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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte O intelectual contente e teimoso Milly Lacombe Colunista do UOL 13/12/2025 05h30 Deixe seu comentário Carregando player de áudio Ler resumo da notícia Francisco Bosco Imagem: Ilustração: Camila Pizzolotto O apresentador Francisco Bosco entrou no olho do furacão depois de dar uma entrevista à Veja e tecer comentários sobre feministas, feminismo, homens, garotos e mulheres. Basicamente, Bosco, doutor em teoria literária, disse que os homens e especialmente os garotos, estão sofrendo e que o feminismo deveria ter mais cuidado com eles. "Há uma confusão sistemática entre a crítica ao machismo, que é pertinente e necessária, e a crítica ontológica aos homens", disse Bosco à revista depois de analisar que homens estão deslocados porque perder o poder não agrada a muitos. "Isso [a crítica ontológica aos homens] é um erro tremendo e produz muitas injustiças com jovens meninos, que crescem em meio a esse discurso e são culpabilizados antes mesmo que produzam atos pelos quais, e só pelos quais, poderiam ser culpabilizados". Vamos por partes e com calma. Josias de Souza Fim da Magnitsky cai como lápide sobre bolsonarismo Helio de La Peña Papai Noel já está em ação e presenteou classe política Reinaldo Azevedo Trump antecipa presente para Moraes Milly Lacombe A estranha dupla caneta emagrecedora e futebol De fato, perder o poder não agrada. Consigo me colocar na pele de um homem branco e heterossexual dentro de uma sociedade em transformação porque sou um corpo branco dentro de uma sociedade racista. Posso querer olhar para o espelho e dizer a mim mesma "não sou racista", mas não posso escapar de uma verdade incômoda: viver como corpo branco dentro de uma sociedade racista me beneficia. E, a despeito de querer achar que não sou racista (claro que sou porque fui criada, educada e doutrinada para ser e lutar contra isso é ação diária), preciso compreender que meu corpo branco comunica violências dentro dos espaços sociais. Querer educar pessoas negras a lutar contra o racismo seria, para dizer o mínimo, bastante narcísico e estúpido da minha parte. Como corpo branco dentro de uma sociedade racista, tento me educar e escutar. Leio, ouço, estudo. E evito ter certezas, me colocando em posição de aprendiz. Quando falo besteira, e sou alertada, paro e busco entender por que errei. Mas um dos efeitos mais imediatos da masculinidade é justamente a construção desse lugar da mais absoluta convicção. Admitir publicamente o erro, a ideia equivocada, a cognição atrapalhada e a necessidade de calar para melhor compreender seria, para alguns intelectuais, uma ideia tão insuportável quanto a morte. Então eles seguem agarrados, entrelaçados, misturados com força às suas verdades ainda que 99% das pessoas que estudaram o feminismo e existem nesse mundo em corpo de mulher tenham dito de diferentes formas a Bosco: "amigo, você falou merda". É a mesma face da masculinidade que impede homens de avisarem aos amigos que eles erraram. "Cara, você está em surto. Para de gravar vídeos, para de falar, fica quieto um pouco" teria sido conselho adequado a Bosco logo depois que as reações à entrevista dele à Veja começaram. "Miga, apenas pare" é o que escutamos de nossas melhores amigas quando começamos a nos perder. Continua após a publicidade Mas eu poderia apostar meu pequeno reino que não existiu nada parecido e que Bosco faz parte de algum grupo de WhatsApp onde homens de esquerda elogiam-se entre si, criticam o feminismo e quaisquer outras agendas que considerem identitárias, e lambuzam-se da inteligência e da sagacidade uns dos outros. Um evento masturbatório, como é o Papo de Segunda, no GNT, programa do qual Bosco faz parte. Por que masturbatório? Porque eles estão falando para eles mesmos num processo homo-erotizado que não depende de ninguém mais a não ser da intelectualidade deles, por eles, para eles, em nome deles, para o prazer deles. Não existe o outro; existe apenas uma trocação narcísica que acredita que o que eles fazem, o que eles pensam e a forma como interagem é tudo o que existe e tudo o que precisa existir. O resto - todo o resto - foi criado apenas para assisti-los. Colocar homens sem noção a respeito de questões de gênero para debater entre si sobre qualquer coisa - de futebol à filosofia passando por culinária -, excluindo desse espaço pessoas que tenham se educado na teoria feminista é, por vontade ou por acidente, criar um desses eventos masturbatórios. Quem aguenta ver? A quem serve? Quem está gozando? Mas vamos analisar o que disse Bosco. O feminismo deveria ter mais cuidado com homens e meninos, Bosco pede como quem, pela primeira vez, viu uma coisa que outros deixaram de ver. Monique Wittig, bell hooks, Rita Segatto, Françoise Vèrgés, Audre Lorde, Paul Preciado, Louise Turcotte, Nicole-Claude Mathieu, Adrianne Rich e Gerda Lerner - para citar um número bem pequenino de teóricas do feminismo - abordaram a dinâmica do sujeito dentro da estrutura muito antes de Bosco, e de forma mais aprofundada e causal. Compreender a complexa teoria feminista evitaria esse tipo de deslize. Seria como dizer que Freud deveria ter se preocupado mais em falar de liberdade quando a obra dele fala bastante de servidão, o que significa falar de liberdade. Continua após a publicidade Não há no feminismo uma crítica ontológica aos homens como sugere Bosco. Há a noção de que a masculinidade é carregada, traduzida e executada por corpos de homens. Há a compreensão de que 95% das violências praticadas no mundo - contra homens e mulheres - são praticadas por homens. Não podemos simplesmente subtrair o corpo masculino dessa dinâmica e falar de masculinidade em sentido abstrato: uma força que paira no ar, como a neblina que esconde o Pão de Açúcar em algumas manhãs de verão. Não é porque Bosco fala com voz mansa e usando palavras complexas que o que ele diz deixa de ser violento. É, aliás, a pratica de uma violência muito masculina e recorrente essa a da voz mansa porque ela comunica razão enquanto do outro lado estamos nós, as agressivas, como ele mesmo se referiu à autora de um comentário. É o reforço de estigmas que são mentirosos (homens calmos, mulheres nervosas) mas ainda muito presentes. Bosco pede que culpabilizemos apenas os culpados. Mas, ora, quem seriam eles? Apenas os que agridem, matam, estupram, estapeiam, assediam, silenciam, interrompem? Ou seriam todos os que reproduzem, na prática ou na teoria, esse sistema? Não seriam culpados os que se recusam a escutar que erraram? Não seriam culpados os que não aguentam a crítica de uma mulher e já dizem que ela foi degradante? Não seriam culpados os que falam sobre feminismo sem jamais terem lido a teoria? Não seriam culpados os que se lambuzam entre si em grupos só de homens criados para dizer o que não mais pode ser dito publicamente? Não seriam culpados os que compartilham nudes de mulheres nesses grupos e comentam sobre seus corpos e suas aventuras sexuais? Continua após a publicidade Darcy Ribeiro falava que havia dois tipos de intelectuais: os contentes, que estão felizes com a conservação de uma sociedade nesses moldes, e os irados, que querem mudar a sociedade e atuam como agentes dessa transformação. Bosco me parece estar contente - o que é uma pena porque sua inteligência e eloquência poderiam servir à luta por emancipações e pelo fim de tantas opressões. Deixar espaço para estar errado seria um começo. Confrontado por vozes diversas, Bosco gravou um vídeo que foi inundado por comentários quase que totalmente contrários às sua colocações. Bosco então apagou o vídeo e, claro, os comentários que explicavam de forma muito clara por que ele havia errado. Por que apagou? Ele depois tentou elaborar, mas não se fez entender. O fato é: os comentários não estão mais lá, e todos eles contavam uma história. Nesse meio tempo, chamou mulheres de degradantes e agressivas e disse que vai se afastar das redes sociais. "Quer conhecer um homem? Experimente confrontá-lo", diz uma das frases repetidas por feministas. Não tem muito erro mesmo. Algumas fichas, como diria a Laerte, demoram a cair. Mas elas caem. E sair de cena para pensar é sempre recomendável. Mas existe uma pergunta que precisaria ser feita: de onde vem tanta certeza de que as coisas que ele diz sobre gênero são absolutamente verdadeiras mesmo confrontado por vozes de mulheres que argumentam e revelam os erros? Continua após a publicidade Bosco parece estar convicto de que, se explicar um pouco mais, nós seremos, finalmente, capazes de entendê-lo. Ah, era isso então! Agora sabemos como dizer "nem todo homem" usando 50 mil palavras - Bosco fez um texto nesses termos para a Folha De S.Paulo. "Não existe mulher sem homem", escreveu Wittig há quase 50 anos. Uma frase direta e simples, que comunica muita coisa. "Não existe sexo. Existe apenas sexo que é oprimido e sexo que oprime. É a opressão que cria o sexo, e não o contrário". São conceitos básicos e fáceis de serem enxergados. Vamos voltar a Bosco: "As mulheres ficam chateadas comigo quando digo que deveria haver um ajuste no discurso feminista, que deveria enfatizar uma agenda positiva para os homens, em vez de ficar insistindo em uma estigmatização, uma criminalização e um rebaixamento sistemático dos homens". As mulheres estão chateadas, eu diria, porque estão sendo mortas em ritmo de extermínio. Também ficamos chateadas por não recebermos salários iguais ao de homens que fazem o que fazemos (às vezes de modo muito menos criterioso), por sermos estupradas a cada seis minutos, por sermos assediadas em nossos ambientes de trabalho, por sermos objetificavas. Isso nos chateia muito mais do que a falta de entendimento de intelectuais de esquerda a respeito do que é o feminismo. Aliás, o tal "discurso feminista" a que Bosco se refere simplesmente não existe. Existem discursos múltiplos e existe a teoria. Para falar da teoria seria preciso conhecê-la a fundo, o que não parece ser absolutamente o caso. Continua após a publicidade Por fim, quem seriam "as mulheres" em sua colocação, e por que, se generalizar "homem" incomoda tanto, Bosco se sente no amplo direito de generalizar "mulheres"? Mais: a teoria feminista não rebaixa os homens; os homens rebaixam-se a si mesmos comportando-se violentamente, de forma concreta ou simbólica. Por fim, a criminalização de homens se dá por efeito desse comportamento e não porque mulheres apontam para um e jogam esse corpo dentro de um caldeirão fervente mexido e remexido por muitas de nós. Não é sobre Bosco e sua compreensão limitada e enviesada do que é o feminismo; é sobre homens que reproduzem essa estrutura enquanto acreditam piamente que são aliados e devem, portanto, serem paparicados e celebrados. O grande problema de discursos como esses, que resvalam no feminismo sem compreendê-lo e tecem uma crítica à luta (amplamente baseada em falsas premissas), para vitimizar homens é a semelhança que eles carregam com as narrativas dos red pills e dos incels. Mas não se aflijam por Bosco; o sistema age rápido para proteger homens influentes que derrapam. Bosco será presenteado com espaço na mídia de forma farta para elaborar melhor sua teoria masculinista e será aplaudido por sua coragem e lucidez por muitos outros "esforçados aliados" que se sentem vítimas da fúria feminista. Continua após a publicidade Jamais faltará palco para homens como Bosco seguirem explicando o que, eles acreditam, um dia seremos finalmente capazes de entender. Para tanto, basta que sigam lambuzando-se si mesmos publicamente em grupos de mensagens e em programas que eles têm certeza de que queremos ver. Enquanto isso, continuamos aqui pedindo para que parem de nos matar. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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