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Análise dos Times

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Milly Lacombe Juliano Cazarré bell hooks Renata Sorrah

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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte Por que cursos como o de Cazarré reforçam poder, controle e dominação Milly Lacombe Colunista do UOL 02/05/2026 12h02 Deixe seu comentário Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Juliano Cazarré saiu em defesa de seu evento 'O farol e a forja' Imagem: Reprodução/Instagram Tenho visto análises de pessoas supostamente sérias dizendo que devemos dar um tempo às críticas a Juliano Cazarré porque, afinal, tudo o que ele quer fazer é pedir que homens se comportem. Textos e vídeos de homens explicando por que nós, mulheres, teríamos que parar de reclamar de tudo, por que a (suposta) polarização de ideias causa tanto mal, por que não nos escutamos mais, por que não focamos em combater os homens verdadeiramente ruins e deixamos Cazarré em paz. Quem argumenta nesses termos deixou de compreender o fundamental a respeito das violências praticadas por homens contra mulheres. Ou, outra hipótese, compreende muito bem mas usa palavras difíceis e acrobacias cognitivas para tentar confundir com o objetivo de deixar as coisas como elas estão. Esse texto vai para os que falharam em compreender a violência que a voz mansa do ator global quer esconder e não para os que estão no grupo dos sonsos. PVC Palmeiras x Santos tem gol bem anulado no fim Milly Lacombe Um clássico tão esquisito quanto emocionante Juca Kfouri O adeus de um vietcong de nosso jornalismo Josias de Souza Rejuvenesça o Zema e devolva-o à infância E para os que argumentam que a ideologia é o menos importante porque o foco do ator é ganhar dinheiro eu diria o seguinte: só a partir de um lugar de muito privilégio essa análise pode ser feita. Para quem está no front, pagando com a vida os resultados diretos impostos pelo patriarcado, o que menos importa é o que motiva Cazarré a dar esse curso. De forma resumida, no curso de Cazarré homens aprenderão a ser homens. E o que isso quer dizer? Vamos por partes. O que é ser um homem dentro dessa sociedade? Meninos aprendem desde muito cedo: ser homem é não ser mulher. Todas as coisas associadas ao universo feminino devem ser rejeitadas a qualquer custo. A dimensão do feminino - meninos aprendem - é vergonhosa, constrangedora, diminuta, desprezível. Meninos são violentamente doutrinados a matar as características associadas ao feminino que existem dentro deles. O primeiro ato de agressividade do machismo, ensinou bell hooks, é executado contra os homens. Homens crescem acreditando que o universo que abriga mulheres é um universo, na melhor das hipóteses, desimportante. Afastem-se. Na pior das hipóteses, ele se torna um universo aniquilável. Primeiro, assassinam esses valores dentro de si mesmos. Depois, simbólica e concretamente, partem para a aniquilação do que está do lado de fora: mulheres e homens que reproduzam esses atributos. Como esses assassinatos - simbólicos e concretos - ocorrem? Estabelecendo-se hierarquias que pulsam dentro dos núcleos familiares. Papai provém e protege; mamãe cuida e serve. Todas as violências vêm dessas dinâmicas. Quem protege, controla. Quem sustenta, tem a posse. O que confere a alguém a posse? O direito de destruir. O direito à destruição é a qualidade central da propriedade. O resto é usufruto. Continua após a publicidade Cursos como o de Cazarré fixam esses papeis vendendo a ilusão de que as dinâmicas de gênero podem se manifestar idilicamente. A imagem fictícia da família feliz tomando café da manhã dentro de uma cozinha de azulejos brilhantes. A imagem não mostra a mãe exausta, o pai punitivo, os filhos oprimidos e as pessoas racializadas limpando os azulejos. O que mais essas dinâmicas de papéis fixos de gênero revelam? A ideia de uma supremacia branca. Ao promover conceitos como "homem faz isso e mulher faz aquilo" e assim viveremos felizes esses alecrins da masculinidade reforçam os valores coloniais de "lar". Como exatamente uma dona de casa das classes média e alta consegue cuidar e servir sua família nesses termos sem ter o trabalho sub-remunerado de mulheres racializadas? As trad-wives, esse movimento que convoca mulheres a saírem de seus trabalhos fora de casa e voltarem a seu habitat natural (o lar) para ser feliz servindo e cuidando são, em sua origem, um movimento racista. Se o lugar natural da mulher fosse o do mundo privado, cuidando e servindo marido e filhos, não precisaríamos de tanto berro para que ficássemos quietas em casa. Nós apenas ficaríamos, não é mesmo? O fato é que, se ser homem é, antes de mais nada, não ser mulher - e se o que é ser mulher está sofrendo profundas transformações por causa do feminismo, então o que é ser homem? Insiram aqui o meme da Renata Sorrah substituindo seu rosto pelo rosto de um homem. Relativizar o que Cazarré vai fazer é tão violento quanto o que Cazarré vai fazer. Precisamos de homens que sejam menos homens e que não tenham vergonha de se misturar a todas as qualidades dos valores atribuídos ao feminino. Venham, porque desse lado de cá nós aprendemos a criar vínculos profundos. É justamente isso o que nos faz suportar essa sociedade em que homens como Juliano Cazarré são considerados normais. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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