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Opinião Esporte Infantino, Rússia e a falta de critério do futebol em direitos humanos Andrei Kampff Colunista do UOL 04/02/2026 05h30 Deixe seu comentário Carregando player de áudio Ler resumo da notícia Pelé acompanha partida de estreia da Copa das Confederações ao lado de Gianni Infantino (c), da Fifa, e Vladimir Putin (d), presidente da Rússia Imagem: Carl Recine/Reuters A frase que Gianni Infantino disse nesta segunda (2) em defesa do fim da punição à Rússia - "nunca se deve proibir um país de jogar futebol" - não é apenas controversa. Ela é reveladora, mostra como o esporte internacional segue sem critérios claros para lidar com guerras e violações graves de direitos humanos, oscilando conforme o vento da geopolítica. Logo depois de a Rússia invadir a Ucrânia e iniciar a guerra, a resposta do esporte foi rápida e contundente. A Federação de futebol foi banida das competições internacionais, assim como os clubes russos. Mas já destaquei em outras colunas: não foi a proteção direta de direitos humanos que fundamentou aquelas sanções . O próprio Tribunal Arbitral do Esporte reconheceu que as medidas eram "justificadas e necessárias diante da reação generalizada e sem precedentes da comunidade internacional". O esporte reagiu ao isolamento imposto pelos Estados - não a um dever jurídico autônomo de tutela de direitos humanos. O problema surge quando esse padrão desaparece. Ou ele sequer é explicado. Em outros conflitos armados, com impactos humanitários igualmente devastadores, a narrativa muda. A neutralidade reaparece - seletiva - como álibi para a inação. José Fucs O 'racha' da direita e o 'pano verde' do 1º turno Maria Prata A psicologia virou linguagem de rede social PVC Informações e palpites para a rodada do Brasileirão Edu Carvalho O que a série 'Seja Homem' diz sobre o machismo? Esse duplo padrão não é acidental. Ele reproduz uma hierarquia histórica , na qual o esporte reage com mais facilidade quando os interesses do Norte global estão em jogo, enquanto guerras, ocupações e violações sistemáticas que atingem países do Sul global são tratadas como periféricas. Como já observou Antoine Duval , em texto para o Instituto Asser, o esporte internacional não aplica sanções a partir de princípios universais, mas de dinâmicas políticas assimétricas , fortemente influenciadas pelo peso geopolítico dos envolvidos. Essa crítica é aprofundada de forma contundente por Nick McGeehan , em artigo publicado na Revista do Instituto Asser . Ao analisar as respostas do esporte aos casos da Rússia e de Israel , McGeehan sustenta que a ausência de regras claras deixou entidades como a Fifa e o Comitê Olímpico Internacional "navegando sem leme em águas geopolíticas tempestuosas". O resultado, segundo ele, é que essas organizações acabam funcionando como ferramentas políticas do Norte global , reagindo mais por alinhamento do que por princípios. McGeehan vai além ao atacar um sofisma recorrente - e que venho apontando há anos: a ideia de que esporte e política podem ser mantidos separados. Para ele, essa ficção apenas impede que os órgãos dirigentes assumam, de forma responsável, o poder político que já exercem . Sem regras, sem critérios e sem transparência, esse poder é usado de maneira errática, ou é capturado. Daí uma conclusão incômoda: é preciso criar um caminho legítimo para que o esporte atue, "não apenas como fantoche do Norte global" . É nesse contexto que a fala de Infantino ganha sentido. Ao relativizar agora as sanções impostas à Rússia, não se trata de pacifismo tardio, mas de evitar o enfrentamento do presente: Diante do constrangimento e da pressão de aplicar critérios semelhantes à Israel ou aos Estados Unidos, a narrativa muda. A punição passa a ser ineficaz, geradora de ódio, contraproducente. O problema nunca foi apenas a eficácia das sanções, mas a falta de critério. Ao defender a reabilitação da Rússia para não enfrentar o debate sobre outros conflitos, a Fifa escancara que sua neutralidade é seletiva. É pragmatismo. É uma releitura conveniente do passado para acomodar o presente. O esporte segue reagindo por conveniência geopolítica, não por parâmetros jurídicos claros. Continua após a publicidade Se o esporte quer falar seriamente em paz e direitos humanos, precisa abandonar a improvisação. O caminho está dado: considerar decisões e relatórios de órgãos da Organização das Nações Unidas , instituir comitês independentes de direitos humanos , definir procedimentos transparentes, com contraditório e fundamentação pública, e prever um leque proporcional de medidas são medidas que devem ser discutidas pelo movimento esportivo. Sem isso, cada nova guerra repetirá o mesmo roteiro. Discursos morais quando convém, silêncio quando custa caro. E o esporte seguirá sem leme, não por falta de poder, mas por falta de coragem institucional para assumir critérios, responsabilidades e compromissos reais com os direitos humanos. Este conteúdo tem o patrocínio do Rei do Pitaco. Seja um rei, seja o Rei do Pitaco. Acesse: www.reidopitaco.com.br . Nos siga nas redes sociais: @leiemcampo Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. UOL Flash Acesse o UOL Flash Receba novos posts de Lei em Campo por email Informe seu email Quero receber As mais lidas agora Médico é preso suspeito de estuprar pacientes durante atendimentos na Bahia O que causa demência? 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