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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte Por que algumas mulheres permanecem em relações violentas? Milly Lacombe Colunista do UOL 09/05/2026 12h42 Deixe seu comentário Cartolouco apostou R$ 100 mil no jogo Flamengo x Corinthians Imagem: Reprodução/Instagram Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Uma terceira mulher se pronunciou sobre as agressões que teria sofrido do jornalista esportivo Lucas Strabko, apelidado de Cartolouco. Em apuração de Alicia Klein para o UOL , a terceira pessoa relata detalhes do que teria acontecido, fala na existência de vídeos, prints de mensagens e testemunhas reforçam o depoimento dela. A justiça terá que dar seu parecer sobre o caso envolvendo Cartolouco; a análise que precisa ser feita aqui é a que cabe ao jornalismo. Vamos a ela. Primeiro, o contexto. Não estamos passando por um período de inundação de falsas denúncias, como alguns parecem querer que seja. O que existe é um número historicamente alto, e crescente, de crimes contra mulheres. Muitas das denúncias não chegam a uma condenação porque o sistema está organizado para dilacerar a mulher que denuncia. Josias de Souza Suspensão da dosimetria apenas adia vexame Celso de Barros Só a pizza salva Flávio Bolsonaro Milly Lacombe Fluminense transforma jogo tranquilo em insanidade Antonio Prata Prefiro meus filhos aos pés do Messi do que das redes A mulher que decide acessar o sistema de justiça precisa apresentar um universo de provas, perícias, testemunhas etc para que uma investigação seja aberta. Mas, por motivos óbvios, esse tipo de crime tende a não acumular muitas provas além da palavra da vítima - até por isso a palavra da vítima tem peso de prova em casos que envolvem crimes desse tipo. Mas passemos essa primeira fronteira e falemos da mulher que teve a coragem de denunciar. A mulher que denuncia é, de forma regular, ridicularizada em delegacias quando se apresenta para dizer que está passando por algum tipo de abuso. O arranjo patriarcal faz com que ela tenha que contar a história dezenas de vezes para que falhas em sua narrativa sejam encontradas. Mesmo quando a justiça aceita a denuncia, o que não acontece sempre, e o processo é instaurado, a vida da denunciante começa a ser devastada. Aqui vale mencionarmos os casos que vão sendo deixados de lado até que prescrevam. Nesse momento, o réu sai pela cidade dizendo que foi inocentado, o que não é absolutamente verdade. A justiça apenas demorou para fazer o seu trabalho e o processo morreu convenientemente numa praia perto de você. Os processos que seguem muitas vezes não dão em nada "por falta de provas", segundo a justiça. O homem acusado sai limpo da história e a mulher segue correndo riscos. No raríssimo caso de uma condenação ao agressor, a vida de vítima estará para sempre transformada e ela não terá ganhado muita coisa com todo esse calvário além do fato de ter se livrado do agressor. Continua após a publicidade Mas não há casos de falsas denúncias, Milly? Há, claro que há. No mundo inteiro. O livro "O Direito ao Sexo", de Amia Srinivasan, fala que as falsas denúncias giram entre 3% e 5%. Em "A Mãe de Todas as Perguntas", de Rebecca Solnit, ficamos sabendo que as pesquisas mais detalhadas sobre o tema falam em 2%. Seja como for, Srinivasan discrimina do que são feitas as falsas denúncias: são feitas por homens que acusam outros homens de terem estuprado uma mulher. Mais detalhadamente: são homens brancos que acusam homens negros de estuprarem mulheres brancas. Imagino que haja registros de casos de mulheres que tenham decidido inventar uma acusação para se dar bem na vida, embora eu não conheça nenhuma mulher que tenha se dado bem depois de fazer uma denúncia. Muito pelo contrário. A vida depois da denúncia é um novo filme de terror. Lendo o excelente texto de Alicia Klein sobre as novas acusações que pesam contra Cartolouco parei no trecho em que a pessoa que o acusa se pergunta por que ficou tanto tempo na relação. É uma pergunta recorrente feita por quase todos os que não compreendem as circunstâncias impostas pelo regime da diferença sexual. Mulheres ficam em relações violentas por vários motivos. Um dos principais é: porque têm medo de serem assassinadas se tentarem sair e sabem que a justiça, a polícia e as leis não a protegerão. A materialidade histórica mostra que esse tipo de crime acontece corriqueiramente: a mulher denuncia, o agressor aumenta o nível da violência e, mesmo em casos em que há medida restritiva, ela acaba assassinada. Mas há outros. Somos treinadas e adestradas desde pequenas para acreditar que podemos transformar o sapo em príncipe, o monstro em cavalheiro. Então, ficamos dentro de relações abusivas na tentativa de sermos aquelas que vamos, finalmente, salvar o homem. Continua após a publicidade Somos também disciplinadas para aguentarmos muitas coisas em nome de uma relação e da família. "Ele te bate, mas é um bom pai", "Ele é violento, mas é trabalhador", "Ele é agressivo mas te ama". Demoramos a perceber que o ciclo da violência é contínuo e crescente e que nenhuma mulher é capaz de mudar homem algum - até porque essa não é uma responsabilidade da mulher. Questões financeiras também importam. Numa sociedade em que mulheres ganham bem menos do que homens, muitas vezes a "mãe de família" depende da renda do marido para sustentar os filhos. Em outros casos mulheres são impedidas pelo marido de trabalharem fora. Em outros tantos casos um pedido de separação acabará por tirar dela a guarda das crianças porque o sistema se mobiliza para proteger o acusado de todas as formas. Em outros, o homem é tão poderoso que uma separação deixará a mulher que denuncia sem absolutamente nada. São muitos os motivos pelos quais ficamos dentro de relações abusivas. E a culpa da tomada de atitude tardia também atua a favor do sistema como um todo: a mulher acaba se responsabilizando pela violência contra ela praticada por ter demorado para sair do relacionamento. Mas não deveríamos nos culpar ou sentir vergonha. A culpa e a vergonha pertencem aos abusadores, aos estupradores, aos assediadores, aos assassinos e a todos aqueles (abusador, delegado, advogado de defesa, juíz) que, mesmo confrontados com as provas, se organizam para destruir a reputação e a vida da mulher que teve coragem de fazer a denúncia. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. 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