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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte Esquerda machista perde as estribeiras com jornalista da Globo Milly Lacombe Colunista do UOL 27/12/2025 14h06 Deixe seu comentário Carregando player de áudio Ler resumo da notícia Malu Gaspar passa a integrar o time de comentaristas da GloboNews Imagem: Divulgação Se você é uma pessoa letrada no anti-machismo, alguns eventos mostram como nem o campo da direita nem o da esquerda irão nos emancipar e acabar com a brutal violência praticada por homens contra mulheres. A jornalista Malu Gaspar, do grupo Globo, deu como furo de reportagem o que seria uma ligação entre STF e Banco Central envolvendo a crise disparada pelo banco Master. Gaspar usou fontes em off (e não anônimas, como muitos da esquerda insistem em dizer) para dar a notícia que, se comprovada, vai cair como uma bomba. Se você confia nas apurações de Gaspar, ótimo. Se você, como eu, tende a não levar a sério jornalistas que tomaram Sergio Moro e a Lava Jato como coisas decentes e críveis e que noticiaram a operação e seus métodos absurdos sem qualquer tipo de olhar crítico, você nem deve chegar a ler as colunas de Gaspar. Quando o jornalismo se apresenta como denúncia, a gente precisa escolher em quem confiar. Eu confio em Daniela Lima, em Leonardo Sakamoto, em Natuza Neri - para citar apenas três. E não confio em lavajatistas, homens ou mulheres. Isso é uma coisa. Outra coisa é partir para cima de jornalista mulher usando os piores instrumentos do machismo. Thais Bilenky A taxa que concessionária do Ibirapuera quer cobrar Sakamoto A fácil fuga de golpista por fronteira peneira do Brasil Ricardo Kotscho Toffoli enfia os pés na jaca e faz uma lambança Master Paulo Camargo Depois das metas, sobra o quê? O que quero analisar não é a confiança jornalística, nem mesmo falar de Malu Gaspar como porta-voz de uma certa direita e extrema-direita que tanto mal causam ao mundo. Quero refletir sobre a falta de representatividade política para quem leva o feminismo a sério e também sobre como alguns episódios escancaram que o machismo pulsa forte no interior do campo da esquerda. As críticas a Malu Gaspar poderiam ser feitas de muitas maneiras técnicas, mas boa parte da esquerda prefere tentar diminuir a jornalista usando instrumentos de destruição de reputação comuns ao machismo. "Fofoqueira", "tia", "tia velha", "mal comida", "feia". Isso é o que tenho visto circular. Como dar as mãos a uma esquerda que se apequena nesse tipo de bullying? A mesma esquerda que tende a relativizar os crimes sexuais cometidos por seus ídolos - o professor português Boaventura de Souza Santos tendo sido um dos últimos a terem seus crimes minimizados por integrantes desse campo. Agora mesmo tem canal progressista passando pano para professor da USP acusado de múltiplos assédios sexuais e chamando de cancelamento sua demissão da universidade. Virou cancelamento trazer a público denúncias de abusos sexuais. Uma esquerda que leva a sério denúncias se elas envolverem homens do centro, da direita e da extrema direita, mas não da esquerda. Nessa hora, eles mandam que as feministas chatas apenas se calem. Até hoje tem gente de esquerda diminuindo a gravidade das graves acusações que pesam sobre Silvio Almeida. E achando absolutamente normal que Lula tenha composto um STF 90% masculino. Tem gente de esquerda que acredita que falar de aborto não é correto porque, vejam, não é hora, precisamos vencer o fascismo. Nunca é hora para colocar em pauta a agenda feminista. Falar de aborto, eles fingem não saber, é falar de creches públicas, de ensino público, de transporte, de escala 4 por 2, de trabalho doméstico, de salários iguais para homens e mulheres numa mesma função. Mas essas pautas a esquerda institucional não quer ver por perto. Continua após a publicidade Seria apenas prudente olhar para o que está acontecendo e pensar que alguma coisa está errada quando parte da esquerda apoia incondicionalmente o STF. Alexandre de Moraes não pode ser herói de ninguém que tenha memória. Foi um grande ator na manutenção desse simulacro de democracia que vivemos, um tremendo agente na luta anti-fascista, mas fez tudo isso porque a oligarquia que ele representa não se opôs. Moraes teve pulso e teve inteligência para desarticular inúmeras tentativas de golpe e escreveu, assim, seu nome na história. Mas Moraes tem time, e ele não é o daquelas pessoas quem acreditam em soberania popular e em igualdade radical. Esse é o STF que, lembremos, anualmente se reúne na Europa com empresários num evento que ganhou o apelido de Gilmarpalooza, em referência ao ministro Gilmar Mendes, que organiza a festança. Esse mesmo STF está destruindo pouco a pouco todos os direitos trabalhistas. Podemos ter ministros de nossa preferência, podemos agradecer Moraes pelo que ele fez, mas seria prudente não ter ídolos mesmo. Em relação ao Banco Central, tenho total confiança em Gabriel Galípolo porque sei que é das mentes mais brilhantes que esse Brasil já produziu. Confio no seu amor pelo Brasil porque tenho meus motivos e eles não são pequenos, e tenho a mais absoluta certeza que a forma com a qual ele enxerga o país e nossas contradições nunca foi compartilhado por presidente algum de Banco Central nenhum. Tão diferente de seu antecessor quanto o budismo do terrorismo, sei que quando Galípolo afirma, como revelou a jornalista Daniela Lima, que é leviano dizer que foi pressionado por Moraes em relação ao Master, ele está falando a verdade. Outra vez: é a escolha de em quem vamos confiar. Mas nada disso autoriza que se parta para cima de jornalista que está no campo oposto usando de machismos e misoginia. Para manter a mente desbloqueada e saber o que pensar, precisamos cada vez mais nos informar a respeito de quem são as pessoas cujas informações nós consumimos. E abrir a cabeça para o que diz a teoria feminista porque ela oferece ferramentas fartas para sermos capazes de avaliar por conta própria as situações mais complexas. Dois mil e vinte e seis vai ser pancadaria. Que possamos buscar nossas melhores versões e nossas melhores fontes para atravessar o deserto que se aproxima. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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