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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte Epstein expõe as estruturas do patriarcado e não as de uma conspiração Milly Lacombe Colunista do UOL 12/02/2026 13h24 Deixe seu comentário Carregando player de áudio Ler resumo da notícia 8.jul.2019-Manifestantes seguram imagens de Trump e Epstein em frente a tribunal em Nova York Imagem: Stephanie Keith/Getty Images/AFP Tenho escutado análises que buscam explicar o caso Epstein como um sintoma direto das estruturas capitalistas de poder. O professor Jessé de Souza chegou a atribuir a existência da rede de pedofilia de Epstein ao lobby judaico, uma declaração absurda, desviante e antissemita. Mas Jessé de Souza não foi o único a se afogar em águas rasas. A rede de pedofilia colocada em circulação por Epstein seria, para muitos, apenas um meio para chantagear homens influentes e obrigá-los a apoiar esse ou aquele outro por interesses políticos. Esse tipo de análise jamais nos ajudará a entender quais forças estão em operação no interior da organização construída por Jeffrey Epstein. Tenho argumentado faz um tempo que o mecanismo central desse caso é o patriarcado e suas engrenagens - e não o capitalismo ou redes internacionais de extrema-direita em busca de estabelecer uma espécie de poder mundial centralizado. Josias de Souza Nota de Toffoli supõe que país é 100% feito de bobos Daniela Lima Toffoli minimiza com colegas relatório da PF Sakamoto Toffoli estava se protegendo ao manter Master no STF Amanda Klein Toffoli coloca o STF no banco dos réus Para entender Epstein precisamos entender a luta identitária que organiza a sociedade: a do homem heterossexual, branco e cisgênero. Esse é o clube que determina o destino da humanidade. É entre eles, em espaços como esses criados por Epstein, que tudo é decidido. Não existe nada de novo no que fez Epstein. Essa é a base do patriarcado desde sempre. Homens festejando entre si, em ocasiões de encontros nos quais se impõem, coletiva ou individualmente, sobre corpos femininos. Trata-se da história da masculinidade como a conhecemos hoje. A violência contra meninas e mulheres é fundante nessa saga; confere patentes e titularidade à dominação. Tudo o que existe está organizado sob premissa: o Estado, as instituições, as organizações, a sociedade. A Rússia comunista, por duas décadas, até foi capaz de afrouxar as cordas das relações de dominação de homens sobre mulheres. A luta das russas, algumas das primeiras feministas a se organizarem politicamente, teve impacto logo no começo da revolução e com elas fomos capazes de espiar pelo buraco da fechadura para ver como seria uma sociedade sem hierarquias de gênero. Mas bastou Stalin assumir para o caminho que estava em construção ser interditado. O patriarcado se manteve firme no bloco comunista do mundo. Se os países comunistas foram capazes de desarticular as principais estruturas do capital, e se a dominação de homens sobre mulheres é efeito dessas relações, por que o bloco comunista não conseguiu acabar com as estruturas da dominação de gênero? Dizer que a rede de pedofilia montada para servir homens poderosos era meio e não fim é uma violência simbólica cometida contra a brutal realidade da vida das mulheres. É, outra vez, colocar a violência de gênero e de raça que estruturam a sociedade como panos de fundo e, com isso, ofuscar a verdadeira engrenagem - o que é conveniente para muitos homens que lutam bravamente contra as chamadas pautas identitárias. A rede, essa mesma de Epstein, é a base de nossas existências femininas. Nossos corpos são sexualizados quando completamos 10, 11 anos. O lar é o lugar mais perigoso para uma criança estar. Nossos abusadores não são estranhos nas ruas; são homens que conhecemos. Homens não cometem esses abusos porque são desviantes, cometem porque é a norma, porque fazem parte de uma grande rede de camaradagem, de troca de informações e de impunidade. É essa festa da masculinidade que mantém intacta o eixo central do capitalismo. Continua após a publicidade Cometem porque abusar de corpos indefesos confere a eles poder. Porque a ideia é não apenas abusar, mas se vangloriar do abuso. Porque o capital simbólico de cada um deles vêm da capacidade de exercerem isso que entendem por masculinidade. Porque é normal dizer em rede nacional de TV que pintou um clima entre um homem de 70 anos e uma criança de 14 anos. "O estupro é um ato semiótico público", escreveu a antropóloga argentina Rita Segato. "Além de ser violência física e assassinato psicológico, o estupro é também um ato de linguagem corporal manifestado a outros homens através e no corpo de uma mulher". Para Segato, o estupro é "um ato canibalístico, no qual o feminino é obrigado a se colocar no lugar de doador: doador de força, de poder, de virilidade". Assim, ele é percebido como um gesto ao mesmo tempo disciplinador e vingador. É nesses termos que o poder funciona. Epstein não fala sobre capitalismo ou neoliberalismo, não revela lobbies, não é chantagem orquestrada para fins de dominação mundial da extrema-direita. É a regra. É o patriarcado em toda a sua vitalidade. E a cumplicidade entre poderosos homens brancos heterossexuais cisgêneros foi uma das bases de todos os sistemas econômicos que até aqui organizaram o mundo. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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