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Só para assinantes Assine UOL Reportagem Mancuso: briga com Maradona, licenças fake e a arte para te enrolar Joanna De Assis Colunista do UOL 07/10/2026 05h31 Deixe seu comentário Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Imagem: Joanna de Assis/UOL Não é qualquer um que consegue usar o carisma para desafiar a moralidade. O ex-jogador Alejandro Mancuso, com passagens por Flamengo e Palmeiras na década de 90 , tem esse poder. Durante anos, convenceu dezenas de estrelas do futebol sulamericano, como Thiago Silva, Felipe Melo, Roberto Carlos, Luiz Gustavo, Diego Lugano e Dejan Petkovic, só para citar alguns, que seria uma boa idéia adquirir uma licença PRO de treinador, sem precisar estudar, por 100 mil reais . E o plot twist do trambique — Mancuso ainda passou a perna em todos eles, porque nenhum documento era real. Sakamoto Fim da 6x1 revela projetos de Brasil de Lula e Flávio Josias de Souza Caiado formaliza apoio ao que 'rouba com mão direita' Daniela Lima Na mesma mesa de Flávio senta Pablo Marçal João Paulo Charleaux Temer indicou Moraes e agora está rifando ministro No universo da ficção, o personagem do malandro gente boa, que burla o sistema, o faz sempre por uma boa causa, já percebeu? Mancuso oferecia aos "monstros" os certificados afirmando que, na Argentina, palavras dele, "esses feras que jogaram futebol, damos um jeito para que eles não façam esse curso online". O jeitinho argentino iludiu o jeitinho brasileiro. Era possível homologar uma carreira dentro do gramado na forma de licença para atuar como técnico. E só a Argentina fazia isso pelos craques, bradava Mancuso. Todos os jogadores e ex-jogadores que fecharam negócio com o argentino e conversaram com a coluna afirmaram que não entenderam se tratar de uma fraude. Ou desconfiaram que os diplomas eram falsos. Thiago Silva mostra a licença PRO da ATFA, obtida via Mancuso Imagem: Reprodução Muitas dessas estrelas, quando recebiam os documentos em casa, enviavam de volta para Mancuso fotos posando com a prova física da farsa. As imagens serviam de incentivo para cada vez mais atletas comprarem com ele. Afinal, Roberto Carlos, Thiago Silva, Felipe Melo? só gente graúda na clientela. Não é só a lábia de Mancuso que impressiona. E falo por experiência, afinal eu o entrevistei, É também toda sua capacidade de enrolar uma resposta ao ponto de você repensar o que havia perguntado. Você faz uma pergunta, ele responde outra coisa. Flyer de Mancuso e a oferta dos cursos da ATFA Imagem: Reprodução Continua após a publicidade Investigo a atuação dele como "despachante de licenças" há dois anos, mas só há duas semanas é que tivemos nossa primeira conversa e, pasmem, foi ele que me procurou, na tarde do dia 25 de setembro. Eu já me preparava para confrontá-lo, mas Mancuso se antecipou. Sugeri um papo por vídeo-conferência e, em cinco minutos, começamos a nossa entrevista. Assim que a câmera abriu, Mancuso estava sentado em uma espécie de escritório, com uma camisa 5 do Flamengo apoiada em uma mesa atrás dele. E foi o primeiro gancho que ele usou no papo comigo. "Olha aqui o que eu tenho, que coisa linda, a 5 do Flamengo", disse, esbanjando simpatia ao tentar recordar sua passagem pelo clube carioca nos anos 90. Por uma enorme coincidência, eu tinha, no chão do meu escritório esperando reparo, um quadro com a camisa 10 do Zico que também estava enquadrada, mas sem o vidro que se despedaçou outro dia. Eu respondo: "E eu tenho a 10 do Zico". E mostro para ele. "Você é flamenguista?" Continua após a publicidade "Não, sou fã do Zico". O papo durou quase uma hora. Detalhe importante — minutos antes do Mancuso me procurar, um número estranho da Argentina me envia mensagens, se identificando como "Pablo", "diretor jurídico da Atfa". Como ele não foi muito feliz em provar sua existência, decide parar de me responder pelo aplicativo. Cinco minutos depois, sou abordada online pelo ex-volante de Flamengo e Palmeiras. Faço então a pergunta. "Mancuso, não entendi. Porque você está me ligando?' "Só estou ajudando os caras". Segundo Mancuso, ele estava me procurando para "explicar uma situação", a pedido do "tal do Pablo da Federação", "que eu estava com uma informação errada". A ATFA tem realmente um Pablo em seu quadro de funcionários, mas não era ele que tentava falar comigo, como a própria instituição depois me explicou. Continua após a publicidade Seis carteirinhas que fizeram parte das investigações da polícia argentina sobre falsificações na ATFA em 2025 Imagem: Reprodução Mancuso então tenta me explicar a razão de seis licenças terem virado investigação da polícia argentina em julho do ano passado.. A denúncia era suposta irregularidade na aquisição dos certificados de Diego Lugano, Felipe Melo, Dejan Petkovic, Paolo Guerrero, Roberto Assis e Roberto Carlos. A "coincidência"? Todos citados por ele em áudios como sendo seus "clientes". Felipe Melo, Paulinho, Petkovic, Lugano, Roberto Carlos, entre muitos outros, admitiram à coluna que aceitaram a proposta de Mancuso por "facilidade". Assis disse que foi procurado pelo argentino mas não se lembra se chegou a fazer uma transferência. Paolo Guerrero não foi localizado. E o que ele queria me contar? Que essas licenças não deram certo porque os jogadores em questão não teriam "completado o curso". Paulinho, ex-Corinthians, com seu diploma Imagem: Reprodução "Eles não conseguiram mesmo tirar porque não terminaram o processo. Eles precisariam fazer a parte presencial, mas nunca fizeram, foi isso que deu errado". Continua após a publicidade Mas essa informação que ele me dá por si só é problemática. Se o curso era online, só poderia ser oferecido pelo Campus Virtual. Por lá, segundo apuração na própria escola, não há registro algum de que os citados sequer foram matriculados. Ainda assim, diplomas e carteirinhas foram enviados. A ATFA afirmou que Mancuso jamais trabalhou para a entidade e que, portanto, tudo o que foi feito por ele é falso. Na entrevista que ele me concede, diz que jamais ofereceu nada e sugere que os jogadores que usam seu nome mentem. Felipe Melo, ainda como jogador do Fluminense, e Alejandro Mancuso Imagem: Reprodução Agora vamos abrir aspas para um áudio que Mancuso enviou na semana passada a um homem que colaborou com a coluna fingindo ser alguém interessado nos certificados. "Só não conseguimos fazer o esquema com Diego Lugano, Felipe Melo, Dejan Petkovic, Paolo Guerrero, Roberto Assis e Roberto Carlos porque são muito famosos, aí deu problema, mas com todos os outros deu certo". Continua após a publicidade Corta para algumas horas depois, o tal do cara que falou que era o Pablo admitir que não era o Pablo e Mancuso dizer primeiro que ele "não presta" e depois que não o conhece. Papo de maluco? Completamente. E é método. Tática de manipulação pura. As licenças citadas acima eram apenas a ponta do iceberg. O processo na Argentina foi extinto meses depois por falta de provas, mas o alerta vermelho já tinha sido dado. Nenhum dos certificados tem lastro na Central da ATFA e, portanto, não tem validade. Ainda assim, até a primeira semana de setembro, havia jogador brasileiro comprando diploma PRO de treinador sem estudar. Em entrevista, vários dos compradores justificaram que pensavam que a oferta de Mancuso era uma mãozinha legalizada, com o aval da ATFA e que, portanto, não estariam fazendo nada de errado. Não é errado pular todas as etapas se alguém está dizendo que dá pra ser feito. Mais ainda, se esse alguém tivesse grande credibilidade no meio e usasse referências gigantes. Alex de Souza com seus certificados Imagem: Reprodução A quantidade de áudios que eu recolhi ao longo desses dois anos, enviados a dezenas de jogadores diferentes, mostra que Mancuso não tinha lá muita preocupação em ser descoberto. Oferecia diplomas descaradamente, abordando os atletas diretamente por telefone ou rede social. Certificados que levariam anos de estudo para serem merecidos. Mancuso foi astuto. Se aproveitou da falta de informação de seus alvos e lançou mentiras sinceras que interessam especialmente um nicho específico: jogadores em transição de carreira. Um atleta recém aposentado ou em fase final nos gramados tinha a vulnerabilidade perfeita para acreditar no "modo urgente" de adquirir licenças sem passar por estudo, prova e burocracia. Mancuso validava o ego da vítima e diminuía as defesas dela contra a fraude. Além disso, Mancuso afirmava que a "operação" era validada pela alta direção da ATFA. "O presidente é meu amigo", o que também foi desmentido pelo próprio Salvador Pasini em contato por e-mail. Continua após a publicidade O esquema gerava dinheiro imediato, com baixíssimo custo operacional, e teve vida longa porque se eventualmente a "vítima" descobrisse que recebeu folhas de papel sem valor, certamente hesitaria em denunciar por vergonha ou medo da exposição. Felipe Melo por exemplo jamais o denunciou, afinal ele também errou ao comprar uma série de licenças sem se qualificar realmente para recebê-las, por mais que Mancuso garantisse que não era preciso fazer o curso. Como nos filmes, dizem que o malandro nunca sabe a hora de parar. Em 2013, Mancuso já havia sido chamado de golpista por ninguém menos do que Diego Maradona. Em 2026 a máscara enfim caiu? A reportagem completa está aqui neste link. Reportagem Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Publicidade Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. UOL Flash Acesse o UOL Flash Receba novos posts de Joanna De Assis por email Informe seu email Quero receber As mais lidas agora Quem é Mancuso, acusado de venda de licenças de técnico falsas na Argentina Justiça condena Lagoinha e pastor Lucinho por fala sobre beijo na filha Resumo da novela 'Quem Ama Cuida' da semana: capítulos de 7/10 a 17/10 Como casal fez família Caldas atropelar Calheiros e tomar AL com Lira Lula muda estratégia e manda avisar a Fachin que aumentará críticas ao STF