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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte Fim das bets ou da publicidade pede um debate mais técnico e menos político Mauro Cezar Pereira Colunista do UOL 04/11/2026 11h23 Deixe seu comentário Resumo Ouvir na voz do colunista 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× O ministro do STF Luiz Fux Imagem: Pedro Ladeira - 8.abr.26/Folhapress Vamos lá. Se a conclusão for que as bets e sua publicidade devem acabar, que se estabeleçam regras, prazos e uma transição planejada. É possível defender essa medida e, ao mesmo tempo, cobrar seriedade de um debate marcado por números mal explicados, conclusões apressadas e política. O que não faz sentido é tratar a proibição da propaganda ou das próprias empresas como solução automática para problemas que exigem ações permanentes. Falar em fim das casas de apostas online é discurso desconectado da realidade. Por que as legalizadas podem seguir fora do ar, já as ilegais... Audiências públicas, como a comandada pr Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF) e relator das ações que discutem a proibição das apostas esportivas e dos cassinos online; deveriam servir para confrontar evidências, ouvir especialistas e cobrar respostas concretas. Quando se transformam em palanques, com discursos categóricos e pouco espaço para discutir fiscalização, financiamento e tratamento, não cumprem sua função. Sakamoto Musk leva surra das urnas com vitória democrata Carlos Affonso Como o digital mudou de vez as eleições no Brasil Aline Sordili Agentes de IA esvaziam supervisão humana Tony Marlon Clubes de futebol ainda apostam no curto prazo Nela, o Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, chegou a apresentar estatísticas até 2024 para defender uma tese, que pode ser legítima, claro, mas fica totalmente fora do contexto quando sabemos que as casas de apostas foram legalizadas no Brasil depois disso. Sim, o mercado regulamentado começou a funcionar no Brasil em 1º de janeiro de 2025. ( vídeo abaixo a partir de 49:43 ). 0:00 / 0:00 A política faz parte da discussão, evidentemente. O problema é quando o cálculo político substitui a análise das consequências. Na cobertura jornalística, o cuidado começa pelos números. Volume de apostas, depósitos, perdas dos jogadores, receita das empresas e lucro são coisas diferentes. Caro @laurojardim, o crescimento das vendas no atacarejo começou antes da proibição das bets. Dados da NielsenIQ mostram que, em julho de 2026, o setor já avançava 5,1% em faturamento e 1,4% em unidades vendidas. Em agosto, as altas foram de 4,8% e 2,4%, respectivamente. Os resultados semanais de setembro também registravam expansão antes da publicação da medida provisória, em 25 daquele mês. Na primeira semana de setembro, o faturamento cresceu 10,9%, e as unidades vendidas, 6,8%. Entre os dias 8 e 14, as altas foram de 0,8% e 0,1%. Na semana de 15 a 21, ainda antes da proibição, o crescimento voltou a ganhar força: 10% em faturamento e 5,7% em unidades. Depois da medida, entre 12 e 18 de outubro, o atacarejo apresentou crescimento de 8,1% no faturamento e 2,9% nas unidades vendidas, segundo dados da NIQ publicados pelo InfoMoney. Portanto, essa semana de outubro teve expansão inferior à registrada em duas semanas de setembro anteriores à proibição. Abs. -- Mauro Cezar (@maurocezar) November 4, 2026 Uma quantia pode ser reapostada várias vezes, elevando o movimento sem representar dinheiro novo. Apresentar tudo como dinheiro retirado do consumo ou embolsado pelas plataformas distorce o diagnóstico. Da mesma forma, crescimento das vendas depois de uma proibição, isoladamente, não significa que ela o tenha causado. Em alguns casos, já ocorria antes da Medida Provisória ( veja acima ). Quem defende acabar com as bets precisa explicar o que fará para enfrentar a ludopatia nas diferentes modalidades de jogo. E são várias: plataformas clandestinas, corridas de cavalos, jogos de cartas, jogo do bicho e, sim, as diversas loterias da Caixa Econômica Federal, nas quais qualquer um pode apostar, até quem tem benefícios como o Bolsa Família — nas bets legais eram vetados. Continua após a publicidade Leia também: Consumo crescia antes de bets saírem do ar, mostram dados da própria ABRAS Antes da MP, Caixa registrou 'Betcaixa' e foi conhecer bet estatal uruguaia Essas atividades têm características e riscos distintos, mas uma política de saúde não pode escolher quais dependentes merecem atenção conforme a conveniência do discurso. Também precisa apresentar o orçamento. De onde sairão os recursos para ampliar prevenção, diagnóstico, atendimento e acompanhamento das famílias sem a arrecadação do mercado legalizado? Antes havia o dinheiro das bets legais, bilhões de reais em tributos. Não há mais. O SUS já oferece atendimento a pessoas com problemas relacionados a apostas. A questão é como garantir alcance, continuidade e capacidade para atender à demanda. A existência de tributos não justifica qualquer atividade, mas sua retirada exige explicar como serão financiadas as ações necessárias. Continua após a publicidade Contudo, a área de saúde recebia apenas 1% da parcela de 12% sobre a receita das bets após o pagamento dos prêmios. Sim, 1%!. Tal distribuição foi aprovada no congresso. E com a bancada governista junto. Importante: os tributos pagos pelas casas de apostas iam além, podendo superar um terço da receita, mas não eram direcionados prioritariamente ao setor. Não havia preocupação dos políticos e do governo com a ludopatia? Diretor da LCA Consultores, o econimista Eric Brasil fez uma apresentação ( abaixo ). Ver esse post no Instagram Um post compartilhado por Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (@ibjr.oficial) A mesma cobrança vale para a fiscalização. A Anatel terá estrutura, pessoal, tecnologia e recursos para tornar os bloqueios eficientes? Por que hoje levam até semanas para tirar do ar uma bet pirata após a denúncia. Quantos endereços encaminhados para bloqueio efetivamente deixam de ser acessíveis, por quanto tempo e com qual redução da atividade clandestina? Ministro da Saúde, Alexandre Padilha faz apresentação na Audiência Pública sobre as bets Imagem: Reprodução Uma lista de sites bloqueados não basta para demonstrar que o problema foi controlado. Por que eles reaparecem em minutos, É preciso atingir também os meios de pagamento (PIX), a divulgação e os responsáveis pelas operações. Quem financiará esse trabalho? Lembrando que são dezenas de milhares de sites piratas por aí. Continua após a publicidade Há ainda a integridade esportiva. Se a demanda migrar para plataformas ilegaus, como serão identificadas apostas suspeitas, preservados registros e compartilhadas informações com investigadores? A regulamentação não elimina a manipulação, mas permite exigir dados, impor obrigações e punir operadores autorizados. O que substituirá esses instrumentos num mercado absoluta e totalmente entregue à clandestinidade? O futebol brasileiro já conheceu esse problema muito antes da regulamentação atual. Em 2005, a "Máfia do Apito" envolveu manipulação de partidas para favorecer quem atuava em mercados de apostas ilegais. Muito antes de existirem as hoje chamadas bets, apostadores já ameaçavam a integridade do esporte. Aquele episódio demonstra como um mercado desregulamentado favorece a fraude. O caminho deveria ser aprimorar a regulamentação, endurecer a fiscalização e rever profundamente a publicidade. Se a decisão for extinguir a propaganda, que isso ocorra com planejamento e fiscalização da divulgação clandestina. A comparação com o cigarro cabe nesse ponto: o Brasil restringiu progressivamente sua publicidade e seus patrocínios, sem proibir a venda do produto. Proibir anúncios e proibir a atividade são decisões diferentes, com consequências distintas. Se querem acabar com as bets, apresentem o plano para o dia seguinte: tratamento, financiamento, combate à clandestinidade e proteção das competições. Sem essas respostas, sobra discurso e falta política pública. É raso. Siga Mauro Cezar no X Continua após a publicidade Siga Mauro Cezar no Instagram Siga Mauro Cezar no Facebook Inscreva-se no Canal Mauro Cezar no YouTube Siga Mauro Cezar no Threads Siga Mauro Cezar no BlueSky Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Publicidade Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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