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Só para assinantes Assine UOL Opinião Futebol pensa em si mesmo e é cúmplice do próprio drama com bets Pedro Lopes Colunista do UOL 04/11/2026 05h30 Deixe seu comentário Flamengo e Fluminense estamparam em suas camisas a frase "proibir não é proteger" em protesto contra o veto às bets Imagem: Gilvan de Souza / Flamengo Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× A audiência pública realizada ontem no STF (Supremo Tribunal Federal) sobre a proibição às apostas terminou com a sensação de que o gênio saiu da lâmpada. Uma reversão da Medida Provisória que encerrou a atividade das bets precisaria superar um ministro Luiz Fux já inclinado a bani-las, um governo determinado a não recuar e uma opinião pública contrária e engajada. Clubes, CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e federações que representam jogadores trouxeram o pleito e os argumentos do futebol brasileiro —alguns legítimos, como a segurança jurídica, a assinatura de contratos de boa fé no ambiente regulado e a expectativa de receita. Junto com eles, ameaças —de demitir pessoas, de não pagar salários, do "fim do futebol brasileiro" —e pedidos com promessas —de criar campanhas de conscientização com atletas e torcedores, reavaliar a presença de cassinos on-line nos aplicativos de apostas e redesenhar a prevalência da publicidade. Janaína Figueiredo Visita de Janones à Argentina prejudica Lula Milly Lacombe Clubes afundam e passam vergonha no STF Julio Gomes Por que mesmo Cunha foi descartado na seleção? Chico Barney Descobri o que deu errado em A Fazenda esse ano As ameaças se mostram um recurso que começa a ficar velho, usado e abusado pelo futebol para minar o debate na raiz, desde o começo do processo de regulamentação. As promessas, para ficar dentro do tema futebolístico, representam o segmento mandando o goleiro de 2m para a área no último escanteio, nos acréscimos do segundo tempo. É desespero. Classificação e jogos Brasileirão 2026 O que não se viu nesses anos de operação das bets no futebol brasileiro foi a autocrítica dos players desse segmento sobre o seu papel em (não) criar um ambiente de apostas consciente, educado e, dentro do possível, saudável. O futebol brasileiro se refestelou com a entrada massiva de dinheiro das bets, e normalizou a inflação exponencial de todo o segmento. Estabeleceu, rapidamente, uma quase dependência. Incrivelmente, ainda assim, conseguiu (com algumas exceções, claro) exibir como uma medalha a sua capacidade de abrigar gestões irresponsáveis, de abrigar uma cultura de se gastar absolutamente tudo o que entra e mais um pouco. Foram anos de salários atrasados em múltiplos grandes clubes da Série A, processos de impeachment de presidentes, inquéritos policiais, recuperações judiciais, clubes atravessando múltiplos processos de conversão em SAF e venda a investidores. Em relação aos jogadores, se normalizou o entendimento de que um atleta receber cartão amarelo que beneficie diretamente familiares ou conhecidos em apostas esportivas não atenta contra a integridade do esporte. Continua após a publicidade Foram raras e insuficientes campanhas de educação e conscientização de jogadores e torcedores, principalmente se comparadas à onipresença da publicidade. Times, jogadores, competições, mídias que cobrem o dia a dia dos clubes. Em 2024, durante a regulamentação do mercado de apostas, o STF realizou audiência pública. Clubes se organizaram para comparecer e disseram que o futebol não sobreviveria sem as bets. Em 2025 surgiram propostas no Legislativo para restrição de publicidade, já com o avanço da ludopatia no país e aprofundamento das discussões sobre impacto econômico e saúde pública. Dentre as propostas, a de alocamento de intervalos de tempo específicos e pré-determinados em transmissões, além da restrição das placas de publicidade em praças esportivas. Os clubes se organizaram e disseram que as restrições provocariam o "colapso financeiro" do futebol brasileiro. As bets, hoje, respondem por 7,2% das receitas do futebol brasileiro. A fonte é o Relatório Convocados 2026, assinado pelo economista Cesar Grafietti em parceria com a OutField e patrocinado pela Galapagos Capital. Números à parte, foram batalhas vencidas pelos clubes. O mercado foi liberado, regulamentado e as restrições à publicidade até hoje não saíram do congresso. Continua após a publicidade Uma sociedade tem que debater, sob olhares diversos, os fenômenos que a atingem. A proibição a apostas foi abrupta, durante período eleitoral, retira milhões de reais esperados e comprometidos, sacrifica alguns empregos. São argumentos legítimos para serem trazidos a esse debate. Só que existe uma chance significativa de que, no Brasil, a questão das apostas esportivas esteja se aproximando de um ponto no qual não haverá mais debate - e de que os clubes e o futebol se vejam diante de uma batalha que não podem vencer. O argumento catastrofista de fim do futebol pode ter se esgotado e não ser mais suficiente. Se for esse mesmo o cenário - isso será descoberto em breve - que o futebol brasileiro consiga enxergar seu papel nesse desfecho. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Publicidade Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. 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