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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte Seria demais querer que o comentarista da GE TV apagasse o post misógino? Milly Lacombe Colunista do UOL 19/12/2025 08h57 Deixe seu comentário Jorge Iggor, Bruno Formiga e Luana Maluf na transmissão de estreia da GE TV, da Globo Imagem: Reprodução/GE TV Carregando player de áudio Ler resumo da notícia O comentarista da GE TV, Bruno Formiga, ainda não foi invadido pelo bom senso de apertar "deletar" em um vídeo de conteúdo altamente machista e misógino que ele postou em seu Instagram há mais de dois meses. Como misoginia ainda não é crime tipificado por lei, seguimos apenas sonhando com um mundo menos violento onde o corpo de uma mulher não seja fatiado, genitalizado, sexualizado e objetificado publicamente em nome de piadas infantis ou de qualquer outra coisa. Para quem teve a sorte de não ver a peça, vamos dizer do que se trata: no vídeo publicado em seu perfil do Instagram, o jornalista expõe a mulher, com quem tem uma parceria de 20 anos, em um leito hospitalar, foca a câmera em seus seios e diz que agora tem uma dupla nova de ataque, dando a entender que a companheira estava internada (tem até um jabazinho, talvez acidental, para a clínica) para um procedimento estético nos seios. Formiga então convida sua audiência a escolher os nomes dessa nova "dupla de ataque", que chama de "minha": Romário e Bebeto? Messi e Suarez?, pergunta para os seguidores. Qualquer pessoa minimamente atenta que vê o vídeo sai da experiência com expressão de des-esperança e incredulidade. Trata-se de um dos comentaristas mais famosos do momento, trabalha em um canal voltado para jovens e tinha a seu favor até chegar à GE TV a percepção de ser um profissional equilibrado em suas análises. Carla Araújo Silveira ligou para assessora alvo da PF Letícia Casado Congresso começará 2026 sem 'pauta Bolsonaro' Tony Marlon A recusa de Yuri Alberto e o valor dos nossos limites Larissa Teixeira Pequenos prazeres podem ser antídoto contra dores A postagem é do dia 15 de outubro e, apesar das críticas e das explicações dos motivos pelos quais o conteúdo é misógino, ela continua clicável em seu perfil, ganhando alcance e curtidas do público que o segue. Até aqui: 600 mil visualizações. Mesmo alguns dos que acharam a postagem infantil e abobada, argumentaram que a rede social é dele, então paciência. A ideia de que as pessoas possam manter postagens preconceituosas em suas redes porque, afinal, é um espaço de sua vida privada não se sustenta e é argumento de pouca cognição. Especialmente se a pessoa é uma pessoa pública, como é o caso. Valeria então bater na mulher em sua rede privada e postar já que, vejam, o espaço é dele e ele faz como quiser? A Rede Globo, contratante de Formiga, não se manifestou e tampouco pediu para que ele apagasse a postagem - uma conclusão óbvia já que, como dissemos, até a publicação desse texto ele não tinha apagado. O que também seria digno de nota: Se uma comentarista tivesse exposto seus próprios seios em suas redes sociais ela teria recebido um telefonema e sido orientada pela chefia a apagar em menos de dez minutos. Mas, em relação a Formiga, nada foi exigido pela chefia. Misoginia na rede social do contratado tá valendo, não incomoda, não pega nada, deixem de ser chatas. Fui dar uma espiada no Instagram de Formiga e não encontrei uma postagem elogiando a inteligência e o brilhantismo da mulher com quem está há duas décadas. Achei uma em que ele a elogia como mãe e esposa, diz que ela é gostosa e incrível. Bruno Formiga posta basicamente material de trabalho e da GE TV, o que faz o vídeo hospitalar destoar ainda mais do conteúdo. Seria importante analisar o fato de Formiga ter escolhido nomear os seios da mulher com nome de homens. Continua após a publicidade Tem muita coisa aí sobre a homoafetividade da masculinidade heteronormativa: homens idolatram, respeitam, veneram, paparicam e celebram outros homens. Essa qualidade da masculinidade não tem nada a ver com homossexualidade, seria importante frisar. Homossexualidade é outra coisa e envolve desejo sexual e romântico por pessoas do mesmo sexo. A qualidade da heterossexualidade sobre a qual falo, observada pela filósofa e teórica feminista Marilyn Frye há algumas décadas, diz apenas que o universo das pessoas que homens heterossexuais respeitam, veneram, celebram e idolatram é composto de outros homens e não de mulheres. Formiga pensou em algumas "duplas de ataque" para nomear os seios da mulher e nenhuma dessas duplas tinha Marta ou Cristiane, Bonmatí e Putellas. Sexualizar o corpo de uma mulher - mesmo daquela com quem você estabeleceu uma parceria de vida e mesmo com a aprovação dela - e reduzi-lo a um par de seios, dando a eles nomes de homens que Formiga admira, contém violência simbólica contra mulheres porque, todos os dias, somos mortas por homens que acreditam que somos apenas parte e não todo; corpo e não espírito; órgãos que existem para o prazer deles e não sujeitos plenos. Não é sobre a intimidade do casal; é sobre a vida de todas nós. Mais: o público da GE TV é composto por meninos e homens em sua vasta maioria. Não imagino que haja muitas meninas ou mulheres dispostas a assistir ao conteúdo oferecido pelo canal porque a linguagem e a abordagem são bastante infantilizadas e masculinistas, assim como as da Cazé TV. Sabemos, porque as pesquisas estão aí, que meninos têm apresentado desde muito cedo uma propensão acentuada à misoginia e desprezo pela luta da emancipação das mulheres. Assim, seria um tremendo serviço social se esses novos canais fizessem o trabalho de base na educação de meninos e jovens a respeito das violências contidas no machismo e na misoginia. Por tudo isso, quando alguém que essa turma admira reduz, em nome da piada, sua própria mulher a um par de seios, temos aí um problema grave. Continua após a publicidade Se nada disso passou pela cabeça do comentarista no momento de produzir o conteúdo, e ele acredita que está apenas fazendo uma brincadeira, por mais boba e infantil que seja, seria o caso de confiar no que dizem pessoas a sua volta a respeito do absurdo que o conteúdo carrega, da violência que todos os dias é praticada contra mulheres, em como piadas machistas acabam legitimando essas agressões, em como tudo isso está conectado e então apagar, juntando ao ato um pedido de desculpas. Mas, mais de dois meses depois de ter cometido essa postagem, nada foi feito. O que me leva a supor que Formiga não acha que errou e deve estar seguindo a cartilha do auto-declarado aliado revoltado com a falta de paciência das mulheres em geral que o criticaram pela postagem, um protocolo que o feminismo conhece bem e que sabe destrinchar. Vamos ao passo-a-passo: Espernear no ambiente privado e partir para cima de quem o criticou, se colocar no papel da vítima de modo geral, pedir que amigas o defendam e falem bem dele publicamente, vociferar contra a virulência das feministas que não sabem ser fofas e que, além de apontarem o erro, ainda ousam achar que o Formiga da GE TV é juvenil e sem graça se comparado ao da TNT, seu empregador anterior. O protocolo acima, usado com regularidade por homens flagrados em atitudes misóginas, pode colar já que sempre haverá quem esteja disposto e disposta a colocar aquele que cometeu o machismo no papel da vítima. Mas seria importante insistir nessa curiosidade aqui porque ela revela algumas coisas: por que, diante de tantas críticas, Formiga - que ao que consta é uma pessoa inteligente - não apagou a postagem? Continua após a publicidade Porque existe um grupo de homens que não suporta ser criticado. O mundo era deles até ontem, eles podiam emitir opinião sobre todas as coisas sem serem importunados, e agora não estão sabendo existir nesse ambiente dentro do qual algumas pessoas têm a audácia de dizer "amigo, você errou feio, falou merda". É preciso fingir que não cometeram erro algum para seguir brilhando para os amigos e para os fãs; reconhecer o erro e apagar seria capitular à chatice das feministas lacradoras. Alguns homens querem que sejamos capazes de educá-los com muito cuidado e doçura, como se fôssemos suas mães. Acontece que não somos e estamos aqui nessa outra batalha para seguirmos vivas. É bom acreditar que as pessoas se transformam e amadurecem porque só essa crença nos faz permanecer na luta. Vamos torcer para ser esse o caso do comentarista: que ele seja capaz de compreender a violência simbólica contida em sua postagem e tenha a coragem de apertar deletar. O bacana do feminismo em que acredito é que ele sabe que homens reformados constituem aliados potentes. Seguimos esperançando, como diria Paulo Freire. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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