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Opinião Esporte Malala, Talibã e violência: o que o esporte deve às mulheres do Afeganistão Andrei Kampff Colunista do UOL 28/10/2025 05h00 Deixe seu comentário Carregando player de áudio Ler resumo da notícia Neste fim de semana, a Lara leu um pouco do livro Malala, a menina que queria ir para a escola , da jornalista Adriana Carranca, para a gente. A leitura é simples, mas profunda. Ela conta a história de uma menina que desafiou o Talibã em nome do direito de estudar. "Eu tenho direito de brincar. Eu tenho direito de estudar. Eu tenho o direito de falar", disse Malala aos 11 anos, em seu primeiro discurso público. Essa frase, que minha filha, de 9 anos, leu em voz alta, ecoa com uma urgência dolorosa ao olharmos para o Afeganistão de hoje, mesmo depois de tanto tempo do livro e da luta de Malala. A educação de meninas (e mulheres) segue proibida pelo Talibã, assim como o direito de falar e também de jogar futebol. O direito de praticar esporte, manifestação de saúde, liberdade e expressão, é negado às mulheres e meninas afegãs, empurrando-as para um limbo jurídico e humano que desafia as bases éticas do movimento esportivo global. A Vida em Suspenso das Atletas Afegãs Joel Pinheiro da Fonseca Milei é diferente de outros líderes da nova direita Mauro Cezar Discurso de Cássio é ingênuo e fora da realidade Alicia Klein Daniel Alves: o homem rico pode ser o que quiser TixaNews Ficou difícil para o Eduardo Bolsonaro Desde a retomada do poder pelo Talibã em 2021, o esporte feminino no Afeganistão foi oficialmente banido - considerado "inapropriado e desnecessário" para mulheres, segundo declarações de líderes extremistas. Essa proibição não é apenas uma questão de regulamento local; ela é parte de uma crise de Direitos Humanos que a Human Rights Watch classifica como a mais grave do mundo em relação aos direitos das mulheres. As atletas, antes símbolos de modernidade e esperança, tornaram-se alvos. A solução encontrada por muitas delas foi o exílio. Jogadoras da seleção feminina de futebol, taekwondo, vôlei e outras modalidades fugiram do país, encontrando refúgio em nações como Austrália, França, Canadá e Estados Unidos. Nesses países, elas mantêm viva a chama de suas seleções, treinando e competindo como refugiadas, na esperança de um dia representar novamente seu país sob a bandeira da liberdade. A história da atleta paralímpica Zakia Khudadadi , que competiu em Tóquio 2020 e recomeçou a vida na França, é um poderoso, e raro, exemplo de superação em meio ao apagamento sistemático das mulheres no esporte afegão. A Luta pelo Reconhecimento e a Resposta do Movimento Esportivo É neste contexto de exílio e resistência que a atuação dos órgãos internacionais se torna crucial, e, por vezes, controversa. Continua após a publicidade A ONU Mulheres tem alertado incessantemente para a exclusão de jovens afegãs da educação e do trabalho. O Comitê Olímpico Internacional (COI) , por sua vez, deu um passo importante ao proibir a presença de autoridades do Talibã nos Jogos de Paris 2024 e ao insistir na participação de uma delegação afegã com equidade de gênero. Embora simbólica, essa medida é um reconhecimento da crise e uma recusa em legitimar o regime através do esporte. Contudo, a principal entidade do futebol, a FIFA , enfrenta um dilema ético ainda mais profundo em relação à Seleção Feminina de Futebol do Afeganistão . Por anos, o apelo das jogadoras exiladas para serem reconhecidas oficialmente como a seleção nacional legítima foi recebido com a frieza dos estatutos. A FIFA alegava que "não tem o direito de reconhecer oficialmente qualquer equipe, a menos que seja primeiro reconhecida pela Associação Membro em questão" , neste caso, a Federação Afegã de Futebol (AFF), hoje controlada pelo Talibã. Essa postura foi alvo de críticas severas. Como pode uma entidade que tem em seus estatutos a proibição expressa de discriminação de gênero continuar a reconhecer uma federação que nega o esporte às mulheres? A Human Rights Watch alertou que a omissão da FIFA poderia configurar cumplicidade com a discriminação institucionalizada . Em 2025, o Conselho da FIFA aprovou o apoio à Seleção Feminina de Refugiadas Afegãs , criando uma equipe para torneios amistosos. Gianni Infantino celebrou a medida como um "compromisso em dar a toda garota a possibilidade de jogar futebol". Mas esse gesto, embora positivo, não é o reconhecimento como seleção nacional. Permite que as jogadoras atuem sob a chancela da FIFA, mas não impõe sanção à Federação Afegã de Futebol , que viola de forma flagrante o artigo de igualdade de gênero do próprio Estatuto da entidade. O passo decisivo, o da coerência, ainda não foi dado. Continua após a publicidade O Chamado da História Assim como Malala lutou pelo direito de ler, as atletas afegãs lutam pelo direito de correr, chutar e competir. O esporte, em sua essência, é uma extensão da liberdade humana. Negar esse espaço é negar um direito fundamental. A FIFA deu um passo importante ao apoiar as refugiadas, mas o teste final da sua integridade está em suspender a filiação da Federação Afegã de Futebol enquanto o regime talibã proibir o esporte feminino. O movimento esportivo global não pode se dar ao luxo de ter uma crise ética sob seus olhos. A história, e as vozes silenciadas das meninas afegãs, exigem que a retórica se transforme em ação: pelo direito de jogar, de estudar e de viver plenamente. A leitura Lara me fez pensar de novo nas atletas afegãs e no desafio do movimento esportivo. Ajudar mulheres e minorias para que o regime do Talibã respeite a liberdade e o simples direito de escolha - como praticar e viver do esporte - é dever de todos nós. É preciso ouvir Khalida, Malala e todas as meninas e mulheres afegãs. Nos siga nas redes sociais: @leiemcampo Continua após a publicidade Este conteúdo tem o patrocínio do Rei do Pitaco. Seja um rei, seja o Rei do Pitaco. Acesse: www.reidopitaco.com.br . Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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