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Opinião Esporte O esporte diante de mais uma execução de atleta no Irã. O que fazer? Andrei Kampff Colunista do UOL 24/03/2026 05h00 Deixe seu comentário Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Em regimes autoritários, a primeira vítima é a liberdade. A última, quase sempre, é a própria sociedade. No Irã, essa lógica voltou a se impor com brutalidade. O nome agora é Saleh Mohammadi. Tinha 19 anos. Promissor no wrestling. Foi executado após uma confissão obtida sob tortura. Seu "crime": protestar por direitos humanos. O caso não é isolado. Ele se soma a uma sequência que revela um padrão. O Irã há anos transforma o esporte em instrumento de controle. Foi assim com Sahar Khodayari, a "Blue Girl", que ateou fogo ao próprio corpo após ser impedida de entrar em um estádio. Foi assim com Amir Nasr-Azadani, condenado por apoiar protestos. Agora, novamente, o esporte aparece não como espaço de liberdade, mas como território de vigilância e repressão. Há algo ainda mais inquietante nisso tudo: o mundo esportivo sabe. E, muitas vezes, escolhe o silêncio. Josias de Souza Caiado não é a terceira via, mas a via auxiliar de Flávio Mônica Bergamo Michelle vai sozinha falar com Moraes e irrita aliados Alicia Klein Neymar dobrou a aposta e foi de 'all in' João Paulo Charleaux Irã emerge da guerra mais agressivo, coeso e fechado O fim da neutralidade Durante décadas, entidades como FIFA e COI se refugiaram no discurso da neutralidade. Mas a neutralidade não sobrevive quando há execuções, perseguições e violações sistemáticas de direitos humanos. Nesse contexto, omitir-se deixa de ser prudência institucional. Passa a ser conivência. E aqui há um ponto que o direito esportivo já não pode mais ignorar: a neutralidade, quando aplicada a contextos de violação grave de direitos, funciona como um mecanismo de blindagem institucional. Ao evitar posicionamento, as entidades não se afastam do conflito, apenas escolhem, de forma silenciosa, não confrontá-lo. E essa escolha, no ambiente regulado do esporte global, tem efeitos concretos sobre a proteção - ou a ausência dela - aos atletas. Além disso, o esporte não é apenas um espaço simbólico, ele dispõe de mecanismos reais de coerção. A exclusão de federações de competições internacionais, a suspensão de seleções e clubes, a retirada de sedes de eventos e a imposição de sanções institucionais são instrumentos legítimos de pressão. Ignorá-los, diante de violações tão graves, não é preservar a neutralidade. É abdicar de uma das poucas ferramentas efetivas de constrangimento internacional disponíveis fora do sistema estatal. E aqui o debate deixa de ser moral para se tornar jurídico. O dever jurídico de agir Continua após a publicidade O esporte global não opera mais em um vácuo normativo. O Estatuto da FIFA é explícito ao afirmar, em seu artigo 3º, o compromisso com o respeito e a promoção dos direitos humanos internacionalmente reconhecidos. A Carta Olímpica segue a mesma linha ao tratar o esporte como um direito humano, condicionado ao respeito à dignidade. E os Princípios Orientadores da ONU —adotados como base dessas entidades - impõem algo ainda mais claro: não basta não violar direitos, é preciso atuar para protegê-los e remediar abusos. Isso muda tudo. Se um Estado executa um atleta por razões políticas, não se trata apenas de um problema interno. Há impacto direto na integridade do sistema esportivo. E mais: a federação nacional envolvida deixa de cumprir seu papel mínimo de proteção da comunidade esportiva. Nesses casos, não apenas é possível agir, é juridicamente esperado que as entidades internacionais o façam. O silêncio, portanto, não é neutro. É uma escolha. E, juridicamente, uma escolha com consequências. O esporte como instrumento de proteção Nos últimos anos, o próprio movimento esportivo começou a dar sinais de mudança. A política de direitos humanos da FIFA, construída a partir dos parâmetros da ONU, e a crescente pressão internacional mostram que o esporte já não consegue mais sustentar a ideia de que o campo termina na linha lateral. O jogo continua fora dele - e cada vez mais sob escrutínio jurídico. Continua após a publicidade A execução de Saleh Mohammadi expõe esse limite de forma brutal. Não é mais possível tratar casos como esse como episódios isolados ou questões de soberania. Quando um atleta é morto por se manifestar, o problema deixa de ser nacional. Torna-se sistêmico. O silêncio também é uma escolha O Prêmio Nobel da Paz concedido a Narges Mohammadi foi chamado de "oxigênio" para a luta por direitos no Irã. A metáfora é poderosa. Mas o oxigênio só cumpre sua função se alguém estiver disposto a respirar e agir. O Direito Desportivo não pode ser apenas um conjunto de normas que organiza competições. Ele precisa funcionar como instrumento de proteção. Porque, quando o esporte se cala diante da barbárie, ele não apenas falha com um atleta. Ele trai o próprio sentido de existir. E algumas marcas não se apagam. Nem com o tempo. Nem com títulos. Nem com medalhas. Nos siga nas redes sociais: @leiemcampo Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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