e de Administração, com a auditoria independente apenas apontando "ressalvas" e "pedidos de esclarecimentos".
O ex-presidente lembra que o clube tricolor "apresentou superávit de R$ 56 milhões " no exercício, com "redução da dívida em R$ 110 milhões ".
Por todos esses argumentos, a petição sustenta que a reprovação das contas de 2025 teve "motivação essencialmente política", e não "técnica".
No documento, Casares também aborda a polêmica dos quase R$ 11 milhões sacados em dinheiro vivo entre 2021 e 2025.
De acordo com o ex-presidente, esse valor "representa uma parcela muito pequena do volume financeiro movimentado pelo clube". Ele também alegou que os recursos seriam "destinados a premiações", os chamados "bichos", além de "serviços operacionais e despesas promocionais".
Segundo a defesa, a prática de pagar o famoso "bicho molhado" já "existia em gestões anteriores" e "continuaria ocorrendo após sua saída". Um trecho da petição, inclusive, cita fala do atual executivo de futebol do São Paulo, Rafinha , para apoiar essa tese.
"A permanência do denominado 'bicho molhado' na própria gestão atual do SPFC confirma, de maneira particularmente contundente, que o pagamento de premiações em espécie não era uma anomalia atribuível ao autor, mas verdadeiro costume do futebol", diz o documento.
"Conforme amplamente noticiado, a atual gestão presidida pelo Sr. Harry Massis igualmente adotou o mesmo procedimento, por iniciativa do executivo de futebol Rafinha e com a concordância da Presidência. O próprio executivo ( Rafinha ) declarou: 'Já recebi dinheiro em espécie no São Paulo, no Flamengo, no Grêmio, no Coritiba. Em todos os clubes em que eu recebi. Isso faz parte do futebol. É o bicho molhado'", seguiu.
"Esta declaração possui especial relevância in causa porque demonstra que a entrega imediata de premiação em dinheiro constitui prática conhecida e disseminada em diferentes clubes brasileiros. Mais do que isso, evidencia que o próprio SPFC continuou a sacar e manusear dinheiro em espécie após a gestão do autor. É manifestamente contraditório, portanto, utilizar contra a administração anterior um procedimento que a gestão sucessora reconhece como usual, legítimo e funcional", complementou.
Casares ainda assegurou que "não existe prova documental" de que os valores sacados em espécia "tenham sido recebidos ou apropriados pessoalmente" por ele.
Sobre a polêmica do cartão corporativo do Tricolor, que teria sido usado por Casares para pagamentos de despesas pessoais, o ex-cartola apontou que "não existiam regras claras para sua utilização em gestões anteriores"
Ele argumenta que, em 2025, "foram criadas normas internas de controle", com o então presidente "devolvendo voluntariamente" o valor de R$ 560.401,74 ao clube, corrigidos monetariamente, "para evitar questionamentos futuros".
A petição ainda sustenta que houve "perseguição política interna" contra Casares , a chamada " lawfare ", que é, em termos jurídicos, a "utilização de mecanismos institucionais para atingir adversários políticos".
À Justiça, Casares pede que seja declarada a "inexistência de gestão temerária em sua administração", especialmente quanto ao exercício de 2025, e também o reconhecimendo da eficácia jurídica do quitus decorrente da aprovação das contas de 2021 a 2024.
O ex-presidente também quer que o poder judiciário declare como regular o uso do cartão corporativo diante da devolução dos valores.
O ex-cartola ainda exirgiu que seja determinado que o São Paulo apresente "ampla documentação financeira e contábil", realizando perícia contábil judicial para verificar se houve efetivamente gestão temerária ou desvio de recursos.
Procurado pela ESPN , o São Paulo não se pronunciou até a publicação desta reportagem. Caso o clube se posicione, o texto será atualizado.
Em votação realizada em 10 de setembro, o Conselho Deliberativo do São Paulo aprovou, por 223 votos a cinco , a expulsão de Julio Casares do quadro associativo do clube.
Casares era alvo de um processo na Comissão de Ética, que recomendou sua expulsão por gestão temerária ou irregular. A decisão foi unânime entre os cinco integrantes do órgão, com base em investigações internas que apontaram possíveis irregularidades durante sua gestão, entre janeiro de 2021 e janeiro de 2026.
O caso também é investigado pela Polícia Civil e pelo Ministério Público. O ex-dirigente foi enquadrado no artigo 34 do Estatuto Social.
Entre os argumentos apresentados está a constatação de aproximadamente R$ 7 milhões em saques das contas do São Paulo cuja documentação, segundo o relatório do relator Luiz Braga , não permitia comprovar adequadamente a origem, a finalidade e o destino dos valores.
A Comissão de Ética também citou despesas feitas com o cartão corporativo em estabelecimentos de luxo, restaurantes, charutarias, salões de beleza, além de gastos médicos, medicamentos pessoais e compras em pet shops .
O caso veio a público em julho deste ano, que apontou R$ 1 milhão em despesas no cartão durante a gestão de Casares . Entre elas, estavam 71 pagamentos no Esch Café , casa de charutos, 53 no restaurante Gero e outras compras em lojas de luxo. Em novembro do ano passado, o ex-presidente devolveu R$ 560.401,74 ao clube, quando já era investigado pela Polícia Civil por possíveis irregularidades.
Além da expulsão, a Comissão de Ética recomendou que Casares indenize o São Paulo por eventuais danos materiais, conforme o artigo 11 do Estatuto Social. O valor ainda será calculado.
Em meio ao processo, o ex-dirigente chegou a pedir o encerramento do procedimento, mas a solicitação foi rejeitada com base no artigo 38, que impede a saída do quadro associativo durante um processo administrativo disciplinar até sua conclusão.
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