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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte A ditadura venezuelana e a democracia americana Milly Lacombe Colunista do UOL 08/01/2026 08h39 Deixe seu comentário 5.jan.2025 - Nicolás Maduro é levado de helicóptero para veículo blindado antes de julgamento em Nova York Imagem: REUTERS/Adam Gray Carregando player de áudio Ler resumo da notícia "O povo venezuelano está finalmente livre" berram alguns nas redes sociais celebrando os Estados Unidos que tiraram Nicolas Maduro do poder. Enquanto isso, em Minneapolis, uma cidadã americana é executada pela polícia-milícia imigratória de Donald Trump à luz do dia. Logo depois de disparar os tiros, a mesma polícia-milícia impediu que a americana fosse socorrida. Por quinze minutos, o carro contra o qual eles dispararam foi cercado por homens fardados que proibiram que a vítima fosse atendida por médicos. Em 2025, a polícia-milícia de Trump matou dezenas de pessoas apenas por esporte. Analisar acontecimentos desse porte evitando simplificações convenientes e apontando as devidas associações é o que temos que fazer. A primeira camada de análise é a mais óbvia: nada mudou para as pessoas na Venezuela com a invasão trumpista a não ser o aumento do medo de uma guerra iminente, o crescimento das filas nos mercados e a tensão que uma invasão por terra gera. Daniela Lima Lula não quer 'perfil brucutu' na Justiça Juca Kfouri A miséria do modelo associativo no futebol Carla Araújo Médicos reavaliarão remédios de Bolsonaro Sakamoto Com veto, Lula mostra que não desdenha golpe do 8/1 Nos Estados Unidos, o governo trata parte da população como inimiga de guerra, uma situação que nós aqui na nossa aclamada democracia conhecemos relativamente bem porque a polícia também trata parte da população como não-cidadã. A partir daí, a gente pode aprofundar. Quem mais sofre diante de um cenário como esse estabelecido por Trump na Venezuela? As mulheres que precisam manter a casa funcionando, a comida na mesa, as crianças saudáveis, seguras e protegidas. Dentro de cada lar, uma ou mais mulheres agora tentam manter a casa intacta. Você pode argumentar que, com Maduro, a tensão já era grande para a população e eu não tenho como negar. Sim, a tensão é grande há mais de dez anos por lá. E aí a gente desce uma camada nessa treta. A Venezuela está, desde 2014, submetida a um bloqueio comercial sem precedentes. O país não pode comprar comida ou remédios para sua população. Ela foi alienada do comércio internacional. E esse tipo de estrangulamento financeiro tem efeito na vida cotidiana. Você pode dizer: os países democráticos fizeram esse bloqueio porque a Venezuela é uma ditadura. Continua após a publicidade E a gente desce mais um degrau na análise. Acho que todo governo que usa o exército contra o seu próprio povo é um governo indefensável. Vivemos em um mundo complexo e as categorias democracia e ditadura não contam mais história nenhuma. O que estamos vendo nos Estados Unidos? Qual parte da população se sente segura na democracia de Trump? Brasileiros e brasileiras que moram nas periferias e favelas se sentem seguros e seguras? A Arábia Saudita é o que? Como vivem as mulheres por lá? Acho que poucos reclamarão se a gente disser que a Arábia Saudita é uma ditadura sanguinária que mata jornalistas e não tem eleições. Os Estados Unidos são o que dos sauditas? Parceiros, amigos, fieis escudeiros. Não há bloqueio comercial nem estrangulamento financeiro impostos ao povo saudita. Não há ameaça de invasão, não há ridicularizações. A Arábia Saudita e sua ditadura que não incomodam ninguém a não ser quem lá vive. Vamos voltar no tempo e falar do regime do Apartheid sul-africano que durou quase 50 anos. Um regime autoritário, brutal, ditatorial. O mundo inteiro sabia o que os brancos dominantes faziam com os negros por lá. Nunca os Estados Unidos ameaçaram invadir para "libertar o povo sul-africano da ditadura do Apartheid". Pelo contrário: era Nelson Mandela o inimigo declarado dos estadunidenses. O governo branco de segregação racial era parceiro dos Estados Unidos. Se eu disser para vocês que é mesmo impossível apoiar um presidente que joga a polícia contra sua população, que prende jornalistas críticos, que silencia manifestantes que se opõem ao governo, que não permite que turistas que já tenham criticado o governo entrem no país, que impede estudantes de protestarem, que não oferece remédios e cuidados básicos de saúde ao seu povo vocês provavelmente achariam que estou falando de Maduro. Mas tudo o que está escrito aqui se aplica a Donald Trump e aos Estados Unidos. Um país cercado por um bloqueio comercial e largado a sua própria sorte tem mais chances de dar vida a regimes autoritários que prejudiquem sua população. O que o mundo faz com a Venezuela é um tipo de isolamento que, no fim das contas, submete o povo e especialmente as mulheres venezuelanas a uma vida brutal. São elas que precisam gerenciar emocionalmente lares dilacerados, maridos e homens empobrecidos por causa da falta de recursos. Cabe a elas manter uma casa funcionando dentro desse cenário brutalizado. Continua após a publicidade Não havia até ontem muita gente preocupada com as pessoas na Venezuela e reclamando do bloqueio que dificulta a vida dos cidadãos e das cidadãs por lá. Mas, bastou Trump invadir, para muitos irem às redes celebrar o livramento. Nada mudou. O Chavismo segue no poder e, agora, tendo que dar parte do petróleo para Trump. Um país que vai ficar ainda mais pobre e miserável porque terá sua fonte de riqueza saqueada. Enquanto isso, a democracia de Trump rompe com a ONU, atira contra seus cidadãos e silencia opositores. Donald Trump é um estuprador acusado por dezenas de mulheres de crimes sexuais e suspeito de envolvimento em uma rede mundial de pedofilia. É um maníaco narcisista que acha razoável dizer em rede nacional que nunca viu pessoas tão feias como as venezuelanas. Esse tipo de bullying tem o objetivo de humilhar e de paralisar. É esse o homem que esta sendo celebrado por ter entrado num país, tirado o presidente de lá, levado para uma prisão internacional e avisado todo mundo que fez isso pelo petróleo. Danem-se os feios que lá moram. Apoiar Trump em qualquer nível é apoiar o fim do mundo. O povo venezuelano precisa ter autonomia e de soberania sobre seus recursos e decidir sobre seus líderes. Os sul-africanos lutaram para tirar do poder os ditadores que por meio século arrasaram o país. A luta os fez mais fortes, mais unidos, mais organizados. Foram capazes de instalar a democracia terminando com o estado de segregação racial. Soberania é o debate da vez. De nações, de comunidades, de corpos. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. UOL Flash Acesse o UOL Flash Receba novos posts de Milly Lacombe por email Informe seu email Quero receber As mais lidas agora Corpo de DJ brasileiro desaparecido é encontrado em praia de Portugal Brasileiro na Ucrânia pediu ajuda à embaixada antes de morrer, diz mulher A caixa-preta da influência: ser criador de conteúdo dá dinheiro mesmo? 'Caiam fora', diz prefeito de Minneapolis a agentes de imigração após morte Carros de luxo: ranking dos mais vendidos de 2025 destaca disputa acirrada