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Análise dos Times

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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte O feminicídio começa na fala e acaba com nossos corpos rolados pelo asfalto Milly Lacombe Colunista do UOL 26/12/2025 11h43 Deixe seu comentário Carregando player de áudio Ler resumo da notícia Douglas Alves da Silva, de 26 anos, preso por atropelar e arrastar Tainara Souza Santos, 31, em São Paulo Imagem: Reprodução Todo feminicídio começa na fala. Todo assassinato de mulheres cometido por homens conhecidos, normalmente envolvidos com elas em relações românticas - reais ou desejadas -, começa pela boca. Começa na objetificação, na ridicularização, no bullying, no "cadê o meu jantar?", no "não vai sair com essa blusa", no "não vai dançar assim", no "não vai comer a sobremesa, né?", no "vai transar hoje comigo querendo ou não", no "não vai me dar bola não, é?". Josias de Souza Ao evitar fuga, Paraguai livrou o Brasil de vexame Wálter Maierovitch Toffoli atua para culpar BC pelo caso Master Alexandre Borges Agora Bolsonaro se compara a Deus Sakamoto Silvinei foi covarde diante da prisão Todo feminicídio começa no verbo. A notícia da morte da jovem Tainara Souza Santos, cujo corpo ainda vivo foi arrastado por Douglas Alves da Silva pela Marginal, em São Paulo, é ao mesmo tempo brutal e normal. Normalizamos o horror. São quatro mulheres por dia. São quatro homens que, diariamente, matam uma mulher que chamam de sua, ou queriam chamar de sua. Enquanto quatro de nós são mutiladas todos os dias, um número colossalmente maior de mulheres está sendo verbal e psicologicamente abusada. Outro está sendo assediado, mais um tanto, estuprado. E um número ainda maior está ouvindo o chefe, que sabe que o colega homem ganha mais executando a mesma função, dizer que não vai dar aumento não. Outras tantas estão escutando o badalado apresentador da TV, que há pouco relativizou Olavo de Carvalho, dizer que, vejam bem, o feminismo errou, vocês precisam pegar mais leve, pensem bem na forma como escolheram lutar, os meninos estão sofrendo demais, olhem para a gente. Continua após a publicidade No mesmo período, uma multidão está ligada na imensa emissora que fecha os olhos para o comentarista que objetifica o corpo da própria mulher em rede social, conferindo nomes de alguns homens que ele venera a partes consideradas erógenas do corpo dela. E um tanto mais de mulheres testemunham o presidente do clube mais popular do Brasil agir como um moleque e praticar bullying com uma jornalista respeitada. O Brasil também viu o presidente da república, que se acha um aliado, indicar apenas homens para o STF e dar preferência a homens em quase todas as indicações que fez para o judiciário. Depois, como se nada fosse, vimos o mandatário ir à TV dizer que feminicídio é uma coisa medonha, não podemos aceitar, que horror tudo isso, vou lutar com vocês, tá? e blablablá. Quando falamos que o machismo é uma estrutura é isso o que queremos dizer. Aí está a estrutura. Bem na sua cara. Pulsando. Vibrando. Tudo interligado, tudo associado, tudo misturado. O feminicídio é a última etapa da coisificação da mulher pelo sistema. Uma coisificação que se dá dentro dos lares, dentro das empresas e dentro das instituições. Continua após a publicidade O empregador que vê a estrutura em operação e cala é parte integrante da mesma estrutura. Silenciar é participar. Tainara Santos deixa dois filhos, que ela criava sozinha. Falar em nome da família para misturar com Deus e pátria e cantar slogan fascista na Paulista ou em Copacabana é fácil. O difícil é se implicar e reconhecer que a cada feminicídio uma nova família é devastada. Não querem que tenhamos raiva. Querem que sejamos doces. Querem que não usemos palavras duras. Que usemos de amabilidade. Querem poder seguir fazendo piadas que nos diminuem e coisificam. Eu me pergunto por quanto tempo mais seremos capazes de segurar tanta raiva dentro da gente. Porque, mesmo com raiva, a gente segue colocando as mesas, cuidando do pai doente, temperando o feijão, comprando uniforme da escola do filho, levando a filha ao dentista, ligando para saber se chegaram bem em casa, pedindo que levem um casaco porque vai esfriar, sorrindo para o colega de trabalho que ganha mais e faz menos. A gente segue, a gente não tem escolha. Continua após a publicidade Ontem mesmo o humorista pediu que deixemos a política para lá e sejamos leves e felizes. Quem pode deixar a política para lá e seguir existindo? Quem pode escolher ser leve e feliz? Ao contrário de você, Fabio, não temos essa alternativa. Nossa única chance é lutar, lutar e lutar. Pelas Tainaras, pelas Renatas, pelas Jordanas, pelas Anas, pelas Vanessas, pelas juízas preteridas, pelas mães solo das periferias, pela dignidade de cada uma de nós. Vai em paz, Tainara. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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