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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte A rodada mais infeliz da história do nosso futebol e a hipocrisia da CBF Milly Lacombe Colunista do UOL 03/11/2025 10h41 Deixe seu comentário Carregando player de áudio Ler resumo da notícia Cerca de 2.500 agentes das policias civil e militar participam hoje da Operação Contenção nos complexos da Penha e do Alemão Imagem: EGBERTO RAS/Agencia Enquadrar/Folhapress Na semana em que o Brasil assistiu a polícia entrar em duas favelas cariocas e assassinar quase 120 pessoas o futebol calou. Calou de forma covarde e vergonhosa. Calou sem se reconhecer, sem compreender que matar jovens em favelas é matar, também, o jogo que amamos. Foram 121 mortos incluindo quatro policiais, gente da classe trabalhadora. A narrativa de que eram bandidos não convence mais muita gente. Se três ou quatro dezenas deles tinham passagem pela polícia seria o caso de nos perguntarmos se ter ficha criminal justifica execução. Tem muito político e empresário com ficha criminal circulando, mas é claro que a sentença só vale para corpos periféricos. Sem falar no fato de que num país estruturalmente racista não é preciso muita coisa para pessoas negras serem levadas à delegacia. Assassinar suspeito de qualquer coisa sem dar ao suspeito direito de defesa é crime. Não existe democracia nesses termos. Matar mais de 100 porque havia suspeitos entre eles é colocar os pés na barbárie, no indizível, no inegociável. O futebol tem suas raízes nas favelas e periferias brasileiras. É de lá que saem nossos jogadores e jogadoras, esses que chamamos de ídolos e de ídolas. É também na favela que vive a maior parte das pessoas que constroem o dia a dia dessa nação. Gente que trabalha com o futebol em outros níveis, que trabalha em fábricas, em lojas, nas casas da classe média e alta. Dentro da favela o que mais existe é trabalho. Como li outro dia num cartaz: não se fala só de crime em barraco. Nas favelas existe festa, amor, famílias, solidariedade, esforço, correria, batalha, honestidade, vida. Letícia Casado Debate sobre segurança isola Eduardo para 2026 Josias de Souza 'Xandão Delivery': Moraes em versão mais inusitada Mariana Barbosa É ilusão achar que PL das Bagagens vai baixar preços Reinaldo Azevedo Em meio a mortes, eis de novo STF como norte ético Quando o futebol vira as costas para a favela que pede socorro contra o braço brutal e genocida do estado e contra o sufocamento imposto pelas milícias, o futebol dá as costas para o Brasil. Não houve um clube - nem o time que gosta de dizer que é do povo - que tenha se manifestado. O barulho foi nenhum e a rodada seguiu como se nada tivesse acontecido. Mas aconteceu um massacre. Um massacre que deixou 120 mães de joelhos. Um massacre que vai levar anos para ser superado pelos que o viveram. Quando a polícia sai e a população começa a lavar o sangue das calçadas e a cobrir os buracos de bala na parede da sala, começam as doenças: saúde mental, depressão, privação de sono, problemas cardíacos e de pressão, acidentes vasculares cerebrais. A CBF, enquanto instituição que comanda o futebol, deveria ter se manifestado em tom de tristeza e revolta, e encorajado a classe de jogadores a fazer o mesmo. Se a CBF usa o "racismo é crime" nos jogos, achando que está fazendo muita coisa contra o racismo, seria hora de encarar a hipocrisia de frente. Lutar contra o racismo exige mais do que uma frase de efeito na camisa de um árbitro. A CBF lucra com o trabalho de pessoas que vêm desse mesmo contexto dentro do qual testemunhamos um extermínio. Seria apenas decente ter se manifestado. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. UOL Flash Acesse o UOL Flash Receba novos posts de Milly Lacombe por email Informe seu email Quero receber As mais lidas agora STF indica que não vai apenas chorar pelo sangue derramado Após entrevista de Dado, Piovani critica Wanessa e Dieckmmann: 'Inferno' Morre aos 100 anos Clara Charf, ativista de esquerda e viúva de Marighella Carla Perez 'baba' pelo filho após vitória em campeonato de fisiculturismo Bolsa supera os 150 mil pontos pela primeira vez na história; dólar recua